É sim errado assistir pornografia.
Muitas vezes a discussão se limita a apontar os efeitos sobre o cérebro, pelo risco de compulsão ou pelos efeitos que pode ter sobre relacionamentos. Basicamente sobre como ela prejudica quem assiste.
Mas existe outra coisa a ser considerada: para que alguém possa consumir aquele conteúdo, outras pessoas precisaram ser filmadas, e as condições em que isso acontece também fazem parte da questão moral.
Existem MUITOS relatos documentados de mulheres que entraram muito jovens na indústria, frequentemente atraídas por promessas de dinheiro, fama ou oportunidades de trabalho, e posteriormente descobriram que as condições eram diferentes do que imaginavam. O documentário Hot Girls Wanted, por exemplo, acompanha jovens de 18 e 19 anos que entram no mercado pornográfico amador e mostra a distância entre as expectativas com que algumas chegaram e aquilo que efetivamente encontraram.
Hoje em dia temos relatos de meninas e mulheres que entraram no OnlyFans e similares com promessas de dinheiro rápido e isso destruiu suas vidas.
Na indústria pornográfica há relatos de manipulação, pressão para ultrapassar limites e dificuldade de recusar determinadas práticas. As pesquisas levantam várias questões que precisam ser lembradas: vulnerabilidade econômica, experiências anteriores de violência sexual que levam as mulheres a esse caminho, traumas após trabalhar com isso, dificuldades para estabelecer limites diante de produtores e compradores, dificuldade para conseguir um emprego normal quando não querem mais trabalhar com isso, coerção, permanência das imagens pra sempre na internet. Coisas com impactos duradouros.
Então não basta perguntar se a mulher consentiu em participar. É preciso perguntar também: em que circunstâncias ela consentiu, que poder de negociação possuía, podia recusar determinadas práticas sem perder o trabalho, podia interromper a gravação, e quais seriam as consequências para sua vida depois que aquelas imagens fossem distribuídas indefinidamente?
Ao pensar se assistir pornografia é moral ou imoral, é preciso perguntar: o que você está financiando quando consome isso? Quem precisou colocar o próprio corpo nessa situação para que você pudesse ter esse entretenimento? E que tipo de relação entre homens e mulheres você está ajudando a transformar em mercadoria?
Isso não significa afirmar que toda mulher que trabalha com pornografia é vítima ou que nenhuma delas escolhe conscientemente esse trabalho. Há mulheres que descrevem a própria participação na indústria como uma escolha, e há produções em que as condições de trabalho são diferentes de outras. Mas não adianta dizer que "só assiste de fontes confiáveis", porque o consumidor não tem como saber toda a realidade daquela experiência.
Ninguém é obrigado a nada, mas os atos tem consequências, e eu acredito que há sim consequências espirituais para esse tipo de comportamento sexual.