Amarelo sangue capítulo 6

Senti como se tivesse sido arrancado de um sono profundo. Eu havia despertado, mas minhas pálpebras pareciam tão coladas que eu pensei ser impossível abrir os olhos.

Separei meus lábios secos e tentei respirar, como se precisasse de todo o ar do mundo.

O som das coisas ainda era turvo, como se tudo estivesse debaixo d’água, mas eu ainda pude distinguir os equipamentos de rodinhas sendo arrastados pelos corredores, vozes distantes e o bip de algum aparelho.

Lentamente abri meus olhos, sentindo um forte incômodo ao desgrudá-los. Tudo estava embaçado, mas eu quase fui cegado pela luz branca.

Uma silhueta sentada em minha cama tomou forma diante daquela luz alva e, ao notar meus pequenos movimentos, chegou mais perto.

Tudo foi ficando mais claro aos poucos, inclusive aquela pessoa diante de mim.

— O-Olívia... — murmurei, mas tive certeza de que ela não ouviu, pois minha voz parecia só um ruído estranho.

Ela se aproximou mais e eu pude ver seus olhos castanhos arregalados.

— Mike! — ela falou — finalmente você acordou!

Coloquei minha mão sobre a cabeça, sentindo uma leve dor tomar conta de mim.

— Q-quanto tempo... quanto tempo eu estou aqui? — falei, tentando me colocar sentado. Olívia me ajudou.

— Já faz alguns dias. — ela disse, se afastando.

O silêncio pairou no ar por alguns instantes. Olívia fitava o chão com seus olhos cansados e sua expressão abatida.

— O-o que aconteceu? — questionei.

Olívia olhou para mim. Ela demorou um pouco para começar a falar, parecia procurar pelas palavras certas.

— Depois que... que o Albert morreu — ela fez uma pausa, abalada ao citar aquilo — o FBI finalmente levou o caso a sério. Eles investigaram toda a situação e todos os outros envolvidos foram presos.

Separei meus lábios para dizer algo, mas Olívia continuou.

— Mesmo sendo óbvio que foi legítima defesa, ainda teremos que prestar depoimento e comparecer ao julgamento.

Olívia respirou fundo.

— Eu... eu tô cansada dessa história! Eu só queria ficar em paz depois de tanto sofrimento! — ela disse se levantando da cama.

— Eu sinto muito... por você ter passado por todas essas coisas. — falei, atraindo a atenção dela.

— Também sinto muito, Mike. Eu fiquei sabendo de tudo que aconteceu. Meus pêsames pela morte do seu pai.

Assenti com a cabeça e o silêncio tomou conta do quarto outra vez. Olívia olhava para o chão com os olhos marejados.

— O Albert — comecei a falar — ele fez eu pensar que você estava morta.

Olívia riu sem humor.

— Aquele desgraçado... espero que ele esteja queimando no inferno agora.

Respirei fundo, sentindo o forte cheiro de desinfetante na sala e me ajeitei na cama.

— Sabe... eu senti falta da nossa amizade. — falei meio sem graça.

Olívia olhou surpresa para mim.

— Eu pensei que você não se importava. Você foi embora para Saint Charles tão de repente. — ela falou com os olhos úmidos.

— Meu pai fez eu ir morar com a minha mãe, para me proteger do Collins... eu não tive tempo de avisar, sinto muito.

— Tudo bem... isso não importa mais, de qualquer maneira. — ela falou, secando os olhos.

Olívia cruzou os braços e olhou para o chão.

— E a sua mãe? — ela questionou, levantando a cabeça novamente — onde ela está? Ela não veio te ver?

Desviei o olhar para a janela.

— Espero que não tenha vindo. Meu pai ainda tentou fazer alguma coisa para me proteger daquele monstro. Já ela, era quase uma cúmplice. — falei com voz embargada.

— Por quê? — Olívia questionou com o cenho franzido.

— Ela não quis revelar que era ele. Se ela tivesse revelado, eu teria entendido a dimensão das coisas e isso teria evitado muita coisa — suspirei — então não quero vê-la tão cedo.

— Meu Deus... — Olívia balbuciou.

Não sabíamos o que dizer ou como agir na presença um do outro. Olívia e eu tínhamos nos tornado quase desconhecidos.

Ela deu a volta na minha cama e foi para perto da janela.

Fiquei com meu olhar fixo na parede branca à minha frente, nadando no silêncio.

Até que uma memória atravessou minha mente e atingiu meu coração como uma lâmina.

— A-Antony... — murmurei — cadê o Antony? — perguntei com urgência, me virando para Olívia.

Ela não se virou para mim, mas pude ver que abaixou a cabeça.

— O Antony... — ela começou a falar com a voz fraca — o Antony sobreviveu. — Olívia concluiu, se virando para mim.

Olhei surpreso e uma onda de alívio tomou conta do meu corpo.

— E-ele está vivo?!

— Está... os médicos consideraram um milagre — ela fez uma pausa enquanto se aproximava um pouco da minha cama — ontem... ontem eu encontrei os pais dele em um dos corredores.

Olhei atentamente para Olívia.

— Eu perguntei como ele estava, mas eles não quiseram falar comigo... eles estavam... destruídos.

Senti meu coração se partindo em mil pedaços.

Olívia secou as lágrimas que começavam a surgir e umedeceu os lábios.

— Hoje o quarto dele foi aberto para visitação, mas... eu não tive coragem de ir lá. Eu não sei se estou pronta para o que vou encontrar — ela desabou em lágrimas — é culpa minha ele estar lá!

— Ei... — falei colocando a mão no ombro dela — não foi sua culpa.

Isso não pareceu consolar Olívia, já que as lágrimas continuavam a cair de seus olhos.

— Ele fez tanto por mim... — ela voltou a falar — e eu nem consegui proteger ele.

Fiquei em silêncio, pois eu também sentia aquela culpa... eu também não tinha conseguido proteger Antony.

— Ei, vamos visitar ele... juntos. — sugeri, atraindo os olhos vermelhos dela para mim.

— Isso é tudo que podemos fazer por ele agora. — completei.

Ela secou as lágrimas que estavam em suas bochechas e falou:

— Tudo bem.

Olívia tomou distância e eu comecei a me levantar.

Mas parecia que eu estava há anos deitado naquela cama. Meu corpo todo estava dormente e meus ossos estalavam a cada novo movimento.

Com muita dificuldade, eu me coloquei de pé. Estava tão fraco que só não caí para trás porque Olívia estava me segurando.

Ela me ajudou a sair do quarto e nós começamos a caminhar pelo corredor pálido.

Meus braços estavam em volta dos ombros de Olívia e ela segurava minha cintura. Eu me sentia completamente miserável com aquela roupa hospitalar e aquela fragilidade.

Finalmente, chegamos na frente do elevador. Olívia apertou o botão correspondente ao andar em que Antony estava e nós ficamos esperando.

Quando as portas do elevador se abriram, pude ver o rosto de Olívia ficando pálido. Eu quase caí, pois ela parou de me segurar com tanta força.

Eu também fiquei em choque, já que... Amber Collins estava dentro daquele elevador, com seus cabelos loiros caindo sobre os ombros e um rosto tão surpreso quanto o de Olívia.

Ela também usava uma camisola hospitalar e tinha cortes espalhados pelo rosto.

Aquele momento pareceu congelado, até que Olívia deu um passo para trás, forçando que eu fosse junto e desviou o olhar.

Amber abaixou a cabeça e passou ao meu lado, quase esbarrando em meu ombro.

Olívia me arrastou para dentro do elevador às pressas e apertou os botões de fechar as portas freneticamente, enquanto Amber sumia no fim do corredor.

— Você tá bem? — questionei.

— Claro! Eu não estou nem aí pra essa cadela. — Olívia respondeu.

Ela tentou soar firme, mas sua voz trêmula deixava claro que estava abalada com aquele encontro.

As portas do elevador abriram e Olívia saiu na frente, em passos largos e apressados.

Eu ainda estava um pouco tonto, mas já conseguia parar de pé e caminhar sozinho, então comecei a segui-la.

Mas ela caminhava tão rápido que eu mal conseguia acompanhar.

O nervosismo transparecia em cada movimento dela.

— Espera, Olívia! — gritei enquanto atravessávamos o corredor.

Ela diminuiu o passo, até que eu a alcançasse.

— Me desculpa. — falou com a voz fraca e com a cabeça baixa.

Continuamos nosso trajeto em silêncio, até que Olívia ergueu a cabeça e parou na frente de um quarto.

Na porta havia um papel com o número do quarto e o nome do paciente...

Antony Peletier.

Senti um aperto no peito e um frio na espinha.

Olívia estendeu a mão na direção da maçaneta, mas hesitou.

Ela respirou fundo, fechando os olhos.

— Deixa que eu faço isso. — falei.

Dei um passo à frente, toquei a maçaneta, abaixei-a e soltei um suspiro quando a porta começou a se abrir. Ela se moveu lentamente, revelando um trecho do quarto de Antony de cada vez.

Até que se abriu totalmente e finalmente tive a visão de tudo.

Havia uma cama perfeitamente arrumada, com um criado-mudo ao lado e um abajur em cima. Havia também uma enorme janela, que exibia a floresta e o céu nublado lá fora. Os únicos sons presentes no quarto eram o som da chuva batendo contra o vidro e o bip dos aparelhos.

E junto à janela, de costas para nós, sentado em uma cadeira de rodas, estava Antony.

Olívia deu um passo para trás. Eu olhei para ela e dei um passo à frente, tentando encorajá-la, mas ela não me seguiu.

Então eu adentrei o quarto e comecei a caminhar lentamente na direção de Antony.

Ele não havia notado nossa presença e continuava parado, olhando para a janela.

— Antony? — chamei.

Sem resposta.

Eu podia jurar que conseguia ouvir o som do meu coração junto ao som da respiração pesada de Olívia.

— Antony... sou eu... o Mike. — falei chegando mais perto.

Sem resposta.

Parei a poucos metros dele e me virei para Olívia, vendo a aflição em seu olhar.

Sem aguentar mais, dei outro passo e parei na frente de Antony, entre ele e a janela.

Senti meu coração se estilhaçando dentro do meu peito.

Olívia deve ter percebido o choque em meu olhar, pois ela gritou perguntando o que estava acontecendo.

E eu não tive forças para responder. As palavras morreram dentro de mim.

Os olhos de Antony nem se moveram diante da minha presença. Ele continuava olhando fixamente para a janela, que era refletida em seus olhos azuis vazios.

Nada nele se movia. Nada. Ele estava completamente paralisado.

As marcas da violência sofrida ainda estavam presentes. Seu nariz continuava fora do lugar, e seu rosto estava coberto por cortes, pontos e curativos.

Mas ele não tinha reação alguma.

Foi aí que eu percebi que Antony estava morto.

Não morto da forma que te deixa sem sinais vitais, com a pele fria e decomposta, mas morto de uma forma pior... morto por dentro.

Aquilo era só sua casca vazia.

E ele nunca voltaria a ser o mesmo de antes.

Cambaleei para trás.

— A-Antony... — murmurei enquanto as lágrimas queimavam em meus olhos.

Olívia finalmente saiu da porta e veio correndo em nossa direção.

Quando ela viu o estado de Antony, colocou as mãos sobre a boca e começou a chorar.

Aquilo foi como levar um soco no estômago.

Quando somos confrontados por algo tão absurdo e inconcebível, nos agarramos à esperança de estar em um pesadelo.

E eu tentei acordar.

Mas não consegui, porque não era um pesadelo.

Era real. Amargamente real.

— A-Antony... pelo amor de Deus... — supliquei com a voz baixa demais.

Mas foi inútil.

Meu amigo nunca voltaria a ser quem ele foi um dia. Ele nunca voltaria a sorrir ou a contar piadas idiotas.

E perceber isso fez com que um abismo se abrisse em meu peito.

Me ajoelhei diante de Antony, segurei suas mãos e abaixei minha cabeça, permitindo que as lágrimas escapassem de meus olhos, enquanto eu ouvia o som da chuva batendo contra o vidro e os soluços de Olívia.

Ergui minha cabeça novamente e notei algo que, por um instante, me fez pensar que estava delirando.

Algo... brilhou em um dos olhos de Antony...

Então, uma única e solitária lágrima caiu de seu olho esquerdo.

De alguma forma, ele ainda estava lá.

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u/gioreoli — 9 days ago

Amarelo sangue capítulo 5

Eu me vi correndo pelas ruas de Plainview desesperadamente, como se minha vida dependesse daquilo — e dependia —. Diante de tantos horrores, estar na rua tão tarde era um risco enorme. Mas era um risco que eu precisava correr, pois não poderia continuar debaixo do mesmo teto daquela que acobertou o monstro da minha infância.

Eu só parei de correr quando me vi diante daquela porta. Eu mal notei que havia estabelecido um destino durante a minha corrida frenética.

E esse destino era a casa de Antony, o único que poderia me ajudar.

Eu não sabia se ele ainda morava naquela casa, mas me agarrei a isso e toquei a campainha enquanto as lágrimas molhavam o meu rosto.

— Vai, Antony, atende, por favor! — falei para mim mesmo enquanto apertava a campainha.

Então a porta se abriu. Antony surgiu com o cenho franzido e uma expressão de quem tinha acabado de acordar.

Assim que ele notou que era eu, sua expressão mudou, como se ele tivesse despertado imediatamente.

— Mike?

Eu só queria falar, queria contar tudo e pedir ajuda, mas tudo o que eu consegui foi chorar enquanto tentava buscar o ar que faltava em meus pulmões.

— Vem, entra! — Antony falou.

Entrei e ele fechou a porta atrás de nós. Depois subimos as escadas e fomos para o quarto dele.

Mesmo em um momento de profundo desespero, não pude conter a forte nostalgia que me atingiu ao adentrar o quarto de Antony e perceber que ele continuava exatamente igual ao que era há dois anos. Com a mesma cor de parede, os mesmos móveis nos exatos mesmos lugares de antes e os mesmos pôsteres de bandas e filmes preenchendo as paredes.

Meu ex-melhor amigo olhou para mim com uma expressão que misturava preocupação e confusão.

Depois, ele foi até a janela e abriu a mesma, permitindo que o vento entrasse no quarto.

— Aconteceu alguma coisa, cara? — ele perguntou, se sentando na cama.

Respirei fundo, tentando me acalmar. Meu corpo ainda estava trêmulo.

— Minha mãe me contou uma coisa... e acho que isso pode nos ajudar a encontrar a Olívia. — falei.

— O quê? — Antony perguntou com urgência.

Eu suspirei e me sentei em uma cadeira de frente para Antony. Se eu ficasse em pé, iria cair.

— Você... você lembra do homem-oco?

Antony franziu o cenho.

— Lembro. Era só uma lenda que, na verdade, escondia um maníaco real. — ele respondeu.

Fiquei em silêncio, tentando encontrar as palavras certas. Enquanto isso, Antony me olhava confuso.

— Na segunda série, eu... — fiz uma pausa. Minha voz falhou diante das memórias horríveis — eu fui pego por ele.

Antony arregalou os olhos, mas não disse nada.

— Eu tinha apagado isso da minha mente por ser um trauma muito forte, mas hoje minha mãe trouxe tudo à tona e eu percebi que ela está mais do lado desse monstro do que do meu. E é por isso que eu vim para cá.

Antony separou os lábios, pronto para dizer algo, mas eu interrompi.

— Ela disse que esse homem ficou obcecado por mim, e por isso... matou meu pai e sequestrou Olívia — fiz uma pausa, buscando por ar — para chamar minha atenção e me trazer de volta.

— Meu Deus — Antony falou — era ele aquele dia na sua casa?

— Sim. Por isso que meu pai fez eu me mudar para Saint Charles às pressas. — respondi.

— E quem é ele? — Antony perguntou com urgência.

— Minha mãe não quis falar — suspirei, encostando minhas costas na cadeira — ela disse que é uma pessoa de alto poder.

— Isso é loucura — Antony disse se levantando — como vamos encontrar ela?

Ele parou no meio do quarto com uma expressão aflita e passou os dedos pelos fios de seus cabelos negros.

— Tem mais uma coisa — falei, atraindo a atenção dele — eu costumava ter um sonho com uma estranha casa no campo depois da floresta. Acontece que eu percebi que nunca foi um sonho, mas sim uma memória. A única memória que havia restado daquele dia horrível.

Antony olhou surpreso.

— E eu acho que a Olívia pode estar naquela casa. — completei.

— Você tem certeza de que essa casa existe e de que esse maníaco realmente pode estar lá com a Olívia?

— Olha, certeza eu não tenho, mas já é alguma coisa.

Antony suspirou e se sentou na cama novamente.

— Tá. E como é essa casa? — ele perguntou.

— Amarela, tem um formato retangular, uma pequena escada, uma varanda e... uma cortina de pompons coloridos.

Antony cruzou os braços e fez uma expressão séria.

— Você tá de brincadeira, Mike? Você acha mesmo que um psicopata viveria e levaria vítimas para uma casa assim? — ele fez uma pausa — isso deve ter sido um sonho seu.

Eu me senti completamente descredibilizado.

— Brincadeira, Antony? Você acha que estou de brincadeira? Eu acabei de te contar o maior trauma da minha vida e você nem disse "sinto muito" — ele abaixou a cabeça diante da minha acusação — e não existe uma regra clara para onde psicopatas decidem viver! — concluí, falando mais alto do que pretendia.

— Você tem razão. — ele respondeu baixo e evitando contato visual.

O silêncio pairou no quarto por alguns segundos, sendo substituído somente pelo som do vento e dos grilos lá fora.

E lá, naquele quarto, eu me vi diante de Antony, sabendo que nossa amizade estava completamente quebrada e que nenhum de nós seria como antes.

Perceber isso doeu e me feriu profundamente.

— E quando nós vamos atrás disso? — a voz de Antony cortou o silêncio.

— Essa noite — respondi sem hesitar — eu tenho um plano. Você ainda tem aqueles walkie-talkies?

Antony assentiu.

— Perfeito — respondi — um de nós vai procurar pela casa e o outro vai para a delegacia.

— Tá. Mas quem vai procurar pela casa? — Antony questionou.

Parei por um instante. Eu não estava pronto para voltar naquele lugar.

— Deixa que eu vou — Antony falou — você não precisa voltar naquele lugar. — ele completou, se levantando.

Fiquei surpreso e feliz, pois pela primeira vez desde que o reencontrei, ele se parecia com o antigo Antony, aquele que eu costumava conhecer.

Antony caminhou até a mesa e pegou dois walkie-talkies. Ele ergueu um na minha direção e falou:

— Vamos. Meus pais estão dormindo.

Peguei o walkie-talkie e me levantei.

Não foi difícil fugir da casa de Antony. Mesmo o quarto dele ficando no segundo andar, a janela não era tão alta, então conseguimos pular com facilidade. Depois passamos pelo portão e saímos para a noite com nossos walkie-talkies em punho.

Fizemos todo o trajeto em silêncio, até que chegamos na rua que dividiria nossos caminhos e paramos.

— Se você encontrar a casa me avise e eu entrarei na delegacia. Se aproxime com cuidado e me conte se ver algo estranho, então eu falarei com os policiais. — falei.

— Ok. — Antony respondeu.

Ele deu as costas, pronto para seguir seu caminho até a floresta com sua lanterna ligada.

— Antony. — chamei.

Ele se virou, olhando confuso para mim.

— Boa sorte. — falei, estendendo minha mão para ele.

Antony olhou para minha mão, desviou o olhar, se virou para frente e saiu, me deixando lá, sem resposta.

Quando sua silhueta sumiu na linha das árvores, eu finalmente voltei para a realidade e segui meu caminho na direção oposta.

Em poucos minutos, eu já estava na rua da delegacia. Eu só entraria quando Antony localizasse a casa e detectasse atividades suspeitas lá dentro. Assim, não correríamos o risco de enviar a polícia atrás de uma casa que deixou de existir ou que ficou vazia.

Antony estava demorando para dar algum sinal, e aquilo estava me deixando preocupado.

Depois de longos quarenta minutos, finalmente ouvi um chiado vindo do walkie-talkie.

— Mike, na escuta? — a voz de Antony ecoou.

Aproximei o walkie-talkie da minha boca rapidamente.

— Sim. Estou na escuta. — respondi.

— Certo. Você já está perto da delegacia? — ele perguntou. Sua respiração estava alta, um provável reflexo do cansaço e do frio.

— Sim. Algum sinal da casa?

— Acabei de atravessar a floresta. Estou em um campo que parece vazio, mas não tenho certeza, pois tudo está escuro, já que eu desliguei a minha lanterna para não chamar atenção.

— Perfeito, você fez certo. Continue seguindo em frente. Quando encontrar a casa, fale comigo.

— Ok. Câmbio, desligo. — Antony falou.

Ele continuava seco, e isso era um lembrete cruel do fim da nossa amizade.

Suspirei, vendo a fumaça branca saindo de meu nariz por conta do frio. Eu mal tinha notado que estava tão frio, pois ainda vestia o terno.

Pensei em como Antony deveria estar congelando, já que ele usava apenas uma camiseta azul-marinho de manga curta e uma calça cinza de moletom.

Um novo chiado do walkie-talkie me puxou para fora de meus pensamentos.

— Mike. Eu encontrei a casa. Puta merda... é exatamente como você descreveu! — ele disse, tentando conter a voz.

— Como você sabe? Não está escuro aí? — questionei com urgência.

— Algumas luzes estão acesas. — ele respondeu, com a voz trêmula por causa do frio.

— Meu Deus. — falei nervoso.

— Vou me aproximar de uma das janelas com cuidado.

— Ok. Eu vou chegar mais perto da delegacia.

Alguns segundos se passaram.

— M-Mike. Eu estou na frente da janela. Tem uma pequena abertura na cortina. Eu vou tentar ver o que tem lá dentro. — ele sussurrou.

Resolvi não responder, pois não sabia o quão alto o walkie-talkie dele poderia estar.

— Meu Deus... tem uma garota lá dentro. Não consigo ver ela muito bem, mas sei que ela está amarrada! — Antony falou, ainda tentando conter sua voz, mas o desespero era nítido.

Continuei sem responder, mas dessa vez eu precisava agir.

Eu estava do lado de fora da delegacia e não hesitei em avançar para dentro imediatamente.

Meus pés adentraram o cômodo frio, iluminado por uma luz pálida.

Eu apertei o walkie-talkie com mais força em minhas mãos e caminhei decidido.

Um policial carrancudo ergueu seu olhar para mim e quando eu separei meus lábios para falar...

Ouvi o chiado do walkie-talkie e a respiração ofegante de Antony.

— Mike! Sai de perto da delegacia agora! É o xerife Collins, porra! — ele falou, desesperado.

Eu demorei um pouco para assimilar o que ele estava dizendo.

Minhas pernas vacilaram. Meu coração disparou. O ar ficou denso e tudo pareceu ficar em câmera lenta. Só o olhar daquele policial me fuzilava, e eu sabia, sabia que naquele momento aquilo não significava uma coisa boa.

— Mas que merda! Ele me viu! — Antony gritou com a voz trêmula, o desespero atravessando os alto-falantes do walkie-talkie, selando nosso destino.

E então, um baque surdo, seguido de silêncio. Um silêncio cruelmente doloroso.

Me virei para trás, pronto para sair correndo pela porta, mas senti algo se chocando contra meu rosto de forma violenta, causando uma dor lancinante em cada extremidade do meu corpo.

Despenquei para o chão, sentindo aquele forte cheiro metálico.

Minha visão ficou turva, mas eu ainda pude ver um policial segurando um bastão, e essa cena era tão errada quanto eu poderia descrever. Aquele homem que deveria proteger e trazer justiça estava lá, diante de mim, segurando a arma que arrancou sangue do meu nariz.

Eu só queria me levantar e fugir dali, mas eu não tinha forças. A impotência me abraçou e me carregou para a escuridão.

Eu apaguei.

[...]

Abri meus olhos lentamente, sem entender bem onde eu estava ou o que tinha acontecido.

Com o tempo, minha visão foi tomando forma, e eu pude ver paredes amarelas desbotadas, com respingos de sangue, e uma televisão antiga exibindo o filme It, de 1990.

Assim que recuperei todos os meus sentidos, vi o desespero se apossando de mim e as memórias das últimas horas me atingiram em cheio.

Eu me debati, mas percebi que estava com os braços e pés amarrados em uma cadeira de madeira. Também havia uma mordaça cobrindo minha boca, impedindo que meus gritos saíssem.

Então, aquela voz rouca e áspera surgiu em algum canto daquela sala, forçando meus instintos a procurar seu dono com minha visão periférica.

— Mike Chambler. Eu esperei tanto por você.

Acompanhei o maldito xerife Collins com os olhos. Seu distintivo brilhava contra a luz e cada vez que eu pensava sobre o quanto ele não merecia usar aquilo, mais eu sentia vontade de avançar sobre ele para arrancar aquilo de sua farda desbotada.

Ele parou diante de mim, com os braços cruzados e um sorriso que me embrulhou o estômago.

Olhei para ele com ódio, enquanto meu peito subia e descia rapidamente.

— Esse é seu filme favorito, não é? — ele falou se virando para a televisão — lembro de ver um pôster em seu quarto. — ele se virou para mim novamente, com aquele sorriso maldito.

— Bem, você não vai conseguir me responder com essa mordaça. Eu vou tirar. Você pode gritar se quiser, ninguém vai te ouvir de qualquer maneira — ele começou a se aproximar — e se alguém ouvisse, quem iria chamar? A polícia? — ele riu e tirou o pano da minha boca.

Eu não gritei.

— Bom garoto. — ele falou dando um tapinha na minha cabeça.

— Onde tá o Antony e a Olívia?! — gritei.

Albert fez uma careta.

— Esquece esses dois Mike. Nós... vamos conversar primeiro. — ele falou com uma empolgação estranha. Puxou um pequeno banco e se sentou na minha frente.

— Me tira daqui! — gritei.

— Ainda não. Você ainda está muito... arisco.

Até o jeito de falar dele me causava nojo.

Mas eu não podia fazer nada.

Eu estava completamente refém.

— Ah, Mike. Se você soubesse o quanto é especial para mim...

— Eu ainda me lembro da primeira vez que te vi — ele falava com brilho nos olhos, um brilho perverso — você estava lá, conversando com seus amigos na escola. Seu olhar cruzou com o meu. Você não deve ter percebido, pois eu estava de óculos escuros, mas você não sabe o quanto aquilo me marcou. — ele concluiu, olhando para a janela ao nosso lado.

— Vai se ferrar. — falei com os dentes cerrados.

Ele riu como se fosse uma piada.

— Não se faça de difícil Mike. Você acha que eu me esqueci? Você veio atrás de mim primeiro... você veio até a porta da minha casa... ah Mike, eu já estava curioso sobre você, mas nesse dia... nesse dia você me deixou encantado!

Fiquei sem reação. As palavras pareciam presas em minha garganta, enquanto o horror transparecia em minha face.

— Eu... eu era só uma criança! — respondi.

Albert riu.

— Seu desgraçado!

— Não adianta se revoltar. Você sabe que todos estão do meu lado!

— Não é possível que todos estejam! — falei, balançando a cabeça em negação, enquanto as lágrimas ardiam em meus olhos.

— Ah! Claro que não. Mas os que não ficaram do meu lado... foram silenciados. — ele falou se aproximando.

— O-o meu pai. — falei com a voz trêmula.

— É. E alguns dos meus colegas de profissão também. O FBI deixou o caso em minhas mãos, então sumir com algumas pessoas não traria consequência alguma para mim. Eles só pensariam que era mais uma obra do criminoso que eu precisava capturar. — ele disse, dando de ombros.

— Eu matei seu pai por múltiplos motivos. Ele estava me dando muito trabalho, te levou para longe de mim… e eu precisava fazer algo contra ele para chamar sua atenção e te trazer de volta. — ele completou.

— Seu filho da puta desgraçado! Eu te odeio! — gritei me debatendo na cadeira.

— Ah, Mike... você é assim desde sempre... eu me lembro do dia que você veio até mim junto com seu amigo Antony para reclamar de Amber, tão ousado...

— A-Amber... — murmurei em choque — cadê a Amber?

— Amber — ele falou se virando para a janela outra vez — bem, um colega meu agradou dela.

— Ela era sua filha! — gritei.

— Sim. E eu sou extremamente grato a ela — ele fez uma pausa — foi ela quem trouxe Olívia para mim.

Senti uma pontada no peito.

— Cadê a Olívia?!

Albert se aproximou de mim, com os olhos fixos nos meus e um sorriso sem mostrar os dentes.

— Vou te mostrar. — ele falou, ajeitando o meu paletó.

Depois, ele se levantou e saiu da sala.

As lágrimas queimavam meus olhos, e minha respiração alta preenchia a sala, juntamente com o som das batidas aceleradas do meu coração.

Então, ele voltou...

Albert Collins voltou segurando algo.

E quando eu vi o que era... senti como se tivesse levado um soco no estômago.

As lágrimas escaparam dos meus olhos.

Eu me senti ainda mais tonto.

Minha visão ficou turva.

E meus gritos escaparam, enquanto eu me debatia violentamente contra a cadeira.

Albert segurava... um olho humano e uma mecha de cabelos castanhos.

Eu conhecia bem aquele cabelo.

Já o olho estava tão deteriorado que eu não pude confirmar se realmente era dela.

— Não. — murmurei, incrédulo.

Collins se aproximou e segurou meu queixo.

— Eu matei aquela cadela, Mike. Agora, ela não pode mais ficar entre nós.

— NÃO. NÃO. NÃO. — eu gritei, balançando minha cabeça contra seu toque áspero.

— O QUE EU TE FIZ? O QUE EU FIZ PARA MERECER ISSO? — lamentei com minha voz embargada.

Albert sorriu.

— Você não fez nada, meu querido. Eu só não quero que fiquem no nosso caminho.

Abaixei minha cabeça, enquanto chorava alto.

Albert continuou parado diante de mim.

Então eu me lembrei... tinha mais uma pessoa.

Busquei conter o choro e ergui minha cabeça lentamente para olhar para Albert.

— Por... favor — falei com dificuldade — d-deixa... deixa o Antony ir. — supliquei.

Albert se virou para o lado.

— Vou pensar... mas ele não está merecendo, me deu bastante trabalho hoje.

— O-o quê — murmurei com dificuldade — O QUE VOCÊ FEZ COM ELE?! — gritei.

Albert me ignorou e começou a caminhar para fora da sala.

— ME RESPONDE! O QUE VOCÊ FEZ COM ELE?! — vociferei, me debatendo.

Sem resposta. Collins tinha saído da sala.

E, nesse momento, eu fui atingido por um lampejo de lucidez.

O xerife que regrediu à barbárie não teria piedade de nós. Então, se eu quisesse me salvar e salvar Antony, teria que fazer isso por conta própria.

Examinei o lugar com meus olhos dolorosamente inchados e encontrei algo.

Havia uma pequena faca no sofá atrás de mim. Se eu passasse minhas mãos pelos vãos da cadeira, conseguiria alcançá-la, mesmo com as mãos amarradas.

Me perguntei como Albert poderia ser tão idiota a ponto de deixar aquela faca ali.

Depois de um breve esforço, consegui alcançar a lâmina e comecei a cortar as cordas freneticamente. Essa tarefa levou um bom tempo e eu fiquei verdadeiramente decepcionado por não ser rápido como nos filmes.

Depois de liberar minhas mãos, me livrei das cordas em meus tornozelos e limpei meu nariz, que escorria e ainda possuía resquícios de sangue seco.

Quando me levantei, quase caí. Meu corpo estava tão mole e fraco que o simples ato de ficar de pé exigia grande esforço.

Larguei a faca sobre o sofá e tentei pensar em algo, mas minha mente estava uma bagunça, em um turbilhão de pensamentos.

Meus olhos encontraram a porta da frente, e eu corri desajeitadamente até lá.

Minhas mãos trêmulas tocaram a maçaneta fria, mas... a porta estava trancada. Claro que estava.

Suspirei frustrado e cambaleei para trás.

Então... ouvi uma voz atrás de mim.

— Eu sabia que você iria aprontar, Mike.

Então eu entendi.

Collins não foi descuidado ao deixar aquela faca lá. Ele fez de propósito. Aquilo era a porra de um teste.

Me virei para trás apenas para encontrar Albert segurando um Antony mutilado pela camisa.

O rosto de Antony estava tão machucado que ele estava quase irreconhecível. A carne parecia remendada em diversos pontos. Algumas partes estavam com a pele pendurada, outras com hematomas roxos ou amarelados. Os olhos dele estavam tão inchados que ele mal conseguia abri-los. E sua blusa azul-marinho tinha uma enorme mancha de sangue que ia da gola até a área de seu abdômen.

Ele não tinha forças para lutar.

E eu também não.

Novas lágrimas trilharam o meu rosto, cobrindo as antigas que estavam secas.

E eu separei meus lábios ressecados para tentar dizer qualquer coisa que impedisse o pior.

— A-Albert — murmurei — solta ele! — falei um pouco mais alto, mas ainda assim, minha voz estava trêmula.

— Seu pedido é uma ordem, Mike. — Albert falou sarcasticamente e soltou Antony, que caiu de joelhos no chão.

Ele pedia socorro com o olhar, enquanto algumas gotas de seu sangue caíam sobre o piso.

— D-deixa... deixa ele em paz! — falei, dando um passo à frente.

— Fique onde você está! — Albert gritou, apontando o braço em minha direção.

Ele respirou fundo, virando—se para outra direção.

— Você sabe o quanto eu me esforcei para ter você, Mike? — ele gritou, voltando seu olhar para mim — pra você simplesmente tentar fugir assim?

Não consegui dizer nada.

O horror corria pelas minhas correntes sanguíneas, enquanto meu olhar continuava fixo em Antony.

Eu só queria acabar com aquilo.

Só queria tirar Antony de lá.

Levá-lo para longe daquele monstro.

E talvez, um dia, pudéssemos voltar a ser amigos como antes. Talvez eu pudesse vê-lo sorrindo de novo.

— A-Albert... por favor... eu imploro!

Meus olhos nadavam em lágrimas.

— Ah, Mike. Você precisa entender que certas ações precisam ter consequências! — Albert falou.

Em seguida, ele agarrou a gola da camisa de Antony. O corpo do meu amigo balançou com o solavanco repentino, mas ele ainda ergueu sua cabeça e olhou diretamente nos olhos de Albert Collins, de uma forma desafiadora.

— V-vai... vai se ferrar! — ele cuspiu as palavras com dificuldade.

Albert sorriu e largou a gola da camisa de Antony, tomando certa distância dele.

Quase suspirei de alívio, mas...

Albert ergueu seu pé, coberto por um coturno pesado...

— NÃO! — gritei.

Mas foi inútil.

Ele acertou um golpe em cheio no rosto de Antony, que caiu de bruços sobre o assoalho frio. Seus olhos vidrados em mim e sua mão ensanguentada tendo espasmos.

— M-M-Mike... me d-desculpa. — ele murmurou com dificuldade.

Albert ergueu seu pé outra vez e desferiu mais um golpe.

Pude ouvir o som do crânio de Antony se quebrando.

Foi fatal.

Um zumbido tomou conta do meu ouvido, e tudo ficou sem sentido.

— A-Antony... — murmurei, mas pareceu mais um ruído estranho.

Albert sorriu quando eu caí de joelhos sobre o chão, com uma expressão de completo choque.

As lágrimas caíam de meus olhos, enquanto eu via o corpo do meu amigo imóvel perto do pé de Albert.

Eu não tinha mais motivos para lutar.

Eu não tinha mais pessoas para salvar.

Não havia esperança.

— SEU FILHO DA PUTA DESGRAÇADO! — gritei entre lágrimas.

Albert Collins desviou do corpo de Antony e veio em minha direção.

— Agora, Mike... você vai aprender a me respeitar.

Ele se aproximava cada vez mais, com aquele jeito monstruoso e com o rosto salpicado de gotas do sangue de Antony.

Albert parou diante de mim e, quando estava prestes a tomar alguma ação, arregalou os olhos.

Gotas de sangue surgiram de sua cabeça, descendo pela testa. Eu olhei atordoado, e ele finalmente despencou para o chão, revelando quem havia o atingido.

Era... Olívia.

Tudo aconteceu tão rápido, mas eu ainda pude notar como ela estava diferente.

Seus olhos estavam carregados de fúria, seus cabelos bagunçados e com algumas mechas grudadas com sangue seco.

Ela possuía alguns cortes pelo rosto e vestia roupas levemente sujas.

Olívia segurava um enorme e pesado objeto que eu não consegui identificar, pois minha visão começou a ficar turva.

Foi esse objeto que ela usou para atingir a cabeça de Albert Collins inúmeras vezes.

Eu ainda pude ouvir o som dela esmagando o crânio dele.

E o cheiro metálico flutuando pelo ar.

Antes de perder a consciência completamente.

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u/gioreoli — 9 days ago

Amarelo sangue capítulo 4

Meu pai mandou que eu fosse morar com minha mãe em Saint Charles. Na época, eu não entendi o porquê de ele tomar uma medida tão drástica e bati o pé dizendo que não iria, mas não adiantou nada, e eu tive que ir.

Aquele foi um momento realmente sombrio para mim, já que eu me senti completamente abandonado pelo meu pai e tive que ir viver com a minha mãe, que nunca fez muita questão de mim e não era nem um pouco amorosa. 

Mas acho que o que mais me machucou foi o fim da minha amizade com Antony e Olívia. 

Eu não tive a chance de avisá-los sobre a minha mudança, então eles devem ter achado que eu sumi em um dia qualquer sem me importar com eles. 

Eu entendo se eles tiverem pensado dessa forma, pois realmente pareceu isso. 

Mas a verdade é que eu nunca deixei de pensar neles e lamentei todos os dias a perda de contato e o fim da nossa amizade. 

Minha vida em Saint Charles foi tão tranquila que me deixou em solidão profunda. 

Minha mãe nunca estava em casa e, quando estava, não dava a mínima para mim. Eu não consegui fazer amigos, pois não me encaixei em nenhum grupo; as pessoas eram muito diferentes de Antony e Olívia. E a cidade era pacata demais para eu buscar qualquer diversão individual. 

Eu passei dois anos vivendo assim. 

Até que a notícia veio. 

Aquela notícia veio para terminar de me destruir, para me jogar mais para baixo e para me forçar a voltar para Plainview. 

O meu pai tinha sido assassinado. 

Quando eu soube, senti como se uma flecha tivesse atravessado o meu peito. 

Mas tudo o que eu pude fazer foi segurar o choro e arrumar uma pequena mala para viajar para Plainview. 

Minha mãe finalmente demonstrou alguma compaixão e se ofereceu para viajar comigo. Eu aceitei e nós embarcamos. 

Nossa chegada em Plainview foi tranquila. Nós chegamos ao amanhecer e fomos para um hotel. Lá, guardamos nossas coisas — que não eram muitas, pois ficaríamos só até o dia seguinte — e nos arrumamos para o funeral. 

Eu mal me lembro desses momentos. Eu estava tão abalado que parecia anestesiado, fazendo tudo no modo automático. 

Durante nosso trajeto até a igreja, os olhares curiosos dos moradores da pequena cidade nos circundavam. Alguns, com uma inconveniência descabida, ousavam fazer perguntas. 

E eu ignorava todas. 

O meu pai, conhecido por ser um bom homem, tinha sido assassinado de forma brutal e misteriosa, deixando a cidade em choque, mas isso não dava um passe livre para perguntas ridículas que tratavam a morte dele como um simples caso curioso a ser comentado pela cidade toda. 

Quando nós finalmente chegamos à igreja, eu respirei fundo e caminhei com cuidado, um passo de cada vez, como se o chão fosse desaparecer abaixo de meus pés. 

Quanto mais eu me aproximava do caixão, mais as lágrimas ardiam em meus olhos, mais meu coração disparava, mais o mundo ao redor se tornava uma visão turva e aquela cena horrível ganhava ênfase ao meu olhar. 

Antes, eu conseguia me enganar dizendo que aquilo não era real, dizendo para mim mesmo que meu pai estava vivo em algum lugar, mas, naquele momento, minha ficha caiu de vez. 

Eu desabei. Minha mão deslizou sobre a madeira fria da tampa fechada do caixão, como uma sentença cruel. Meus gritos atraíram olhares de pena e solidariedade. 

Minha mãe surgiu e me ajudou a levantar. 

Eu estava aos prantos. 

— Eu sinto muito. — ela falou, suave, algo raro. 

O gosto salgado das lágrimas invadia minha boca, e meu corpo parecia tão pesado que eu mal conseguia parar de pé sozinho. 

Minha mãe colocou seu braço em volta da minha cintura e começou a me tirar do salão principal. Eu apenas aceitei, olhando sutilmente para aqueles que ficavam com pena de mim, enquanto as lágrimas silenciosas faziam sua trilha pelas minhas bochechas. 

Entramos em uma sala na lateral do salão. Lá, minha mãe me serviu um copo de água. Eu bebi, sentindo o forte sabor de cloro, enquanto minha mãe ajeitava meu terno preto e dizia coisas na tentativa de me reconfortar. 

— Você não precisa ficar aqui se quiser... acho que ele iria entender. — ela falou, desviando seus olhos fundos dos meus. 

Larguei o copo de plástico sobre o bebedouro e suspirei. 

— Eu vou tentar... vou tentar ficar até o fim da cerimônia... eu preciso me despedir. — falei com a voz embargada. 

Minha mãe assentiu e nós voltamos para o salão principal. 

Eu passei a cerimônia toda sentindo aquele forte aperto no peito cada vez que meus olhos alternavam entre a foto sorridente do meu pai e seu caixão selado. 

E, quando aquilo finalmente acabou, eu respirei fundo e decidi caminhar pela cidade. Minha mãe entendeu, e nós seguimos caminhos opostos — ela foi para o hotel e eu em direção ao bairro onde costumava morar. 

O céu estava salpicado por tonalidades alaranjadas que mostravam as nuances do entardecer. 

Eu seguia com passos erráticos pelas calçadas do subúrbio, meus olhos inchados, sensíveis a qualquer fonte de luz, meu terno amassado e grande demais para o meu corpo, trazendo para o exterior a bagunça do meu interior. 

Entre uma lágrima e outra. Um pensamento e outro. Um passo vacilante e outro... eu finalmente me vi parado na calçada oposta, diante do lugar onde construí a minha infância. 

Minha casa estava lá, emoldurada pelo céu laranja atrás dela. 

Eu fiquei lá por longos minutos olhando, lembrando, chorando e sentindo a brisa gélida arrepiando minha nuca. 

Todas as melhores lembranças ainda estavam lapidadas lá... meu pai... Olívia... Antony... 

Tudo estava normal... tudo... se não fosse aquela maldita fita amarela cruzando a entrada. 

Indicando que algo horrível e irreparável tinha acontecido lá. 

Nada seria como antes. E saber isso deixou um gosto amargo na minha boca. 

De repente, aquilo me puxou para fora de meus devaneios... 

Aquele som horrível ecoou, trazendo de volta os horrores da minha infância. 

Meu coração disparou, meus dedos formigaram, e o ar faltou em meus pulmões. 

Era aquele som de um carro com motor estragado. 

Aquele som que soava mil vezes mais perturbador, principalmente quando eu vi um maldito carro vermelho surgindo no horizonte. 

Meu corpo misturou o choque com uma adrenalina sem sentido, e um medo quase primitivo e inexplicável se apossou de mim. 

Então eu me vi correndo pelas ruas de Plainview em completo desespero, sem me importar em olhar ao redor ou definir um destino. 

Era só um carro vermelho. 

Um carro vermelho que nem estava atrás de mim. 

Eu só parei de correr quando senti meu corpo colidindo com algo — ou melhor dizendo — com alguém. 

Nós dois caímos sentados sobre a calçada por causa do impacto. 

Fechei meus olhos com força, sentindo minha cabeça latejar. 

Meu coração estava tão acelerado por causa da adrenalina que parecia querer explodir. 

— M-Mike? — uma voz fraca, mas surpresa, falou. 

Abri meus olhos com dificuldade. Aquela voz era familiar, e a silhueta de seu dono tomava forma aos poucos. 

Então eu finalmente pude ver... 

— A-Antony? — eu falei com minha voz tão impotente que mais parecia um ruído estranho. 

Finalmente consegui ajustar minha visão o suficiente para reparar em Antony. 

Ele estava com o cenho franzido em uma expressão de completa surpresa. 

E ele estava muito diferente. 

Seus cabelos negros estavam bagunçados, seu corpo magro e sua expressão, que antes costumava irradiar alegria, agora era triste. Ele estava abatido, com olhos fundos e olheiras que delatavam seu cansaço. 

Antony ergueu sua mão, sem mudar seu semblante apático. 

Eu agarrei sua mão e me coloquei de pé. 

Ele desviou o olhar e suspirou. 

— Fiquei sabendo do seu pai... eu sinto muito. — falou. 

Fiquei em silêncio por alguns segundos, sem saber o que dizer, mas Antony não foi embora. 

— Eu... eu sinto muito por ter ido embora sem falar com vocês. — falei. 

Antony voltou seu olhar cansado para mim. 

— Não importa de qualquer forma... já fazem dois anos — ele falou em um tom quase amargo e fez uma pequena pausa — e talvez tenha sido melhor assim... essa cidade virou um inferno. — ele concluiu. 

Antony mal conseguia manter contato visual. 

E as palavras demoravam tanto para sair de meus lábios, como se ficassem presas na ponta da minha língua. 

— O que está acontecendo aqui? — perguntei. 

Antony respirou fundo e olhou para o chão. 

— Diversos sequestros — ele ergueu a cabeça — até Amber Collins foi levada dessa vez. — sua voz falhou e ele riu sem humor. 

— Eu nem deveria estar falando dela... — os olhos dele nadavam em lágrimas — a Olívia não iria gostar disso. — ele concluiu, derrotado, parecia sentir vergonha de si mesmo. 

— A Olívia... cadê ela? — questionei, preocupado. 

Antony pressionou seus dedos contra os olhos, como se segurasse para não chorar. Algo estava errado. 

— A-Antony... cadê a Olívia?! — questionei com mais urgência. 

Ele tirou a mão que cobria seus olhos e a levou até o bolso, onde pegou algo. 

Era um papel. 

Ele desdobrou o papel com lágrimas nos olhos e o ergueu diante dos meus olhos. 

Lá estava uma foto de Olívia sorridente, com seus cabelos castanhos ondulados caindo sobre seus ombros, no topo, a palavra "desaparecida" em destaque. 

Senti meu coração se partindo em mil pedaços. 

Fiquei sem reação. 

Antony puxou o papel de volta e o enfiou no bolso de sua calça jeans. 

Sua respiração ficou irregular. 

— A Amber chamou ela para conversar... — ele voltou a falar. 

Olhei surpreso. 

— Eu falei para ela não ir... Deus... eu falei... — ele disse, colocando a mão na cabeça. 

— Mas ela foi. E depois... eu nunca mais vi ela! 

Antony respirou fundo, tentando se recompor. 

— Eu... eu pensei que Amber tivesse algo a ver, mas... ela desapareceu também! 

Ele deslizou seus dedos entre os fios negros de seus cabelos enquanto lágrimas corriam pelas suas bochechas. 

— E-eu não deveria ter deixado ela ir sozinha! Eu deveria ter protegido ela! — ele lamentou, dando um passo para o lado e se virando para olhar para a rua deserta. 

— A polícia não faz nada! Nem depois que Amber Collins sumiu! Eles não fazem absolutamente nada! E o FBI continua com essa palhaçada de não se envolver, deixando tudo nas mãos desses policiais incompetentes! — Antony desabou, ele falava tão rápido que atropelava algumas palavras. 

Eu continuei paralisado. 

— Eu procuro ela todo santo dia... todo santo dia — ele enfatizou — e digo para os pais dela que tudo vai ficar bem, mas eu vejo nos olhos deles que eles não acreditam em mim. — ele falou entre lágrimas. 

— A-Antony, eu... eu quero ajudar a encontrar ela! — falei. 

Antony se virou para mim com uma expressão sombria. 

— É? E como você pretende fazer isso, Mike? Você vai sair de Saint Charles todos os dias como se estivesse fazendo uma simples viagem para passear com amigos e tomar sorvete de baunilha? — sua voz subiu uma oitava. 

Abaixei minha cabeça. 

Ele ficou em silêncio por um tempo, tentando se acalmar. 

— Ela sentiu sua falta, Mike. Ela sentiu sua falta todos os dias. Lembro dela falando de você até o último dia que a vi. 

Ele respirou fundo. 

— Você tem noção disso, Mike? Você tem ao menos a noção do quanto foi egoísta? Você foi viver sua vidinha feliz em outra cidade enquanto nós lidávamos com toda essa merda! — Antony gritou. 

E aquilo me feriu. Me feriu de uma forma bem mais profunda. 

— Vidinha feliz, Antony? Minha mãe é uma viciada que mal se importa comigo e meu pai foi assassinado! — gritei de volta. 

Antony esfregou os olhos e se virou para o lado. 

— Você fala como se eu tivesse escolhido ir embora! 

— Você poderia ter nos avisado pelo menos! — ele rebateu. 

— Eu não consegui, Antony. E quer saber? Não teve um dia sequer que eu não pensei em vocês! Não dá para voltar no tempo, mas agora tudo o que eu te peço é que me dê uma chance para te ajudar a procurar ela! — falei com a voz embargada. 

— A Olívia também é importante para mim. — completei. 

O silêncio pairou no ar por alguns segundos. 

— Por favor... Antony. 

Ele suspirou. 

— Tá. Me encontra aqui amanhã, às sete da manhã. — ele falou secamente. 

Em seguida, ele passou por mim e foi embora. 

Eu fiquei lá, congelado, até Antony sumir no horizonte. 

Já estava quase anoitecendo, então eu decidi voltar para o hotel. 

Eu passei todo o caminho de volta imerso em pensamentos e embalado pela angústia de saber que havia perdido duas coisas em um mesmo período: meu pai e Olívia — talvez eu devesse considerar três, já que Antony parecia me odiar. 

Finalmente cheguei ao hall do hotel, atravessei os corredores velhos e localizei meu quarto. 

Antes de abrir a porta, tomei ciência da notícia que teria que dar para minha mãe — eu não voltaria para Saint Charles com ela. 

Girei a maçaneta e entrei no quarto, que estava cheio de fumaça. Minha mãe estava sentada em uma poltrona, fumando um cigarro. 

Ela olhou para mim e desviou o olhar rapidamente. 

Fechei a porta e caminhei até a cama, me sentei e olhei para minha mãe, sem saber o que dizer. 

Ela voltou seu olhar para mim com uma expressão confusa, como se soubesse que eu queria dizer algo. 

— Mãe... — finalmente comecei a falar — eu... eu não vou voltar para Saint Charles com você amanhã! 

Ela arregalou os olhos e engasgou com a fumaça. 

— O quê? Por que, Mike? 

Suspirei. 

— Sabe a Olívia? — fiz uma pausa — aquela minha amiga de infância. 

Minha mãe continuou com o cenho franzido, então eu prossegui: 

— Ela foi... sequestrada. E eu quero ajudar nas buscas. 

Assim que concluí a frase, vi o rosto de minha mãe ficar pálido e sombrio. Ela se levantou abruptamente e parou bem na frente da porta. 

— Não! Você não vai ficar! — ela gritou de uma forma que parecia exagerada demais para a situação. 

Olhei surpreso. 

— Eu não vou deixar a Olívia! — protestei. 

— Eu já falei, você não vai ficar, Mike! — ela retrucou. 

— Eu não posso simplesmente voltar para Saint Charles como se nada tivesse acontecido! — falei me levantando para ficar diante dela. 

Ela suspirou, indignada. Seus olhos estavam úmidos. 

— Você não entende! Está tudo interligado! — ela gritou, se virando para o lado, com a mão que segurava o cigarro apoiada em sua cabeça. 

Franzi o cenho e engoli seco, sentindo a fumaça impregnada em minha garganta. 

— O que está interligado? — perguntei com a voz fraca. 

— Tudo, Mike! Tudo! A morte do seu pai... o desaparecimento da sua amiga! É tudo um plano para te trazer de volta a esta cidade maldita… e você está caindo direitinho! — ela falou tão rápido que algumas palavras saíram entrecortadas. 

Olhei incrédulo. 

Os olhos verdes dela nadavam em lágrimas. 

— Você tem noção do quanto eu amava seu pai? E do quanto me dói ver que ele fez tudo para te proteger e agora você vai jogar todo o esforço dele fora! 

— L-Lydia... — murmurei — do que ele estava me protegendo? Quem me atraiu de volta para Plainview? — questionei com a voz trêmula. 

Ela hesitou por um instante. 

— Só... só esquece isso e volta comigo amanhã — ela respirou fundo, passando a mão em seus cabelos ruivos — você não pode lutar contra isso, Mike. 

Neguei com a cabeça. 

— Não. Eu não vou voltar. Eu não vou desistir! 

— Tá! Quer saber? Eu vou te contar tudo. Quem sabe assim você não desiste desse plano estúpido?! 

Ela suspirou e se sentou na poltrona. 

— Sabe quando a cidade foi assombrada por desaparecimentos anos atrás? Você estava na segunda série e costumava achar que o causador de todo aquele caos era um ser sobrenatural chamado "homem-oco" — ela disse, acendendo outro cigarro — seu pai me contou tudo. — completou, me olhando com olhos vazios. 

— Aquilo, Mike... aquilo não era obra de um ser sobrenatural — ela fez uma pausa — era uma pessoa real, um maníaco. 

Engoli seco. 

— E ele sempre quis você. 

Senti meu coração bater mais rápido. 

— Os sinais estavam lá. Seu pai me contou isso também, mas nós não levamos a sério. — ela assumiu, com os olhos levemente marejados. 

Ela ficou em silêncio por alguns segundos. 

— Um dia, você pediu para sair para brincar. Seu pai não deixou, pois, com aquela onda de sequestros, era muito perigoso — ela respirou fundo — mas, você fugiu. 

Senti um aperto no peito. 

— Você sumiu por horas, Mike — a voz dela falhou — você sumiu por horas. Seu pai ficou desesperado. Ele te procurou, procurou, procurou e... nada! 

Ela secou os olhos úmidos e largou o cigarro no cinzeiro. 

— Então... horas depois, você apareceu... 

Olhei para ela, aflito, esperando por suas novas palavras. 

— Você estava... em estado de choque. Suas roupas estavam rasgadas e sujas, e seus cabelos completamente bagunçados. 

— Você estava péssimo, Mike. Péssimo.

Senti minhas pernas vacilarem e caí sentado na cama. 

— Depois de contar tudo... você apagou e quando acordou não se lembrava de nada. O trauma foi tão grande que você deletou tudo aquilo da sua mente. 

— Mas seu pai não deixou passar. Ele sabia exatamente quem tinha te causado tudo aquilo e foi atrás... mas era uma pessoa muito poderosa e tudo o que seu pai conseguiu foi um acordo: ele não entregaria esse criminoso e, em troca, ele te deixaria em paz. 

— Mas esse maldito já estava obcecado por você... e voltou, voltou naquela noite em que você estava sozinho com seus amigos. 

— Quando seu pai percebeu, ele te enviou para Saint Charles para te proteger. 

Ela suspirou. 

— E agora todas essas coisas horríveis estão sendo causadas para te atrair de volta, e você está caindo! 

— Meu Deus — murmurei, incrédulo — você está dizendo que vocês passaram pano para um criminoso? É isso? 

Ela abaixou a cabeça. 

— Você quer que eu fique calado diante disso? Que eu deixe a Olívia nas garras desse monstro?! — gritei, com as lágrimas ardendo em meus olhos. 

— Você não pode vencer isso, Mike. Ele é poderoso — ela fez uma pausa — e nós fizemos tudo isso para te proteger! 

— Me proteger? — gritei, me levantando — eu confiei em vocês e vocês estavam acobertando um criminoso durante todo esse tempo!

As lágrimas começaram a cair de meus olhos. 

— Mike... — ela murmurou. 

De repente, uma forte dor de cabeça me atingiu, fazendo eu cair no chão de joelhos. 

— Mike! — minha mãe gritou. 

Mas sua voz parecia estar debaixo d'água. 

E um forte zumbido tomou conta dos meus ouvidos. 

Então... 

As memórias surgiram. 

Tão vívidas... 

Tão amargamente horríveis! 

Lá estava a floresta, o campo verde, o céu azul, o cheiro de orvalho no ar... 

E aquela maldita casa amarela com cortinas de pompons coloridos. 

Eu caminhava até lá, mas dessa vez, diferente das outras, eu entrava. 

E eu sabia que não era um sonho. 

Era uma memória. 

Era real. 

Aquela figura desfocada, sem rosto e sem coração. 

Era tudo real. 

Até o momento em que eu fugia desamparado, tropeçando pelo campo, e, de alguma forma, encontrava o caminho de volta para casa. Até isso era real. 

Gritei de terror enquanto as cenas surgiam e minha cabeça latejava. 

— Mike! — a voz da minha mãe ecoava, parecia distante, mas eu podia senti-la perto de mim, dando batidas leves em meu rosto. 

Finalmente abri meus olhos. Meu peito subia e descia rapidamente. Eu puxava o ar para meus pulmões como se fosse minha primeira vez fazendo isso. 

— Mike! — a silhueta da minha mãe começou a tomar forma. 

E eu finalmente vi seus olhos esmeralda arregalados. 

Desabei em lágrimas. 

Minha mãe me envolveu em seus braços e tentou me acalmar, mas eu não demorei para afastá-la. 

— Q-quem... quem é ele? — perguntei com a voz fraca, mas carregada do mais puro ódio. 

Minha mãe apenas desviou o olhar e eu entendi... 

Entendi que ela era quase uma cúmplice. 

Balancei a cabeça em negação, olhei para ela com desprezo e me levantei. 

— Mike! — ela gritou uma última vez. 

Eu ignorei, caminhei até a porta... 

E saí.

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u/gioreoli — 9 days ago

Amarelo sangue capítulo 3

Algum tempo depois do episódio com meu urso Teddy, aquele sonho se alojou em minha mente.

E depois tudo se acalmou.

Os desaparecimentos que aconteciam pela cidade pararam, o carro vermelho deixou de aparecer em todo canto e o homem-oco virou uma figura tosca para nós que crescíamos e deixávamos de acreditar em lendas.

Os anos se passaram.

E aquela noite chegou.

Eu tinha quinze anos.

Meu pai ia trabalhar até tarde e eu chamei Antony e Olívia para passarem a noite na minha casa já que eu estava com medo de ficar sozinho.

Eles aceitaram e chegaram por volta das sete da noite.

Uma tempestade de neve caía lá fora então nós estávamos bem agasalhados.

Nós trancamos todas as portas e janelas, e fomos para a cozinha onde preparamos chocolates quentes.

Depois fomos para o meu quarto.

Antony e Olívia largaram suas mochilas sobre a cama e nós três nos sentamos no chão com nossas canecas postas à nossa frente.

O vento assobiava lá fora.

— O que vocês querem fazer agora? — questionei.

Antony pensou um pouco e Olívia tomou um gole do chocolate quente.

— Já sei! — Antony falou.

— O que? — Olívia disse colocando a caneca no chão.

— Vamos jogar verdade ou desafio. — Antony falou olhando para nós dois com um olhar desafiador.

— Verdade ou desafio? — questionei.

— Sim. — Antony respondeu dando de ombros.

— Por mim tudo bem. — Olívia disse.

— Por mim também. — falei.

— Ótimo! Você tem alguma garrafa aqui pra gente girar? — Antony questionou.

— Aqui no meu quarto não. Vou procurar em outro cômodo. — falei me levantando.

Os dois assentiram e eu caminhei até a porta.

Atravessei o corredor escuro e cheguei na cozinha onde pude visualizar a janela e a neve caindo lá fora.

Acendi a luz e examinei o lugar em busca do que Antony sugeriu. Meus olhos alcançaram a bancada da cozinha e eu vi uma garrafa de vinho vazia do meu pai.

Peguei a garrafa e comecei a caminhar de volta para o quarto.

Mas...

Quando eu passei na frente da janela me senti observado.

Senti um estranho arrepio tomando conta do meu corpo e parei.

Olhei para a janela, mas nada parecia errado.

Lá fora, os flocos de neve continuavam rodopiando no ar e as árvores secas produziam sombras imponentes, mas nem um pouco ameaçadoras.

Balancei a cabeça com vergonha de mim mesmo e fechei a cortina.

Depois voltei a fazer meu trajeto até o quarto.

Ao chegar no quarto, me sentei perto de Antony e Olívia e coloquei a garrafa no chão, no meio de nós.

Por alguma razão, um forte incômodo tomava conta de mim.

Eu sentia como se algo estivesse errado.

Busquei afastar esses pensamentos e voltei minha atenção aos meus amigos.

— Vamos começar! — Antony disse colocando a mão sobre a garrafa.

Ele girou o objeto que produziu um zunido agudo ao entrar em atrito com o chão.

O som foi ficando mais grave e irregular à medida que a garrafa foi perdendo a velocidade.

Até que ela parou.

— Olívia! — Antony exclamou.

Olívia olhou para a garrafa que apontava para ela e depois para Antony.

— Verdade ou desafio? — Antony questionou.

— Verdade. — ela respondeu.

Antony sorriu.

— É verdade que... você acredita na lenda do homem-oco até hoje? — ele perguntou olhando fixamente para Olívia.

Senti um arrepio ao ouvir esse nome.

O som da risada irônica de Olívia se misturou ao som do vento lá fora.

— Que pergunta ridícula! É claro que não. — ela respondeu.

Antony deu de ombros e girou a garrafa mais uma vez.

Ela produziu o mesmo som irritante ao parar de girar, e dessa vez apontou para mim.

— Estou com sorte hoje. — Antony falou em um tom bem-humorado.

— Mike, verdade ou desafio?

— Verdade. — respondi sem hesitar.

Ele fingiu pensar um pouco.

— É verdade que... você já gostou da Amber Collins?

Engasguei com minha própria saliva.

— O que? A Amber? — falei surpreso.

Olívia revirou os olhos.

— Claro que não Antony. — respondi.

— É Antony! Até parece que o Mike seria capaz de gostar daquela garota insuportável. Ela se acha só por ser filha do xerife. — Olívia falou olhando para o chão.

— Ei não fica brava Ol — Antony começou a falar — eu não gosto dela também!

— É. Nós prometemos não citar ela nunca mais e você acabou de descumprir essa promessa! — Olívia falou, evidentemente chateada.

Naquela época era praticamente uma regra do nosso trio não gostar e não citar o nome de Amber Collins, pois uma vez, sem motivos aparentes, ela bateu em Olívia.

Antony e eu flagramos essa cena. Olívia estava com o nariz cheio de sangue, nós defendemos ela e fomos até o xerife para reclamar do comportamento de Amber.

Ele falou que ia conversar com a filha e nós deixamos esse assunto para lá.

O ponto é que Antony teorizou que Amber fez isso por gostar de mim e ter ciúmes de Olívia, algo que não fazia o menor sentido.

Antony ficou em silêncio e girou a garrafa de novo, dessa vez o objeto apontou para ele e Olívia faria a pergunta.

— Antony. Verdade ou desafio? — Olívia perguntou ainda séria.

— Vou escolher desafio para me redimir pelo meu erro. — Antony disse em um tom engraçado.

Olívia deixou um sorriso escapar.

— Eu te desafio a sair lá fora!

Olhei surpreso.

— Lá fora? Mas tá muito frio. — falei.

Olívia se virou para mim.

— Ele aguenta. É só ir até o quintal da sua casa e voltar.

— Isso mesmo. Eu aguento! Isso daí vai ser moleza. — Antony disse já se levantando.

Seguimos ele pela casa, até chegar na porta da frente.

Eu ainda sentia aquela sensação estranha, ela parecia estar até mais intensa, como um mal pressentimento.

— Tem certeza Antony? — questionei.

— É claro. Eu não recuso nenhum desafio!

Olívia sorriu vitoriosa.

Abri a porta e a brisa gélida tocou nossas peles. Olívia abraçou seu próprio corpo e Antony suspirou.

— Dois minutos! — Olívia falou.

— Beleza! — Antony respondeu confiante.

Ele saiu. Seus pés afundando na neve e os flocos se alojando em seu casaco felpudo.

Olívia fechou a porta e eu olhei para o relógio para marcar os minutos.

Tudo estava indo bem.

Até que...

Ouvimos o som de Antony correndo de volta.

Sua respiração estava tão ofegante que ele parecia estar correndo uma maratona.

Olívia e eu nos entreolhamos.

Então ele bateu na porta, seu desespero fazendo as dobradiças estremecerem.

— Abre a porta! Rápido! — ele gritou do outro lado.

Olívia arregalou os olhos e girou a chave.

Antony empurrou a porta com tanta pressa que tropeçou e caiu no chão.

Olhei para ele assustado.

Aquele não parecia o simples desespero de alguém com frio.

Ao invés de ficar parado no chão, ele saltou rapidamente e avançou sobre a porta, trancando a mesma.

— Antony! Você tá bem? — Olívia perguntou, preocupada.

Antony não respondeu.

Ele estava pálido, seu peito subia e descia rapidamente e sua pupila estava dilatada.

— Antony? — Olívia chamou outra vez.

Ele continuou tentando regular sua respiração.

— Aconteceu alguma coisa? — eu perguntei.

Ele finalmente respirou fundo e olhou sério para nós. O medo ainda lapidado em seu olhar.

— T-tem alguém lá fora. — ele falou de uma vez com sua voz trêmula.

Antony é do tipo brincalhão, mas eu nunca o vi brincando com algo do tipo, muito menos tão sério.

— C-como assim? — Olívia perguntou com a voz fraca.

— Eu... eu estava lá fora e quando olhei para o canto do quintal... vi uma silhueta parada na escuridão. — ele disse se sentando em uma cadeira, ainda trêmulo.

Senti um arrepio na espinha.

— Você tem certeza? Talvez seja só uma árvore. — falei.

— T-tenho... porque... — ele começou a falar, visivelmente abalado — porque ele começou a vir na minha direção!

Olívia arregalou os olhos.

Eu olhei para a porta, meu coração martelando dentro do peito.

— Vamos sair daqui! Vamos voltar para o quarto.

Antony se levantou e nós voltamos rapidamente para o quarto.

Ao chegar lá, eu fechei a porta como se aquilo fizesse alguma diferença.

Antony se sentou na cama limpando seu casaco salpicado de flocos de neve. Olívia parou ao lado dele com uma expressão aflita.

— E agora? — Olívia perguntou.

— Agora nós ficamos aqui. Se realmente tem alguém lá fora, essa pessoa não pode entrar. A casa está toda trancada. — respondi.

— "Se realmente tem alguém lá?" olha o meu estado Mike! Você acha que eu iria brincar com isso! — Antony falou alterado, sua voz tão pesada quanto o som da tempestade lá fora.

Nunca o vi tão bravo.

— Tá Antony. Eu acredito em você. Me desculpa, eu só estou tentando acalmar as coisa e porra, essa é a minha casa! — falei.

Antony abaixou a cabeça.

Olívia cruzou os braços e olhou na direção da janela que estava coberta por uma cortina branca.

— O que essa pessoa está fazendo aqui? E se ele conseguir entrar? Nós estamos sozinhos! — Olívia falou nervosa.

Suspirei. Passei a mão nos meus cabelos ruivos e me sentei ao lado de Antony.

— Estamos seguros aqui, fica tranquila. Meu pai chega de manhã, tudo que temos que fazer agora é ficar aqui.

Olívia assentiu, mas ela não parecia confiante.

Cada um de nós estava tomado pelo medo.

Não é todo dia que alguém surge em seu quintal durante uma tempestade de neve e corre atrás de alguém.

De repente, aquele som cortou a noite como uma lâmina afiada...

Uma batida na janela.

Meus amigos olharam para mim com os olhos arregalados.

— N-não deve ser nada. — falei tentando tranquilizar meus amigos.

Mas...

Outras três batidas preencheram o silêncio.

Aquele maldito som que tanto atormentou a minha infância.

Um som que só poderia ser de alguém batendo o punho contra o vidro.

Antony e eu nos levantamos da cama abruptamente.

Nós três paramos na frente da porta do quarto, olhando diretamente para a janela.

Atrás da cortina branca quase transparente, uma sombra negra e imponente nos espreitava do lado de fora.

Girei a chave da porta do quarto e puxei meus amigos comigo.

Nós corremos para o banheiro — o lugar que parecia mais seguro — e passamos a noite trancados lá, ouvindo o som de alguém andando ao redor da casa.

Pela manhã, assim que meu pai chegou, ele se deparou com três adolescentes aterrorizados e com lágrimas nos olhos.

Aquela tinha sido uma noite verdadeiramente aterrorizante para nós três.

Meu pai saiu para o quintal e confirmou nossas suspeitas, haviam... diversas pegadas na neve.

Vi o rosto do meu pai empalidecer, como quando ele viu aquelas fitas.

Ele ficou tão estranho depois desse dia.

Na verdade, ele nunca mais foi o mesmo.

Ele nem me quis morando com ele mais, como se eu fosse a causa daquele intruso invadir nosso quintal.

Ou... como se ele quisesse me proteger.

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u/gioreoli — 9 days ago

Amarelo sangue capítulo 2

Acho que, de alguma forma, sempre sentimos quando algo está errado. Seja através de uma intuição ou um sinal.

O sinal pode ser óbvio ou sutil, mas acreditar nele ou não pode ser o que vai determinar o seu destino.

Eu escolhi ignorar.

Não sei se dar atenção a aqueles detalhes poderia mudar grande coisa.

Mas sinto que ignorar deixou tudo pior.

Eu vou tentar organizar esses fatos. Ainda é difícil para mim pois algumas partes da minha memória estão realmente comprometidas.

Bom, ainda na época que eu estava no segundo ano do fundamental — logo depois do Antony contar sobre a lenda do homem-oco para ser mais exato — eu passei a me sentir frequentemente observado. Claro, poderiam ser apenas paranóias de uma criança que ouviu histórias de terror e de pessoas desaparecendo.

Mas deixou de ser paranóia quando eu comecei a ouvir batidas na janela do meu quarto quase toda noite.

O medo me salvou.

Imaginar o homem-oco do outro lado do vidro fez eu ficar paralisado debaixo dos cobertores.

E um dia aquilo parou.

A presença latente foi substituída por um carro vermelho que eu passei a ver em todos os lugares possíveis.

Eu nunca consegui ver o motorista.

Mas o carro sempre estava lá. Sua lata carmesim brilhando contra a luz do sol, perto da minha casa, da escola, da padaria, da minha lanchonete preferida, do parquinho e de todo lugar que eu pudesse ir.

Claro que naquela época eu não vi maldade nisso. Para mim, era só um carro vermelho de modelo raro que eu coincidentemente via em todo lugar.

Então eu não conectei o carro às batidas na janela do meu quarto.

Agora que eu sei da verdade, sei que tinha tudo haver.

E é por isso que no início desse texto eu falei sobre como a forma que escolhemos interpretar os sinais são importantes.

Bom, de qualquer modo, eu era só uma criança.

E esses detalhes poderiam passar despercebidos até mesmo para um adulto.

Só que um dia, isso mudou, as coisas chegaram à um novo patamar…

Eu tinha um urso chamado Teddy.

Ele era marrom, possuía um detalhe ciano em suas patinhas e um laço da mesma cor no pescoço.

Eu andava com ele para todo lado, mas, um dia perdi ele depois de passear no parque com meu pai.

Aquilo me deixou devastado.

Meu pai prometeu que compraríamos um novo urso assim que possível e eu só concordei.

Mas não foi preciso.

Por que no dia seguinte o urso surgiu na porta da minha casa.

Ele estava lá.

Sentado bem na frente da porta.

Eu lembro como fiquei feliz, agarrei o urso e corri até meu pai.

Ele ficou receoso pois não fazia sentido a pelúcia aparecer ali daquela forma.

Mas depois ele imaginou que alguém tivesse me visto com o urso, encontrando ele perdido no parque e procurado meu endereço para deixá-lo lá, nossa cidade é pequena então aquilo era totalmente plausível.

Meu pai só não entendeu o porquê da pessoa não ter aparecido, só deixado o urso lá.

Mas eu supus que era uma pessoa tímida.

Então nós esquecemos o assunto e eu apenas comemorei o retorno do meu querido Teddy voltando a carregar ele para todo canto.

Mas um dia…

Eu encontrei outra coisa repousando na porta da minha casa.

Era uma pequena caixa.

Havia uma fita dentro dela e eu não hesitei em pedir ao meu pai para colocá-la para rodar no VCR.

Quando a primeira imagem surgiu na tela eu pude ver o rosto do meu pai ficando branco.

Senti meu pequeno coração se acelerando e arregalei os olhos.

Era…

Eu.

Eu estava em todos os takes.

Em alguns eu olhava diretamente para a câmera.

Em outros era só uma imagem panorâmica do meu quarto ou dos lugares que eu fui.

E algumas vezes eu estava dormindo.

— O que é isso… papai? — perguntei com a voz meio trêmula.

— N-não é nada filho…! Não se preocupe. — ele disse, avançando para tirar a fita do VCR.

Depois desse dia eu nunca mais vi o Teddy.

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u/gioreoli — 9 days ago

Amarelo sangue capítulo 1

No jardim de infância eu conheci meus melhores amigos: Antony Peletier e Olívia Samuels. E eu não consigo me lembrar da minha vida antes deles.

Nós nos demos bem imediatamente, mesmo tão novos, nossas personalidades já se completavam.

Eu sempre fui o mais calado, introvertido e observador. Antony, o palhaço do grupo, sempre levantava nossos ânimos em momentos difíceis. Ele também costumava ser o mais impulsivo, não medindo esforços para defender alguém importante. Acima de todas as suas qualidades, a lealdade se destacava. Já Olívia era a mais sensata entre nós, ela sempre colocava ordem no nosso grupo e nos impedia de tomar atitudes das quais nos arrependeríamos depois.

É impossível falar sobre tudo o que aconteceu sem citá-los. E agora que eu parei para refletir sobre tudo amplamente, me lembrei de uma conversa que tive com Antony e Olívia quando estávamos no segundo ano do fundamental. Naquela época, nossa cidade passava por dias sombrios, com diversos desaparecimentos acontecendo. Nós, crianças, não entendíamos com precisão a gravidade daquela situação, então não estávamos alarmados.

Era uma manhã de primavera, nós estávamos na escola aproveitando o intervalo. Estávamos no parquinho, que estava vazio, já que poucas crianças tinham ido para a escola naquele dia. Antony estava em um dos balanços e eu no outro bem ao lado dele, enquanto Olívia estava sentada no topo do escorregador que ficava na frente dos balanços.

Estávamos quietos naquela manhã, talvez por causa do clima pesado que pairava sobre a cidade.

O som do vento balançando as folhas das árvores e o rangido das correntes dos balanços preenchiam o silêncio, parecia que até os pássaros estavam desconfortáveis para cantar naquele dia.

Fiquei encarando o céu azul, preso em meus pensamentos por longos segundos, até que Antony finalmente quebrou o silêncio.

— Não veio quase ninguém hoje, né?

— Deve ser por causa das crianças que sumiram. — Olívia respondeu.

Antony olhou para ela.

— Minha mamãe disse que foi o homem-oco que levou as crianças. — ele falou.

Olhei curioso.

— Homem-oco? — questionei.

Antony se virou para mim.

— Sim. A mamãe me disse que o homem-oco está levando todas as crianças. Ela falou para eu ter cuidado e não me preocupar, pois logo o xerife Collins vai pegar ele! — ele explicou.

Olhei surpreso, a curiosidade começava a tomar conta de mim.

— Por que o xerife Collins não pegou esse homem mau ainda? — Olívia questionou com um olhar confuso.

— Porque ele se esconde muito bem, não sabem quem ele é ainda, mas sabem que ele existe e que está levando as crianças para a floresta.

Olívia arregalou os olhos.

— Mamãe me disse que ele é tão mau que, no lugar do seu coração, não existe nada, por isso ele se chama "homem-oco". — Antony concluiu.

— E se ele aparecer para mim? Como vou saber que é ele? E se ele me levar? — Olívia questionou, assustada.

— É muito simples — Antony disse como se fosse um sábio — é só você procurar o coração dele, se ele não tiver um, você corre para longe!

Olívia assentiu, com os olhos vidrados em Antony.

— Fica tranquila, Ol — falei — estamos protegidos, olha para o outro lado da rua. — apontei na direção do grande portão de grade da escola.

Olívia se virou e seus olhos encontraram a viatura da polícia estacionada do outro lado da rua.

O xerife Collins estava escorado na porta da viatura, ele usava óculos escuros e olhava para a escola com um semblante calmo enquanto segurava um copo de café.

— Tenho certeza que o xerife Collins vai resolver tudo. Ele vai colocar o homem-oco para correr! — Antony disse, empolgado.

Eu ri sutilmente e Olívia pareceu mais tranquila.

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u/gioreoli — 9 days ago

Amarelo sangue capítulo 0

Poucas pessoas se lembram precisamente de pesadelos que tiveram na infância, mas eu fui assombrado por um mesmo pesadelo por anos. Eu nunca tive ele por mais de duas noites, mas ele era tão nítido em minha mente que mais parecia uma memória real do que a lembrança de um simples pesadelo de infância.

Nesse pesadelo eu caminhava por um campo vazio. Meus pés descalços tocavam a grama verde. O vento frio tocava minha pele e fazia meus cabelos ruivos dançarem. Eu parecia perdido e quando olhava para o horizonte procurando por qualquer sinal de ajuda só encontrava um vasto céu azul com nuvens brancas ondulantes.

Depois de muito andar eu finalmente encontrei algo diferente...

Era uma casa.

Ela estava lá, simplesmente existindo no meio do nada. Parecia quase... errado ela estar lá.

A casa tinha um tom de amarelo claro com linhas brancas verticais pintadas nas paredes e seu formato era retangular. Havia uma varanda e na lateral uma passagem onde deveria estar um portão mas só tinha uma pequena escada que levava até a varanda. E o detalhe mais estranho... ao invés de grades sob o alpendre da varanda — havia na verdade uma cortina feita de linhas finas que estavam cobertas por pompons coloridos nas cores rosa e azul.

A casa parecia me convidar para entrar. Então eu caminhava até lá e subia os poucos degraus da escada. Quando eu finalmente chegava na varanda eu via de relance a sala que contava com uma televisão antiga e outros móveis vintage. Eu me aproximava lentamente, sentindo uma mistura de esperança, curiosidade e hesitação. Então eu ouvia o som de alguém se aproximando, meu coração acelerava e eu... eu acordava.

Por muito tempo eu vi esse pesadelo como algo inocente.

Não me incomodava o fato de ele nunca escapar da minha mente e surgir em momentos importunos.

Era só um sonho esquisito e marcante devido aos elementos únicos que o contemplavam. Eu achava que esses elementos marcantes e até icônicos eram os responsáveis por fazer esse sonho se perpetuar em minha mente.

Mas recentemente eu descobri que eu estava enganado, totalmente enganado.

As coisas eram muito mais complexas do que eu poderia imaginar.

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u/gioreoli — 9 days ago

Babsi

O silêncio matinal tomava conta da cozinha, sendo periodicamente interrompido pelo som dos talheres e do farfalhar do jornal.

— Que horror. —  Minha mãe falou de repente, seu rosto ainda escondido atrás do papel.

— O que foi, querida? —  Meu pai questionou, olhando confuso para ela, enquanto deixava sua xícara sobre a mesa.

— Todos esses desaparecimentos… —  Ela suspirou, abaixando o jornal. — Outra garota sumiu essa noite, Teddy. Dessa vez foi a Phoebe, filha da Marilyn.

Meu pai olhou com pesar.

Então minha mãe desviou seu olhar para mim.

— As coisas estão difíceis, filho. Você precisa prestar atenção na Beverly, não a deixe sozinha, ok?

Aquilo me surpreendeu. Beverly é minha melhor amiga desde a infância, é uma garota esperta, aventureira e muito amada pela minha família.

Embora a pequena cidade onde vivemos esteja sendo assombrada por estranhos desaparecimentos de garotas, nunca, nem em meus piores pesadelos, consegui imaginar Beverly sendo atingida por isso. E essa possibilidade fez meu coração afundar.

— Claro, mãe.

De repente, o som da campainha tocando quebrou a tensão. 

Uma voz animada ecoou do lado de fora da casa, chamando por mim.

Era Beverly.

Me levantei rapidamente, agarrando minha mochila que estava no chão.

— Tchau mãe, tchau pai!

Em seguida corri até a porta da frente e assim que a abri me deparei com Beverly.

Ela usava um moletom listrado. Seus cabelos volumosos caíam sobre seus ombros. E ela tinha um enorme sorriso estampado no rosto.

— Oi, Oliver!

— Você parece feliz hoje. O que aconteceu?

— Você não vai acreditar!

— O que aconteceu?

— Um amigo meu encontrou uma livraria de livros usados, e nossa, ele disse que tem muita coisa legal lá! — Ela falou empolgada, enquanto caminhávamos pela vizinhança.

E não era de se esperar menos empolgação por parte de Beverly. Ela sempre foi apaixonada por antiguidades e livros — principalmente se eles fossem de terror.

A paixão de Beverly por terror era tão grande que praticamente ninguém a chamava por seu nome real, que por sinal nunca foi Beverly. Ela usava esse “apelido” por ser fascinada por It, de Stephen King.

— E onde fica isso? — Questionei.

— Naquele lugar que parece um condomínio fechado, mas não é. Sabe?

— Lógico que sei. A gente praticamente mora em uma lata de sardinhas.

Beverly riu.

— Você vai passar comigo lá depois da aula, né?

— E eu tenho escolha? — Falei, sarcástico.

— Lógico que não!

Assim que o sinal tocou anunciando o fim das aulas, Beverly surgiu ao meu lado e praticamente me puxou com ela.

E desse modo, nós batemos em retirada para a tal livraria.

Chegamos no lugar que realmente parecia um condomínio fechado, mas era apenas um conjunto habitacional, visto que não havia uma portaria, mas sim um grande portão enferrujado por onde qualquer pessoa poderia passar.

Passamos por esse portão e começamos a caminhar pelas ruas do lugar.

Um canteiro central dividia as ruas. E as casas grandes —  algumas com paredes mofadas —  se estendiam de forma imponente nas laterais do conjunto.

— Como você sabe qual dessas casas tem a livraria? Elas parecem todas iguais.

— Calma bonitão. — Beverly disse se virando para mim, seus cabelos dançavam com o vento. —  Nós não vamos nos perder dentro de um conjunto habitacional!

— Eu sei, mas também não me parece uma boa ideia ficar andando em círculos dentro desse lugar, ainda mais porque, não sei se a senhora percebeu, mas parece que vai cair uma tempestade daquelas. — Falei apontando para o céu.

Beverly olhou para cima, seus olhos castanhos encontrando o céu cinza com nuvens densas acima de nossas cabeças.

— É. Mas até onde eu sei, nós não somos feitos de sal e nem de açúcar.

Ri sem humor, mas confesso que achei realmente engraçado.

— Ali! É aquela! — Beverly falou de repente.

Ela me puxou com ela em direção a uma casa amarela grande e cheia de janelas.

Subimos uma pequena escada e entramos na varanda da casa.

Beverly ficou na ponta do pé e tocou a campainha próxima da porta.

Em poucos segundos, a porta marrom se abriu, revelando um homem que aparentava ter uns trinta anos de idade. Ele era alto, tinha cabelos loiros na altura do queixo e sobrancelhas marcantes.

Ele olhou confuso para nós.

— Olá. — Beverly cumprimentou. — É aqui a livraria de livros usados?

— Sim.

Minha amiga sorriu.

— Podemos dar uma olhada?

— Claro! Por que não? — O homem respondeu com um sorriso.

Ele abriu caminho para que nós passássemos e Bev mais uma vez puxou minha mão, me levando com ela para dentro da casa.

O dono da casa fechou a porta e voltou a olhar para nós.

— Os livros ficam ali. — Ele apontou na direção do corredor.

Beverly parecia uma criança prestes a entrar em um parque de diversões, já eu estava inquieto por alguma razão que eu não conseguia identificar.

Meus olhos passearam pelo cômodo em que estávamos. Era a sala. Eu soube disso, pois havia um sofá ali, próximo da janela que estava coberta por uma fina cortina branca. 

As paredes amarelas estavam levemente descascadas e o chão e a mesinha de centro estavam repletos de livros.

— Obrigada senhor, prometo que seremos breves. — Beverly falou.

— Que isso, não precisam ter pressa. — O homem respondeu.

Meu olhar voltou para ele e eu notei como seu sorriso era estranho e fazia um péssimo contraste com aquelas sobrancelhas marcantes. Ele parecia o Jack do filme O Iluminado.

— Ei. — A voz de Beverly me puxou para fora de meus devaneios. — Vai ficar parado aí?

— N-não. — Respondi indo atrás dela.

Seguimos pelo corredor, o piso de tacos abaixo dos nossos pés rangia e o cheiro de mofo misturado com café recém passado começava a me atingir.

Havia algumas portas no corredor, mas só uma delas estava aberta e era lá que os livros estavam.

Bev praticamente saltou em direção às estantes.

Enquanto isso, eu olhei ao redor.

Estávamos em um quarto. E me soou estranho como aquele homem havia transformado sua casa em uma livraria que podia ser visitada por qualquer um.

Beverly soltou um arquejo de surpresa de repente. Me virei para ela automaticamente e a vi puxando um livro para fora da estante.

— Não acredito. — Ela falou olhando para o livro que estava em suas mãos.

Seus olhos pareciam duas bolas de cristal.

— O que foi? — Perguntei.

— Eu acabei de achar aquela versão super rara de The King in Yellow, de 1895! — Ela respondeu desviando seu olhar encantado para mim.

— Você vai comprar?

Ela virou o livro e sua expressão de encanto deu lugar a frustração.

— Bev?

— É muito caro. Mas eu preciso disso. Voltamos aqui outro dia. — Ela falou colocando o livro de volta na prateleira.

Não pude evitar que uma pequena risada escapasse de meus lábios quando vi que ela praticamente escondeu o livro atrás dos outros, uma forma de garantir que ninguém além dela o encontrasse.

— Que foi? Ninguém além de mim pode comprar esse livro!

— Eu não disse nada!

Ela riu e caminhou na minha direção.

— Vamos?

— Sim.

Voltamos ao corredor e paramos ao mesmo tempo ao notar que outra porta estava entreaberta.

Bev e eu nos entreolhamos.

E eu sabia bem que ela queria descobrir o que havia ali.

Por mais curioso que eu estivesse, sentia que era melhor ignorar aquilo, mas quando olhei Bev já estava perto da porta.

Avancei em direção a ela e parei ao seu lado.

Uma das mãos de Bev tocou a porta, a empurrando levemente. O ruído pareceu ensurdecedor.

Vi os olhos de Beverly se arregalaram, mas antes que a porta se abrisse por completo, o homem surgiu de repente e puxou a maçaneta com força.

Agora ele já não fazia esforço para parecer simpático, sua expressão era totalmente carrancuda.

— Desculpe senhor, minha amiga achou que havia mais livros. — Tentei explicar, com a voz trêmula.

Beverly parecia congelada.

— A-aquilo eram bonecas? — Ela perguntou de repente, sua voz estranhamente fraca, como se algo a tivesse assustado.

— Sim. Mas ainda não estão prontas.

A expressão de Beverly pareceu mais suave e pude jurar que um suspiro de alívio lhe escapara pelos lábios.

— Não há mais nada para ver aqui. Vocês já podem ir embora. — O homem disse de maneira ríspida.

Fiquei desconfortável com a forma como o homem que a alguns minutos nos recebia de braços abertos, agora nos expulsava.

E fiquei ainda mais desconfortável com a forma que ele olhava para nós, seus olhos azuis eram frios como gelo.

— Sim, senhor… já estávamos de saída.

Dessa vez, eu que agarrei a mão de Beverly e a puxei comigo para fora daquela casa.

No dia seguinte, Beverly passou na minha casa como de costume e fomos para a escola.

Na saída ela veio ao meu encontro novamente, sorridente.

— E aí? O que aconteceu?

— Adivinha!

— Não faço a menor ideia. — Dei de ombros.

— Meu pai me deu o dinheiro para eu comprar aquela versão rara de The King in Yellow! Você vai comigo, né?

— Foi mal, Bev. Combinei de ir no fliperama com os caras hoje.

— Não acredito que você vai ser tão chato assim. Não custa nada você ir comigo.

Ela parecia realmente chateada.

Suspirei.

— Eu não vou voltar lá. E você também não deveria. Olha como aquele cara nos expulsou de lá ontem! E aquele lugar me dá arrepios.

Ela riu de incredulidade.

— Você tá com medo? Fala sério. Se você não quer ir comigo, tudo bem, Oliver. Mas não vem inventar desculpas sem sentido!

— Tá, Beverly. Se você acha que estou inventando desculpas, que seja. Eu não vou voltar lá e você deveria parar de ser tão mimada e aceitar isso!

Ela olhou para mim por alguns segundos, desacreditada, antes de finalmente responder:

— Divirta-se no fliperama! — Falou com a voz firme, olhando diretamente nos meus olhos.

Havia uma tempestade inteira dentro de seus olhos castanhos. Confesso que aquilo fez eu me arrepender das minhas palavras.

Mas ela foi embora, enquanto eu não abri a boca sequer por um segundo para chamar seu nome.

E fui para aquele maldito fliperama.

Na manhã seguinte, Beverly não apareceu na minha porta.

Imaginei que ela ainda estivesse com raiva e fui sozinho para a escola.

Na escola fui surpreendido mais uma vez.

Bev não estava em lugar algum, o que era estranho, já que ela não era de faltar. Ela costumava ir até mesmo quando estava doente.

Ela estudava em outra sala e eu decidi não ir atrás dela, em parte porque tinha orgulho demais para fazer isso e também por pensar que ela não queria falar comigo.

As aulas naquela manhã pareceram durar uma eternidade e eu passei cada um dos minutos remoendo minha briga com Beverly. Em determinado momento, concluí que não queria continuar sem falar com ela e decidi que iria atrás dela para me desculpar.

Então, assim que chegou a hora do intervalo, eu rapidamente saí da sala e comecei a procurar por Bev pelos corredores.

Não a encontrei, mas encontrei Austin, um amigo que estudava na mesma sala que ela.

— Austin! Você viu a Bev? Não estou encontrando ela.

Ele olhou para mim com o cenho franzido.

— Não, cara… ela não veio.

Senti meu coração bater mais forte e me perguntei se as palavras que havia dito na tarde anterior haviam a afetado tanto.

— Será que ela tá bem? Ela nunca falta. — Austin perguntou.

— Eu… eu não sei. Nós brigamos feio ontem.

— Eita. Deve ter sido bem sério, pra ela faltar.

— É… foi. Acho que vou passar na casa dela depois da aula, você pode me acompanhar? Não sei se quero enfrentar aquela fera sozinho. — Falei, tentando quebrar a tensão.

Austin riu.

— Beleza, vou com você.

Durante o caminho até a casa de Beverly, meu nervosismo começou a crescer.

Austin fazia piadas como sempre e eu mal conseguia rir.

Imaginei que estava nervoso por estar prestes a conversar com Bev depois da nossa briga.

Em poucos minutos chegamos na frente da casa dela.

Austin deu o primeiro passo em direção à porta, como se soubesse exatamente o que deveria ser feito.

— Vou tocar a campainha, mas saiba que não posso pedir desculpas por você. — Ele disse sarcástico.

Ri fraco e continuei parado atrás de Austin, enquanto o mesmo estendia o braço na direção da campainha.

Ele tocou uma vez.

Depois outra.

E outra.

Mas ninguém apareceu.

— Os pais dela não estão em casa? — Austin perguntou.

— N-não… eles… eles viajaram há algumas semanas.

De súbito fui atingido pela preocupação que eu buscava despistar.

Austin deve ter percebido pelo meu tom de voz.

— Relaxa, cara. Ela deve ter saído. Depois você volta aqui e fala com ela.

Todos os piores cenários rondavam minha mente, enquanto eu tentava demonstrar normalidade diante do meu amigo.

— Oliver? Você tá bem? — Austin perguntou com o cenho franzido.

— C-claro que sim… você tá certo.

— Ela vai te desculpar, cara. Não precisa ficar tão nervoso.

Respirei fundo, tentando dispersar a crise de ansiedade que começava a me dominar.

— Sim. Agora… vamos pra casa.

Austin assentiu e nós saímos da varanda da casa de Beverly.

Meus movimentos pareciam letárgicos e minhas mãos tremiam. Andei atrás de Austin na intenção de disfarçar.

Paramos na calçada, meu amigo ainda me olhava desconfiado.

Seus olhos pareciam ver através do meu corpo de vidro.

E eu não queria que ele soubesse que… algo estava errado.

— Falou, cara. Obrigado… por ter vindo comigo.

— Falou. Quando tiver notícias da Beverly, me liga, ok?

Assenti e Austin finalmente virou as costas.

Vi o mesmo sumir no horizonte enquanto eu respirava fundo.

Meu olhar foi direcionado pra minha casa do outro lado da rua e depois… pra casa rosa de Bev, bem na minha frente.

Tentei buscar explicações para seu sumiço repentino.

Mas… só consegui me lembrar do momento que ela me disse que iria naquela livraria.

E era pra lá que eu deveria ir se quisesse alguma pista.

Dei meus primeiros passos na direção oposta da minha casa.

Os passos hesitantes não demoraram a se tornar uma caminhada frenética.

Eu estava tão nervoso que precisava me concentrar integralmente em cada movimento meu, caso contrário, acabaria caindo.

Não demorou para eu me ver diante do grande portão enferrujado do conjunto habitacional.

Meu braço trêmulo se estendeu, tocando o metal gelado.

O portão se abriu em um ruído incômodo e eu avancei para dentro.

Lá dentro, fiz o mesmo trajeto que outrora fiz com Beverly. E dessa vez encontrei a casa amarela com facilidade, já que a conhecia bem.

Subi os degraus e me coloquei diante da porta.

Assim que toquei a campainha e ouvi o som da mesma ecoando do lado de dentro, fui atingido por uma pontada de consciência.

O que exatamente pretendo fazer aqui?

Mas, antes que eu pudesse responder minha própria pergunta, vi a porta se abrir e dela surgiu aquele mesmo homem, que dessa vez não se esforçava para parecer simpático.

Dolorosos segundos de puro silêncio se seguiram, enquanto ele me fitava com aquele olhar sombrio e eu sentia meu coração prestes a saltar do peito.

— Posso ajudar? — Ele finalmente perguntou franzindo o cenho.

Pensei em simplesmente perguntar se minha amiga havia passado por ali, mas algo me dizia que eu devia entrar e investigar por conta própria.

— S-sim, senhor. Eu gostaria de ver os… os livros!

Sua expressão suavizou e ele esboçou um sorriso sem mostrar os dentes.

— Entre. — Ele disse abrindo espaço e estendendo seu braço na direção da sala.

Passei por ele e observei o ambiente enquanto o homem fechava a porta atrás de nós.

— Bom, você sabe onde ficam os livros. Fique à vontade, eu estarei na cozinha.

Assenti e comecei a ir na direção do corredor, enquanto o homem foi para a cozinha.

Tudo parecia exatamente igual.

Até o mesmo cheiro de café recém passado.

Mas…

Percebe que eu disse… parecia? 

Havia algo que eu não teria percebido se não estivesse prestando muita atenção.

Tinha algumas pequenas manchas amarronzadas na parte inferior da parede amarela. Eram gotas de alguma coisa.

Uma ideia horrível atravessou minha mente e eu senti meu coração bater mais rápido. Mas, logo encontrei uma explicação plausível para aquilo.

Devia ser café.

Tinha que ser café.

Segui meu caminho pelo corredor e encontrei o quarto dos livros.

Eu precisava ver se o livro que Beverly queria ainda estava lá. Para isso, deveria procurar por ele no lugar que ela havia escondido.

Se o livro estivesse lá, significaria que ela nem chegou a ir à livraria.

Se não estivesse… bom… ficaria mais difícil para descobrir o que realmente aconteceu.

Entrei no quarto e soltei um suspiro, olhando ao redor.

Eu não lembrava exatamente onde ela havia o escondido.

Imaginei que fosse em uma estante específica e dei o primeiro passo em direção a ela, mas… meus pés tocaram algo.

Quando olhei para o chão vi que era… o maldito The King in Yellow.

Me abaixei, pegando o livro e me levantei com ele em mãos.

Meus olhos não podiam acreditar no que eu estava vendo.

Era um livro raro, não poderia haver mais de um. Bev havia o escondido, então como ele poderia estar jogado no chão daquela forma?

Então eu notei algo que me deixou ainda mais tonto do que eu já estava.

Uma mancha…

Uma mancha vermelha na capa.

Senti meu coração bater mais forte e a sensação de ter me metido numa fria me dominou.

Balancei a cabeça em negação e de modo automático levei meu dedo até a mancha e raspei com a unha, esperando que fosse parte do desenho da capa.

Mas não era.

Senti minha cabeça girando com as mil possibilidades terríveis que surgiram e cambaleei para fora do quarto, pronto para questionar aquele homem sobre tudo aquilo.

Mas antes que eu pudesse chegar até ele, algo me chamou mais atenção.

A porta daquele quarto que ele não deixou que Beverly e eu entrássemos… estava entreaberta.

Caminhei até lá e empurrei a porta ruidosa enquanto olhava para o fim do corredor, esperando que aquele homem surgisse para impedir.

Mas ele não apareceu.

Acho que… acho que eu nem queria entrar lá, mas algo dizia que eu deveria e o meu corpo só obedecia.

Assim que entrei e tive a visão completa do cômodo…

Senti vontade de gritar com o que vi, mas nada saiu.

— Q-que porra é essa… — Sussurrei.

O quarto estava repleto de… bonecas.

Mas… elas não eram realmente bonecas.

Eram pessoas, pessoas transformadas em aberrações.

E elas eram praticamente irreconhecíveis.

Suas cabeças estavam cobertas por algo que parecia cera, mas o produto não era capaz de esconder a decomposição ou suas expressões de sofrimento.

Algumas estavam mais decompostas que outras, o sangue seco emoldurando suas faces desumanas, os olhos completamente sem vida olhando diretamente para mim e seus cabelos secos caindo sobre os ombros de plástico cobertos por vestidos floridos.

O cheiro de morte e podridão me fez ter vontade de vomitar.

Mas antes que eu fizesse isso, meus olhos encontraram os dela… e eu senti meu coração afundar.

O livro escorregou das minhas mãos produzindo um baque surdo ao tocar o chão e eu cambaleei para a frente, para mais perto dela, esperando que de alguma forma aquela imagem se desfizesse e fosse tudo um pesadelo.

— Babsi.

Mal notei quando seu nome verdadeiro escapou pelos meus lábios.

Dei um passo para trás, sentindo as lágrimas caindo de meus olhos.

— N-não… não… NÃO!

Eu podia sentir o horror em cada extremidade do meu corpo, mas ainda assim, não era capaz de acreditar que tudo aquilo era real.

Estava entorpecido quando o som de passos pesados no corredor cortou aquele silêncio doloroso, então não fiz nada além de ficar paralisado no meio de todo aquele caos, sentindo cada gota de dor e culpa transbordando dentro de mim.

E quando a porta finalmente se abriu, produzindo um grunhido moribundo, eu não ousei me virar para trás, não ousei olhar para ele.

— Eu disse para não vir aqui.

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u/gioreoli — 10 days ago

Babsi

O silêncio matinal tomava conta da cozinha, sendo periodicamente interrompido pelo som dos talheres e do farfalhar do jornal.

— Que horror. —  Minha mãe falou de repente, seu rosto ainda escondido atrás do papel.

— O que foi, querida? —  Meu pai questionou, olhando confuso para ela, enquanto deixava sua xícara sobre a mesa.

— Todos esses desaparecimentos… —  Ela suspirou, abaixando o jornal. — Outra garota sumiu essa noite, Teddy. Dessa vez foi a Phoebe, filha da Marilyn.

Meu pai olhou com pesar.

Então minha mãe desviou seu olhar para mim.

— As coisas estão difíceis, filho. Você precisa prestar atenção na Beverly, não a deixe sozinha, ok?

Aquilo me surpreendeu. Beverly é minha melhor amiga desde a infância, é uma garota esperta, aventureira e muito amada pela minha família.

Embora a pequena cidade onde vivemos esteja sendo assombrada por estranhos desaparecimentos de garotas, nunca, nem em meus piores pesadelos, consegui imaginar Beverly sendo atingida por isso. E essa possibilidade fez meu coração afundar.

— Claro, mãe.

De repente, o som da campainha tocando quebrou a tensão. 

Uma voz animada ecoou do lado de fora da casa, chamando por mim.

Era Beverly.

Me levantei rapidamente, agarrando minha mochila que estava no chão.

— Tchau mãe, tchau pai!

Em seguida corri até a porta da frente e assim que a abri me deparei com Beverly.

Ela usava um moletom listrado. Seus cabelos volumosos caíam sobre seus ombros. E ela tinha um enorme sorriso estampado no rosto.

— Oi, Oliver!

— Você parece feliz hoje. O que aconteceu?

— Você não vai acreditar!

— O que aconteceu?

— Um amigo meu encontrou uma livraria de livros usados, e nossa, ele disse que tem muita coisa legal lá! — Ela falou empolgada, enquanto caminhávamos pela vizinhança.

E não era de se esperar menos empolgação por parte de Beverly. Ela sempre foi apaixonada por antiguidades e livros — principalmente se eles fossem de terror.

A paixão de Beverly por terror era tão grande que praticamente ninguém a chamava por seu nome real, que por sinal nunca foi Beverly. Ela usava esse “apelido” por ser fascinada por It, de Stephen King.

— E onde fica isso? — Questionei.

— Naquele lugar que parece um condomínio fechado, mas não é. Sabe?

— Lógico que sei. A gente praticamente mora em uma lata de sardinhas.

Beverly riu.

— Você vai passar comigo lá depois da aula, né?

— E eu tenho escolha? — Falei, sarcástico.

— Lógico que não!

Assim que o sinal tocou anunciando o fim das aulas, Beverly surgiu ao meu lado e praticamente me puxou com ela.

E desse modo, nós batemos em retirada para a tal livraria.

Chegamos no lugar que realmente parecia um condomínio fechado, mas era apenas um conjunto habitacional, visto que não havia uma portaria, mas sim um grande portão enferrujado por onde qualquer pessoa poderia passar.

Passamos por esse portão e começamos a caminhar pelas ruas do lugar.

Um canteiro central dividia as ruas. E as casas grandes —  algumas com paredes mofadas —  se estendiam de forma imponente nas laterais do conjunto.

— Como você sabe qual dessas casas tem a livraria? Elas parecem todas iguais.

— Calma bonitão. — Beverly disse se virando para mim, seus cabelos dançavam com o vento. —  Nós não vamos nos perder dentro de um conjunto habitacional!

— Eu sei, mas também não me parece uma boa ideia ficar andando em círculos dentro desse lugar, ainda mais porque, não sei se a senhora percebeu, mas parece que vai cair uma tempestade daquelas. — Falei apontando para o céu.

Beverly olhou para cima, seus olhos castanhos encontrando o céu cinza com nuvens densas acima de nossas cabeças.

— É. Mas até onde eu sei, nós não somos feitos de sal e nem de açúcar.

Ri sem humor, mas confesso que achei realmente engraçado.

— Ali! É aquela! — Beverly falou de repente.

Ela me puxou com ela em direção a uma casa amarela grande e cheia de janelas.

Subimos uma pequena escada e entramos na varanda da casa.

Beverly ficou na ponta do pé e tocou a campainha próxima da porta.

Em poucos segundos, a porta marrom se abriu, revelando um homem que aparentava ter uns trinta anos de idade. Ele era alto, tinha cabelos loiros na altura do queixo e sobrancelhas marcantes.

Ele olhou confuso para nós.

— Olá. — Beverly cumprimentou. — É aqui a livraria de livros usados?

— Sim.

Minha amiga sorriu.

— Podemos dar uma olhada?

— Claro! Por que não? — O homem respondeu com um sorriso.

Ele abriu caminho para que nós passássemos e Bev mais uma vez puxou minha mão, me levando com ela para dentro da casa.

O dono da casa fechou a porta e voltou a olhar para nós.

— Os livros ficam ali. — Ele apontou na direção do corredor.

Beverly parecia uma criança prestes a entrar em um parque de diversões, já eu estava inquieto por alguma razão que eu não conseguia identificar.

Meus olhos passearam pelo cômodo em que estávamos. Era a sala. Eu soube disso, pois havia um sofá ali, próximo da janela que estava coberta por uma fina cortina branca. 

As paredes amarelas estavam levemente descascadas e o chão e a mesinha de centro estavam repletos de livros.

— Obrigada senhor, prometo que seremos breves. — Beverly falou.

— Que isso, não precisam ter pressa. — O homem respondeu.

Meu olhar voltou para ele e eu notei como seu sorriso era estranho e fazia um péssimo contraste com aquelas sobrancelhas marcantes. Ele parecia o Jack do filme O Iluminado.

— Ei. — A voz de Beverly me puxou para fora de meus devaneios. — Vai ficar parado aí?

— N-não. — Respondi indo atrás dela.

Seguimos pelo corredor, o piso de tacos abaixo dos nossos pés rangia e o cheiro de mofo misturado com café recém passado começava a me atingir.

Havia algumas portas no corredor, mas só uma delas estava aberta e era lá que os livros estavam.

Bev praticamente saltou em direção às estantes.

Enquanto isso, eu olhei ao redor.

Estávamos em um quarto. E me soou estranho como aquele homem havia transformado sua casa em uma livraria que podia ser visitada por qualquer um.

Beverly soltou um arquejo de surpresa de repente. Me virei para ela automaticamente e a vi puxando um livro para fora da estante.

— Não acredito. — Ela falou olhando para o livro que estava em suas mãos.

Seus olhos pareciam duas bolas de cristal.

— O que foi? — Perguntei.

— Eu acabei de achar aquela versão super rara de The King in Yellow, de 1895! — Ela respondeu desviando seu olhar encantado para mim.

— Você vai comprar?

Ela virou o livro e sua expressão de encanto deu lugar a frustração.

— Bev?

— É muito caro. Mas eu preciso disso. Voltamos aqui outro dia. — Ela falou colocando o livro de volta na prateleira.

Não pude evitar que uma pequena risada escapasse de meus lábios quando vi que ela praticamente escondeu o livro atrás dos outros, uma forma de garantir que ninguém além dela o encontrasse.

— Que foi? Ninguém além de mim pode comprar esse livro!

— Eu não disse nada!

Ela riu e caminhou na minha direção.

— Vamos?

— Sim.

Voltamos ao corredor e paramos ao mesmo tempo ao notar que outra porta estava entreaberta.

Bev e eu nos entreolhamos.

E eu sabia bem que ela queria descobrir o que havia ali.

Por mais curioso que eu estivesse, sentia que era melhor ignorar aquilo, mas quando olhei Bev já estava perto da porta.

Avancei em direção a ela e parei ao seu lado.

Uma das mãos de Bev tocou a porta, a empurrando levemente. O ruído pareceu ensurdecedor.

Vi os olhos de Beverly se arregalaram, mas antes que a porta se abrisse por completo, o homem surgiu de repente e puxou a maçaneta com força.

Agora ele já não fazia esforço para parecer simpático, sua expressão era totalmente carrancuda.

— Desculpe senhor, minha amiga achou que havia mais livros. — Tentei explicar, com a voz trêmula.

Beverly parecia congelada.

— A-aquilo eram bonecas? — Ela perguntou de repente, sua voz estranhamente fraca, como se algo a tivesse assustado.

— Sim. Mas ainda não estão prontas.

A expressão de Beverly pareceu mais suave e pude jurar que um suspiro de alívio lhe escapara pelos lábios.

— Não há mais nada para ver aqui. Vocês já podem ir embora. — O homem disse de maneira ríspida.

Fiquei desconfortável com a forma como o homem que a alguns minutos nos recebia de braços abertos, agora nos expulsava.

E fiquei ainda mais desconfortável com a forma que ele olhava para nós, seus olhos azuis eram frios como gelo.

— Sim, senhor… já estávamos de saída.

Dessa vez, eu que agarrei a mão de Beverly e a puxei comigo para fora daquela casa.

No dia seguinte, Beverly passou na minha casa como de costume e fomos para a escola.

Na saída ela veio ao meu encontro novamente, sorridente.

— E aí? O que aconteceu?

— Adivinha!

— Não faço a menor ideia. — Dei de ombros.

— Meu pai me deu o dinheiro para eu comprar aquela versão rara de The King in Yellow! Você vai comigo, né?

— Foi mal, Bev. Combinei de ir no fliperama com os caras hoje.

— Não acredito que você vai ser tão chato assim. Não custa nada você ir comigo.

Ela parecia realmente chateada.

Suspirei.

— Eu não vou voltar lá. E você também não deveria. Olha como aquele cara nos expulsou de lá ontem! E aquele lugar me dá arrepios.

Ela riu de incredulidade.

— Você tá com medo? Fala sério. Se você não quer ir comigo, tudo bem, Oliver. Mas não vem inventar desculpas sem sentido!

— Tá, Beverly. Se você acha que estou inventando desculpas, que seja. Eu não vou voltar lá e você deveria parar de ser tão mimada e aceitar isso!

Ela olhou para mim por alguns segundos, desacreditada, antes de finalmente responder:

— Divirta-se no fliperama! — Falou com a voz firme, olhando diretamente nos meus olhos.

Havia uma tempestade inteira dentro de seus olhos castanhos. Confesso que aquilo fez eu me arrepender das minhas palavras.

Mas ela foi embora, enquanto eu não abri a boca sequer por um segundo para chamar seu nome.

E fui para aquele maldito fliperama.

Na manhã seguinte, Beverly não apareceu na minha porta.

Imaginei que ela ainda estivesse com raiva e fui sozinho para a escola.

Na escola fui surpreendido mais uma vez.

Bev não estava em lugar algum, o que era estranho, já que ela não era de faltar. Ela costumava ir até mesmo quando estava doente.

Ela estudava em outra sala e eu decidi não ir atrás dela, em parte porque tinha orgulho demais para fazer isso e também por pensar que ela não queria falar comigo.

As aulas naquela manhã pareceram durar uma eternidade e eu passei cada um dos minutos remoendo minha briga com Beverly. Em determinado momento, concluí que não queria continuar sem falar com ela e decidi que iria atrás dela para me desculpar.

Então, assim que chegou a hora do intervalo, eu rapidamente saí da sala e comecei a procurar por Bev pelos corredores.

Não a encontrei, mas encontrei Austin, um amigo que estudava na mesma sala que ela.

— Austin! Você viu a Bev? Não estou encontrando ela.

Ele olhou para mim com o cenho franzido.

— Não, cara… ela não veio.

Senti meu coração bater mais forte e me perguntei se as palavras que havia dito na tarde anterior haviam a afetado tanto.

— Será que ela tá bem? Ela nunca falta. — Austin perguntou.

— Eu… eu não sei. Nós brigamos feio ontem.

— Eita. Deve ter sido bem sério, pra ela faltar.

— É… foi. Acho que vou passar na casa dela depois da aula, você pode me acompanhar? Não sei se quero enfrentar aquela fera sozinho. — Falei, tentando quebrar a tensão.

Austin riu.

— Beleza, vou com você.

Durante o caminho até a casa de Beverly, meu nervosismo começou a crescer.

Austin fazia piadas como sempre e eu mal conseguia rir.

Imaginei que estava nervoso por estar prestes a conversar com Bev depois da nossa briga.

Em poucos minutos chegamos na frente da casa dela.

Austin deu o primeiro passo em direção à porta, como se soubesse exatamente o que deveria ser feito.

— Vou tocar a campainha, mas saiba que não posso pedir desculpas por você. — Ele disse sarcástico.

Ri fraco e continuei parado atrás de Austin, enquanto o mesmo estendia o braço na direção da campainha.

Ele tocou uma vez.

Depois outra.

E outra.

Mas ninguém apareceu.

— Os pais dela não estão em casa? — Austin perguntou.

— N-não… eles… eles viajaram há algumas semanas.

De súbito fui atingido pela preocupação que eu buscava despistar.

Austin deve ter percebido pelo meu tom de voz.

— Relaxa, cara. Ela deve ter saído. Depois você volta aqui e fala com ela.

Todos os piores cenários rondavam minha mente, enquanto eu tentava demonstrar normalidade diante do meu amigo.

— Oliver? Você tá bem? — Austin perguntou com o cenho franzido.

— C-claro que sim… você tá certo.

— Ela vai te desculpar, cara. Não precisa ficar tão nervoso.

Respirei fundo, tentando dispersar a crise de ansiedade que começava a me dominar.

— Sim. Agora… vamos pra casa.

Austin assentiu e nós saímos da varanda da casa de Beverly.

Meus movimentos pareciam letárgicos e minhas mãos tremiam. Andei atrás de Austin na intenção de disfarçar.

Paramos na calçada, meu amigo ainda me olhava desconfiado.

Seus olhos pareciam ver através do meu corpo de vidro.

E eu não queria que ele soubesse que… algo estava errado.

— Falou, cara. Obrigado… por ter vindo comigo.

— Falou. Quando tiver notícias da Beverly, me liga, ok?

Assenti e Austin finalmente virou as costas.

Vi o mesmo sumir no horizonte enquanto eu respirava fundo.

Meu olhar foi direcionado pra minha casa do outro lado da rua e depois… pra casa rosa de Bev, bem na minha frente.

Tentei buscar explicações para seu sumiço repentino.

Mas… só consegui me lembrar do momento que ela me disse que iria naquela livraria.

E era pra lá que eu deveria ir se quisesse alguma pista.

Dei meus primeiros passos na direção oposta da minha casa.

Os passos hesitantes não demoraram a se tornar uma caminhada frenética.

Eu estava tão nervoso que precisava me concentrar integralmente em cada movimento meu, caso contrário, acabaria caindo.

Não demorou para eu me ver diante do grande portão enferrujado do conjunto habitacional.

Meu braço trêmulo se estendeu, tocando o metal gelado.

O portão se abriu em um ruído incômodo e eu avancei para dentro.

Lá dentro, fiz o mesmo trajeto que outrora fiz com Beverly. E dessa vez encontrei a casa amarela com facilidade, já que a conhecia bem.

Subi os degraus e me coloquei diante da porta.

Assim que toquei a campainha e ouvi o som da mesma ecoando do lado de dentro, fui atingido por uma pontada de consciência.

O que exatamente pretendo fazer aqui?

Mas, antes que eu pudesse responder minha própria pergunta, vi a porta se abrir e dela surgiu aquele mesmo homem, que dessa vez não se esforçava para parecer simpático.

Dolorosos segundos de puro silêncio se seguiram, enquanto ele me fitava com aquele olhar sombrio e eu sentia meu coração prestes a saltar do peito.

— Posso ajudar? — Ele finalmente perguntou franzindo o cenho.

Pensei em simplesmente perguntar se minha amiga havia passado por ali, mas algo me dizia que eu devia entrar e investigar por conta própria.

— S-sim, senhor. Eu gostaria de ver os… os livros!

Sua expressão suavizou e ele esboçou um sorriso sem mostrar os dentes.

— Entre. — Ele disse abrindo espaço e estendendo seu braço na direção da sala.

Passei por ele e observei o ambiente enquanto o homem fechava a porta atrás de nós.

— Bom, você sabe onde ficam os livros. Fique à vontade, eu estarei na cozinha.

Assenti e comecei a ir na direção do corredor, enquanto o homem foi para a cozinha.

Tudo parecia exatamente igual.

Até o mesmo cheiro de café recém passado.

Mas…

Percebe que eu disse… parecia? 

Havia algo que eu não teria percebido se não estivesse prestando muita atenção.

Tinha algumas pequenas manchas amarronzadas na parte inferior da parede amarela. Eram gotas de alguma coisa.

Uma ideia horrível atravessou minha mente e eu senti meu coração bater mais rápido. Mas, logo encontrei uma explicação plausível para aquilo.

Devia ser café.

Tinha que ser café.

Segui meu caminho pelo corredor e encontrei o quarto dos livros.

Eu precisava ver se o livro que Beverly queria ainda estava lá. Para isso, deveria procurar por ele no lugar que ela havia escondido.

Se o livro estivesse lá, significaria que ela nem chegou a ir à livraria.

Se não estivesse… bom… ficaria mais difícil para descobrir o que realmente aconteceu.

Entrei no quarto e soltei um suspiro, olhando ao redor.

Eu não lembrava exatamente onde ela havia o escondido.

Imaginei que fosse em uma estante específica e dei o primeiro passo em direção a ela, mas… meus pés tocaram algo.

Quando olhei para o chão vi que era… o maldito The King in Yellow.

Me abaixei, pegando o livro e me levantei com ele em mãos.

Meus olhos não podiam acreditar no que eu estava vendo.

Era um livro raro, não poderia haver mais de um. Bev havia o escondido, então como ele poderia estar jogado no chão daquela forma?

Então eu notei algo que me deixou ainda mais tonto do que eu já estava.

Uma mancha…

Uma mancha vermelha na capa.

Senti meu coração bater mais forte e a sensação de ter me metido numa fria me dominou.

Balancei a cabeça em negação e de modo automático levei meu dedo até a mancha e raspei com a unha, esperando que fosse parte do desenho da capa.

Mas não era.

Senti minha cabeça girando com as mil possibilidades terríveis que surgiram e cambaleei para fora do quarto, pronto para questionar aquele homem sobre tudo aquilo.

Mas antes que eu pudesse chegar até ele, algo me chamou mais atenção.

A porta daquele quarto que ele não deixou que Beverly e eu entrássemos… estava entreaberta.

Caminhei até lá e empurrei a porta ruidosa enquanto olhava para o fim do corredor, esperando que aquele homem surgisse para impedir.

Mas ele não apareceu.

Acho que… acho que eu nem queria entrar lá, mas algo dizia que eu deveria e o meu corpo só obedecia.

Assim que entrei e tive a visão completa do cômodo…

Senti vontade de gritar com o que vi, mas nada saiu.

— Q-que porra é essa… — Sussurrei.

O quarto estava repleto de… bonecas.

Mas… elas não eram realmente bonecas.

Eram pessoas, pessoas transformadas em aberrações.

E elas eram praticamente irreconhecíveis.

Suas cabeças estavam cobertas por algo que parecia cera, mas o produto não era capaz de esconder a decomposição ou suas expressões de sofrimento.

Algumas estavam mais decompostas que outras, o sangue seco emoldurando suas faces desumanas, os olhos completamente sem vida olhando diretamente para mim e seus cabelos secos caindo sobre os ombros de plástico cobertos por vestidos floridos.

O cheiro de morte e podridão me fez ter vontade de vomitar.

Mas antes que eu fizesse isso, meus olhos encontraram os dela… e eu senti meu coração afundar.

O livro escorregou das minhas mãos produzindo um baque surdo ao tocar o chão e eu cambaleei para a frente, para mais perto dela, esperando que de alguma forma aquela imagem se desfizesse e fosse tudo um pesadelo.

— Babsi.

Mal notei quando seu nome verdadeiro escapou pelos meus lábios.

Dei um passo para trás, sentindo as lágrimas caindo de meus olhos.

— N-não… não… NÃO!

Eu podia sentir o horror em cada extremidade do meu corpo, mas ainda assim, não era capaz de acreditar que tudo aquilo era real.

Estava entorpecido quando o som de passos pesados no corredor cortou aquele silêncio doloroso, então não fiz nada além de ficar paralisado no meio de todo aquele caos, sentindo cada gota de dor e culpa transbordando dentro de mim.

E quando a porta finalmente se abriu, produzindo um grunhido moribundo, eu não ousei me virar para trás, não ousei olhar para ele.

— Eu disse para não vir aqui.

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