
Drop Point. O que a falta de paciência não faz, né?
Sabe as facas de caça, utilitátrrias ou até mesmo as EDCs que você vê em grande quantidade por aí? Muito provavelmente, a maioria tem o mesmo perfil, o drop point. Mas você sabe de onde veio esse desenho?
Esse formato só virou a preferência de quase todo caçador e cuteleiro porque um americano ranzinza perdeu a paciência com uma fila de espera nos anos 50. Bob Loveless queria uma faca do lendário Bo Randall.
O cara da loja disse que a fila de espera passava dos nove meses. Loveless não quis esperar e resolveu fazer a dele. E no processo, repensou o que uma faca de caça precisava ser e ter de acordo com suas necessidades e especificações.
Naquela época, a maioria usava facas grandes com perfil clip point, como se fossem mini-Bowies. O problema desse modelo é mais prático, o do uso no campo. Imagina: na hora de limpar a caça, aquela ponta fina virada para cima era tensa. Bastava um deslize, uma falta de atenção pro gume furar a tripa ou o estômago da caça. Aí já era: estragava a carne toda e vinha aquele cheiro maravilhoso.
A ponta que não estraga a caça
Loveless resolveu isso baixando a ponta da lâmina, fazendo o dorso descer numa curva convexa suave. A ponta desce pro eixo central da lâmina. Uma solução simples e elegante.
Fazendo isso, a dinâmica muda. Ao esfolar ou limpar, a parte de cima da ponta é arredondada e desliza por baixo do couro sem perfurar o que tá embaixo.
Sem contar que a lâmina ganha uma barriga (belly) bem gorda e curva, excelente para separar a pele da carne sem esforço e sem estragar o couro. De quebra, a ponta, por ter mais metal no dorso, aguenta muito mais pancada que uma clip point.
Quer dizer… Loveless não inventou a drop point do nada. Perfis parecidos já existiam na história, mas ele refinou o conceito e provou que uma faca de caça não precisava de dez polegadas de lâmina (uns 25 cm). A peça clássica tinha umas 3,5 polegadas de gume (mais ou menos 9 cm). Faca pequena de propósito, compacta, pra trabalhar rente à mão permitindo um controle mais fino.
Hoje em dia, a gente vê muito especialista de fórum dizendo que faca boa de sobrevivência tem que ter 6 mm de espessura e servir pra derrubar árvore. Mas a verdade é que no dia a dia, seja na oficina ou cortando um churrasco, a faca curta que corta bem e tem ponta firme é a que você mais usa. O resto é peso morto no cinto.
>Pensa aqui comigo uma coisa: quantas vezes você precisa de uma faca para trabalho bruto e quantas vezes você precisa de uma faca para abrir uma caixa, desencapar um fio, tirar um lacre...
A arte do tapered tang e os segredos de oficina
Aí vem alguns dos detalhes de execução que fazem o olho brilhar. Ele (Loveless) era obcecado por ergonomia e equilíbrio. Para deixar a faca leve na mão, ele usava a espiga afunilada (tapered tang). Ele pegava a chapa de aço e ia desbastando o cabo em ângulo, até a parte traseira ficar com 1 mm ou menos.
Quem já tentou fazer isso na lixadeira de cinta sabe o drama. Se você bobeia e pesa mais a mão de um lado, a espiga afunila torta.
Aí na hora de colar as talas de Micarta com os famosos espaçadores vermelhos (red liners) como ele fazia, fica aquela fresta horrível cheia de cola que estraga o acabamento. Tem que ter muita manha e lixar na maciota, checando toda hora no paquímetro e numa superfície plana. Ou peklo menos demarcar muito bem as linhas antes de começar o desbaste.
No desbaste, ele fazia hollow grind (desbaste côncavo) usando rodas de contato grandes, de 8 ou 10 polegadas (cerca de 20 a 25 cm de diâmetro). Isso dava um gume ultra fino, que cortava feito navalha, mas mantinha a coluna da faca grossa pra dar estrutura. Ele também usava os Loveless bolts (parafusos com bucha rosqueada), que depois de apertados eram lixados rente ao cabo, deixando duas cores de metal aparecendo.
O segredo do visual do parafuso Loveless é que ele junta metais diferentes, tipo a porca de latão e o parafuso de inox no meio. Quando você lixa tudo rente à Micarta, fica aquele desenho clássico de círculos concêntricos de duas cores, parecendo um olho de boi. É bem diferente do parafuso Corby, que é de uma cor só e, depois que você lixa a fenda, fica parecendo um pino maciço. O Loveless dá mais trabalho pra ajustar o rebaixo com a broca escalonada, mas o visual compensa demais.
Mas fica o aviso pra quem tá começando: faça todos os furos da espiga (inclusive os dos parafusos e do fiel e a maioria de todo o desbasta) antes de temperar a lâmina. Mano, acredite em mim. Eu já inventei de deixar para fazer alguns furos depois porque não ia temperar o tang (têmpera seletiva). Temperei só a parte do fio, e fui começar a furar o tang.
SUERPRESAAAAA (fdp) Mesmo não temperando o tang, a perda rápida de temperatura deu uma encruada no aço em várias partes e virou um teste de paciência. Começava o furo e a broca cantava, aí vc para pra não perder a broca. Procura outro canto pra furar. Repete.
Adote esse conselho pra evitar esse sofrimento e operda de tempo desnecessários.
E você, também prefere a drop pra uso geral ou tem outro tipo que te ponta preferida?