Sobreviver à bricolage
A minha esposa, num daqueles acessos de organização que costumam ignorar a minha crónica preguiça, resolveu que a biblioteca cá de casa precisava de ordem e insistiu na colocação de uma prateleira. Depois de semanas de apelos sistematicamente atirados para o fundo da minha gaveta de prioridades, cedi; como verdadeiro macho latino — um Alfa auto-proclamado, mas munido do talento manual de uma foca amestrada —, assumi o desafio de entrar numa aventura para a qual não tenho o mínimo jeito. A coisa prometia simplicidade: um pedaço de contraplacado, quatro parafusos e um manual sem palavras, pensado para ser entendido por qualquer ser com polegar oponível, mas, meia hora depois, a sala parecia o cenário de um terramoto em escala reduzida e eu tentava perceber por que razão me sobravam três cavilhas e uma peça metálica parecida com um componente de um Boeing 747.
Imbuído de uma coragem digna de nota (e de uma recusa liminar em admitir a derrota perante a minha cara-metade e um folheto ilustrado), decidi aplicar a força bruta, resultando num estalo seco, num buraco na parede que agora me permite acenar ao vizinho do lado e numa estrutura com uma inclinação de trinta graus onde, se colocar lá um livro, me arrisco a provocar uma avalanche na sala. A patroa olhou para o desastre, suspirou fundo e abanou a cabeça perante o triste espetáculo, mas eu mantive a pose de líder da alcateia e soprei para o pó com um orgulho quase poético: a prateleira não ficou nivelada e os livros vão continuar empilhados no chão... mas, caramba, pelo menos a sala ganhou uma ventilação cruzada invejável!