A FINAL
Passa o mês, passa o dinheiro,
passa a chuva no quintal.
Meu irmão desde janeiro
não me liga, tá no mal.
Um me chama de fascista,
outro chama de ladrão,
e no meio dessa pista
quem se perde é meu irmão.
Passa o ano, vem eleição,
vem promessa de montão.
Passa o ano, vem o outro,
fica a obra pelo chão.
Toca o apito, acaba o jogo,
sobe o homem no palanque.
Ergue a taça, brilha logo,
brilha tanto na TV.
A taça é linda de se ver.
A taça é oca, pode crer.
No terreiro a criação
bica o chão e nem procura,
come o que jogaram lá,
não pergunta de onde veio,
não pergunta se é verdade,
só engole e cacareja
pro vizinho do outro lado.
Eu no mercado, devagar,
com o carrinho pela metade,
fazendo conta pra fechar
igual meu pai na mocidade.
Não perdeu a direita.
E nem perdeu a esquerda.
Perdeu quem acorda às cinco,
perdeu quem paga o mercado,
perdeu quem gritou por eles
e nunca foi convidado.
Perdeu a gente.
De novo.
E você, que já escolheu:
qual dos dois te ligou depois?