u/FlaBC15

Drop Point. O que a falta de paciência não faz, né?

Drop Point. O que a falta de paciência não faz, né?

Sabe as facas de caça, utilitátrrias ou até mesmo as EDCs que você vê em grande quantidade por aí? Muito provavelmente, a maioria tem o mesmo perfil, o drop point. Mas você sabe de onde veio esse desenho?

Esse formato só virou a preferência de quase todo caçador e cuteleiro porque um americano ranzinza perdeu a paciência com uma fila de espera nos anos 50. Bob Loveless queria uma faca do lendário Bo Randall.

O cara da loja disse que a fila de espera passava dos nove meses. Loveless não quis esperar e resolveu fazer a dele. E no processo, repensou o que uma faca de caça precisava ser e ter de acordo com suas necessidades e especificações.

Naquela época, a maioria usava facas grandes com perfil clip point, como se fossem mini-Bowies. O problema desse modelo é mais prático, o do uso no campo. Imagina: na hora de limpar a caça, aquela ponta fina virada para cima era tensa. Bastava um deslize, uma falta de atenção pro gume furar a tripa ou o estômago da caça. Aí já era: estragava a carne toda e vinha aquele cheiro maravilhoso.

A ponta que não estraga a caça

Loveless resolveu isso baixando a ponta da lâmina, fazendo o dorso descer numa curva convexa suave. A ponta desce pro eixo central da lâmina. Uma solução simples e elegante.

Fazendo isso, a dinâmica muda. Ao esfolar ou limpar, a parte de cima da ponta é arredondada e desliza por baixo do couro sem perfurar o que tá embaixo.

Sem contar que a lâmina ganha uma barriga (belly) bem gorda e curva, excelente para separar a pele da carne sem esforço e sem estragar o couro. De quebra, a ponta, por ter mais metal no dorso, aguenta muito mais pancada que uma clip point.

Quer dizer… Loveless não inventou a drop point do nada. Perfis parecidos já existiam na história, mas ele refinou o conceito e provou que uma faca de caça não precisava de dez polegadas de lâmina (uns 25 cm). A peça clássica tinha umas 3,5 polegadas de gume (mais ou menos 9 cm). Faca pequena de propósito, compacta, pra trabalhar rente à mão permitindo um controle mais fino.

Hoje em dia, a gente vê muito especialista de fórum dizendo que faca boa de sobrevivência tem que ter 6 mm de espessura e servir pra derrubar árvore. Mas a verdade é que no dia a dia, seja na oficina ou cortando um churrasco, a faca curta que corta bem e tem ponta firme é a que você mais usa. O resto é peso morto no cinto.

>Pensa aqui comigo uma coisa: quantas vezes você precisa de uma faca para trabalho bruto e quantas vezes você precisa de uma faca para abrir uma caixa, desencapar um fio, tirar um lacre...

A arte do tapered tang e os segredos de oficina

Aí vem alguns dos detalhes de execução que fazem o olho brilhar. Ele (Loveless) era obcecado por ergonomia e equilíbrio. Para deixar a faca leve na mão, ele usava a espiga afunilada (tapered tang). Ele pegava a chapa de aço e ia desbastando o cabo em ângulo, até a parte traseira ficar com 1 mm ou menos.

Quem já tentou fazer isso na lixadeira de cinta sabe o drama. Se você bobeia e pesa mais a mão de um lado, a espiga afunila torta.

Aí na hora de colar as talas de Micarta com os famosos espaçadores vermelhos (red liners) como ele fazia, fica aquela fresta horrível cheia de cola que estraga o acabamento. Tem que ter muita manha e lixar na maciota, checando toda hora no paquímetro e numa superfície plana. Ou peklo menos demarcar muito bem as linhas antes de começar o desbaste.

No desbaste, ele fazia hollow grind (desbaste côncavo) usando rodas de contato grandes, de 8 ou 10 polegadas (cerca de 20 a 25 cm de diâmetro). Isso dava um gume ultra fino, que cortava feito navalha, mas mantinha a coluna da faca grossa pra dar estrutura. Ele também usava os Loveless bolts (parafusos com bucha rosqueada), que depois de apertados eram lixados rente ao cabo, deixando duas cores de metal aparecendo.

O segredo do visual do parafuso Loveless é que ele junta metais diferentes, tipo a porca de latão e o parafuso de inox no meio. Quando você lixa tudo rente à Micarta, fica aquele desenho clássico de círculos concêntricos de duas cores, parecendo um olho de boi. É bem diferente do parafuso Corby, que é de uma cor só e, depois que você lixa a fenda, fica parecendo um pino maciço. O Loveless dá mais trabalho pra ajustar o rebaixo com a broca escalonada, mas o visual compensa demais.

Mas fica o aviso pra quem tá começando: faça todos os furos da espiga (inclusive os dos parafusos e do fiel e a maioria de todo o desbasta) antes de temperar a lâmina. Mano, acredite em mim. Eu já inventei de deixar para fazer alguns furos depois porque não ia temperar o tang (têmpera seletiva). Temperei só a parte do fio, e fui começar a furar o tang.

SUERPRESAAAAA (fdp) Mesmo não temperando o tang, a perda rápida de temperatura deu uma encruada no aço em várias partes e virou um teste de paciência. Começava o furo e a broca cantava, aí vc para pra não perder a broca. Procura outro canto pra furar. Repete.

Adote esse conselho pra evitar esse sofrimento e operda de tempo desnecessários.

E você, também prefere a drop pra uso geral ou tem outro tipo que te ponta preferida?

u/FlaBC15 — 2 days ago

Como podemos melhorar o nosso sub?

O conteúdo está bom? Tem algo faltando que vocês gostariam de ver aqui? Sugestões e feedback são sempre bem vindos :)

reddit.com
u/FlaBC15 — 6 days ago

First knife finally finished

It's finally finished!

Handmade using only basic tools, out on the apartment balcony.

5160 steel, 22 cm from tip to the end of the handle.

Micarta handle with stainless steel pin and tube.

Crazy Horse leather sheath and a 550 Paracord lanyard.

Cold black oxide finish.

A gift for my wife.

What do you guys think?

u/FlaBC15 — 7 days ago

First knife finally finished

It's finally finished!

Handmade using only basic tools, out on the apartment balcony.

5160 steel, 22 cm from tip to the end of the handle.

Micarta handle with stainless steel pin and tube.

Crazy Horse leather sheath and a 550 Paracord lanyard.

Cold black oxide finish.

A gift for my wife.

What do you guys think?

u/FlaBC15 — 7 days ago
▲ 116 r/ArtesanatoBr+2 crossposts

Feita somente com ferramentas básicas!

Ela finalmente ficou pronta!

Feita manualmente somente com ferramentas básicas, na varanda do apartamento.

Aço 5160, 22cm da ponta ao final do cabo.

Cabo de micarta, pino e tubo em inox.

Bainha em couro crazy horse e fiel em Paracord 550.

Oxidação negra a frio

O que vcs acharam?

u/FlaBC15 — 7 days ago

Não estou conseguindo escrever

Boa noite, pessoal! Tudo bem?

Essas últimas semanas foram extremamente corridas por aqui. A empresa em que trabalho está participando de vários eventos e eu estou tendo que ir. Não tem PC e eu atendo pessoas o dia inteiro.

Também acabaram meus posts que eu fiz antes de montar o sub e eu vou ter que criar alguns novos pra ter pelo menos um por dia. Por isso, queria saber de vocês: sobre o que escrever? Mandem as suas sugestões pra mim aqui nos comentários.

Desculpem se tiverem erros de português ou digitação. Estou do celular.

Obrigado

reddit.com
u/FlaBC15 — 8 days ago

Conselhos se dá pra fazer algo.

Olá, boa tarde. Gente, eu precisava de um conselho de vocês.

Eu entrei com uma ação trabalhista que está, correndo há aproximadamente 3 anos.

Ela já passou por todas as instâncias e agora ela está em fase de execução.

O meu advogado, me deu, a garantia de que a gente não pegaria menos de 300000 reais. Acontece que, ele me falou para recusar 1 acordo que seria bem vantajoso pra mim, dizendo que se não houvesse reforma, eu teria 380.000 garantidos.

Não houve reforma.

O processo entrou em fase de execução.

Pelos cálculos do perito, saíram R$ 152.000 brutos (sem os descontos e dele). Eu tenho áudio disso gravado. Eu tenho a transcrição do áudio. Eu tenho todas as conversas de WhatsApp tanto com ele quanto a assistente dele.

E agora, não sei se dá pra fazer alguma coisa.

O advogado em si só me ignora e a última vez que me respondeu foi em novembro do ano passado. O auxiliar dele, se você faz 3 perguntas e responde meia. Não orienta, não ajuda, e eu estou completamente perdido, porque eu não sei o que fazer.

Não sei se posso processar meu advogado (se ao menos existe essa opção), se denuncio ele na OAB, o que eu faço.

Desculpa pelo teor da mensagem, é que to sem chão.

reddit.com
u/FlaBC15 — 12 days ago

Como podemos melhorar o nosso sub?

O conteúdo está bom? Tem algo faltando que vocês gostariam de ver aqui? Sugestões e feedback são sempre bem vindos :)

reddit.com
u/FlaBC15 — 13 days ago

Fala pessoal, beleza? Esses são alguns dos eventos sobre Cuterlaria no Brasil.

Eu não tenho como saber sobre todos os eventos sem a ajuda de vocês e seguindo a sugestão do u/NitroWing1500, tô pinando esse post pra que a gente possa juntos mapear os eventos que temos por região.

Abaixo, tá um levantamento inicial. Essa lista pode conter erros, já que eu busquei em eventos passados e qualquer correção é bem vinda:

Evento / Feira Datas Localidade / Complexo Sede
Feliz Knife Show (FKS) 13 a 15 de março de 2026 SOCEF, Feliz - RS
IV Feira Mineira de Cutelaria 06 e 07 de junho de 2026 Mercado Novo, Belo Horizonte - MG
7º Knife Show Curitiba 05 e 06 de julho de 2026 Antigo Cassino Ahú, Curitiba - PR
Goiânia Knife Show 12 a 14 de julho Villa Cavalcare, Goiânia - GO
Feira Nac. de Cutelaria de Sorocaba 16 e 17 de maio de 2026 Instituto Humberto de Campos, Sorocaba - SP
Salão Paulista de Cutelaria 14 e 15 de novembro de 2026 Expo Center Norte, São Paulo - SP
Salão Brasiliense de Cutelaria Tradicionalmente em Abril CTG Estância Gaúcha, Brasília - DF
Mostra de Cutelaria do Nordeste Tradicionalmente em Agosto Tambauzinho, João Pessoa - PB
Caldas Cut (Encontro Mundial) 1 a 3 de maio de 2026 Centro Cultural, Caldas da Rainha - PT
reddit.com
u/FlaBC15 — 19 days ago

A gente planeja o cabo na nossa cabeça desde o começo. Os materiais, onde vão os furos, a forma...

Mas na faca, o cabo é um dos componentes mais importantes e idealizar é diferente de trazer pro mundo físico. Então e gente precisa tomar cuidado principalmente com as medidas. E esse é o primeiro passo: medir a própria mão

Pega uma fita métrica, uma régua ou um pedaço de papel.

Fecha a mão sem o polegar e mede a largura. Essa medida, mais 1 a 2 cm, é o comprimento mínimo que o cabo precisa. A barriga fica entre o dedo médio e o anelar (faz a mão do Spock e marca no papel o vão entre os dedos).

Pra mão adulta, geralmente é algo entre entre 10 e 13 cm. 12 cm vai funbcionar muito bem para a maioria das mãos.

Se o mindinho fica pendurado pra fora, tá curto. Se o mindinho pendurado tira muita firmeza porque a força de preensão depende mais do anelar e do mindinho do que a gente imagina.

Se o cabo fica muito grande, vai escorregar durante o uso e pode machucar.

Altura vs. largura

>DICA: O cabo precisa ser mais alto do que largo. Se você serrar ele no meio e olhar de frente, o que você quer ver é um oval em pé, não deitado. Isso impede o cabo de rodar na mão quando o corte encontra resistência.

Pra faca de uso geral, eu fico entre 19 e 22 mm de largura e uns 25 a 32 mm de altura na barriga se tiver. Se for faca de cozinha pode ser mais esbelta, faca de mato precisa de mais volume. Mas essa faixa resolve a maioria.

E uma coisa que eu demorei pra perceber: a barriga do cabo (aquele ponto mais gordo na parte de baixo) não fica exatamente no centro. Quer dizer, vai perto, mas um pouco mais pra trás, alinhado com o centro da palma. Se a barriga fica muito na frente ou exatamente no meio, a mão senta numa posição meio torta e com uso prolongado começa a incomodar. Não sei se todo mundo concorda comigo nisso...

Testa antes de desbastar o material definitivo

Antes de cortar o par de escalas seja de qualquer material como micarta/madeira ou totalmente sintético, faz um protótipo em MDF, Pinus, algo que dê pra realmente segurar -> Faz um Desbaste grosseiro, segura. Onde aperta? Onde sobra espaço? -> Lixa mais um pouco, segura de novo. Mas vai tirando material devagar. Se você tirar muito rápido, vai precisar começar de novo

A regra que eu sigo é: se segurando o cabo parado por 30 segundos você já sente um ponto de pressão, pra uso prolongado vai estar horrível.

Temos aqui no sub bastante material sobre cabos: ergonomia geral, materiais e dimensionamento básico

Esse post é mais sobre como medir e proporcionar antes de se preocupar com o formato ou material.

reddit.com
u/FlaBC15 — 19 days ago

O conteúdo está bom? Tem algo faltando que vocês gostariam de ver aqui? Sugestões e feedback são sempre bem vindos :)

reddit.com
u/FlaBC15 — 20 days ago

A gente passa a lima e ela escorrega. Aee caralho, funcionou! Mas duas semanas depois, o fio morreu ou lascou no osso ou a faca quebrou quando caiu durante o uso.

E é fácil pra gente falar logo de cara "a têmpera falhou".

Só que na maioria das vezes a têmpera funcionou. O aço endureceu. O problema tá em outro lugar, e aí tem que sacar onde procurar.

O que "falhou" quer dizer, afinal?

Quando alguém fala que a têmpera falhou, pode estar querendo dizer quatro coisas completamente diferentes, e cada uma tem causa e solução própria.

  • A lima morde o aço. Aí sim, não endureceu. Falha real.

>DICA: Não mete a lima assim que a faca sai do óleo. Deixa a faca uns 15 ou 20 segundos no óleo para resfriamento inicial, e depois, deixa mais uns 10 segundos no ar. Agora sim testa. Durante o processo de resfriamento, a lima ainda pode morder.

  • A lima escorrega mas o fio não dura nada. Endureceu, beleza, mas alguma coisa na cadeia saiu errado e não é a dureza.
  • Lima escorrega, fio segura, mas lasca. Tá duro demais pro uso, ou o revenimento foi feito em temperatura muito baixa.
  • A faca quebrou. Significa que tá Frágil e pode ser por causa do grão grosso, sem revenimento adequado, ou geometria que não ajudou.

Misturar tudo isso em "têmpera falhou" é = chegar no mecânico e falar "o carro não liga". Pode ser motor, vela, distribuidor ou só ter acabado a gasolimna.

Tudo isso só serve pra dizer uma coisa e ela é: o diagnóstico importa.

Quando realmente não endureceu

Se a lima morde, o aço não virou martensita. As causas mais comuns:

  • Temperatura baixa. O aço não chegou na austenitização completa. Quem usa forja a gás tira a peça no "vermelho cereja" quando precisava esperar o "vermelho cereja claro". Num forno, acontece quando o termopar tá mal posicionado ou a mufla não equalizou a temperatura antes de colocar a peça.

>DICA: Leia o datasheet do aço que você está usando. Você acha essa folha de dados do aço pesquisando no google pelo nome do aço + "datasheet/especificações".

  • Resfriamento lento. Óleo muito frio ou pouco óleo ou recipiente pequeno demais. O aço precisa cruzar a zona crítica de resfriamento numa velocidade mínima senão forma perlita em vez de martensita. E perlita é mole. Lâmina pequena dá pra temperar com um litro de canola aquecido a 60ºC, mas frio num copo de alumínio não vai temperar uma lâmina maior ou mais espessa. O problema aqui é que o óleo esquenta na hora, para de resfriar, e o aço transforma errado.

Aço errado. Essa é mais comum do que parece principalmente com aço misterioso.

Você vai no ferro velho, compra barra "de aço"sem especificação, tenta temperar e não funciona. Isso porque, pode ser ferro fundido, pode ser aço com 0,15% de carbono, pode ser inox que precisa de tratamento térmico completamente diferente. Se você não sabe o que tá temperando, a têmpera não "falhou". É meio que jogar roleta e torcer pra cair no número certo.

Já vi relato de gente tentando temperar SAE 1020. Mano... 1020 tem 0,20% de carbono. Não endurece. Não é opinião, não é processo é limite pouco carbono.

O limbo: endureceu mas a faca não presta

Esse é o cenário que mais confunde e o mais desconhecido. A lima escorrega, o teste diz que tá duro, e a faca simplesmente não entrega.

  • Primeiro suspeito: decarburação. Aqui é foda e tem gente que já condena a lâmina logo de cara e sem precisar. A superfície do aço perdeu carbono na superfície durante o aquecimento. O interior tá duro, mas os primeiros 0,3 a 0,5mm viraram aço de baixo carbono devido à perda. O fio tá exatamente nessa camada mole. Resultado? Lima escorrega no plano da lâmina (que é mais grosso e tem aço duro por baixo), mas o fio morre porque a camada de fora tá sem carbono. A gente já cobriu isso no post sobre decarburação e é um dos problemas mais subestimados em cutelaria artesanal.
  • Segundo suspeito: soak (encharque) insuficiente em aço hipereutético. Quem usa 1095, O1 ou 52100 e trata igualzinho 5160 , se não tiver sorte vai ter problema. Esses aços têm carbonetos que precisam de tempo em temperatura pra dissolver na matriz. Sem esse soak, a dureza até aparece (martensita se forma), mas a retenção de fio fica muito abaixo do potencial do aço. Você paga por um aço bom e tira performance de aço médio. é jogoar dinheiro fora.
  • Terceiro: revenimento mal feito. Essa aqui é clássica. Coloca no forno de cozinha, gira o botão pra 200°C e espera uma hora. Três problemas num parágrafo só. O botão do forno mente e pode estar operando a 170°C ou a 240°C, ninguém sabe sem medir. Uma hora pode não ser suficiente pra equalizar a temperatura na peça inteira. E um ciclo só pode deixar austenita retida sem converter.

>O meu forno, se eu coloco em 200º, ele fica em 150. Cada forno é de um jeito e não tem jeito. Então, compra um termômetro de forno. É baratinho. Eu paguei R$ 20,00 na shopee e isso vai melhorar o seu resultado no tratamento térmico.

Tem uma coisa que a gente já discutiu no post sobre o teste da lima mas que preciso falar aqui também, porque é o centro de tudo isso: a lima te diz que o aço tá duro.

Não te diz que tá bom. Uma lâmina a 63 HRC sem revenimento escorrega na lima. E vai quebrar que nem vidro na primeira queda. Uma lâmina a 58 HRC com revenimento bem feito pode parecer menos dura no teste, e ser infinitamente melhor na prática que é o que conta pra uma faca que vai ser posta em uso.

Dureza é uma propriedade. Performance é o conjunto. A gente entrou nesse detalhe no post sobre dureza vs tenacidade.

O teste real de verdade, é só um. É jogar a faca pra uso.

Corta corda de sisal e depois tenta depilar os pelos do braço ou da perna ou cortar papel. Se o fio ainda barbeia, tá ótimo. Se morreu nos primeiros cortes na corda, alguma coisa na cadeia deu ruim. Pode ser aço, temperatura, revenimento, decarburação, ângulo de afiação. Mas dizer "a têmpera falhou" sem investigar não vai resolver o seu problema e você vai ficar repetindo o erro até diagnosticar corretamente.

>"Tempera ruim"... é o diagnóstico que todo mundo dá quando não sabe o que e onde procurar. E tá tudo certo, desde que você corra atrás de entender o que realmente aconteceu em vez de repetir o mesmo erro na próxima faca.

Já tiveram uma faca que passava no teste da lima e mesmo assim não entregava? Você já identificou algum dos tópicos desse post como seu real problema?

reddit.com
u/FlaBC15 — 26 days ago

O conteúdo está bom? Tem algo faltando que vocês gostariam de ver aqui? Sugestões e feedback são sempre bem vindos :)

reddit.com
u/FlaBC15 — 27 days ago

Não adianta comemorar 62 HRC como se fosse uma conquista. Vai escorregar na lima? Vai. Mas também vai lascar na primeira oportunidade que encontrar um osso ou algo mais duro durante o uso.

O número alto na escala Rockwell (HRC) não quer dizer que a faca tá boa. Quer dizer que tá dura. E duro, sozinho, não serve pra nada.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

Dureza é a resistência do aço a ser deformado. Riscado, amassado, penetrado. Quando a lima escorrega, é porque o aço resiste à deformação que os dentes da lima tentam causar. Quanto mais duro, melhor ele segura fio, porque o fio demora mais pra dobrar, rolar ou desgastar.

Aí vem a outra coisa.

Tenacidade é a capacidade do aço de absorver energia (leia-se porrada) sem quebrar. Um aço tenaz flexiona, absorve impacto, resiste a choque lateral. Ele pode até amassar um pouco, mas não lasca, não trinca, não estoura.

O problema é que essas duas propriedades puxam pra lados opostos. Na grande maioria dos aços, quando você aumenta dureza, perde tenacidade. E quando ganha tenacidade, perde dureza. Não dá pra ter os dois no máximo ao mesmo tempo. Pelo menos não com aços convencionais.

Na prática: o que acontece nos extremos

Pega uma faca que acabou de sair da têmpera antes do revenimento. Ela tem uns 61 a 65 HRC. Dura pra kct. Agora joga ela no chão de concreto, de uma altura de um metro. Ela quebra. Sem deformar, sem dobrar. Quebra que nem vidro. Isso é aço com dureza alta e tenacidade baixa.

Da mesma forma, pega uma faca que está com tenacidade alta e dureza baixa. O fio não tem tendência de quebrar, mas de enrolar ao encontar algo duro. Além de enrolar, o fio vai embora rápido.

Dureza e tenacidade são em geral, inversamente proporcionais. A faca precisa ficar equilibrada entre um e outro. Dura o suficiente pra manter o fio e tenaz o suficiente pra não lascar quando encontra um osso, um nó de madeira ou o fundo de uma tábua.

Tá, então como controla isso?

revenimento. É a etapa mais subestimada do tratamento térmico e a que mais gente erra.

Depois que você tempera, o aço tá no pico de dureza. Martensita fresca, tensa, cheia de energia acumulada. Mas... Tá frágil. Se você usar a faca assim, ela tem alta probabilidade de lascar ou quebrar. O revenimento aquece o aço a uma temperatura controlada (geralmente entre 175°C e 230°C pra aços simples de alto carbono) e segura por um tempo (o soak que a gente fala em vários posts aqui). Revenir alivia tensões internas, precipita carbonetos microscópicos e reduz a dureza um pouco. Como benefício em perder um pouco da dureza, a tenacidade sobe.

A temperatura do revenimento é onde você decide o equilíbrio. Revenimento baixo (175°C) mantém dureza alta, tipo 62-63 HRC, mas a tenacidade ainda é menor. Revenimento mais alto (220-230°C) derruba a dureza pra 58-60 HRC, mas a tenacidade melhora muito. Qual é o certo? Depende do uso que você dá pra faca.

Uma faca de cozinha, que só corta legume e proteína na tábua, pode ir com dureza mais alta. Ela não vai sofrer impacto lateral. Agora, um facão de mato que vai bater em raiz, nó de madeira e eventualmente ser usado pra batonar? Precisa de mais tenacidade, mesmo que perca um pouco de fio.

(Tem gente que revena a 150°C num 1084 e acha que tá arrasando. Aí vai usar a faca no mato e volta com o fio parecendo serra. Aquilo não é desgaste natural, é microchipping. Fio lascando em escala microscópica porque o aço tá duro demais pro uso que tá sendo dado.)

O aço também pesa na balança

Nem todo aço tem a mesma relação entre dureza e tenacidade. Composição química muda tudo.

Um 1095, por exemplo, é alto carbono simples. Dá pra endurecer bastante, mas a tenacidade dele é limitada. Em testes de impacto Charpy, ele marca coisa de 4-8 ft-lbs (1,81 a 3,62 kgfm). Funciona bem pra facas menores onde impacto não é exigência.

Já o 5160, o aço de mola, tem cromo e manganês na composição, e os números de impacto são muito maiores, na faixa de 20-30 ft-lbs (9,07 a 13,60 kgfm). É por isso que a galera usa ele pra facão, bowie grande, espada. Aguenta pancada.

Aços de metalurgia do pó tipo S35VN conseguem empurrar essa curva um pouco mais, oferecendo boa tenacidade mesmo com dureza alta, porque os carbonetos são finos e distribuídos de forma uniforme. Mas aí é outro universo de preço e de tratamento térmico.

O ponto é que: não existe aço "perfeito" que vá atender todas as demandas ao mesmo tempo. Todo aço é um compromisso entre propriedades e a aplicação prevista de quando foi "engenheirado".

E a dureza é só uma delas.

Geometria: o fator que ninguém menciona

Sabe o que mais afeta tenacidade na prática? A espessura atrás do fio.

Você pode ter o aço mais tenaz do mundo, mas se o fio tiver 0,1mm de espessura e você der uma pancada lateral, ele vai lascar. Porque não é só o material que resiste ao impacto. É o material vezes a seção transversal.

Para e pensa: O que aconteceria com um machado com um fio de navalha?

Uma lâmina com dorso de 4mm e fio conservador a 25-30° inclusivo aguenta muito mais abuso do que uma lâmina fininha de 2mm com fio a 15° num aço com mesma dureza. A geometria funciona como um multiplicador de tenacidade.

Na real, quer dizer, na oficina mesmo, a gente vê muito isso: o cara compra um aço bom, faz um tratamento térmico decente, mas afina demais o fio pra uma faca que vai ver uso pesado. Resultado? Lasca. E ele culpa o aço, culpa a têmpera, quando o problema era a geometria.

E é por isso que a gente bate tanto na tecla do tratamento térmico e da geometria aqui no sub. Cada um se relaciona com o outro de forma diretamente proporcional e dependente.

O equilíbrio entre dureza e tenacidade não é um número fixo. É uma decisão de projeto. Muda conforme o aço, o uso pretendido, a geometria da lâmina e o revenimento que você fez. O cuteleiro que entende isso para de perseguir HRC alto e começa a pensar no conjunto, pois uma coisa sempre vai depender da outra.

Você já pegou uma lâmina que dizia ser para uma função específica, mas não entregava o prometido?

u/FlaBC15 — 29 days ago

Nenhuma outra faca brasileira nasceu de uma praga. A javalizeira não veio de tradição, não carrega nome de cidade e não tem 200 anos de história. Ela existe porque o javali apareceu onde não devia, destruiu o que não devia e forçou o pessoal do campo a resolver na mão.

E "resolver na mão" aqui é literal.

Como um porco europeu virou pesadelo nacional

O javali (Sus scrofa) não é nativo do Brasil. Veio da Europa e da Ásia, chegou aqui em levas diferentes. Parte desceu da Argentina e do Uruguai, onde já tinha sido introduzido pra caça esportiva. Parte entrou direto nos anos 90, quando alguém achou boa ideia criar javali pra produção de carne. Animais escaparam, cruzaram com porco doméstico solto, e aí nasceu o javaporco, um bicho que junta a rusticidade do javali selvagem com a capacidade reprodutiva do porco. E como resultado, sua população explodiu em menos de duas décadas.

O estrago é grande. Fuçam o solo e acabam com nascente. Destroem lavoura de milho, mandioca, cana. Competem com cateto e queixada (que são nativos). Carregam febre aftosa e peste suína. A IUCN colocou o javali na lista das 100 espécies invasoras mais destrutivas do planeta. E tá bem aqui, no quintal do Brasil.

Em 2013, o IBAMA declarou a espécie nociva pela Instrução Normativa nº 03/2013. Em 2019, a IN nº 12 aprimorou as regras e criou o SIMAF (Sistema de Informação de Manejo de Fauna). O nome técnico é "manejo para controle populacional". Na prática, é caça autorizada com registro obrigatório.

E a faca? Entra exatamente aí.

A faca

A dinâmica funciona assim: cães farejadores localizam o rastro. Cães de contenção cercam. Cães de agarre (dogo argentino, pit bull, buldogue americano, geralmente com colete de proteção) imobilizam o bicho. Aí o controlador se aproxima e finaliza com arma branca.

Esse momento é o que define a javalizeira. Ela precisa penetrar rápido, fundo e certeiro. Um javali adulto macho pode passar dos 100 kg, tem couro grosso, camada de gordura densa e uma caixa torácica que não facilita. Se a faca não entra limpo, o bicho se debate, machuca os cães, machuca o controlador. Não tem margem pra ferramenta ruim.

Então o que faz uma javalizeira ser javalizeira?

Lâmina longa, entre 8 e 12 polegadas (20 a 30 cm). Espessura de 4 a 6mm no dorso. Ponta agressiva, geralmente num perfil que mistura características de drop point com elementos de spear point, porque o objetivo principal é penetração, não esfolamento. Muitos modelos têm falso fio no dorso perto da ponta, que reduz o arrasto e ajuda a lâmina a entrar sem exigir tanta força.

E a guarda? Numa estocada contra um animal de 100 kg que tá se debatendo, a mão do controlador vai escorregar pra frente se não tiver uma barreira física entre o cabo e a lâmina. A guarda dupla (ou no mínimo uma guarda robusta) é o que separa uma javalizeira funcional de uma faca de caça genérica que alguém chamou de javalizeira pra vender mais caro.

(E tem muito disso. Muito cuteleiro coloca o nome "javalizeira" numa faca de mato qualquer porque sabe que vende. Aí o cara vai pro campo com aquilo e descobre que sem guarda, sem espessura e sem ponta centrada, a faca vira um problema num momento que já é tenso por si só.)

A construção é quase sempre full tang. A faca vai receber carga axial e lateral ao mesmo tempo. Espiga embutida num cabo de madeira pode aguentar uma, duas vezes. Na terceira, solta. Full tang distribui o esforço e não tem ponto de falha no encaixe.

Nos cabos, a prioridade é aderência. A mão vai estar molhada, suja, apertando com força. Madeiras texturizadas como guajuvira e ipê funcionam. Micarta é a escolha mais moderna e resolve bem. Chifre fica bonito, mas liso demais pra aplicação, a não ser que o cuteleiro texturize. Alguns modelos trazem jimping (serrilhado) no dorso do ricasso pra apoio do polegar, mas não é obrigatório.

Aços e acabamento

5160 domina. E com razão. É aço de mola, aguenta impacto lateral que quebraria um aço mais duro, tem tenacidade excelente e aceita têmpera na faixa de 56-58 HRC. Pra uma faca que vai receber estocada num bicho que tá se mexendo, tenacidade importa mais que dureza extrema. Uma lâmina que trinca no campo é pior que uma que perde fio.

1070 e 1075 aparecem bastante também, especialmente em peças mais leves. Carbono médio, boa retenção de fio, fáceis de afiar com o que tem no campo. Em inox, o 420C funciona também, mas perde a possibilidade de pátina e o acabamento brut forge que virou marca da javalizeira artesanal brasileira.

brut forge (forjado bruto), aliás, não é só estética. Manter a carepa da forja na lâmina cria uma camada de óxido que protege contra corrosão superficial. Num ambiente de campo, com sangue e umidade, isso ajuda. Não substitui manutenção, mas dá uma boa folga, além de ficar com cara de ferramenta de verdade, não de enfeite.

Bainha de couro, costurada à mão, com passante pra cinto. Nada de kydex nesse nicho, ou pelo menos, não ainda. A javalizeira ainda é muito artesanal, muito ligada à cultura de campo do Sul e do interior de SP e MG.

E o trabalho é bruto. É bicho grande, situação tensa, decisão em fração de segundo. A faca precisa entrar, fazer o serviço, e não falhar.

u/FlaBC15 — 1 month ago