A doce amarga integralidade
Uma das coisas mais satisfatórias na medicina de família é conseguir resolver a maior parte das demandas ambulatoriais, 80% pelo que dizem, trazidas pelo paciente, independente de órgão, sistema, idade, gênero. É algo intelectualmente recompensador, mas, ao mesmo tempo é o ponto que mais me gera um amargor na especialidade.
O outro lado de resolver quase tudo é o paciente com múltiplas demandas, eufemismo para o termo pejorativo e já não recomendado "poliqueixoso". Muitos fatores contribuem para isso: anos de adoecimento orgânico e mental associado a contextos socioeconômicos contribuintes, dificuldade de acesso ao profissional, baixa autossuficiência em saúde... As demandas se acumulam mesmo. Na oportunidade de ver o médico que enxerga a pessoa como um todo, é obvio que vamos tentar sugar o máximo dele.
Hoje, por exemplo, atendi um retorno, após meses fazendo os exames necessários, de uma paciente para avaliar 3 situações diferentes e ela já trazia 3 novas situações diferentes. Como lidar com isso, na teoria, pelo menos? Técnicas de comunicação e longitudinalidade: estabelecer o que é prioritário, pactuar o que abordar nesse momento, deixar outras situações para serem abordadas e detalhadas ao longo do acompanhamento, até porque a ESF permite essa proximidade do médico com a comunidade.
Parece ótimo, mas, na vida real, para conseguir uma nova consulta comigo é pelo menos 1 mês. Pode até existir uma proximidade geográfica, mas ainda não há uma proximidade de acesso. A longitudinalidade, na prática, não pode ser exercida da forma que é idealizada.
O resultado é que o paciente se sente enrolado e, talvez, eu realmente esteja enrolando, mesmo que inconscientemente, mas porque é o que o sistema me obriga a fazer implicitamente ao estabelecer uma agenda de consultas de 15 minutos ou uma população mal dimensionada que impossibilita retornos precoces pela alta demanda. E tudo isso cansa. De fato talvez resolvamos 80% das situações em saúde, mas 1 ou 2 de cada vez. Não dá para resolver 80% do adoecimento acumulado por anos em 15 minutos.