São 02:41 da madrugada e minha cabeça não para de filosofar
Minhas chances de simplesmente não existir? Talvez pareçam banais quando comparadas à pergunta realmente extraordinária:
Quais eram as chances de eu existir?
A resposta não cabe confortavelmente na consciência humana. Não existe um número científico único para calcular a probabilidade da existência de uma pessoa específica, mas a cadeia de contingências que culminou em mim é extraordinariamente complexa.
A Terra, por exemplo, não poderia ser tratada como se bastasse estar “alguns centímetros” mais perto ou mais longe do Sol para ser lançada ao espaço ou colidir com ele — isso é uma simplificação incorreta. A órbita terrestre é regida pela mecânica gravitacional e sofre variações naturais muito maiores ao longo do tempo. Ainda assim, minha existência dependeu de uma sucessão impressionante de condições físicas, químicas, biológicas e históricas.
Todos os meus ancestrais tiveram de sobreviver, encontrar-se e reproduzir-se em uma sequência ininterrupta. Uma pequena alteração em qualquer elo poderia ter produzido uma história diferente — e, portanto, uma pessoa diferente.
Então veio o momento da minha própria concepção: entre dezenas ou centenas de milhões de espermatozoides presentes em uma ejaculação, apenas uma célula poderia fornecer o conjunto genético que, combinado ao óvulo, originaria a mim. A ciência demonstra que a quantidade de espermatozoides varia amplamente entre indivíduos e ejaculações; a própria OMS ressalta essa variabilidade biológica.
Depois disso, ainda houve gestação, nascimento, desenvolvimento, alimentação, proteção, aprendizado e incontáveis acontecimentos contingentes que me trouxeram até este exato instante.
Como diria Aristóteles, somos resultado de uma cadeia de causas; e, sob a perspectiva de Spinoza, fazemos parte de uma natureza regida por relações necessárias que não controlamos.
E, no entanto, eu estou aqui.
Então, por favor, pare de me perguntar se eu sei farmar Aura.
Eu não precisei farmá-la.
Eu sou o resultado de uma improbabilidade tão extraordinária que estar consciente dela já é, por si só, uma forma de Aura.