Eu sugeri uma coisa estranha pro barbeiro e ele aceitou por cansaço
Eu fui cortar o cabelo no fim do dia.
E quando eu digo fim do dia, eu quero dizer FIM mesmo.
A barbearia já tava naquele clima triste de encerramento. Cabelo no chão, cheiro de álcool, pano jogado no ombro da cadeira e um barbeiro com olhar de veterano de guerra.
Eu quase pedi desculpa só por entrar.
Mas já tava lá.
— Último cliente, graças a Deus — ele falou.
— Prometo não dar trabalho.
Mentira.
Dei trabalho pra caralho.
Meu cabelo simplesmente não cooperava.
Tem gente que nasce com cabelo liso, alinhado, comportado.
O meu parece que foi montado às pressas.
Tem redemoinho dos dois lados, fio crescendo torto e um pezinho que aparentemente desafiava as leis da geometria.
No começo o barbeiro tava tranquilo.
Mas conforme o corte avançava, eu percebia ele ficando lentamente irritado comigo sem eu ter feito absolutamente nada.
Ele cortava.
Olhava.
Arrumava.
Dava dois passos pra trás.
Franzia a testa.
Voltava.
Teve uma hora que ele ficou me encarando pelo espelho em silêncio absoluto.
Eu pensei:
"Pronto. Ele perdeu o cu na minha cara."
Mas não.
Era só meu cabelo dando trabalho.
Aí finalmente chegou no acabamento.
O famoso pezinho.
E ali começou o sofrimento de verdade.
Porque ele alinhava... e ficava torto.
Afastava... torto.
Tentava de novo... torto.
O homem entrou num ciclo mental perigoso.
A barbearia já tinha fechado.
Ele trancou a porta, desligou a placa luminosa e falou:
— Meu brother, eu não vou deixar você sair daqui assim.
Eu respondi:
— Ok.
Mas por dentro eu já tava pensando: "Talvez seja melhor aceitar o torto."
Só que agora aquilo tinha virado uma questão pessoal pra ele.
O barbeiro já não tava mais cortando cabelo.
Ele tava lutando contra o destino.
Aí ele falou:
— O pezinho tá muito difícil.
E eu, na maior inocência do mundo, respondi:
— Mas é porque você tá muito longe pra enxergar.
Ele me olhou estranho.
— Como assim muito longe?
— Sei lá. É uma área pequena.
Ele voltou pro espelho, tentando entender.
E foi aí que meu cérebro produziu uma idéia
Porque eu realmente achei genial naquele momento.
— Pode sentar em cima da minha cadeira. Vai ficar mais perto.
Silêncio.
O barbeiro lentamente virou a cabeça pra mim.
Depois pra cadeira.
Depois pra mim de novo.
— Mas você tá sentado nela.
— Relaxa. Ninguém tá vendo. E você não quer passar mais meia hora tentando acertar isso, né? — respondi
Ele respirou fundo.
Passou a mão no rosto.
Olhou pra porta fechada.
Olhou pro relógio.
Olhou pra própria vida.
E eu vi EXATAMENTE o momento em que o cansaço venceu a dignidade.
quando ele soltou:
— Ok... mas sem viadagem.
E aí aconteceu a pior decisão coletiva entre dois homens cansados da história da humanidade.
O barbeiro realmente veio.
Se ajeitou estranho na cadeira.
Tentou equilibrar o braço.
Ligou a máquina.
Pec tec.
Pec tec.
E nós dois fingindo MUITO que aquilo era um procedimento profissional normal.
Só que não era.
Não era normal em absolutamente nenhum contexto.
O silêncio começou a ficar pesado.
Eu olhando reto pro espelho.
Ele concentrado no acabamento como se uma bomba fosse explodir caso errasse a linha.
A máquina vibrando.
O ventilador fazendo barulho.
E a consciência dos dois tentando fugir do ambiente.
Aí aconteceu.
Uma coisa.
Uma sensação.
Um leve...
Não sei explicar.
Só sei que imediatamente o barbeiro travou.
TRAVOU.
A máquina parou no ar.
O corpo dele endureceu.
E naquele instante meu cérebro entrou em pânico porque eu percebi exatamente o que ele provavelmente tinha pensado.
Então, no desespero absoluto, eu falei:
— Desculpa, meu brother...
Silêncio.
Ele imóvel.
Aí eu piorei tudo.
— Foi sem querer.
E ele respondeu:
SEM QUERER O QUE? IRMÃO
Na mesma hora eu percebi que aquela era provavelmente a pior frase já dita numa barbearia desde a invenção da máquina zero.
O barbeiro desligou a máquina lentamente.
Ficou olhando pro espelho sem expressão nenhuma.
Eu fiquei quieto.
Ele ficou quieto.
A barbearia inteira ficou quieta.
A única coisa funcionando naquele lugar era o ventilador e o arrependimento.
Ele terminou meu corte em silêncio absoluto.
Nem olhava mais pra mim.
Quando acabou, eu levantei da cadeira parecendo um homem que acabou de voltar da guerra.
Paguei.
Agradeci.
E fui embora.
Mas eu ainda lembro da cara daquele barbeiro depois do "foi sem querer".
Porque eu tenho quase certeza que aquele homem terminou o expediente questionando todas as decisões que levaram ele até aquela profissão.