Senta que lá vem história…
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Meu filho tinha uns 2 ou 3 anos. Naquela época, o tanque ficava nos fundos da casa e a porta de entrada, na frente.
Um dia, eu disse:
— Fica aqui que a mãe vai lá fora e já volta.
Eu só ia colocar algumas roupas para bater. Coisa de poucos minutos.
Enquanto eu estava lá fora, no tanque, meu filho saiu para a rua.
Não deu nem cinco minutos e minha vizinha apareceu desesperada:
— Márcia, pelo amor de Deus! Vão roubar teu filho!
Ela estava saindo para trabalhar quando viu um carro parado na rua, com a porta aberta, e um homem chamando meu filho.
E ele estava indo.
Minha vizinha gritou com ele. Ele parou. O carro arrancou e foi embora com a porta aberta e tudo.
Eu fiquei com o coração na mão.
E meu filho?
Tranquilíssimo.
Não fazia a menor ideia do motivo de os adultos estarem desesperados.
Depois daquele dia, passei a trancar a porta quando precisava ir ao tanque. Só que aí descobri outro detalhe: o menino pulava a janela.
E olha que a casa nem tinha cerca ou portão na frente. Era tudo aberto.
Então, durante um tempo, enquanto éramos só nós dois, eu simplesmente parei de lavar roupa quando ele estava sozinho comigo. Só ia ao tanque quando o pai dele estava em casa.
Hoje eu consigo contar e até rir da parte do pequeno fugitivo. Mas naquele dia foi desesperador. Fiquei meses traumatizada, pensando no que poderia ter acontecido em questão de minutos.
E quanto mais o tempo passa, mais eu penso: foi Deus.
Porque minha vizinha poderia ter saído um minuto antes ou um minuto depois. Poderia não ter olhado. Poderia não ter percebido.
Mas ela estava ali.
Naquele dia, eu não vi apenas uma vizinha passando na hora certa.
Eu vi um livramento.
E algumas histórias que a gente conta anos depois ainda fazem o coração apertar.
Porque algumas lembranças não são apenas lembranças.
São testemunhos.