Desejo
Era um dia comum, tão comum como qualquer outro, quando vi que me escreveu. Depois de tanto tempo sem se falar, ignorando a existência um do outro por fora, mas por dentro sabíamos que todos os dias seríamos lembrados um pelo outro. Sentíamos. Mas escolhas são escolhas.
Mentiras também são mentiras.
Mentiras que contamos para outros, mas principalmente as que contamos para nós. Menti que aquele sentimento era amor. Talvez seja, ou fosse. Mas outra natureza de amor. Um amor que não se quer carregar, sabe? Um amor que existe, mas não se quer cultivar. Um amor que reconhecia, mas que só existia em nós mesmos.
Por isso tudo e tantas coisas outras, senti um desejo grande de agarrar o presente. Agarrar aquela solidão, a vida presente e o estado de coisas que você não pertencia. Eu senti saudades sim. Muita saudade do nosso tempo e da sua presença, da sua voz. Sentia também saudade de compartilhar coisas com você. Eu abria sim suas mensagens e relia relia relia.
Mas eu gostava mais do que não existia e do agora, da sua não presença e da vida como estava.
Sentir saudade seria o suficiente para eu e você estarmos juntos? Não, não era. Mas você não compreendia.
Você sabia que eu gostava de você e sentia saudade e não compreendia que era assim que eu queria. Uma saudade que tornava todas as coisas mais bonitas e poéticas e tinha seu lugar, não havia mais espaço para você ali, para nós, sem que as coisas bonitas deixassem de existir e apenas o real cru e nojento passassem a tomar conta. Não o que tinha de poético em nós, mas a verdade, a realidade, os defeitos e más ações, nossas montanhas de verdades sinuosas e mágoas. Para que acabar com aquela adorável saudade? A saudade que só se alimenta do que é bom.
Eu senti um desejo enorme e incontrolável de tomar aquele momento com fúria, agarrar com os dentes, unhas, até sangrar se necessário para mantê-lo preso e ter certeza que não escaparia.
O momento que você não existia mais.