A geração que desaprendeu a sofrer
Existe algo profundamente estranho acontecendo na sociedade contemporânea. Nunca tivemos tantas formas de aliviar a dor e, ainda assim, nunca parecemos tão frágeis diante dela. Qualquer desconforto tornou-se intolerável. O tédio precisa ser preenchido imediatamente. A tristeza precisa ser medicada. A solidão precisa ser distraída. O silêncio precisa ser interrompido. Como se existir fosse uma experiência que necessitasse de anestesia permanente.
O homem moderno acorda e imediatamente mergulha em estímulos. Notícias, vídeos curtos, mensagens, pornografia, séries, músicas, redes sociais. Sua mente raramente permanece sozinha consigo mesma por mais de alguns minutos. Existe sempre algo para preencher o vazio. Existe sempre alguma distração disponível. O problema é que aquilo que chamamos de vazio talvez nunca tenha sido um defeito da existência. Talvez fosse justamente o espaço onde o desejo nascia.
As grandes experiências humanas sempre dependeram da falta. O amor nasce da falta. A arte nasce da falta. A criação nasce da falta. O desejo nasce da falta. Quando tudo está disponível o tempo todo, algo essencial começa a desaparecer. Não porque as pessoas deixaram de sentir prazer, mas porque perderam a capacidade de desejar.
A pornografia talvez seja o símbolo mais perfeito dessa transformação. Durante séculos, a sexualidade esteve ligada à imaginação, à conquista, ao mistério e ao encontro. Hoje um adolescente possui acesso a mais corpos nus em uma semana do que um homem do século XIX teria durante toda a vida. A promessa era de liberdade. O resultado parece ser outro. Nunca houve tanta exposição sexual e nunca houve tantos relatos de apatia, impotência, desinteresse e dificuldade de criar vínculos reais.
O paradoxo é cruel. Quanto mais acesso temos ao corpo, menos encontramos o outro. Porque o desejo não nasce da abundância. O desejo nasce da distância. Ele precisa de espera, de curiosidade, de mistério. O excesso de estímulo produz saturação. E um sujeito saturado já não procura pessoas. Procura apenas doses cada vez maiores de excitação.
Talvez seja por isso que tantos relacionamentos contemporâneos pareçam frágeis. Não porque as pessoas amem menos. Mas porque suportam menos. Qualquer conflito é visto como incompatibilidade. Qualquer frustração é vista como um sinal de que algo está errado. Qualquer desconforto é interpretado como motivo suficiente para partir. Criamos uma geração treinada para consumir experiências, mas não para sustentar processos.
Existe uma fantasia silenciosa dominando nosso tempo: a ideia de que a vida boa é uma vida sem sofrimento. Tudo ao nosso redor reforça essa promessa. Os algoritmos prometem prazer sem espera. Os aplicativos prometem encontros sem rejeição. A pornografia promete sexo sem vulnerabilidade. As redes sociais prometem reconhecimento sem intimidade. Mas toda vez que eliminamos o sofrimento de uma experiência, eliminamos também parte de sua profundidade.
O amor talvez seja a maior vítima desse processo. Amar alguém significa perder uma parte da própria soberania. Significa depender de alguém que pode nos abandonar. Significa oferecer aquilo que possuímos de mais íntimo sem qualquer garantia de retorno. Durante séculos, essa fragilidade foi compreendida como parte da condição humana. Hoje ela é tratada como um defeito que precisa ser corrigido.
A consequência aparece por toda parte. As pessoas querem companhia, mas não querem depender. Querem intimidade, mas não querem se expor. Querem desejo, mas não querem esperar. Querem amor, mas não querem correr riscos. Querem os frutos do encontro enquanto evitam tudo aquilo que torna o encontro possível.
Talvez a solidão contemporânea não seja resultado da falta de oportunidades. Nunca houve tantas oportunidades. Talvez ela seja resultado da perda da coragem necessária para viver. Porque viver sempre significou suportar algum grau de dor. Eros nunca foi compatível com segurança absoluta. Desejar alguém sempre implicou a possibilidade da perda. Amar alguém sempre implicou a possibilidade do sofrimento.
No fundo, a sociedade contemporânea não eliminou a dor. Apenas a deslocou. Tentamos expulsá-la dos relacionamentos, da sexualidade, da espera e da vulnerabilidade. Ela retornou sob outras formas: ansiedade, vazio, depressão, apatia e uma sensação constante de que algo está faltando. E talvez esteja mesmo.
Talvez o que esteja faltando seja justamente aquilo que passamos décadas tentando evitar: a coragem de sofrer por aquilo que vale a pena desejar.