Temporalidade no poema "Se Eu Morresse Amanhã!" (post longo)
Fala gente. Sou estudante de Língua Portuguesa e Literatura, e sinto falta de um espaço na internet para debater sobre o assunto e, querendo ou não, canalizar minhas ideias em texto. Não sei se esse é o espaço adequado ou se devo ir para outro sub.
A discussão que eu gostaria de fazer hoje é sobre o poema "Se Eu Morresse Amanhã", de Álvares de Azevedo, publicado no livro póstumo "A Lira dos Vinte Anos", focando na temporalidade do poema. Esse texto é um dos mais conhecidos, mas para aqueles que ainda não conhecem, reproduzo aqui na íntegra:
SE EU MORRESSE AMANHÃ!
Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!
Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!
Que sol! que céu azul! que doce n'alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!
Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!
Esse poema é utilizado como exemplo paradigmático da melancolia da segunda fase do Romantismo, e diz-se ter sido composto nos últimos dias de vida do poeta, quando já havia se acidentado e infectado com tuberculose. Por seu tema, também afirmam os biógrafos ter sido lido durante seu velório.
O texto é bastante transparente, no sentido de que não é preciso decodificar muitas imagens. A transmissão é bem transparente quanto ao tema, mas desde o ensino médio os verbos utilizados nesse poema tem me despertado uma curiosidade imensa.
Observem que o poema possui uma estrutura paralelística: cada uma das estrofes possui 4 versos, os três primeiros decassílabos heroicos e o último em hexassilabo (ou heroico quebrado). Os dois primeiros versos de cada um dos quartetos são preparações para a constatação que virá nos dois próximos versos, que são sempre um período composto de uma oração principal no terceiro verso da estrofe e a oração adverbial condicional que é também o refrão. Contudo há uma estranheza na forma como essas orações são compostas, o que faz com que elas se tornem semanticamente quase paradoxais.
A formação que esperaríamos em todos as estrofes seria a que é utilizada na primeira estrofe ("Minha mãe de saudades morreria / Se eu morresse amanhã!"), isso porque o futuro do pretérito seria o semanticamente mais agradável e o que se encaixa a ideia do poema: o que viria a acontecer quando ou se uma condicional fosse cumprida. Álvares, no entanto, utiliza os verbos no pretérito mais-que-perfeito, tempo verbal que exprime não só uma ação já concluída, mas uma ação já concluída em um tempo passado ancorado, uma ação mais-que-concluída (por isso mais-que-perfeito, aliás, por conta da etimologia latina da palavra, onde o prefixo "per" denominava completude, por isso perambular é "andar por todos os lugares", o "percurso" é o curso ou caminho inteiro, e a ação "perfeita" é a feita por inteiro).
O pretérito mais-que-perfeito não estabelece condicional, nem pode a permitir, é como dizer "eu cheguei se ela estivesse em casa". Então por que Álvares utilizou o pretérito mais-que-perfeito nesse poema? Afinal, ele sabia muito bem que a estrutura mais corrente e menos estranha é a com o futuro do pretérito, já que a utilizou.
Algumas pessoas com quem discuti na universidade afirmaram que isso provavelmente se deu para que os versos coubessem na métrica utilizada por Álvares de Azevedo, o decassílabo heroico, já que a adição do hiato geraria um verso de onze sílabas. Discordo dessa afirmação por dois motivos: o primeiro é de que nada é por acaso, nada é feito apenas para bater a métrica já que o objeto literário é contido em si mesmo, e se foi composto com essa forma verbal é assim que deve ser analisado; o segundo é por um caráter formal e técnico, já que Álvares poderia ter simplesmente colocado o sujeito em elipse ("Perderia chorando essas coroas" ao invés de "Eu perdera chorando essas coroas", ou "Não bateria tanto amor no peito" ao invés de "Não me batera tanto amor no peito"), além de outros contornos que poderiam ser utilizados no poema.
Então, amigos, por que ele utilizou essa forma verbal? Eu tenho minha hipótese, mas adoraria ouvir as de vocês: penso que isso foi feito para exibir que a condicional já estava completa. Se todas as ações desencadeadas pelo cumprimento da condição de morrer amanhã não só já estão feitas no presente, mas sim no passado, isso demonstra que não há esperança de não-morte para Álvares: todos os efeitos do falecimento (como como a perda das glórias futuras, o amor extremado pelo mundo e o emudecimento da dor) já aconteceram, o poeta já está morto no futuro.
Interessante também analisar que os únicos verbos no futuro do pretérito são associados ao sofrimento da família ("Viria ao menos fechar meus olhos minha triste irmã" e "Minha mãe de saudades morreria"), demonstrando que esses entes ainda tem esperança da não-morte, e para eles a condicional funciona.
E vocês, o que acham? Estou aberta a debates e perguntas não relacionadas ao post.