O direito de usar chinelo e bermuda nos tribunais
Este país precisa acordar para a verdadeira revolução, o direito inalienável de entrar num tribunal de chinelo e bermuda sem ser julgado pelo tecido que cobre, ou descobre, suas canelas. Vivemos numa sociedade que preza a justiça, mas que tem medo de uma Havaianas com sola gasta ? Não é possível que o mesmo Estado que garante habeas corpus não garanta um habeas pé livre.
Por que meus dedos precisam estar enclausurados num sapato social para que eu seja considerado digno de adentrar o templo sagrado do judiciário ? O que é mais perigoso, uma bermuda-cargo ou um argumento mal fundamentado ? Uma sandária de dedo ou um juiz sonolento que só acorda na hora do café ?
O chinelo é símbolo de paz.
Nenhuma guerra foi travada por alguém de chinelo, o máximo que pode acontecer é o barulho ploc-ploc ecoar na sala de audiência, mas será isso o motivo para cercear a liberdade ? E a bermuda? Ah, a bermuda, o símbolo maior da ventilação democrática das ideias.
Como esperar raciocínio lógico se o cidadão está com as coxas soando embaixo de uma calça de poliéster ? Os trajes exigidos em tribunais são uma forma velada de elitismo têxtil. Já tentou correr de uma acusação usando um terno de lã no verão ? Não dá, é inumano, mas de bermuda e chinelo, você pode até ser preso, mas preso com dignidade, com conforto e estilo.
Enquanto se discute cláusulas pétreas, ninguém levanta a cláusula das canelas livres. Onde está a OAB que não se manifesta em defesa do pé descalço e da coxa arejada ? Será que um joelho pelado tem o poder de corromper a ordem jurídica nacional ?
Temos que lutar, organizar passeatas, protestos, quiçá audiências públicas, todas, claro, de chinelo e bermuda. Imaginem um advogado subindo à tribuna com um topete molhado e uma bermuda floral, isso sim é representação popular, iIsso é Brasil. O povo quer justiça, mas também quer conforto. A formalidade excessiva é inimiga da espontaneidade jurídica. Nada mais honesto do que um depoimento dado com os pés frescos e as pernas soltas. As palavras fluem melhor quando os dedos dos pés estão livres.
Justiça cega sim, mas também descalça. Só assim teremos um judiciário verdadeiramente do povo, pelo povo e de bermuda pro povo.