Memórias Póstumas de Brás Cubas, o grande romance do século 19
Tenho mais de 40 e sou um leitor habitual dos “grandes” da literatura, já li as principais obras dos grandes escritores dos últimos séculos, de Guerra e Paz do Tolstoi a Portnoy’s Complaint do P. Roth e entre eles centenas de obras que incluem de clássicos como Nabokov, Steinbeck e Dostoiévski a modernos como Murakami, Milton Hatoum, e David Foster Wallace.
Mas digo isso não para envaidecer um anônimo OP diante de anônimos redditors. Digo para situar corretamente meu espanto ao reler Memórias Póstumas de Brás Cubas após um intervalo de suas décadas desde a primeira vez que li, e constatar que é a maior obra literária mundial do século 19. Ou, pelo menos, um dos 5 ou 3 melhores livros do mundo escritos naquele período.
Memórias Póstumas só não foi aclamada mundialmente na época, e nem tem hoje o reconhecimento mundial que merecia ter, por ter sido escrita por um brasileiro e numa língua periférica da época. Mas, com total certeza, é uma obra que não deve em nada aos clássicos do período, como os Irmãos Karamazov, e ainda com larga vantagem na minha opinião, pois é uma obra bem mais divertida e moderna que a de Dostóievski.
A primeira vez que li, aos 20 anos, eu não tinha ainda o amadurecimento e experiência necessários para apreciar a obra de Machado de Assis, suas brincadeiras. E ainda não tinha a bagagem de leituras que me permitiria perceber o quanto a obra se destaca entre outros livros da mesma época. Eu li obra como quem lê um autor contemporâneo, mais um escritor acostumado ao cinismo, à ambivalência dos personagens modernos.
Mas agora, relendo, percebo a obra genial que o Machado de Assis, um gigante, criou. Os capítulos curtos, a quebra de linearidade, o diálogo franco e debochado com o leitor, a própria ideia de que obra fosse escrita por um morto que fala de um jeito franco demais sobre a mediocridade de sua vida, nenhuma obra daquela época era tão genial e audaciosa como esse livro. Nenhum livro escrito no século 19 conseguiu capturar o espírito do ser humano atual, moderno, como Machado fez com esse livro.