u/Valuable_Notice2796

As estranhezas do mundo Literário Moderno.

É um fenômeno estranho, pelo menos é estranho à mim. Ler se tornou um negócio, que talvez seja rentável, e se não o for, pelo menos dá alguma visibilidade, na maioria das vezes, mais para quem é pago para fazer leituras e resenhas críticas. Escritores desembolsam valores, na esperança de que haja um singelo interesse pela sua obra, mas, numa maioria esmagadora de vezes, se vêem reféns de visões superficiais do que produziram.

Há sempre, uma quantidade absurda de detalhes técnicos, aos quais o autor jamais consegue satisfazer, o desenvolvimento da trama não é forte o suficiente, "não consegui me conectar com o personagem A ou B", parágrafos e mais parágrafos apontando, isso, aquilo e aquilo outro, de tudo que há de errado, e tudo isso, retirado da leitura, não de uma história inteira; basta que leiam o trecho de um único capitulo.

Bom, enfim, talvez as pessoas tenham mais necessidade de parecerem seletivas, do quê realmente, apreciarem algo que tenha sido feito por pura dedicação e afeto genuíno à arte literária.

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u/Valuable_Notice2796 — 13 hours ago

A Quadra

Sinopse do Conto A Quadra.

Se trata de uma quadra, localizada em um bairro meio afastado com características peculiares, perto dela acontecem distorções na percepção humana, ela parece mais longa do quê realmente é ao caminhar muito próxima a ela. Ocorrem anomalias eletromagnéticas nos arredores, e o contado direto com a mesma, pode levar à morte ou modificar drasticamente à quem esteve próximo sendo tocado por ela. Àqueles que não foram tocados diretamente, a mesma causa alucinações e, em casos extremos, leva à loucura. O escrevi por pura diversão, tendo por base uma casa que fica localizada próxima à escola que minha esposa trabalha; é um muro alto, escuro, e há uma casa relativamente pequena dentro de um terreno de uns mil metros quadrados, o número da casa curiosamente é 666, isso me levou a criar esse conto de horror.

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u/Valuable_Notice2796 — 13 days ago
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Se trata de uma quadra, localizada em um bairro meio afastado com características peculiares, perto dela acontecem distorções na percepção humana, ela parece mais longa do quê realmente é ao caminhar muito próxima a ela. Ocorrem anomalias eletromagnéticas nos arredores, e o contado direto com a mesma, pode levar à morte ou modificar drasticamente à quem esteve próximo sendo tocado por ela. Àqueles que não foram tocados diretamente, a mesma causa alucinações e, em casos extremos, leva à loucura. O escrevi por pura diversão, tendo por base uma casa que fica localizada próxima à escola que minha esposa trabalha; é um muro alto, escuro, e há uma casa relativamente pequena dentro de um terreno de uns mil metros quadrados, o número da casa curiosamente é 666, isso me levou a criar esse conto de horror.

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u/Valuable_Notice2796 — 18 days ago

Caros membros da comunidade, encerrei os posts contendo na íntegra, todos os capítulos dos meus dois contos de terror, agradeço àqueles que prestigiaram, leram e reagiram as postagens de ambas histórias. Vou me ausentar por um tempo, espero que não seja por um período muito demorado, há um novo conto em andamento e assim que eu o concluir, retomo para partilhar com vocês novas estranhezas. Mais uma vez, obrigado à todos e espero que tenham se divertido com as loucuras desse universo.

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u/Valuable_Notice2796 — 27 days ago
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Sinopse do Conto A Quadra.

Se trata de uma quadra, localizada em um bairro meio afastado com características peculiares, perto dela acontecem distorções na percepção humana, ela parece mais longa do quê realmente é ao caminhar muito próxima a ela. Ocorrem anomalias eletromagnéticas nos arredores, e o contado direto com a mesma, pode levar à morte ou modificar drasticamente à quem esteve próximo sendo tocado por ela. Àqueles que não foram tocados diretamente, a mesma causa alucinações e, em casos extremos, leva à loucura. O escrevi por pura diversão, tendo por base uma casa que fica localizada próxima à escola que minha esposa trabalha; é um muro alto, escuro, e há uma casa relativamente pequena dentro de um terreno de uns mil metros quadrados, o número da casa curiosamente é 666, isso me levou a criar esse conto de horror.

u/Valuable_Notice2796 — 23 days ago
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Epílogo

God's face is hidden, all unseen You can't ask Him what it all means He was never on your side God was never on your side Let right or wrong, alone decide God was never on your side.

                   God Was Never on your Side; Motörhead, Álbum: Kiss of Death, 2006. Composição: Lemmy Kilmister / Mikkey Dee / Phil Campbell.

Após sessenta anos, o lago ainda tomava uns 390 km² de todo o território. As partes mais altas, tornaram-se áreas secas desde meados de 1968. O Governo Federal descartou a ideia de montar a hidroelétrica; o restante da barragem foi demolida em 1955. Tudo agora é região de mata, em um ponto ou outro em meio à vegetação, surge alguma ruína de edificações variadas. Do prédio do Hospital Central, pelo menos daquilo que se possa ver fora da água, restou somente a fachada. A região de cafezais próximos ao km 15 fora tomada por parte da vegetação nativa, ainda há a estradinha que leva às antigas propriedades de Luiz Frizera e do filho de Giovanni Martinelli. Não dá para passar pelo centro de Iguaçurana; continua submersa, o mesmo acontece com a vila. Só parte das propriedades de José Julião estão fora d’água. Pelo trecho da BR 261, pode-se ainda pegar o caminho de cascalho que sobe até a antiga chácara de Youssef Dragomir, “o Russo”. Já a casa, dela nada restou. Tudo aqui é área particular. Até o momento, faço as vistorias necessárias, mantenho as poucas estradas de acesso transitáveis. Sou o representante legal do proprietário disso aqui. Alguns meses do ano tenho de me ausentar, para tratar de seus interesses sediados, parte na Europa e as outras espalhadas entre a Asia e Oceânica. Houveram alguns negócios em Uganda, entre 1977 e 1979, mas meu empregador finalizou suas atividades por lá antes das coisas desandarem por completo.

Estamos em 19 de outubro de 2010, pego a estrada de volta à sede. São só 10 minutos até lá. Chego às 7:15. Paro diante da portaria, o portão automático se abre, estaciono de frente à casa. Desço e dou a volta até os fundos onde ha um deck que se projeta uns seis metros para dentro do lago. Vou até a extremidade e contemplo a visão do vale.

– Ilija, você está bem na minha frente, tá fazendo sombra, vai atrapalhar o meu bronzeado! Saí daí!

– Que bronzeado?

– Se eu botei esse biquíni, é porquê estou querendo me bronzear....

– O máximo que você consegue, é ficar toda vermelha igual a um pimentão maduro....e por pouco tempo...se a gente colocar um par de chifres na sua cabeça, te pendurar um rabo com ponta de flexa e te dar um tridente....pronto. Está feita a sua fantasia de Halloween. Não sei o porquê de você ficar aí torrando, basta sair para sombra que sua pele volta a ficar do mesmo jeito de sempre. Você poderia ter conseguido, pelo menos refazer suas mãos.

– Não adianta, esses dedos eu perdi bem antes de me juntar à caixa, eles não se refazem.... até consegui ficar com a aparência que tinha antes de perdê-los, mas não consigo os recuperar...e porque tá me enchendo com essa conversa de refazer a porra dos dedos?

– Ė que assim, talvez... você ficasse menos bizarra...

– Aaaaaahhh vá se foder Zorić. Quer ver algo bizarro...., eu vou te mostrar o quê é bizarro, seu filho de uma puta!

– Nem precisa,....quer algo mais bizarro que aquela tira de pano preto que você estava usando na semana passada, naquela vernissage em Milão. Só tapava os bicos dos peitos e deixava quase a bunda e a buceta à mostra. Desde quando aquilo é um vestido?

– Já pensou se eu estivesse usando isso em 1938? Eu teria comido sabe-se lá quantos dedos em dois dias!...Vai me dizer, que não gostou de me ver vestida daquele jeito?

– Sabendo o que sei de você....realmente... não! Não me interessa ou atraí nem um pouco.

– Bom! Não posso esperar muito de um defunto, talvez a única coisa que você queira é; “miolos, me deixe comer seus miolos Tinaaaaa!”

– Não tinha um biquini menor do que esse aí pra você comprar num sexshop de Amsterdam?

– Você agora é o meu pai? Que eu saiba, não te devo satisfação alguma do quê faço. Você é quem me serve, e não o contrário....a sua sorte, é que eu gosto de você....é o único amigo que eu tenho!

– É um eufemismo muito bonito pra se usar no lugar de escravo.

– Puta merda Zorić, você é um saco! Já perdi até a vontade de tomar sol! Vamos entrar, tem café que passei agora pouco. Nem sei porquê você come? É o morto mais exigente do mundo em questão de paladar...vamos, a mesa está posta!

Ela manteve a casa em que viveu com Antônio, praticamente inalterada. Adicionou instalação elétrica, eletrodomésticos, computadores e câmeras de vigilância. Do mais, era a mesma residência, a mesma mobília. Ao entrarmos na cozinha reparei que haviam sido postas três xícaras.

– Tem mais alguém aqui?

– Não! Mas a juíza recém empossada para a comarca de São Gabriel virá nos fazer uma visita. E ela vai chegar, agora!

Ouvi o portão abrir e pelo corredor pude observar um Honda Civic azul escuro, estacionar junto à caminhonete. Dele desceu uma mulher, baixinha de uns 35 anos, loira trajando um terninho cinza escuro, de corte italiano. Iskra, entrou para o quarto: voltou vestida com calça e blusa preta, desde que a conheci só a vi usando roupas de outra cor uma única vez, quando cheguei à casa de seu pai em 1949. Ela foi até à porta da sala, recepcionar à visitante. A abriu mostrando um sorriso encantador, antes que a outra pudesse alcançar à campainha.

– Bom dia! Estávamos à sua espera! Entre, sou a proprietária; Francheska Basilov! Ao seu dispor! E você é?....

Fez a pergunta como se não soubesse com quem estava conversando. Estendeu a mão para que a mulher se apresentasse.

– Virgínia Andreatta,...sou a juíza da comarca de São Gabriel, do qual agora essa região pertence.

Assim que se apresentou, ambas apertarm as mãos; mas ficou notório o desconforto no rosto da juíza. Ela ficou olhando para as mãos de Iskra com um estranho fascínio.

– É um defeito de nascença, não é nada demais. Vamos, entre. Espero que não se incomode com a presença de mais uma pessoa....é o meu acessor pessoal. Ele cuida de todos os meus assuntos, de particulares à negócios. Eu estava nadando um pouco antes do café da manhã, venha e nos acompanhe.

– Este é Ilija Zorić. A quem confio toda a minha vida!

Virgínia apertou minha mão em gesto de cordialidade. Se apresentou, e nos sentamos para o café.

Como sempre a mesa era farta, tinham mais coisas do quê se pode dar conta de comer. A juíza não fez muita cerimônia, encheu sua xícara de café com leite, pegou um pedaço robusto de pão caseiro com manteiga, além de quê; foi direto ao assunto enquanto se servia.

– Toda essa extensão de terra, até 1951 era um município. Depois do rompimento da represa em 1949, houve um hiato e o município foi posto para leilão e arrematado por um preço muito abaixo do quê valeria. Hoje em dia, o nome da senhorita Basilov é que consta como proprietária de toda essa terra. Quando foi leiloada em setembro de 51, o registro de escritura foi feito em nome de Ewa Basilov. Ewa, segundo algumas pesquisas que realizei, era sogra de Youssef Dragomir, pai de Iskra Basilov Martinelli. Qual a sua relação com a senhora Martinelli?

– Ela era tia do meu pai. Sou neta de Miroslav Dragomir. Meu pai nasceu de um relacionamento extraconjugal que minha avó teve com o irmão da tia Iskra. Minha tia morreu na enchente de 49. Minha bisavó foi a beneficiária do testamento, minha tia havia herdado todo o patrimônio de seu pai; não sei muito bem o porquê dela fazer um testamento para alguém que naturalmente viveria menos que ela.... vá lá saber o porquê. Meus pais, viviam na antiga Iugoslávia, e morreram durante o conflito étnico entre bosnios e sérvios, logo após a dissolução da União Soviética. Eu era filha única, e herdei todo o patrimônio. Estudei, me formei em fotografia, a minha primeira exposição, foi de imagens que capturei diretamente da localidade de onde morávamos. Você deve ter visto alguns dos meus trabalhos, já que pesquisou tanto sobre minhas raízes.

– Sim, eu vi algumas de suas obras. Fotos de povos arrasados por coisas como guerras, fome, doenças, catástrofes naturais. Seu trabalho, ao meu ver, parece ser de péssimo gosto...mas,...os críticos de arte acham um primor. Pelo que soube, você vai até o meio dos lugares mais violentos e perigosos do planeta, conseguindo registrar “artisticamente”, coisas que a maioria das outras pessoas, simplesmente, morreriam ao tentarem fotografar. Você, ou é uma pessoa cosmopolita de uma persuasão política excepcional, ou tem uma sorte inigualável. É inegável que tenha talento para o quê faz,...é um tanto bizarro, mas você coloca quase que paixão, ou um prazer mórbido nas imagens que captura.

– Foi uma boa descrição, uma visão crítica do quê faço! Talvez não seja a melhor, mas é até o momento a mais justa. Mas..., não veio até aqui fazer comentários mordazes ao meu trabalho...o quê exatamente você quer?

– Foi muito suspeita a aquisição de todo esse território. Vou pedir uma revisão completa da documentação e revisitar todo o processo junto ao Ministério Público Estadual. Se necessário, posso levar o caso até a esfera Federal. Apesar, da área ter se tornado desabitada devido a um desastre, aparentemente, natural. Tenho a impressão de que houveram muitas irregularidades nas negociações e na aquisição da antiga cidade de Iguaçurana e de seu distrito. É um bem público, um ativo não negociável. É estranho que uma pessoa física, adquira sem maiores problemas, um município inteiro.

Houve o silêncio denso, de uns dois segundos. Abaixei a cabeça pensando comigo -“puta que o pariu, de onde saiu essa porra dessa mulher! Estava tudo tranquilo demais!”- quase instantâneamente, pude ouvir um barulho, um estalido meio abafado, como se alguém tivesse partido um galho seco.

A juíza estava com a cabeça pendendo meio de lado, o pescoço estava entre a mão enorme de Iskra. Matou a mulher, com a facilidade de quem quebra o pescoço de um frango.

– Puta merda Iskra! Não podia simplesmente, deixar a mulher gastar todo o tempo e dinheiro público que pudesse, e não chegar a lugar algum. Pois era só continuar a usar a merda da caixa pra fazer eles dançarem da maneira que você quisesse?!

– Essa piranha nanica, vem até a minha casa, me ameaçar, me afrontar, se achando a fodona da porra toda... não! Mas de jeito nenhum que eu deixaria essa puta de terninho me desrespeitar! E se ela conseguisse? O estado poderia tomar a MINHA CASA, está casa onde eu fui feliz por um curto espaço de tempo. Essa terra pertence a mim e ao meu marido! E...

–Seu marido está morto a mais de 50 anos. Isso não faz sentido nenhum....

– Ilija, se falar mais um “a” sequer, pode ter certeza quê te coloco dentro daquela caverna inundada e te deixo lá, ao invés de dois anos, como fiz, da vez passada, dessa vez, vai ficar dez!

A simples lembrança de ficar preso debaixo d’água, com os pulmões queimando, se afogando sem morrer ou perder a consciência, realmente me assustou.

– É! Eu estou lembrado! Mesmo eu tendo sido deixado para ser o seu serviçal e aceitar isso tudo sem maiores preocupações; ainda assim, fez isso só porque eu te amarrei! Não, não foi por te amarrar, aquilo tudo foi encenação sua, fiquei me afogando dois anos, só porque eu falei que você fodia com b...

– Continue com suas gracinhas.... vá em frente... está uma palavrinha de eu arrancar seus intestinos. A sua sorte, é que eu gosto de você!

– Me sinto abençoado, minha Senhora, Vossa Alteza, Vossa Majestade!

Me pus de pé fazendo em seguida uma reverência que se faz à monarcas, exagerada e caricata.

– Você é um merda mesmo, não é?

– Pelo menos, consegui te arrancar um sorriso...desculpe pelo que falei ainda à pouco!

– Modos excelentes para um defunto...,mas, pode parar com a histeria Zorić..sei o quê vou fazer.

Ela foi até a sala, pegou a caixa, que estava na mesma mesinha ao lado do sofá, onde ela me flagrou dormindo. Levou até onde estava a mulher.

– Vai fazer o quê estou pensando.....ficou maluca!?

– Pode parar com a choradeira, e sim, vou fazer exatamente isso!

Pousou uma das mãos sobre a caixa, respirou fundo; tombou a cabeça da juíza para trás e soprou uma espécie de névoa densa e negra para as narinas de Virgínia. Eu sabia o quê estava acontecendo. A coisa que tomou a forma de Hermeto Otxoa, fez o mesmo comigo. Agora eu estava presenciando algo idêntico, sendo feito a outra pessoa.

A mulher deu um suspiro muito forte, começou a tossir logo em seguida. Despertou confusa, confusa e furiosa ao mesmo tempo.

– O quê é que você fez comigo?! Você tentou me envenenar, foi isso?! Está na comida?....eu, ...eu sei quem é você. Apesar de ter tingido o cabelo de preto, e de usar lentes de contato, eu tive certeza assim que vi suas mãos sem os anulares, a falta desses dedos, e o cordão, pendurado no pescoço com as alianças. Meu bisavô falava dessas coisas, mas todo mundo achava que ele era maluco. Mas ele estava certo, ele contava essas histórias, as repetia o tempo todo para a esposa e filhas; isso deixou minha avó aterrorizada. As loucuras que contava custaram a ele não só a saúde mental, pois elouqueceu de verdade, meu bisavô teve quatro AVCs, que o deixou com os movimentos só do lado direito do corpo, enquanto conseguia ainda falar, dizia que você era uma coisa, que parecia uma mulher. Quando perdeu a capacidade de falar, começou a escrever compulsivamente. Ele encheu vários cadernos, páginas e mais páginas, conjecturando as coisas mais estranhas que se possa imaginar. Uma das coisas que repetiu de forma insistente, é que por sua causa, a cidade foi inundada, que fez ele ir até a represa, e fechar as comportas antes da inundação. Ao meu ver, sabe-se lá por qual motivo, de não aparecer ninguém para abrir as comportas, pois a barragem ficava no Estado de Minas Gerais, em Tapitininga, cidade vizinha à vila de Iguaçurana; mas meu bisavô dizia que você andava com uma caixa, e esse objeto lhe permitia mudar a vontade das pessoas. Com isso, você o manipulou, mas ele não havia percebido. Só compreendeu o quê fizera depois que a barragem ruiu. Um dia antes um homem que esteve com ele, um estrangeiro, havia o advertido, de quê você fazia esse tipo de coisa.

– Seu bisavô, se referia à esse homem que está sentado do outro lado da mesa! Na época, chegou aqui usando um outro nome! Jó Arsov, mas voltou a usar seu nome de registro de nascimento.

– Ele não parece ter mais do quê uns vinte e sete anos. E tudo isso aconteceu há cinquenta anos....

– Ilija está morto, e há muito tempo,...assim como você.

– Eu não estou morta!

Virgínia parecia incrédula. Estapeou o rosto, beliscou o próprio braço, tocou o próprio pescoço, espalmou o peito. Tudo para ter certeza de que sentia dor, respirava e tinha pulsação. Sentiu em seguida algo entrar por debaixo da axila esquerda, e sair pela parte posterior do ombro direito. Era um vergalhão de ¾ de polegada, de aproximadamente um metro e sessenta de comprimento, a extremidade que lhe saía pelas costas estava com uma ponta aguda, bem afiada. A mulher, repentinamente foi içada, uma parte da barra de aço ficou encostada no ombro direito de Iskra e o restante da haste segura pela mão. O que se seguiu foi quase tão engraçado, quanto horrendo. Ela deu a volta na mesa, marchando, levando Virgínia como um estandarte.

– Olha só! Igual a um otomano no espeto!

Segurou a juíza pelo ombro, e arrancou o vergalhão, com a mesma rapidez com a que empalou a pobre desgraçada.

Isso com certeza doeu pra burro, tanto que ela nem conseguia falar. Se bem quê, é impossível emitir qualquer som com ambos os pulmões perfurados. Aos poucos o corpo dela começou a verter menos sangue. Os buracos começaram a se fechar; estava começando a conseguir respirar novamente. Soltou em sussurros, as palavras eram ditas com pausas longas, quase que inaudíveis para mim.

– Me leve...para...um... hospital...por favor...estou morrendo....me ajude!

– Você não está morrendo juíza Andreatta... está morta! Daqui alguns minutos, vai se recuperar. Eu demorei mais tempo para entender minha situação....

– Quem trouxe o Ilija de volta, fez isso quando ele estava num mosteiro. Dá pra acreditar! Esse cara quase virou um frei!

Virgínia me olhou assustada, ainda estava muito confusa. Mas estava curiosa.

– Isso te aconteceu quando tinha quantos anos?

– Eu estava com uns 14 anos! A coisa que me trouxe de volta, deixou que eu chegasse até a idade de 27 anos, mas não percebi que eu não envelhecia mais que isso.

– E você, come e parece com qualquer pessoa saudável. Eu vou poder fazer as coisas que sempre fiz?

Iskra sentou-se ao lado dela, assumiu aquele tom quase materno, falando à Virgínia.

– Meu anjo, você vai poder fazer as coisas de sempre; comer, beber, dormir, foder, tudo isso até em demasia, se assim quiser.

– Vou poder casar e ter filhos?

– Até pode, ...mas não recomendo que os tenha! Se os tiver...é certo que venham a se tornar pessoas nada, nada agradáveis. Geralmente nascem sem aquela coisinha que impede aos demais de ferir ou matar.

– Meu Deus! O quê foi que você fez comigo?!

– Assim como o seu bisavô, você não podia ficar quieta, na sua! Não! Você tinha que vir aqui me afrontar! Eu te dei o quê você merecia!

– Mas pra quê? Pra quê que você precisa de mim nesse estado. Pra quê você precisa dele?

– Aí é que tá! Não preciso, fiz porquê posso. Eu não preciso de nenhum dos dois, mas eu os queria, e pronto!

– Você... o quê? Eu, não sou uma coisa ou um bicho que alguém quer!?

Me vi obrigado à intervir.

– Senhorita Andreatta, pare de falar! Pare agora, ou vai piorar as coisas! Aos poucos você vai se acostumar.

– Escute o Ilija. Em todo caso, deixa eu colocar o meu contato no seu celular. Essa coisa é uma maravilha, sabia! Eu poderia até usar as redes sociais para alimentar a caixa, mas prefiro o contato direto. Sujar as mãos torna o meu dia melhor! ...Não só a casa, como toda a propriedade, e uma boa quantia em recursos ficarão à sua disposição. Pode dar festas homéricas às minhas custas, vá e se divirta, não é segredo algum para mim que sua essência é corrupta. Aproveite ao máximo. O Ilija não faz quase que merda nenhuma! O pouco tempo que ficou no mosteiro, transformou ele num pobretão recluso e chato, ele é como um velho!

– Eu não sou como um velho! Eu sou velho! Caso tenha se esquecido, eu nasci em 1877.

– E mais uma coisa! Se entrar no meu quarto, não abra o alçapão. Meu marido está lá dentro!

– Meu Deus Iskra! Você ainda mantém os restos do Antônio?! Pensei que o corpo já tinha se deteriorado por completo!

– É que, sinto saudades, eu uso a caixa pra refazê-lo. Dura algumas horas, e depois começa a se decompor, assim que retiro a caixa de perto dele. Mas enquanto a caixa está perto, o corpo se mantém quase que como vivo. Não respira, ou tem pulsação, mas mantém a temperatura corporal de como se estivesse vivo, e responde à estímulos, assim como qualquer homem vivo!

– Ah meu Deus! Não me diga que você... não, você não faz isso?

– É que eu sinto tanta saudade! E sabe como é..

Virgínia estava muito confusa, então resolveu me perguntar inocentemente.

– Senhor Zorić. Ela refaz o corpo do marido? É isso!? E pra quê!

– Minha filha, ela refaz um defunto e fode com ele!... Ela é tipo o Ted Bundy, doentia.. e necrófila!

Virgínia teve uma sensação de repulsa, pensou em dizer mais alguma coisa, mas preferiu se manter calada. 

– Ilija, todas as mulheres que já transaram com você, treparam com um defunto... não me venha com essa!

– Pelo menos eu tenho consciência de mim mesmo, e elas não fazem e nunca fizeram ideia de que eu não estou vivo de fato!

– Ah, chega dessa conversa! Crianças, se me dão licença... Nossa! Eu odeio usar essas coisas, são necessárias hoje em dia mais do quê antes, mas me enchem de coceiras!

Ela removeu a peruca de cabelos escuros, retirou os grampos desfazendo a toca, soltando o cabelo longo e branco. Retirou as lentes de contato, as deixou ali em cima da mesa.

Por dois segundos, assumiu a forma alongada e monstruosa que assombrou Virgílio Musso até o fim de seus dias. Voltou em seguida, a se parecer com mesma mulher de sempre. Tirou toda a roupa, andou até o deck cantarolando e saltitando, logo esse trecho de N.I.B. do Black Sabbath:

...Look into my eyes, you'll see who I am My name is Lucifer, please take my hand

Oh yeah!

Follow me now and you will not regret Leaving the life you led before we met You are the first to have this love of mine Forever with me 'til the end of time.

Mergulhando logo em seguida e sumindo para dentro do lago.

Acompanhei Virgínia até o carro. Ela me encarou com um certo sofrimento no olhar, respirou fundo falando em seguida.

– Ilija! Nós somos como animais de estimação pra essa coisa, não é!?

– É mais ou menos isso mesmo Virgínia.

Nos despedimos; deixei ela à par do que aconteceria nos próximos meses. As propriedades ficariam temporariamente sob sua supervisão. Voltei até a casa, peguei a caixa, a levei até o deck, me sentei para esperar Iskra voltar, pois teríamos de viajar para que ela abrisse uma exposição em Londres. Depois iríamos para a Síria, a caixa precisava comer, e ela também.

u/Valuable_Notice2796 — 18 days ago
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Capítulo XI : O Quanto pesa a dor de cada um.

“I hurt myself today To see if I still feel I focus on the pain The only thing that's real

The needle tears a hole The old familiar sting Try to kill it all away But I remember everything

What have I become My sweetest friend? Everyone I know Goes away in the end

And you could have it all My empire of dirt I will let you down I will make you hurt”....

            Hurt; Interprete, Jhonny Cash, 2002. Composição :Trent Reznor 1994.

Em 1938, viemos para cá. E isso em nada, absolutamente, em nada me agradou. Para mim foi terrível, ter saído da minha terra, para vir parar aqui. Minha mãe e irmãos foram massacrados, sim! Sei que tudo foi por minha causa. Não me sinto mal por ter arrastado o soldado pelas bolas,...e...o quê me fizeram em seguida,... talvez eu tenha merecido,...mas... não me custou ou me doeu quase nada...o quanto sofreram aqueles soldados, isso sim! Foi uma sensação incrível! Uma verdadeira delícia!

Senti por ter de ir embora, por fazer sofrer e deixar a minha Babka por lá. Sinto pena pelo Tatko ainda...sinto menos falta dele do quê deveria...mas as coisas são como são.

O velho se agarrou àquela caixa, passou boa parte da vida enganado. Enquanto isso, o artefato brincava com os sonhos do meu pai, ao mesmo tempo, que me convidava à tocar-lhe, mesmo que de leve. Não me parecia interessante ter qualquer contato com o objeto. Pra mim, era só mais uma dessas coisas que meu pai tinha aos montes, coisas que valem muito, e, significam praticamente nada; mas rendem dinheiro...e quem é que vive sem dinheiro, não é mesmo?!

Esse lugar aqui, foi construído, não para guardar toda essa tralha que pode-se ver nas paredes, prateleiras e baús. Sei que tudo isso tem um preço de mercado muito alto, e alguns desses objetos têm valor inestimável. Esse bunker foi construído exclusivamente para aquela peça que está sobre o pilar revestido de tecido negro.

A maior parte da história da minha chegada, até esse momento, já é conhecida por vocês. Vou direto ao assunto....

No sexto dia após a morte do meu marido, eu estava exausta! Dormia muito pouco.. naquela madrugada, antes das 4 da manhã, estava já acordada, e comecei a escutar um ruído grave e contínuo. Saí para a varanda. Meus sogros tinham ido até a casa deles, meu pai estava dormindo na minha sala; ele não me viu sair porta afora. O som repetitivo e de baixa frequência, aumentava e diminuía de volume, estava me deixando louca,... de alguma forma,.. intimamente soube, que a caixa estava me chamando. Eu vim à pé de lá de casa, até aqui. Sempre tive acesso às chaves e combinações daquela porta no alto da escada; vinha aqui raras vezes, mas naquela madrugada, peguei um dos lampiões dentro do barraco, abri a porta e desci aqui. A caixa estava exatamente onde vocês estão vendo, ao me aproximar dela, o som cessou, restou um silêncio estranho. Depois de uns três segundos, eu pude ouvir, não foi exatamente isso, não ouvia exatamente, mas existia um som, algo estava falando comigo, mas a voz estava dentro da minha cabeça. Ela estava me propondo um tipo de trato, mais especificamente, uma troca. Soava sibilante, um sussuro rouco.

– Iiiiiiskraaaaa,...se me der seu coração,....vai poder fazer coisas que ninguém pode fazeeeer,.... não vai sofrer mais e vou te dar o quê você quiseeeerrrr!!!

De imediato sem sequer pensar, perguntei o óbvio;

–Quero o Antônio vivo de novo! Você pode trazer ele de volta pra mim!

–Posso, maaaasss...passou muiiiito teempooo... não será mais ele...talvez, ....volte.... algo meio parecido com vocêêêêêê, .....ou.....uma outra coisa, bem diferente!!!

Nunca permitiria tal coisa, que o meu Antônio, voltasse e fosse, como eu sou.

Entendam, assim que entramos na vida um do outro. Me vi, realmente preparada para ser esposa, ter um lar. É um sentimento estranho, mas eu queria ser mãe! Sinto que poderia ter tido uma vida feliz,....feliz e plena, pela primeira vez nessa existência desgraçada. Me senti mulher..... realmente eu iria querer, ter tido filhos, ver nascerem os netos, envelhecer e morrer na companhia daquele homem.....Mas.....a vida nem sempre, é, o quê a gente espera.

 Essas coisas passaram pela minha mente, e eu me vi triste, é horrível se sentir desolada, mas também, estava furiosa. Não pensei muito e...perguntei à voz.

– Como é que eu faço para te dar o meu coração?

– Vou-lhe dizzzzzeeeeeerrrrr como...., maaass vou-lhe advertiiiiirrr,....uma veezzz feito.... não poderá ser desfeito o trato..... você concorda com essssaaaaaa condição?!

– Eu concordo! Vamos logo com isso. – Venhaaaaa... ,... sopre levemente nos sulcos do taaaaampoooo!

Assim que fiz isso, a tampa simplesmente deslizou por completo, deixando à mostra um bloco maciço com um único buraco no centro, era uma cavidade circular pouco maior que o tamanho de um punho fechado, levei o lampião até à caixa e, ao olhar pela cavidade, não consegui ver o fundo, a caixa era ainda mais rasa sem o tampo, mas....isso também não me incomodou.

– Vai teerrrr de abriiiiiirrr um buraco no peito e arrancá-lo....arrancá-lo e o colocar na abertura circulaaaaaarrrrrr!!!!!!

– Se eu fizer isso.....vou morrer!

– Não!.... não vai...é só seguir as orientações!!!

A voz me disse para pegar a caixa, colocar ela sobre o colo, abrir meu tórax, arrancar meu coração e colocar ali. Olhem só como era simples, e eu deveria fazer isso por vontade própria, que eu não me preocupasse, que isso não me mataria. Como de fato, não me matou...assim que peguei a caixa e a coloquei no colo, as coisas mudaram, o controle do meu corpo foi tirado de mim....minhas mãos tomaram um aspecto estranho, os dedos terminavam em garras enormes, que se afundaram e rasgaram minha carne e ossos, meu peito foi aberto à força e isso foi feito devagar, uma das mãos agarrou meu coração, o arrancou, rompendo à tudo que estava junto a ele, o levou até a cavidade da caixa, meu braço desceu o máximo que pôde pelo buraco, e o largou em um espaço sem fundo. Tudo isso doeu pra burro, nada do que passei ou qualquer dor física, a qual fui submetida, se comparava àquilo. A tampa da caixa se fechou ao mesmo tempo em que meu tórax destruído se curava. A partir daí eu e a caixa éramos uma só criatura.

Virgílio olhou de Iskra para Jó, então, indagou ao amigo.

–Se tudo que ela contou, for verdade e não fantasia, ou loucura!.... Isso! Num é a tal da caixa do bruxo?! Só num tem o pato, o coelho e a ilha. Se a gente destruir a caixa... então ela morre!

Arsov olhou para a caixa sobre o pilar, depois olhou em volta, como se procurasse algo, com o qual pudesse se defender.....

– Tente!

A filha de Youssef estava oferecendo uma marreta de uns 10 kg, que sabe-se lá de onde veio, para que o delegado a usasse.

– Tem certeza?! Acha mesmo que se eu bater na caixa, com toda a força, acredita realmente, que ela vai resistir?!

– Vá em frente! Faça o seu melhor! Musso pegou a ferramenta, foi até o pilar, levantou a marreta acima de sua cabeça, a descendo com toda força que pôde. Parte do pilar esmigalhou, o impacto fez com que a caixa saísse de lado, batendo pesadamente no solo rochoso. Continuou intacta.

– Puta merda! Esse negócio é muito resistente...

Virgílio estava incrédulo,... incrédulo e ao mesmo tempo maravilhado. Não havia nele mais o medo, a urgência em se fazer cumprir o seu dever inerente ao cargo. Só havia curiosidade e uma estranha admiração.

– Rapazes, fiquem à vontade para tentarem o que quiserem! Mas, vai ser inútil. O Tatko tentou de tudo, até explosivos ele tentou usar, e.....nada! Eu não tenho explosivos aqui, e mesmo que os tivesse, não recomendaria pois....estamos em uma caverna. Não me preocupo comigo, mas...nenhum de vocês dois conseguiria sair vivo de uma explosão aqui dentro. Bom, tem algo um pouco urgente, que preciso verificar.... está chovendo muito, e se aquele riachinho transbordar, as coisas vão ficar um pouco mais complicadas. Nunca ocorreu dele sofrer uma cheia antes. É claro que aqui a água não entra, a porta do cofre é hermética, há uma passagem de ar junto à chaminé, ambas saem para o topo do rochedo, aqui estamos seguros, mas se a caverna for inundada, só se sai daqui nadando. Vou até lá verificar o nível da água e se houver tempo, retirar parte dos meus souvenires para dentro do cofre. Já volto! Bastou a mulher deixar o átrio, para Arsov sair da sua aparente apatia.

– Virgílio! Você precisa despertar! ... você está sob influência da caixa...

– Como assim Jó?! Eu nunca encostei na caixa, não diretamente! É impossível isso... Arsov o interrompeu.

– Todos nós tocamos a caixa! Nem nos demos conta disso...se o que ela nos contou, realmente for verdade....ela e a caixa, são um só ente agora. Basta que ela nos toque...é o mesmo que tocar na caixa,...talvez seja ainda pior, ser tocado por ela, do quê tocar diretamente à caixa. Lembra do quê Dimitrievski nos falou, que o objeto é um brinquedo, mas não foi criado para divertir, é um brinquedo que é parte, sabe-se lá de que entidade, que se diverte causando dor e sofrimento. E se ela, ao se unir ao objeto, acabaram por desenvolverem outras habilidades? Não te parece estranho, ficarmos tão calmos, acolhidos e até atraídos pela maneira afável com que ela nos trata? Além de quê, ela está lindíssima! Tão encantadora, quê,... praticamente separou a cabeça e o corpo de um homem na nossa frente, e isso sequer fez surgir, qualquer sentimento de repulsa em nós!

Eu não sei dizer exatamente o quê é esse objeto. O mito de Koshei, pode ter sido inspirado, no quê essa coisa é, mas.... Será que há como destruir a caixa? Aparentemente...... não!

Musso, largou a marreta no chão, abriu e fechou os olhos algumas vezes. Sentiu-se atordoado, voltou a sentar-se no sofá.

– E!.. Se a gente abrir a caixa? Ela soprou nas frestas e a tampa se abriu...lembra o quê ela contou.

– Você acha mesmo que isso vai dar certo? Parece que ainda não entendeu...ela e a caixa..

– Tá, eu entendi, mas e se eu tentar? Só vou testar..., pega aquele pano ali, vamos envolver isso,...acho melhor assim.

Levaram o artefato até mesa onde haviam tomando café, e Virgílio soprou bem de leve um dos sulcos, a tampa deslizou livremente deixando à mostra a cavidade circular.

– Chega o lampião até aqui Jó. Eu quero olhar essa coisa por dentro.

Iluminaram a abertura. Não havia nada visível, era como Iskra havia descrito. Mas Musso resolveu enfiar a mão ali. De qualquer maneira, era válido tentar. Desceu até onde o corpo permitiu, o ombro direito estava quase dentro da cavidade. Parecia antes caber somente um punho, mas estava com o braço todo, vasculhando o nada. Ali dentro, a sensação era de frio, mas era um frio viscoso, como se o ar tivesse uma densidade muito maior. Virgílio sentiu algo como se minúsculos tentáculos tateassem pelo seu braço de ponta a ponta, instintivamente puxou-o para fora e a tampa deslizou fechando-se. Fôra rápido o suficiente para salvar o braço, mas, sentiu uma queimação terrível na mão. A engueu à altura dos olhos. Havia perdido os dedos minino e anular, e a terça parte do punho. Arsov arrancou uma tira de tecido da própria camisa, improvisando uma bandagem.

– Caralho! .....minha mão! Essa coisa decepou minha mão! Puta merda, puta merda!!!!

– É!..o mesmo tipo de curiosidade das crianças! Custou só dois dedos Virgílio. Sobraram ainda oito! Eu tenho me virado bem só com oito deles.... você também consegue! Seu amigo, o morto falante, relembrou uma informação interessante, mas...sua atenção estava em querer vasculhar ali dentro... não há o quê tirar dali de dentro delegado... A voz estava às costas de ambos. Os homens ao se virarem em direção à ela, encararam a coisa que Luiz havia descrito. Era alta, esguia, exibindo um enorme sorriso com uma bocarra repleta de dentes pontiagudos. Uma característica ou outra ainda lembravam à mulher com quem estiveram a até uns minutos. Andou pausadamente até onde estavam. Tocou levemente a caixa, foi voltando à forma anterior, sentando-se em seguida, no tampo da mesa.

– Sim, eu e a caixa somos um só...e...as suposições de Ilija Zorić estão corretas.

Musso olhou para ela, baixou a cabeça, pareceu refletir um pouco. Voltou-se para a filha de Dragomir.

– Todos os incidentes, desde a chegada do Arsov; os ocorridos na delegacia, os cavalos que causaram a confusão que culminou nas mortes do José Julião e toda a família Daleprane, o descarrilamento na ferrovia, todas as mortes do hospital, os acontecimentos na fazenda do Dorcilino e a morte do Russo. Todos esses fatos, foram por ação direta e também por influência sua. Certo!

– Exato! Mas....o meu pai... não foi por minha influência! Existem algumas limitações, era o quê aquele saco de merda estava tentando explicar quando eu o matei. Só posso ver ou sentir o quê acontece com o artefato, se estivermos próximos, podemos influenciar os sentimentos e vontades de outros seres vivos sem precisar que os toquemos, mas, à distância, essa capacidade se anula. Naquela noite, meu pai veio aqui. Ele fazia isso toda semana, vinha e tentava abrir a caixa, sem a tocar diretamente. Era sempre nas noites de terça-feira. Tentou de tudo, usou todo tipo de ferramenta, o homem era um ladrão experiente. O intuito era abrir sem danificar tanto o recipiente, como também o quê houvesse dentro. Nada das técnicas que conhecia adiantou. Então um belo dia, fez a mesma coisa que o Musso; encheu o objeto de marretadas, e como vocês mesmos viram, a caixa se manteve intacta. Depois disso usou maçaricos de corte, tentou destruir com uma prensa, despejou ácidos. Já sem paciência, levou a caixa em um descampado e, a dinamitou. Não adiantou em nada. Quando o Jó chegou, o velho sabia, que ele tinha vindo exatamente, para reaver a caixa, o pobre do homem ficou desesperado,e ...só naquela vez,...meu pai, veio até aqui, com o intuito de, levar o objeto até sua casa,... estava confuso. Ainda não havia se decidido o quê faria exatamente. Talvez a curiosidade tenha vencido a prudência. E meu Tatko, tocou a caixa sem se proteger. Ele já sabia quê fui eu quem tinha matado tudo que estava na fazenda do Dorcilino. Mas ao tocar a caixa, ele viu... com clareza. Quase posso ouví-lo dizer para si mesmo-“ Ewa estava certa, se eu tivesse tido a coragem de fazer o que era necessário...., meu Deus!” O que ocorreu em seguida é que, ele decidiu que iria dar de bom grado o artefato para o Senhor Defunto, ...mas ele desconhecia alguns fatos. A caixa não poderia mais ser dada; também não fazia ideia de que eu levava a caixa comigo, inúmeras vezes, a todos os lugares, para apreciar o mal que permeava o interior de cada cidadão dessa merda de lugar. Eu estava nutrindo a caixa, até então sem saber que ela se fortalecia com a maldade e os desejos mais ocultos das pessoas. O artefato então, envenenou meu pai. Ele morreu à beira da estrada, agarrado à caixa. Se foi em total tormento e pavor. Assim que o delegado chegou na fazenda, com o corpo do meu pai na traseira do Jeep; há poucos metros, o artefato começou a compartilhar o acontecido comigo. Só pude sentir raiva, raiva por aquele velho ser tão descuidado e ter tocado a caixa.... Depois disso, tive de criar distrações, então peguei o artefato, a mesma voz que me levou a colocar meu coração dentro da caixa, me ensinou a distorcer os sentimentos ruins que já existem dentro de cada um, então fui e influenciei o irmão da Das Dores e também o soldado Carlos. Virou um pandemônio. Foi aí que eu descobri como é, e de quê a caixa se alimenta...ela se nutre do sofrimento. Já eu....eu gosto é do trabalho sujo! Uma mordida e mil delas, nunca são o suficiente....posso destroçar e devorar até um batalhão...e continuar gostosa desse jeito! O sonho de toda mulher, comer de tudo, sem engordar!

Tanto o delegado, quanto Arsov, tinham voltado ao estado normal, de alerta. Não podia-se negar. Quando queria, ela conseguia, e sem muito esforço, até ser um encanto; foi assim que ela se tornou tão bem quista pelos Martinelli. As condições na época em que esteve casada, eram muito diversas das de agora..as coisas agora eram muito piores, e nenhum dos dois ali, sabiam como lidar com a situação. Estavam presos com ela...”até quando seriam mantidos vivos, e para quê?” Era uma indagação tácita impressa no rosto de ambos.

– Não estou entendendo, o porquê, dessas caras compridas meninos!?

Virgílio ergueu o quê restara da mão direita. A bandagem improvisada estava empapada de sangue. Mas não era isso que o incomodava.

– Você tem feito todas essas coisas, por todo esse tempo,... matou um monte de gente, o...o restante da população ficou aterrorizada! Estão deixando tudo para trás, e indo embora! Me deu um puta susto no meio da mata, à ponto de eu mandar toda minha família pra longe daqui,...e está nos mantendo aqui em cárcere! Até agora, parte disso, não faz o menor sentido! Entendo que a maior parte do montante das desgraceiras , seja pra alimentar a porra da caixa... Já para você,... a sua única diversão, é comer e destroçar gente ou bichos. Mas porque que a gente tá aqui? Qual é o propósito de eu e esse outro infeliz, estarmos aqui junto com você?!

Iskra ponderou por alguns segundos, isso deixava o clima ainda mais tenso. Fez em seguida uma pergunta, estranha e até certo pronto, pertinente.

– Vocês dois..., tem amigos?

Musso olhou para Arsov; sentiu vontade de rir, até esboçou um quase sorriso, mas conseguiu controlar a vontade de cair na gargalhada.

– Sim eu tenho amigos!..... Mas o quê tem haver com tudo isso? Não entendi!

A mulher respirou fundo, parecia um tanto impaciente. Fez uma pausa, para em seguida, trazer certos fatos, um tanto intrigantes.

– Você tem conhecidos, isso sim! Ninguém frequenta a sua casa. Você veio pra cá transferido da capital por bebedeira, e em uma de suas farras, matou seu sogro após ter surrado sua primeira esposa. Não foi exonerado na época, pelo simples fato de ser sobrinho do governador em exercício. Você têm medo de voltar a beber. Sei que sua vida aqui é razoavelmente confortável e que seu titio, deu um jeito de abafar todo o acontecido. Depois de uns vinte anos, algumas coisas simplesmente somem....o outro ali, senhor morto-vivo, talvez o único amigo que teve nessa existência miserável, deva ter sido meu pai. Até agorinha à pouco, sequer fazia ideia de que era um escravo. Vem servindo desde que era adolescente, se não tivesse sido encontrado por uma representação humana da entidade que criou essa caixa. Dele, com certeza,...não haveria nada mais nesse mundo. E também, se não tivesse morrido, nunca teria setornado um frei, isso é fato! Foi para o monastério porquê sua família assim o quis. Nunca houve uma fagulha sequer de ligação com Deus, suas secretas tendências à violência, nunca o deixaram criar qualquer elo com outro ser humano, sempre foi vazio, vazio e cruel, por isso, fôra tomado como servo!

– E é assim! Passando os nossos erros, na cara da gente, que vai nos convencer, a sermos seus amigos?

– Não Ilija! É assim, quê eu, lhes dou a opção de cuidar de alguns dos meus interesses de maneira pacífica! Caso contrário! Os faço escravos das minhas vontades. Assim como a divindade que criou o artefato, faz com quem entra em seus dominios, ou com os que lhe interessam de alguma maneira.

Com um misto de terror e indignação gravado na face, Virgílio, se levanta, corre até a escadaria. O faz às cegas, vê a luz entrando pela porta do cofre, chega a ela, sai, empurra a mesma e a tranca por fora, talvez com o objetivo de lacrar tanto Arsov, como também Iskra. Tem muita umidade sob seus pés. Musso pisa em falso, perde o equilíbrio e escorrega, descendo às cambalhotas até a saleta onde fôra parar anteriormente pelo mesmo descuido de agora. A água começava à se acumular. O delegado pôde sentir, que onde estava, havia ali já depositado, uns cinco centímetros; ao tentar se recompor, escutou o chacoalhar das ossadas à sua volta, as peças batiam umas às outras por causa das ondulações que ele mesmo causava, tentando se colocar de pé. O odor pungente de carne em decomposição parecia mais forte. Assim que conseguiu se levantar de modo estável, procurou alcançar uma das paredes. Era impossível enxergar. Estava tateando pra encontrar a abertura por onde havia caído. Percebeu alguma luminosidade e andou cambaleante em direção à ela. O mal cheiro parecia piorar, e o delegado seguiu ainda em direção àquele ponto iluminado. Com a mão que lhe restara inteira tocou o que seria uma daquelas prateleiras cheias de ossos, e esbarrou em algo muito familiar. Era a sua arma. Se apressou em pegá-la, abriu o tambor e pelo tato, conferiu e constatou que ainda estava carregada. Empunhou o revólver e seguiu em frente. Percebeu um pouco adiante que a passagem por onde estava atravessando, não levava à saída da caverna. Estava entrando em um outro átrio, um de seus pés resvalou em coisas que tinham um aspecto esponjoso, flácido. Olhou para o chão já tomado por um líquido viscoso, era como lama. O facho de luz aumentou em direção de seu rosto; Virgílio nem sequer pensou, atirou seis vezes, os estampidos dentro do recinto deixaram seus ouvidos com um zumbido contínuo, mesmo assim, ouviu o baque do corpo e o movimento da água. Sim ele tinha acertado e quem estava ali, tinha caído. Mais um facho de luz se ascendeu, assim que ele olhou para a direção de onde a luz vinha, viu a coisa alongada ali de pé, segurando um outro lampião. Aos pés daquilo, estava Jó Arsov. Fôra nele que Virgílio havia descarregado a arma. A coisa à sua frente ergueu o facho de luz, e o movimentou para que Musso visse todo o entorno. Haviam corpos, ou só partes deles, inúmeros e, em estágios diferentes de decomposição. Virgílio compreendeu diante daquela visão, quê ninguém saiu de Iguaçurana e de seu distrito. Todos que tentaram sair dali, foram caçados e mortos pela filha de Dragomir. O desespero o afligiu de imediato.

– Maria, Amélia, Míriam, meu Deus. Você matou minha esposa e minhas filhas!!!

– Não! Elas ainda estão bem, maaaasss....isso agora depende de, se você vai aceitar ou não a minha proposta.

– Tá bom! Eu aceito. Mas....posso antes perguntar o porquê disso tudo?!

– Huuuummm! Você quer uma razão,..... uma explicação..... do porque fiz essas coisas?... Não sei se vai gostar, mas se é isso que quer. Por um bom tempo da minha existência, a maior parcela das coisas que fazem parte da vida de pessoas normais, comuns, não me agradaram ou desagradaram. Infligir sofrimento e matar qualquer ser vivo, era a única forma que encontrei para me fazer sentir alguma coisa, e essa sensação é ótima. É muito melhor do que trepar,....trepar é gostoso, admito, mas matar!.... Não é de agora que eu tenho feito isso, venho fazendo desde sempre,... depois dos dez anos,...matar bichos foi bom, porém, o que fiz em seguida, foi muito melhor... a sensação me ocorre como a minha mais preciosa lembrança de infância... mateis duas crianças mais novas. Eram irmãos! Uma garotinha de cinco anos e um menino, que devia ter nada mais que um ano e meio de idade, ambos estavam perdidos na mata, nos arredores da propriedade de meus pais. Os atraí para o bosque com pães e geleia, e enquanto comiam; fiz o quê fazia com os porcos. Uma machadada bem dada no crânio, resolve o problema. Me sentei e provei a carne da menina, depois a do menino. Retirava pedaços com a faca de trinchar e ia comendo. Levei dias consumindo os dois. Isso se repetiu,..algumas dezenas de vezes, mas aí, tivemos de vir para cá. Prometi ao Tatko que não arranjaria mais problemas. Quando me envolvi com Antônio, é muito estranho isso, ....as coisas mudaram, eu mudei o máximo que pude, não tinha mais essa necessidade de matar para sentir alguma coisa....e aí, aconteceu de matarem ele. Isso fez com quê, eu, finalmente experienciasse o quê é sofrer....é quase uma certeza para mim,..... que a caixa me escolheu,.....e o fez por minhas peculiaridades, tirou das minhas mãos a vida que eu escolhera,.... e eu, lhe entreguei meu coração, ...talvez com esperança de parar de sofrer pela perda de meu marido. Quanto a isso, não deu muito certo, as memórias ainda são vívidas....

O homem caído junto à Iskra, começou e se mover, bem devagar. Virgílio correu até ele, para o ajudar a se recompor.

– Jó, que bom que está vivo.....

O delegado ficou mudo ao perceber que os seis tiros efetuados haviam acertado na parte central, entre o tórax e o abdômen. A perplexidade o emudecera momentaneamente. Quando conseguiu falar algo, soou como um sussuro. Quase que para si mesmo.

– Como é que esse cara tá vivo,...ainda!

– Ele está morto, e não é de hoje. O corpo dele parece estar vivo, mas é só isso. Foi deixada parte da consciência, para que ele mesmo acreditasse que era um homem.

– Mas ele, ...ele sangra, e respira....

– É! Ele sangra, come, caga, respira, bebe, fuma, fode,....faz todas essas coisas. Mas.... não precisa fazer nenhuma delas.

– Caso os dois não tenham percebido, eu estou consciente....eu não estou morto, essa mulher, essa coisa, seja lá o quê ela for... é louca. Não estou morto! Me usou de escudo quando você atirou. Meu Deus que dor!..

Arsov se levantou à muito custo, com a ajuda do delegado. Era difícil se manter de pé ali de forma estável, toda aquela matéria orgânica decomposta, deixava o solo escorregadio. O mal cheiro era tanto, que o simples ato de respirar, intoxicava e causava náuseas. Encontraram uma parte onde o solo estava menos lamacento, estavam encostados em uma parte da parede, onde havia uma reentrância maior na parte superior, deixava uma pequena saliência na parte de baixo, onde os dois se sentaram. Depois de alguns segundos Jó estava um pouco mais disposto. Olhou em volta, parecia estar procurando alguma parte do corpo de alguém que ele conhecesse. Percebendo esse comportamento, Iskra os deixou cientes de alguns fatos.

– Giovanni Martinelli e seus familiares, ... não estão aqui, eles, assim como a esposa e filhas  do Musso, foram poupados. Mas o Luiz tá ali! 

Ela voltou o lampião para um canto, próximo à abertura que dava acesso àquela câmara. Era uma cabeça com um gancho de açougue enfiado na base do crânio, dependurada em uma corrente que estava fixada ao teto.

– E então! Qual a decisão de vocês? Vamos ter uma convivência pacífica, ou vão fazer parte da decoração e das refeições?

Musso, apesar de tudo o quê estava ocorrendo, estava muito irritado para sentir medo, e fez uma observação à Arsov;

– Quando você amarrou ela, lá no celeiro....devia ter dado é um tiro de fuzil na cara dessa puta!

– Pensei a mesma coisa, quando ela deixou uma armadilha na sala da casa do pai dela, na tarde em que sepultamos o Youssef; uma tábua com pregos muito afiados....mas iria adiantar o quê?... Essa coisa! Como dizia nosso colega, ou só o que sobrou dele! Só se parece com uma mulher!... Eu realmente não sei o quê fazer!....a única coisa que restou, pelo menos para mim, é aceitar os termos dela.

– É só o que resta, Jó?!

– Sim, é só o que resta! Sinto muito por tudo isso Virgílio!

–Infelizmente,...então vou aceitar...por hora!

Iskra parecia satisfeita com a resposta. – Por aqui, senhores....

Ao direcionar o lampião para os fundos da câmara, lá haviam duas outras portas. Uma acessava ao bunker e a outra levava a um alçapão que saía por debaixo do assoalho do barraco. Os dois homens saíram pelo alçapão. Já com a aparência de mulher, Iskra apertou a mão de ambos, como se estivessem em comum acordo, depois retornou para dentro do bunker.

Andaram até o Jeep em silêncio. Musso pegou as chaves, sentou-se ao volante, e assim quê Arsov sentou-se no banco do carona; Virgílio ligou o carro, empurrou o outro pra fora do veículo e partiu sozinho.

As pessoas não estavam conseguindo deixar a região, a chuva intensa transformara as estradas em atoleiros; o solo encharcado, fez parte das encostas desmoronar. A BR 261 ficou também interditada. Ouviu-se ao longe um som estranho, chiado como se estivesse sendo arrastado um volume grande pela mata. A água invadiu o vale, arrasando à tudo em questão de minutos. Não havia para onde correr, onde se esconder, e os moradores se viram cercados pela água que veio arrastando lama, partes das casas e inúmeras árvores. A represa não suportara; o alto volume das chuvas causou uma cheia à qual a barragem ainda em processo de término, não pôde controlar a vazão.

Toda a região entre Tapitininga e a saída para São Gabriel ficou submersa. O que minutos antes era Iguaçurana e seu distrito, tornara-se um enorme lago. Formações rochosas com medidas inferiores à dez metros de altura também ficaram embaixo da água. Não se teve notícia de que algum residente fôra resgatado com vida. Era uma catástrofe.

As chuvas continuaram intensas até meados de janeiro de 1950. Quando houve a primeira estiagem, as buscas por corpos puderam ser organizada finalmente. Não se sabe exatamente o porquê, mas nenhum deles fôra encontrado. Depois de duas semanas os trabalhos dos mergulhadores e da brigada do corpo de bombeiros de ambos estados foram encerrados. Tornou-se impossível a utilização dos trechos, tanto da estrada de ferro, assim como da BR 261. Foram feitos desvios e a região foi deixada de lado, temporariamente. Dois anos após ao desastre, não se sabe exatamente qual trâmite legal fôra ajustado junto ao Governo do Estado. A região foi leiloada. Foram vendidas a um particular, uma área de 897 km², a um preço estupidamente baixo.

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Capítulo X: Uma visita já esperada.

Ao amanhecer houve uma estiagem; Virgílio e Jó se despediram de Luiz. Pegaram a estrada para retornarem à Iguaçurana, ela já ia se tornando um lamaçal. Caso chovesse mais umas duas horas seguidas, ficariam presos em São Gabriel.

Fôra uma viagem longa, aparentemente muito mais longa pelo silêncio em que ambos mantiveram. Havia um desconforto em iniciar qualquer tipo de conversa. Talvez, pelo fato de que, por mais banal que um assunto fosse abordado, havia a certeza que, em poucos minutos, acabariam retornando para todos aqueles fatos absurdos. Fatos esses, sobre os quais estiveram conversando pelas últimas 30 horas.

Após três longas horas no Jeep, finalmente estavam de volta. Naquele momento, só se chegava à cidade pela única via que ainda estava utilizável. Saíram da BR 261, pegaram a estrada de acesso junto ao cruzamento que levava ao distrito. Era preciso ir até a vila, para a partir dali, voltar para Iguaçurana. Ao passarem em frente ao Hospital Central, o delegado viu de imediato, um buraco enorme onde, até o dia anterior, havia uma ampla janela, era a da ala dos leitos. Parou o carro, e antes que pudesse sair, Nilo chegou até ele, dando notícias nada boas. Estava aturdido, não havia coerência em seu discurso; aos atropelos, contou sobre as coisas estranhas que aconteceram na passagem da noite. O segurança do hospital, relatou o quê havia ocorrido ali; Ernesto se juntou a ele, tentando explicar mais algumas coisas. Não demorou muito, e Benedito Turra se aproximou, acrescentando o quê ocorrera junto à via férrea. Musso, nunca em sua vida, se sentira tão impotente; sequer sabia por onde começar a pensar.

Otacílio Vitti, vizinho da delegacia, deu a volta no Jeep, andou até ao lado do carona, e pelo reflexo do retrovisor, sinalizou para Jó. Fez sinal para que viesse até ali fora, pois tinha algo para lhe falar. Arsov assentiu, desceu do automóvel e foi até ao homem.

– Pois não, em que posso lhe ser útil?

– Você é o amigo do Russo, num é? É o que veio aqui procurar ele, num é?

– Pode-se dizer que sim. Porque?

– Ontem no trem das 10:50, desceu um outro estrangeiro, que tem a fala arrastada igual a sua. Ele tava procurando você e o Musso. Como não encontrou nenhum dos dois, deixou comigo o recado; que assim que chegassem, fossem encontrar com ele na propriedade que o Seu Dragomir tinha comprado do Giovanni Martinelli?! Não lembro do Giovanni ter vendido nada pro Russo! O senhor sabe onde é?!

– Sim eu sei onde é. Esse homem disse mais alguma coisa?

– Disse sim! Disse que veio a mando dum tal de Hermeto Otochua,... e precisava falar com você o mais rápido possível.

– Muito obrigado!

Arsov se distanciou do homem, deu a volta no Jeep e foi de encontro ao delegado. Sinalizou para Musso. Virgílio pediu licença aos moradores que estavam relatando desordenadamente, toda a sorte de desgraças da noite anterior.

– O quê foi Jó?

– Virgílio! Acho que, um funcionário do instituto foi enviado até aqui, à mando do meu superior imediato. Veio à procura de nós dois. Disse que está nos aguardando na propriedade do Youssef.

– No sítio lá na vila?

– Não! Aquela que fica no quilômetro quinze.

– Foi você que informou a eles sobre o lugar?

– Não Musso! Mas no instituto existem outros investigadores, não me surpreende terem encontrado esse lugar.

– Com tudo que ocorreu durante minha ausência, não vou poder sair daqui agora! Tenho que tentar resolver algumas coisas,... e também, tenho de aguardar o pessoal da ferrovia chegar. Já fui informado que passaram por Tapitininga e vão chegar daqui uns cinquenta minutos. Faz o seguinte, leva o Jeep. Já conseguiram desatolar o caminhão do Benedito. Depois peço a ele para me levar até lá. E de lá, a gente vai atrás da Iskra Martinelli! Fazendo sentido ou não todos os fatos em torno dela! De um jeito ou de outro, tenho de colocar um ponto final em tudo isso. E então!? Combinado?

– Combinado.

Jó deu partida no Jeep e seguiu em direção à propriedade. Não demorou à chegar. Era um casabre em meio à mata, ficava em frente a uma elevação rochosa. Nos fundos da casa passava um córrego, o curso d’água ficava entre a casa e uma gruta existente na parede rochosa. Arsov estacionou junto ao riachinho, caminhou até a porta do casabre, se aproximou para bater à porta e antes de tocá-la. De dentro ouviu uma voz masculina, falando em sua língua materna.

– Entre e sente-se.

Arsov adentrou à sala do casebre com um certo receio. Era um pequeno recinto onde havia uma mesa surrada para quatro lugares. Do outro lado da mesa, sentado, o aguardando, estava o homem. Jó puxou uma das cadeiras, se acomodou. O homem manteve atenção voltada totalmente a ele, não com receio; havia curiosidade acima de tudo.

Arsov rompeu o silêncio incômodo. Era desnecessário ter de se reportar à alguém, que não fosse Hermeto.

– Bom... você foi enviado pelo senhor Otxoa até aqui. Entendo o porquê. Mas ainda não consegui com que a caixa me fosse entregue. As circunstâncias mudaram e o atual portador não a recebeu do anterior. Youssef Dragomir faleceu e sua filha tomou posse do objeto.

– Disso eu também tomei conhecimento. Mas...como posso dizer-lhe o quê está acontecendo...uma das coisas que vim lhe avisar, é que, não há mais como reaver a caixa.

– Como assim? A caixa pertence então à Iskra Martinelli?

– Não deveria pertencer à ela Arsov, mas alguns fatos fizeram com que isso se tornasse definitivo. Ela conseguiu com que a caixa a escolhesse, e por motivos muito particulares, o artefato e ela fizeram uma troca. Enquanto a caixa esteve sob guarda de Youssef Dragomir, ele fora mantido em um cofre, esse, fica encravado em uma das paredes, dentro da abertura naquele rochedo, atrás desse barraco. Boa parte do tesouro acumulado por aquele homem está lá. Há objetos ali guardados, pelos quais, algumas pessoas matariam, ou pagariam fortunas enormes. Tudo aquilo, é, fruto de anos a fio de negócios escusos.

Dragomir era um homem com a cabeça posta a prêmio por várias pessoas e organizações, inclusive, pelo partido nazista.

É procurado por inúmeras acusações de roubo; essas vão de desde antiguidades, à obras de arte, pedras preciosas e ouro em barras, furtadas do governo francês no período da segunda grande guerra. Mas, para o miserável, o bem de maior valor era a caixa. Apesar de escolher viver num fim de mundo como esse, em condições muito simples, era extremamente rico. Existem toda a sorte de recompensas para boa parte dos itens contidos no cofre. 

– Então a ideia agora é reaver para o instituto todo o restante, já que, recuperar a caixa se tornou uma impossibilidade? É como um prêmio de consolação, é isso? Ou estão tentando usar todo o conteúdo de cofre como moeda de troca, para quem sabe, com essa condição, ela resolva trocar tudo o mais, pelo artefato. Não é preciso pensar muito, para se chegar à conclusão, de que essa opção é inválida.

O homem à frente de Arsov, com a mesma serenidade incômoda; mais uma vez, tentou dar-lhe ciência de que as condições, realmente mudaram.

– Essas suposições são suas. Acho que você ignorou por completo o quê lhe disse. O artefato agora faz parte daquela mulher, e ela, é parte do artefato.

– Sim eu entendi até certo ponto,... mas algumas coisas, ainda não fazem muito sentido. Na verdade nada disso tem feito muito sentido por anos. Eu venho correndo atrás desse objeto por anos à fio. Os outros artefatos que recuperei, foram entregues às suas respectivas nações e todos possuem ligações diretas com suas culturas. Mas e essa caixa? O quê é que se sabe exatamente? E não me venha com a história do Koschei por favor!

– Você nunca tocou a caixa diretamente... Talvez, alguns fatos, possam ser esclarecidos ao tocá-la.

– E você? Você já a tocou?!... O Hermeto já a tocou?.... Pra quem eu estive trabalhando por todo esse tempo? O Instituto realmente existe?

– O Instituto de Conservação Histórica Eslava é um órgão real, e é mantido com capital privado, mas, o governo da URSS tem participação simbólica somente. Sou um curador, assim como Hermeto Otxoa.

Fazemos intermediações entre nações, museus, bancos e galerias de arte. E respondendo a sua primeira pergunta; não, eu nunca toquei na caixa, pelo que me consta, seu empregador provavelmente não tenha o feito também. Sabemos que o objeto revela alguns fatos ao ser tocado, mas ....

O homem não conseguiu terminar de dizer o quê estava falando. Foi ficando pálido e tombou para frente. Nenhum dos dois tinham percebido, mas as janelas estavam fechadas, assim como as portas. Jó apagou completamente após ver seu interlocutor cair da cadeira inconsciente.

Duas horas após o regresso do delegado à Iguaçurana, dois técnicos e um engenheiro enviados pela ferrovia chegaram à cidade. Vieram em um caminhão de linha, usado para manutenção, que estava duas estações antes de Tapitininga. Musso estava junto aos trilhos observando o trem descarrilado: Benedito o indicou onde Juventino havia estado na noite anterior.

Virgílio estava acompanhado do condutor da locomotiva, o mesmo que encontrou os pinos cravados nas junções, entre o contra trilho e o diamante, impedindo que o mecanismo fizesse contado da passagem de um par de trilhos para o outro. Os técnicos foram até onde os dois homens estavam, e não fizeram nada mais que, constatarem exatamente o quê o condutor e o delegado já haviam observado. Musso estava à par do quê acontecera no Hospital Central, também soube que, pelo que tudo indicava, o Jaques da estação, fôra degolado pelo mesmo homem que causara o acidente na ferrovia. Desceram dos trilhos, e foram até ao posto. O corpo do agente estava caído de bruços, dentro do depósito, no chão ao seu lado estava um machado ensanguentado, era a arma do crime. Na residência que ficava no mesmo terreno da estação, onde Jaques vivia com a família, não havia ninguém. A esposa, os filhos e os pais que o vieram visitar; nenhum deles estavam ali. Os técnicos entraram em contato com a matriz, na capital do estado. A diretoria chegou à conclusão de que, com as chuvas intensas, seria mais fácil uma equipe se deslocar do estado de Minas Gerais. Não havia muito a ser feito por enquanto em relação à ferrovia, então Virgílio resolverá voltar à delegacia.

O delegado, já havia requisitado, mais de uma vez; que pelo menos dois policiais fossem designados para a cidade. Ficara sabendo àquela manhã, que estavam à caminho, não dois, mas uma viatura com cinco deles; o prefeito de Iguaçurana era um dos dois homens que foram eviscerados no quarto leito do hospital. Após o incidente, o vice prefeito, entrou em contato com o governador, e uma viatura, com um oficial e quatro soldados estavam à caminho. Musso ao saber dessa novidade, se perguntou: “ o quanto de desgraças, é necessário, para que as coisas funcionem o mínimo possível? Tem dias que estou fazendo essas requisições! E só foram atendidas agora! Só depois que o Mário Loss foi aberto igual a um porco abatido. Agora que os moradores estão histéricos!

Tem gente tentando deixar a cidade, mesmo não podendo levar nada junto com elas! A ferrovia está interditada e as estradas estão quase que lama pura; até o acesso à rodovia federal está em estado deplorável. Ainda se pode ir até a vila sem maiores problemas, mas, depois do posto da divisa, a estrada volta a ficar intransitável. Vou arrumar alguns voluntários; tentar arrumar a bagunça em que ficou o hospital.... talvez até consiga, alguns outros, para irem limpando parte da estrada que dá acesso à BR 261. Ainda tem todo o alvoroço, por causa da coisa que atacou a Alzira, e à todos que estavam no segundo pavimento do hospital! O Luiz pode estar certo afinal!”

Após a desobstrução, de parte da via, que levava à rodovia federal: uma parcela da população começou a deixar a cidade. Se instalara um pavor generalizado, e não havia como minimizar, ou sequer esconder, o ocorrido na noite anterior. Todo e qualquer cidadão que possuísse um veículo, se apressou em deixar Iguaçurana, antes de começar a chover novamente. O caminhão de Benedito Turra fôra descarregado no depósito da estação ferroviária, e ele ficou à disposição do município. Seu pai ainda não havia retornado da viagem que fizera para levar Tarcísio e família até Santa Rosa. Antes de começar a fazer os fretes necessários; levou o delegado até a propriedade em que o amigo do Russo havia ido. Era onde aguardavam a chegada de Virgílio. O delegado, pediu que Benedito o deixasse na estradinha antes da mata, dali ele seguiria à pé; se despediram, e Musso foi até o casebre. Enquanto fazia o percurso , tirava suas conclusões; absorto em divagações – “ se eu tivesse um pingo sequer de juízo, arrumava minhas coisas e ia embora, sem nem olhar para trás. Porque é que eu vou me meter mais ainda nessa história?! Deveria ter me dado por satisfeito,... em só desconfiar que a filha do Russo estava envolvida,... com aquele crime de vingança. Mas e agora?!... Se a coisa que, ataca, mata, e causa todo esse rebuliço é, de verdade, a Iskra Martinelli! Qual é a razão, para todo o resto? Segundo Jó, fato contado à ele, pelo próprio Youssef Dragomir: ela mata por prazer. Mas....a maneira como ela deixa os cadáveres....nunca ouvi dizer, que as pessoas fazem essas coisas às outras assim! É como se fosse feito por um animal!... pensando bem sobre o assunto, por mais que eu queira negar....o quê me atacou, e deixou o Tarcísio dependurado de cabeça para baixo, não parecia ser uma pessoa. Eu não cheguei a ver,.. mas senti,...senti com que força, aquilo me agarrou e arremeçou contra o Tarcísio. Não posso sequer dizer, que um homem muito forte seria capaz daquilo! A mesma coisa atacou a Alzira, matou o prefeito e mais três pacientes; sendo um deles, nada mais que uma menina...é a mesma criatura que segundo Luiz, destruiu tudo que encontrou na fazenda do Dorcilino....como é que aquela mulher, conseguiu, virar esse tipo de coisa? E a caixa? As coisas que o Arsov contou sobre o objeto...meus Deus! Juntando tudo... parecem coisas, que só são possíveis de serem lidas em histórias de horror.”

Quando deu por si, estava já, junto ao casabre. Musso se aproximou da porta da saleta, a abriu devagar. Estava vazia. Atravessou o cômodo, passou por um estreito corredor; havia um quarto à esquerda sem portas, com uma cama e um criado mudo, mas estava vazio também. Seguiu até os fundos, havia ali, um fogão à lenha feito de barro, uma mesa pequena de quatro lugares, assim como a que estava na sala: também não havia ninguém. Aos fundos do barraco, passava um córrego, na outra margem do riachinho, havia uma gruta no rochedo. Virgílio não se sentiu nada à vontade, ao imaginar que, talvez, teria de verificar o interior daquele buraco na pedra.

Uma pinguela em estado deplorável era utilizada para a travessia. Pelo menos, não teria de entrar na água. Se sentiu estúpido, por não ter pensado em trazer consigo, sequer uma lanterna; trouxera a arma... mas iria entrar às cegas ali. Por incrível que pudesse parecer, à entrada da gruta, havia uma prateleira com dois lampiões e fósforos, sentiu-se ainda mais desconfortável ao ver aquilo. Era uma armadilha. Era certo que seria morto ao colocar os pés ali dentro. Pegou um dos lampiões, acendeu e desceu para o interior da gruta. Andou uns quatro metros e se deparou com uma porta, pesada e de metal. Era uma enorme porta de um cofre, encrustado na parede interna do rochedo. “É aqui que o Dragomir guarda todas as coisas que ele contrabandeou ao longo da vida. E aqui também, deve ficar, ou.... deveria ficar a caixa. Por isso é que eu encontrei ele morto lá no quinze! Ele tava vindo daqui....mas se ele tava vindo daqui, então será que ele ia fugir levando o objeto?... Mas ia deixar tudo mais para trás? Pelo que Jó me disse, é provável que haja uma fortuna aí dentro. Quem é que resolve fugir assim?” Virou o fraco facho de luz para a parte mais interna, pareceu a ele, quê à partir dali a rocha havia sido escavada. Não parecia uma abertura natural, e sim um túnel. Era uma galeria artificial que se extendia, por talvez, uns 60 metros. Virgílio ainda não tinha encontrado vestígio algum de nenhum dos dois, resolveu seguir até onde a galeria levava. Desceu com cautela, em pouco mais de um minuto, sentiu um odor forte de carne apodrecida; por uma fração segundo, se descuidou, escorregando túnel abaixo. Descera rolando, até parar em uma espécie de átrio, uma sala mais ampla. À sua volta, havia algum tipo de ossuário; crânios arrumados em nichos, fêmures organizados empilhados em prateleiras, vértebras penduradas em cordões, vários ossos que compõem pés e mãos em potes transparentes de vidro, costelas perfiladas e unidas umas às outras formando duas estruturas semelhantes à canoas. Não eram só ossos humanos; haviam partes de cães, gatos, cavalos, macacos, corujas. Uma boa parte desses ossos, apresentavam marcas, pareciam roídos, muitos estavam faltando pedaços. Ao fundo, onde o cheiro ficava mais pungente, estavam partes de corpos semi devorados. Virgílio sequer quis saber de quem eram, perdeu imediatamente a curiosidade, sobre o quê havia ali naquele mortuário. Deu meia volta subindo às pressas. Ao se aproximar da saída da gruta, percebeu que aquela porta de cofre, estava se abrindo. Apagou o lampião, se agachou instintivamente, e não fez mais que isso. Não havia onde se esconder. Poderia descer em direção à câmara em que tinha acabado de estar, mas ficou ali estático. Virgilo intimamente tirou suas conclusões; - “a porta parecia poder ser aberta tanto por fora, como por dentro, e em instantes, vai estar escancarada. Ela abre para o lado da entrada da gruta. Pelo tamanho que ela tem, depois de totalmente aberta, vai impedir a passagem para fora. Do seu interior, dar pra ver que vem uma luz bem fraca. Alguém ali dentro, levou, com certeza, um lampião consigo. Mas qual é a profundidade desse cofre, para chegar uma luz tão fraca aqui?” Chegou a prender a respiração, aguardando sair dali, Deus sabe lá o quê. Por alguns segundos quê mais pareceram ser uma eternidade, nada surgiu à porta do cofre.

– Mas que surpresa agradável! À quê devo a honra de sua ilustre visita Virgílio?

Musso sentiu as forças fugirem do seu corpo. As pernas amoleceram, quando sentiu, ao mesmo tempo em que ouviu, uma mão tocar bem de leve o seu ombro. O delegado estava de cócoras, estava travado e em pânico. Às suas costas, estava o objeto da sua obsessão.

Gentilmente, a mulher passou um dos braços por debaixo da axila direita de Musso, dizendo de maneira afável.

– Vamos! Eu te ajudo à levantar!... Fique calmo...vamos descer e tomar um café. Nossos amigos! Os senhores, Arsov e Dimitrievski, nós aguardam!

A mulher pareceu ter lido os pensamentos do delegado. O quê disse a seguir, só o deixou mais em alerta.

– É! Eu sei quê...., de acordo com a sua verificação, não haveria como estar aqui....pois você esteve lá embaixo. Apreciou à minha coleção? Espero que tenha gostado!..Alguns diriam se tratar de um covil,....é mais como um depósito,.... quem sabe até,...uma sala de troféus. O mais interessante, pelo menos para mim....é......ah! Dá pra ver, literalmente na sua cara! Mas..... não se preocupe. Você é o meu convidado. Iremos descer e teremos uma tarde agradável com café e bolo. Gosta de bolo delegado?!

Musso não conseguia sequer raciocinar. E Iskra continuou a falar amistosamente.

– Talvez não goste de bolo, não é?! Em todo caso, temos pão caseiro, leite recém fervido, biscoitos de nata ou os de sal amoníaco! Ah!.... Já ia me esquecendo....a sua arma! Pois é! O revólver ficou caído lá no chão da minha saleta de souvenires. Mas não precisa ficar preocupado. Eu o guardei. Armas de fogo não devem ficar jogadas assim! Alguém mal intencionado pode simplesmente as pegar, e...., sabe-se lá o que possam fazer! Se ajeite Virgílio! Será que vou ter de carregá-lo até lá embaixo?!

O delegado se pôs de pé, estava vacilante ainda, mas já conseguia andar por si só. Finalmente, embora em volume muito baixo, arriscou dizer algumas palavras;

– Não sei ao certo o quê vai acontecer lá embaixo...mas, posso apostar quê, não vai servir café com bolo a ninguém. Pelo o quê vi, e se você, faz realmente o quê os boatos descrevem, ...é provável que eu seja, o seu café da tarde. E os outros dois... já foram o almoço! Na época, não dei crédito algum à história que o Luiz me contou, mas agora....

– Agora! Você vai me acompanhar até onde estão os outros dois, e...teremos uma boa e longa conversa.

– E se eu me recusar?!

O tom ameno na voz, as feições, a expressão corporal; se encheram com uma quase alegria. A mulher soltou, já ao ponto de estar saltitante, e de modo vivaz, as seguintes palavras;

– Vou ter que te arrastar até lá! Como fiz com o Tarcísio! Isso vai ser muuuito divertido para mim,....e te garanto, vai ser muito rápido. Mas você, aaaahhh! Você vai detestar!... E aí? Vamos civilizadamente, ou às carreiras, escadas abaixo?

Isso realmente era uma ameaça, mas dita com tanta euforia; não soava tão ruim quanto deveria. Aos ouvidos do delegado, soou como um rompante de felicidade, daqueles em que uma garotinha ganha algo de especial dos pais. Musso chegou a sorrir, mesmo que levemente, e assentiu com um meneio de cabeça. De assustador mesmo, eram só os olhos, mantinham um brilho e um quê de sadismo.

Iskra deu o braço ao de Virgílio; passaram pela pesada porta de aço.

– Espere um pouco, me deixe fechar isso aqui.

Ao ver a porta sendo lacrada por dentro; toda a leveza sentida pelo delegado se dissipou. Sua anfitriã veio até ele, tomou-lhe o braço novamente, e desceram a escadaria. Ela continuava a falar em tom jovial, trivialidades. Coisas tais como; - “já reparou que as obras da represa não estão indo em frente! Seria bom, principalmente para quem mora lá no vilarejo. Até mesmo para essa propriedade aqui, poxa, isso seria ótimo! Lá na fazenda, da gente, Antônio e meu sogro, conseguiram, junto ao antigo prefeito, colocar alguns postes e levarem eletricidade. Nossa! Como a vida da gente ficou mais fácil....” Enquanto a mulher falava, e o fazia como se nada demais houvesse ocorrido, Musso se distanciava em suas indagações. “– Meu Deus, como é que ela passou por mim sem que eu pudesse ver?! Eu nem a ouvi chegar? E passou por onde? O fundo daquela saleta não tem qualquer tipo de passagem, bom, pelo menos, nem uma que eu possa ter visto. Não é que, eu não soubesse que era certa a possibilidade de dar de cara com ela aqui; eu me sentia bastante seguro,....mas, depois daquele deslize,...tudo mudou...agora nem sei de mais...”

– Aqui estamos Musso! Cumprimente os rapazes!

Virgílio despertou de suas reflexões, deparando-se com uma sala ampla. Bem maior que o átrio onde esteve minutos antes. Haviam prateleiras e baús cheios dos mais variados objetos. Iam de jóias incrustadas; a gemas, como, rubis, ametistas, e até diamantes , estas de tamanhos consideráveis: também, ali estavam as coisas mais estranhas, forjadas em metais preciosos. Nas paredes escavadas, haviam três ou quatro tapeçarias; em um canto, numa armação de madeira, havia uma pinacoteca, com pelo menos quinze quadros. Musso desconhecia a maioria das coisas que estava vendo, mas sabia que, até os livros que por ali estavam, poderiam valer pequenas fortunas. No canto esquerdo, logo depois da escadaria de onde tinham saído, havia um sofá, uma cozinha que lembrava muito àquela em que esteve na casa dela. Uma mesa para seis lugares, uma cômoda que servia como dispensa, e um fogão, do qual a chaminé saia Deus sabe pra onde. Sobre o tampo da mesa, quatro xícaras , um bolo, que parecia recém assado, um tabuleiro com quatro pães caseiros, manteiga, um queijo inteiro, dois potes com biscoitos; duas garrafas térmicas e uma leiteira fumegante. Os dois homens sentados um de cada lado da mesa. No centro do salão, sobre um pilar revestido de um tipo de veludo negro....a caixa. Era tudo muito idílico.

 Então a voz feminina, em tom quase materno, o resgata de seus devaneios.

–Vamos, sente-se! Tomaremos café, assim como o prometido. E então rapazes, ... estão confortáveis?

Jó a olhou de cima abaixo, falando em uma voz muito arrastada.

– Levando-se em consideração, que viemos para cá...de-sa-cor-da-dos! Acho que sim! Estamos confortáveis!

– Aaaahhh! Que fofo!....agradeça ao Hospital Central, por gentilmente me ceder não um, mas, três cilindros de óxido nitroso. Reconheça Garoto da Bíblia! Foi a maneira mais pacífica que encontrei para trazê-los até aqui!

– Eu poderia tê-lo usado em você também Virgílio! Mas.... você tinha que ir lá, na minha saleta, não é?!

Arsov ainda dopado, indagou;

– Qual saleta, Musso?

– É melhor nem saber...ei, não sei se entendi direito...

O delegado dirigiu-se à Iskra, quase incrédulo.

– Você roubou três cilindros de gás anestésico?! É isso mesmo?...só pra desacordar a gente. E como é que você poderia ter tanta certeza, de que exatamente nós três, viríamos aqui....

As indagações de Virgílio foram se esvaindo e quase que para si mesmo, disse, em uma voz grave e baixa.

– A caixa....ela é que te mostrou, ... não foi? A filha de Youssef Dragomir, deu-lhe um tapa na cabeça, deu uma risadinha, falando em seguida.

– Isso dito por você soa como estupidez. Se saísse da boca de qualquer um outro, soaria como loucura. Não seja idiota; ....”a caixa...ela é que te mostrou, .... não foi?” Hum! Sente-se e vamos comer. Tudo a seu tempo. Prometo que depois tudo isso vai ser explicado.

Sem saber exatamente, o porquê, de estar obedecendo às excentricidades daquela mulher; Virgílio Musso, puxou uma cadeira e se sentou ao lado de Jó.

– Pois bem meninos! Sirvam-se! Não fiz tudo isso pra ficar enfeitando mesa!

Arsov e Dimitrievski pegaram as xícaras e se serviram naturalmente. O delegado pegou àquela que estava mais próxima, levou-a ao nariz, e assim fez com tudo o mais com o quê se serviu.

Iskra voltou a atenção a Arsov, e perguntou diretamente.

– Tem alguma coisa aqui na mesa, que está com cheiro ruim?

Jó dirigindo sua atenção ao delegado, fez uma pausa e expôs.

– Virgílio, pode ficar tranquilo, ela também está comendo. Nada aqui está envenenado.

A mulher voltou-se ao seu convidado relutante em seguida.

– Viu só! Pare de bancar o bobo, dando uma de cão farejador! De quê adianta ficar escabriado agora?!

– É!... Você está certa! Não adianta nada....pra quê é que eu vou me incomodar; estou aqui, dentro dessa caverna, confortável e me empanturrando, sentado à mesa com a coisa que está matando,... não só matando, mas comendo e guardando os ossos e partes do corpo, de toda gente da cidade...e.... porquê você está comendo o bolo com café? Com base em minhas investigações,...se os relatos estiverem corretos, se nada daquilo for a mais absurda loucura, você come pessoas e bichos, quando ainda estão vivos! Iskra estava sentada na estremidade, de onde tinha visão ampla do salão, de costas para a parede. Pousou a xícara sobre a mesa, deu um suspiro.

– Eu gosto de bolo!

– A sua resposta é essa?!...isso resume tudo? É a melhor explicação que você pode me dar?

– Eu gosto de bolo,....mas, comer pessoas e bichos quando ainda estão vivos...aaaahhh! .....isso sim, dá sentido à minha existência!

– Quê tipo de coisa, você é?! Você é um bicho? Um demônio? O quê exatamente.....

Dimitrievski, olhou de Iskra para Virgílio, como se pedisse a palavra, antes que ela falasse.

– A mãe dela, ao fugir para a floresta, rezou pedindo à Deus que salvasse a sua criança, entrou em desespero, um outro tipo de deidade à escutou, o ente tomou forma de uma mulher e uma menina, levaram Nadezhda,...a criança estava morta. Não que estivesse morta antes da mãe ser encontrada. É que há uma particularidade. Algumas pessoas, ao entrarem nos domínios desse ente, seus corpos morrem. A criança então morreu no ventre, o corpo e a essência,... essência que conhecemos como a consciência, ou o espírito, ...foram substituídos por parte do quê é o ente. Diante de vocês, há em todo caso, uma mulher, mas também é algo muito diferente de um humano do sexo feminino. O corpo e a essência de sua mãe, foram mantidos.

Jó olhou para Iskra e depois para Virgílio, ria enquanto falava.

– A avó dela estava certa Virgílio, ela é um monstrinho! Um monstrinho, e de verdade! Musso chegou a engasgar, e o leite com café lhe saiu pelas narinas, causando ardor. Pelo menos naquele momento, se permitiu achar algo, realmente engraçado.

– Já é, a segunda gracinha que você me faz, garoto da bíblia! Vamos, continue! Não vou me esquecer dessa também!

Por causa do óxido nitroso inalado em grandes quantidades, Arsov estava desperto, mas estava “chapado”! 

– Aaaah!.... você ainda está com raiva?! Ainda “ tá puta da vida”, só porque eu disse que você fodia com....

Musso empurrou pela boca de Jó, um pedaço enorme de bolo. Não estava disposto, nem um pouco, de naquele instante, ver de perto, com todos os detalhes; aquela mulher mostrar como esfolar, esviscerar e desmembrar alguém vivo.

– Coma seu bolo, e pare de falar sandices! ..ele está,... você sabe num é!? Tá biruta, lelé da cuca,....é por causa do gás. Mas continue senhor.....? Com mil perdões, qual é mesmo o seu nome, senhor?

O homem voltou a atenção ao delegado.

– Bojan Dimitrievski.

– Me chamo Virgílio Musso, e sou....

– Sim, você é o delegado responsável pela cidade e pelo distrito municipal de Iguaçurana.

– Isso mesmo! ...continue o quê o senhor estava contando!

Toda aquele serenidade estranha, dissipara-se um pouco do semblante de Iskra, e a cara que fez, finalmente estava mais parecida com a da mulher, com quem o delegado estava mais familiarizado.

Dimitrievski prosseguiu, como se nada tivesse acontecido.

– Ela tem estado entre vocês por todos esses anos. A entidade que a deu vida; eu mesmo sou uma representação em forma humana de sua essência.

– Você então é a coisa que criou ela! É isso que está contando agora?

– Em parte sim. Assim como eu, todos os funcionários da Fundação, para qual o senhor Arsov trabalha, são uma parte da entidade.

– O Jó, é uma parte disso daí também?

– Não senhor Musso. Ilija Zorić é um servo, mas nunca soube disso, até agora. Eu o encontrei, em seu país de origem, após ele ser empurrado para o fundo de uma ravina, soprei uma fração muito menor em suas narinas, não era uma região sob minha influência, isso fez com que mantivesse sua consciência. Ele não é um ser vivo, e nem livre. Só acredita ter liberdade, e desde então, tem servido, não é um arauto também.

Iskra deu um pulo de sua cadeira, apontou o dedo para Arsov com um sorriso maléfico no rosto, estava eufórica.

– Você está morto! E é, nada mais, nada menos, que um escravo! Até seu nome é falso! Seu mentiroso.....

– E ela? Ela é uma escrava?...ou faz tudo de acordo com essa condição de consciência coletiva, que você é?

A pergunta de Virgílio, fez com que a euforia da filha do Russo se dissipasse. Jó, por sua vez, estava atônito.

– Não, ela não é uma escrava, e também não faz parte da mesma consciência, existência e capacidades. Ela é algo diferente. Ela é agora muito diferente do quê era, pois aquilo a mudou.

Dimitrievski apontava para a caixa.

– Eu estive aos seus serviços por todos esses anos. Você, Hermeto e os outros são um ser só...agora tenho que saber, o quê exatamente é aquele artefato?

A pergunta de Ilija Zorić era legítima. Então aquilo, diante dos ali presentes, que era Bojan Dimitrievski, Hermeto Otxoa e qualquer um outro, respondeu com franqueza.

– Aquele objeto é um brinquedo! É feito de metal, mas é da mesma essência compartilhada.

– Se aquilo é um brinquedo! Faz brincadeiras muito sem graça!

– São sem graça para vocês, Ilija. Mas o objeto se diverte, estuda cada alma humana que o toca, para trazer-lhes tormento e dor. Foram criadas as regras que você conhece, para o deleite do artefato e para o nosso. O objeto sempre voltava ao seu ponto de partida, nunca deixou de estar com suas partes essenciais. Há eventos em que podemos intervir e influenciar os humanos, mas também respeitamos regras, isso desde....

A garganta de Bojan foi aberta à um golpe só de facão com tanta força, que quase se separou do corpo; ficou dependurada por algumas tiras de músculos e tendões, enquanto o sangue jorrava sobre a mesa e os outros dois homens.

– Eu sabia que esse filho de uma puta podia morrer.. ele ficou desacordado com todo aquele gás que eu fiz entrar pela porta dos fundos do barraco! Tá sangrando igual a um porco degolado agora! E aí meninos?.... Esse bosta contou algumas coisas interessantes, e talvez algumas lorotas; se me permitirem, contarei algumas também.

Iskra empurrou o corpo de Bojan com o pé, o mesmo tombou e ouviu-se o som abafado de algo flácido e pesado se chocar contra o solo.

– Aliás, nos fundos logo depois da cômoda, tem uma portinhola, é um banheiro, se quiserem lavar os respingos de sangue....fiquem à vontade! Vou levar o resto desse estorvo para a minha saleta. Não precisam limpar nada! Vou começar a arrumar daqui à pouco, vai ser só um minutinho,....vamos meninos, se movam, vão lavar suas caras!

Jó e Virgílio se entre olharam, não sabiam exatamente o quê fariam, então foram até o banheiro. Iskra foi e voltou tão rápido, que a impressão deixada, fôra que ela andou até a subida da escada, e voltou dali mesmo. Os dois ao retornarem para próximo à mesa, a viram com dois baldes, os estava enchendo na torneira de um pequeno tanque que ficava ao lado do fogão à lenha. Tudo indicava que o falecido Youssef Dragomir tinha feito ali, nada mais e nada menos, que um bunker, havia água encanada, que sem sombra de duvidas, vinha do riacho logo acima.

– Rapazes, sentem-se nos sofás! Vamos conversando, enquanto limpo isso aqui! Nenhum dos dois sabia o quê falar exatamente naquela hora. Mas ela sim, então se apressou em iniciar a conversa.

u/Valuable_Notice2796 — 24 days ago
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Interlúdio III

Benedito Turra tinha resolvido que passaria em Iguaçurana, e depois iria até a vila. Isso antes de levar o carregamento de café ensacado para a estação ferroviária de Tapitininga. Precisava deixar um macaco hidráulico que o pai havia pedido para fazer a manutenção de seu caminhão. Faltava uns dez quilômetros até o cruzamento férreo de Iguaçurana, e começara a chover forte de novo. Já estava escuro por volta das 17:40. Talvez fosse melhor adiantar e chegar na cidade, antes das estradas ficarem intransitáveis. A pavimentação não havia chegado ainda por ali, e o solo argiloso não deixava nada fácil a vida de quem precisava dirigir para ganhar a vida. Quando isso acontecia, o trem se tornava o único meio de transporte, tanto para chegar como para deixar a região do vale. Se chovesse muito, às vezes, até o trem ficava impedido de passar. A cidade era cortada pelo Rio Intanguá, que desembocava no Rio São Leopoldo. Nas épocas de grandes chuvas, haviam as cheias dos rios e a água invadia a cidade, parte das propriedades rurais e também a vila. Com o início da construção da represa de Tapitininga, no período de chuvas o fechamento das comportas regulava o fluxo de água do Rio São Leopoldo, resolvendo assim o problema das cheias em Iguaçurana e seu distrito.

Por determinação do delegado, toda movimentação na cidade deveria cessar antes do anoitecer. Nas cidades menores, todos sabem de tudo que está acontecendo em pouquíssimo tempo, e desde o fim da manhã, já era de conhecimento público que, Virgílio Musso havia ido com o amigo do Russo até São Gabriel, vá lá saber o porquê e para o quê. A cidade já estava sem policiais há uns dois dias, e agora o delegado havia se ausentado; não que fossem acontecer todo e qualquer tipo de crime, mas, nos últimos dias os boatos de coisas incomuns tinham inflamado a imaginação das pessoas dali, e alguns moradores não se sentiam muito seguros. Aberto à noite, somente o Hospital Central. As atividades escolares foram suspensas temporariamente. Os trens de passageiros passavam em quatro horários distintos, sendo dois deles vindo da capital do estado em sentido à capital de Minas Gerais; 10:50 da manhã e 17:00 da tarde: às 11:50 e 15:50, sentido à capital do estado. Se não houvesse qualquer atraso, os embarques e desembarques em Iguaçurana coincidiriam com as restrições de horário para transitar pela região, definidas por Virgílio.

Muito próximo às 20:00 nenhum movimento era observado pelas ruas da cidade. A iluminação pública estava oscilando, ia e voltava, dez minutos de luzes acesas, e em seguida, meia hora de escuridão total. Era a época chuvosa, o fornecimento de energia elétrica ficava comprometido, havia a promessa de que isso se resolvesse quando as turbinas da hidroelétrica estivessem operacionais. Os moradores conservavam ainda o costume do uso de lampiões à querosene. Das casas vinham alguma luz, fraca e bruxuleante. Às 22:00 a cidade foi de lampião em lampião adormecendo aos poucos, somente o Hospital se manteve parcialmente iluminado.

Da estrada que vinha da vila, a passos bem leves, em meio ao temporal, de pés descalços alguém caminhava: a silhueta aparecia a cada relâmpago que riscava os céus para em seguida se perder em meio à escuridão. Não haviam cães ou mesmo gatos pelas ruas, era provável que estivessem recolhidos e abrigados por causa da chuva. Alguns moradores deram falta de seus animais de estimação, mas ninguém percebeu que, todos eles tinham sumido. Naquela noite cavalos, o gado, criações de porcos e aves, nenhum animal foi visto e sequer poderiam serem ouvidos. O silêncio era rompido somente pelos sons da tempestade.

Ernesto Grassi estava junto à portaria do hospital debaixo da marquise aguardando a chuva cessar, deveria voltar para sua casa na vila, mas, desde que a maioria dos residentes vieram para a cidade, se viu obrigado à ficar na residência da irmã. Não era de todo mal, mas ele, era um homem que dormia pouco, estava sempre insone; então, para não incomodar o cunhado e os sobrinhos, saía às escondidas e fazia o de sempre, longas caminhadas durante a noite; é claro que se o Virgílio o visse perambulando pelas ruas, teria problemas com o delegado. Como Musso estava ausente, poderia fazer sua ronda noturna à vontade. O problema no momento era a chuva. No breve instante de estiagem, depois que todos da casa haviam dormido, deu sua escapulida, mas não conseguiu ir muito longe, teve que se abrigar em algum lugar, voltara a chover forte e o Hospital era o lugar mais próximo no momento. Alzira não estava de plantão, ela era uma das enfermeiras dali, então não corria o risco de tomar um pito bem sério e de ser delatado. Ernesto e Alzira Gomes Ribeiro estavam no início de um relacionamento, e ele pensava seriamente em pedí-la em casamento; ambos tinham passado dos trinta e era o mais certo a se fazer.

O vigia da noite tinha visto um homem ali, de pé junto à portaria e foi até ele. João Nilo Alves chegou mais perto, cutucou com um cacetete as costas do distraído chamando-lhe a atenção .

– Ei, tá querendo o quê aqui? O delegado, falou pra ninguém ficar na rua. Racha fora! Ernesto se virou num pulo só, tinha tomado um susto daqueles.

– Porra Nilo, tá doido! Quase que me mata....

– Se a Alzira te pegar aqui Ernesto, você tá fodido!

– Ela tá de folga hoje. Passei na casa dela, a gente jantou, de lá fui pra casa da Jussara e esperei ela, o Paulo e os meninos dormirem.

– E saiu nessa chuvada toda, pra quê? Já pensou se o Virgílio te pega aqui. Mas que fogo no cu cara!.... Vem entra, entra, vamos tomar um café! Tô com a garrafa cheia ali atrás do balcão da recepção.

O cemitério municipal ficava do outro lado da linha férrea. Jaques Castro era o agente responsável pela estação ferroviária, e morava no terreno contíguo à agência. Havia esquecido de tirar o malote, entregue pelos correios, do depósito de carga e levá-lo para o escritório; por questões de segurança, os malotes eram guardados sempre no cofre. Se viu obrigado a voltar até lá em meio ao temporal. Mais cedo via rádio, a informação era de que a combinação de carga estava vindo da capital, com atraso devido às chuvas intensas. Em todo caso, já que estava indo até o escritório, aguardaria até a passagem do trem de cargas, pois a ordem da companhia era a do condutor deixar o relatório com ele. Iguaçurana era a última estação do estado, a próxima era em Tapitininga, município do estado de Minas Gerais.

Da janela do escritório, se tinha uma boa visão de ferrovia e do cemitério. Juventino Alves, costumava atravessar a estrada de ferro e se sentar em um dos assentos da estação algumas noites. Morava na única casa vizinha ao cemitério municipal. Sempre que via alguma luz acesa na agência, ia até lá para fazer companhia e vez ou outra, ajudar Jaques com qualquer coisa. A luminosidade, mesmo fraca, passando pela janela da estação, chamou sua atenção. Não soube o porquê, mas, resolveu aguardar um pouco. 

Pela falta de policiais, o posto da guarda dos limites do estado estava vazio, não de agora. Já haviam cinco anos que estava quase abandonado. Servia de morada, agora, para Justino Barbosa. Era um andarilho que tinha vindo de Resplendor, e por ali ficou. Os moradores conversaram com o delegado Musso e com o prefeito de Iguaçurana, então Justino ficava alojado e cuidava do prédio; quando era necessário, realizava pequenos serviços de manutenção e preenchia algumas planilhas, documentando a movimentação de caminhões que passavam pela fronteira. Quase nunca, alguma carga era escoada por ali, geralmente os motoristas de ônibus de viagens e caminhões de carga, preferiam dirigir pela BR 261, a rodovia federal que passava por fora da cidade. Na noite anterior Justino não viu um carro sequer cruzar a estrada, mas presenciou uma debandada, de todo e qualquer bicho; animais domésticos, cavalos, gado, cabritos, jaguatirica, porcos, gambás, e até bugios. Era estranho. Os animais seguiam a passo módico, não estavam fugindo em carreira desabalada; até poderiam estar fugindo, de quem sabe, um aumento da quantidade de onças na região, mas, por Justino passaram também uma seis delas. Ficou surpreso com aquilo, preferiu não pensar sobre o assunto, e não diria nada. A cidade já tinha o bêbado maluco local, se falasse algo parecido, iriam dizer que ele estaria ficando igual ao Luiz Frizera. Se fosse contar a alguém, só podia dar testemunho do quê presenciou ali. Teve a bizarra impressão de que aquilo, estava acontecendo por toda a região do vale.

Depois de umas boas xícaras de café, Nilo e o amigo puxaram duas cadeiras, e se sentaram junto à portaria do prédio para observarem todo aquele toró. Ambos vêem a cena; Juventino Alves só de bermudas, descalço, carregando o que parecia algo dentro de um saco de ráfia. Estava escuro e não dava para distinguir muita coisa. Chamaram o homem várias vezes, mas seu comportamento estava errático, e ele sequer se virou em direção aos dois. Seguiu em direção à passagem de nível, que ficava em uma das encruzilhadas das estradas que deixavam a cidade.

Alzira esquecera de fazer algumas anotações em um dos prontuários; a enfermeira do turno da noite, era novata. Talvez ficasse meio perdida com as dosagens de medicações a serem administradas; o quadro de funcionários estava reduzido, isso, desde as ordens do delegado. Não podia arriscar, que um erro assim, ocorresse por um simples descuido seu. Saiu em meio ao temporal.

Morava à umas duas quadras do trabalho, seria algo rápido, voltaria para casa em no máximo uma hora. Vestiu somente uma capa de chuva e saiu. Desceu a rua, dobrando a esquina à direita. A iluminação pública estava apagada, além do mais, as quadras eram arborizadas, haviam oitizeiros plantados a cada vinte e cinco metros, intercalados aos postes. Mesmo quando havia iluminação noturna à contento, ainda assim, os quarteirões mantinham-se um tanto escurecidos. Naquela noite, então, a única claridade que dissipava a escuridão eram os relâmpagos. Entre um clarão e outro, ela pôde ver alguém caminhando paralelo à ela do outro lado da rua. Não deu muita importância, a chuva espessa dificultava a visão, então não conseguiu identificar quem era. Caminhou mais uns metros e percebeu que a pessoa havia parado de andar. Isso lhe pareceu estranho, mas não se sentiu alarmada; virou-se e recomeçou a caminhar. Uns dois minutos após, teve a impressão de que alguém a seguia, olhou repentinamente para o lado oposto à rua, e a figura não estava mais ali. Girou o corpo olhando para trás, e a uns cinquenta metros, e meio às sombras, ali estava a pessoa. O hospital ficava na próxima quadra; a portaria estava  uns trezentos metros à frente, não era uma distância assim tão grande. Algum pavor se instalou em sua mente, e lhe ocorreu algo sombrio: “-mas e se quem estava às minhas costas, resolvesse fazer algo comigo? Será que vou ter como escapar se resolver correr agora? Se eu gritar?! Será que o Nilo vai me escutar?” Apesar dos pensamentos perturbadores, Alzira recomeçou a caminhar, e o fez a passos lentos, sem olhar para trás novamente. A cada passo que dava, parecia ouvir os passos da outra pessoa sincronizados aos seus, parou, e por uma observação lógica, intuiu que pela contagem de passos, quem quer que fosse, que a estivesse seguindo; teria de estar à mesma distância. Com o pouco de coragem que lhe restara, deu meia volta, e olhou novamente em direção onde a pessoa deveria estar. Um outro relâmpago riscou os céus, e percebeu uma silhueta que parecia ter a estatura de um homem alto, de aproximadamente 1,90, mas aparentava ser uma mulher. Se sentiu um pouco aliviada e acenou para ela; a mesma acenou de volta. Alzira se deteve olhando para ela por alguns segundos, e em poucos instantes, lhe pareceu ver a silhueta começar a se alongar. Dava a impressão de estar ficando mais alta, mais esguia e perder um pouco a aparência humana. A figura ergueu um braço longo, esticou dedos finos e pontiagudos em direção ao hospital; soltou um sibilo áspero e saltou em direção a ela. A enfermeira se virou para correr, sentiu a coisa lhe agarrar pelo ombro, cravando os dedos pontiagudos bem fundo até às articulações. Desmaiou. Teve a sensação da coisa ir sumindo em meio à copa das árvores, a levando consigo.

João Nilo percebeu barulhos vindo dos fundos do prédio, olhou para Ernesto, que também ouvira; fez-lhe sinal para que o seguisse até lá. Passaram pelo amplo corredor, que levava ao almoxarifado e ao saírem para a cobertura externa, onde a ambulância parava para admissão de urgência e emergência; deitada ali, estava Alzira.....ensanguentada e inconsciente. A levaram imediatamente para para a enfermaria. A enfermeira de plantão, ao ver a situação em que Alzira se encontrava, correu até ao único médico que estava a disposição, lhe informando que, uma das funcionárias, estava seguraente, com lacerações profundas no ombro esquerdo, parecia ter costelas quebradas, com possível perfuração pulmonar; inúmeras escoriações e cortes variados ao longo de todo o corpo. Foi ordenado pelo médico, que Ernesto e João Nilo aguardassem na ala de espera: o noivo de Alzira acatou a contra gosto, mas se portou de acordo com o quê era plausível no momento. Os homens, ao se sentarem nas banquetas, levaram um susto enorme. Um barulho muito alto foi ouvido, vindo do andar de cima do prédio, era onde ficavam os leitos, seguido do som de janelas quebradas e de algo pesado se chocando e se espatifando no pátio frontal. Havia sido arremessada, uma cama hospitalar de aproximadamente uns cento e cinquenta quilos, através da janela; que caiu a uns doze metros à frente do prédio. Houvera uma gritaria no andar de cima; os pedidos de socorro silenciaram em poucos segundos. O segurança do hospital e o noivo da enfermeira, correram até a portaria do prédio, viram o buraco, por onde a cama saíra. Ernesto se perguntava atônito: “ tá certo que essas camas têm rodinhas, mas é necessário levantar ela pra poder empurrar pela janela, o vão da janela está a um metro e meio do pavimento do segundo andar.... quantos homens são necessários para erguer ela, e arremessar, destruindo toda a janela daquele jeito; quanto de força deve ser feito, pra jogar aquela cama a essa distância?”. Ambos olharam para a abertura por onde o leito havia sido jogado, e de lá, uma figura alongada, semelhante à uma pessoa pulou para o pátio, do pátio saltou para a copa das árvores, e sumiu em o meio à noite. Não deu para identificar o quê, ou quem era. Ernesto ficou olhando fixamente para a escuridão além dos portões do hospital. Tremia de frio e pavor; não conseguia se mover. Aterrorizado, relembrou da história que Luiz Frizera havia contado. Que –“uma coisa, que parecia com uma mulher, tinha matado toda a família do Dorcilino!” A coisa então era aquela, aquela que ele acabara de ver, e que tinha deixado sua noiva quase morta, ali nos fundos do hospital.

Nilo subiu até o segundo pavimento, e a cena era deplorável. Os quatro internos do hospital estavam todos mortos; não somente mortos,.... estavam destruídos. Dois deles, um rapaz de uns 17 anos e um homem de uns 45 anos, estavam com os tórax abertos e vazios, os intestinos estavam jogados em um canto, faltavam os pulmões, corações, e os fígados. Já mulher idosa, parecia ter levado uma mordida de algum animal com uma boca enorme, com dentes e mandíbula, fortes o suficiente, para arrancar toda a parte superior do tórax, acima do seio direito: ombro, clavícula, escápula, o braço inteiro e parte do percoço; tudo daquele lado, havia sido arrancado violentamente de uma vez só. Da menina de dez anos, sobrara só a metade inferior do corpo.

Por Iguaçurana, passava uma estrada de ferro com dois pares de trilhos, estes, eram utilizados, tanto para trens de carga, como para os de passageiros. De frente à estação, havia um galpão comprido, em que por dentro, passava um terceiro par de trilhos. Anteriormente, era utilizado para vagões de carga serem abastecidos com sacas de café. Estava temporariamente em desuso, e as cargas e descargas de mercadorias, estavam sendo realizadas em Tapitininga.

Três quilômetros antes da estação de Iguaçuana, sentido capital do estado de Minas Gerais, haviam duas chaves de comutação, que compunham o assistente de mudança de via férrea. O sistema de desvio era totalmente manual naquela época. Era o que permitia a mudança da composição para o segundo e para o terceiro par de trilhos. As ordens para ativação das chaves de desvio, eram passadas, via rádio, para o agente responsável pelo posto ferroviário de cada cidade. Em Iguaçurana, era o Jaques Castro,... ou como era conhecido, o Jaques da estação. O homem tinha dois aparelhos de rádio, um em casa e outro no posto de trabalho; tinha que estar à disposição sempre que algo inesperado acontecia. Mais cedo ele estivera no posto,... contudo, o rádio mantivera-se recebendo somente estática. Faltava pouco para a passagem da combinação de carga, que viria da capital, com destino à Minas.

O caminhão de Benedito Turra, havia atolado ao lado da olaria; essa, ficava uns vinte metros do cruzamento férreo. Àquela hora, e em meio a toda aquela chuva, era impossível que alguém estivesse por perto, para o socorrer de alguma forma. Andou até onde ficavam os fornos de queima para tijolos, telhas e vasos cerâmicos; chamou e bateu palmas, na esperança que houvesse pelo menos um vigia noturno,... e nada. Sentou-se debaixo do telhado baixo, onde ficava a área de secagem para lajotas: estava de frente para a linha do trem. Uns cinco metros depois da passagem de nível, ficavam as chaves de desvio. Percebeu que um homem estava caminhando junto aos trilhos, carregando um saco de ráfia em uma das mãos, o homem parecia vacilante ao andar. Benedito sabia que era alguém conhecido, mas em meio àquela escuridão toda, ficava muito difícil de identificá-lo.

O homem caminhou até as chaves de desvio, destravou as alavancas, as levantou, e tirou alguma coisa do interior do saco. Estava mexendo com alguma coisa junto aos trilhos. Benedito ouviu o trem buzinar, e começou a gritar para que o homem deixasse os trilhos; o mesmo se levantou e ficou olhando para quem estava acenando para ele. Turra então reconheceu a pessoa que estava ali; era Juventino Alves. Só houve tempo de gritar mais uma vez para ele deixar os trilhos. O condutor estava ao rádio, tentando se comunicar com o responsável pelo posto ferroviário de Iguaçurana, só percebeu que havia alguém na linha férrea, quando era já tarde demais. Benedito Turra presenciou a locomotiva acertar Juventino em cheio, e logo em seguida sair totalmente dos trilhos, a combinação descarrilou por completo, espalhando vagões retorcidos para ambos lados. Dois dos vagões, que estavam mais atrás, desceram para o lado da olaria, destruindo um dos fornos e derrubando duas chaminés. Benedito ficou estático, vendo tudo aquilo acontecer em segundos. Por um feliz acaso, nem ele e nem seu caminhão, sofreram qualquer dano. O condutor conseguiu sair da locomotiva sem um arranhão sequer, desceu da máquina tombada, foi até os trilhos, andou até onde estivera o homem antes de o atingir. Perto das alavancas do mecanismo de desvio, estava o saco de ráfia, do lado de fora dele, caído entre os trilhos, haviam três pixotes, um tipo de cunha de aço, são peças utilizadas para o corte de blocos de granito. Mais à frente, estavam mais quatro outras cunhas dessas, presas entre os contra trilhos e o diamante, impedindo o mecanismo de desvio dos trilhos de se fechar por completo. Foi o quê causou o descarrilamento propositalmente. O condutor voltou até o saco de onde tinham caído os pixotes, e ao verificar o quê mais tinha mais ali, ao olhar dentro, teve um sobressalto; era uma cabeça humana. A cabeça, era de Jaques Castro, o responsável pelo posto. O mesmo homem com quem ele estivera, todo aquele tempo antes do acidente, tentado entrar em contato.

A chuva em algumas horas, deixaria as estradas intransitáveis. A linha férrea, agora também deixara de ser uma opção.

u/Valuable_Notice2796 — 28 days ago