“Menos Estado” é a verdadeira cassete dos nossos tempos — change my mind
Ouvir o Ricardo Paes Mamede falar sobre economia é como achar um oásis no deserto do fanatismo neoliberal. Finalmente alguém no espaço público que aborda a economia como o que ela é: um campo complexo, contingente e com variáveis infinitas, em vez de uma ciência exata onde duas ou três fórmulas mágicas bastam para resolver tudo.
O que não falta hoje são “peritos” que vivem a repetir chavões sobre privatizações, “flexibilização” laboral, desmantelamento do Estado, entrega de setores estratégicos aos privados... Apresentam-se como os tipos “modernos”, pragmáticos, os que estão “a preparar o país para o futuro”, mas continuam agarrados às receitas do tatcherismo/reaganismo dos anos 80. Dizem-se adeptos das discussões abertas e transparentes, mas não hesitam em catalogar como "ideológico" qualquer um que não aceite os seus pressupostos como evidências científicas.
Se achas que o futuro deve ser construído com planeamento e organização coletiva, e que é necessário intervir democraticamente na economia, és automaticamente dogmático, anacrónico, "anti-mercado". Já se acreditas religiosamente na capacidade autorreguladora dos mercados financeiros, aí és um "pragmático". Entretanto, continuam a circular em loop os mesmos chavões da "liberdade de escolha", das "reformas", da "flexibilização", sempre os mesmos independentemente dos contextos, como se fossem leis da física, e não posições ideológicas. Quanto mais a cassete roda, mais óbvio se torna quem é ideológico nesta história, no sentido mais rígido da palavra.
* Recomendo as entrevistas no Despolariza e no 45 Graus.