u/litt35

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(35H) Me recuso

Prometo um final feliz.

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Para mim, não existia realmente uma vida ou uma história minha antes de eu ter saído da casa da minha mãe aos 19 anos. A minha namorada estava grávida e eu fui expulso de casa, eu tinha um maço de notas, uma sacola com roupas e um ventilador. Foi a partir dali que as coisas começaram.

E foi nessa parte que eu decidi o que queria ser.

Mas vocês já devem estar rindo consigo mesmo(a)s: a vida não é assim, a gente não decide nada.

De fato.

Aos 19 anos eu testemunhei o que acontecia no Brasil em 2009 e pensei: quero ser diferente, há tanta corrupção neste país, quero ser um exemplo, hei de ser bom!

Pouco tempo depois eu passei num concurso e ao mesmo tempo na faculdade de direito na federal! E ali estava um verdadeiro kantiano, pronto para servir o público com honestidade.

"Meu charme nunca falhou, eu sempre tive amigos, certo? Onde quer que eu frequentasse, logo eu teria amigos, estaria cercado deles e eles me apoiariam como sempre foi".

Não foi assim, 5 anos e meio de faculdade de direito, sem um único amigo: solidão. Ansiedade crônica, tensão muscular. Minha mão começa a doer.

Minha mão começa a doer. Eu acordo às 07 horas e penso, por que a minha mão dói? Eu durmo às 23 horas. Por que ela dói? São 2 anos inteiros e todos os dias é isso: minha mão dói, eu vou perder a minha mão, eu não vou poder mais jogar no PC, eu não vou poder mais trabalhar. Todo santo dia, a minha consciência começa "como está minha mão?" Obsessivamente pensando em minha mão por 2 anos. Minha esposa começa a perder as esperanças em mim. O promissor estudante de direito tem suas notas em queda. Ele está alheio à própria filha, passa o dia todo pensando na mão, se tem LER, se vai ficar inválido, não pode mais jogar...

De algum modo supera isso. Apesar de que de vez em quando massageia a mão. Mas superou, de fato! Está pronto de novo. Vamos lá!

E eu passei uns 5 anos e meio nessa e realmente fui honesto (e sou, não foi difícil). O negócio é que a vida parece não ter gostado desse otimismo todo, não é bem assim que as coisas funcionam. Ela veio para mim e disse no meu ouvido: "espera só um pouquinho, quero tirar essa sua arrogância".

Em questão de um ano, o avô da minha esposa morreu (a figura paterna dela), a avó (a figura materna) em seguida. E antes que a gente pudesse dar um pio, acordo numa quarta-feira às 04 da manhã com uma ligação(eu estava prestes a começar a estudar mais um tópico do meu roteiro para concurso), descubro que o meu pai se enforcara, o meu tio disse "o seu pai está descansando". Meu porto seguro se foi, meu mentor, meu sofrido esquizofrênico pai se fora para todo o sempre. Eu falhei com ele, ele surtou e eu não estava lá, eu estava imerso nos estudos, tentando ganhar dinheiro, passar em outro concurso, o meu pai estava nos meus planos, a avó da minha esposa estava nos meus planos, mas eu não tive tempo. Zumbido.

Mal me oriento, mudo de residência com minha esposa e filha... e a pandemia começa. E tínhamos acabado de prometer que iríamos sair mais de casa e passear, pois antes morávamos num bairro afastado. A gente chegou a fazer uma feira no Sams Club e noutro dia compramos uns peixes frescos numa feira livre, essa foi a única experiência que tivemos antes da pandemia.

Mas não reclamo, sou privilegiado, peço 30 dias de férias e achava que seria o suficiente para a pandemia passar. Só que não. Mas como disse, eu sou privilegiado... eu passo a pandemia inteira trabalhando em home office, a minha filha tendo aulas à distância. Como a minha esposa tem anemia crônica, eu digo "me perdoe, mas vou ser um ditador durante esse período". E assumi esse papel. Durante a pandemia, nós 3 não saímos 1 vez sequer de casa. Eu abandonei os meus princípios de uma pessoa liberal, eu impus o que achava que era necessário, eu fui absolutamente rigoroso, pois não queria deixar a minha filha órfã.

Tivemos sucesso, a minha esposa sobreviveu, apesar da anemia. Se ela tivesse se contagiado com covid antes da vacina, certamente teria morrido. Mas essa minha ditadura deixou fraturas no nosso casamento.

Ahh, o nosso casamento. Eu sempre pensei: "eu posso não ter tantas coisas, mas tenho uma mulher que amo, e todos os que nos conhecem sabem que o nosso casamento é um diamante. P ama S e S ama P. Isso é evidente para todos!"

E realmente era uma certeza para mim. Eu não tinha tudo, mas eu tinha aquilo. Mas eu confiava demais. Eu não percebia como eu tinha feito ela sofrer. Quando ela me conheceu eu era tão promissor, tanto que a amiga da minha irmã era apaixonada por mim, mesmo sendo a filha de um prefeito. Mas como vocês viram eu não atendi exatamente a essas expectativas...

E mais uma vez a vida chegou pertinho: "você pode ter tanta certeza assim?" E a vida me tirou aquilo, aquilo que era dourado, que era especial, que eu imaginava ser essencial, ela foi lá e tirou de mim. Eu me separei e todos os nossos conhecidos não acreditaram, um casamento que havia durado 13 anos, me disseram "é a mesma coisa que o queda do Império Romano, é brincadeira, né?"

Eu fiquei abascalhado, de boca aberta mesmo. Eu pensei: "isso é sequer possível?" Eu perdi tanto, mas nunca, nem na minha pior ansiedade eu achava qque isso era possível. E preste atenção:

lá estou eu, a casa está com metade dos móveis, pois minha esposa os levou. Tudo bagunçado... escuridão... e eu tenho companhia, do meu zumbido. ZZZZZzzzzz

Escuridão e zumbido. E a corrente pendurada na parede.

Ouço o zumbido, o mesmo que ouço agora mesmo enquanto escrevo para meu hipotético e leal leitor que chegou até este parágrafo, nestes tempos de vídeos curtos (um obrigado especial ao (à) bravo(a) leitor(a)).

E eu cogito: "pq não faço igual ao meu pai?" Eu olho para uma corrente que estava na parede para armar rede. "Eu não tenho mais nada, né?" Mas um milagre acontece. Eu lembro da minha amiga virtual (mais detalhes nesse post http://reddit.com/r/30mais/comments/1bwzrm7/33h_tributo_a_uma_amiga/ ). Graças a ela a noite que parecia ser insuportável se vai.

Ufa, estou cansado de escrever, mas eu prometi um final feliz, né?

Já ouviu falar de DEUS EX MACHINA?

Pois é, justamente isso aconteceu.

Minha esposa foi nomeada para um super concurso. Fomos obrigados a nos reunir novamente e a nos mudarmos (eu consegui uma licença para acompanhar ela e para trabalhar 100% home office). Isso não é necessariamente bom, pois nunca mais seramos aqueles que fomos antes, mas isso é tema para outro post.

Apesar disso, me deparo num ambiente novo e que parecia ser exatamente o que eu precisava.

Mas uma almágama de experiência brutais e traumáticas, todas reunidas (o isolamento na faculdade, o zumbido, a mão, o suicídio, pandemia, divórcio), tudo isso fizeram com que eu finalmente, finalmente quebrasse e desistisse de tudo...

Mais uma vez? Zumbido, mão, corrente??

só que não. Me recuso.

A vida, a tão perversa vida, eu consegui o impossível, eu consegui ser feliz apesar de tudo. Eu derrotei o determinismo, tão poderoso quanto um deus.

Acredite leitora ou leitor, eu sou muito feliz. Se existe ao menos uma pessoa no mundo que seja feliz, essa sou eu. Na verdade, eu creio ser uma das pessoas mais felizes dentre as que já existiu na humanidade. Algo aconteceu e eu cheguei lá. Eu vejo aqui de casa um paredão de árvores e sou feliz. Eu vejo um ninho que um joão-de-barro construiu na janela e sou feliz. Eu trabalho coisa de 2 horas por dia no home office e sou feliz. Eu vejo o porta retratos com a foto do meu pai e sou feliz. Eu vejo minha filha vencendo desafios e sou feliz (ela tirou um 10 em física!)

Eu sou feliz.

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u/litt35 — 6 days ago

O nosso mundo Vs Bárbaro lvl 20 (D&D 3.5)

Para quem quiser se divertir com a ideia

Postei a mesma questão no /whowouldwin se alguém quiser checar por lá também

Ao ser criado, o bárbaro pode acessar qualquer regra oficial de D&D 3.5.

- Atributos básicos à sua escolha (elite: 18, 16, 14, 14, 12, 10)

- Ele terá acesso a 760.000 peças de ouro (de acordo com as regras de riqueza por nível) e poderá comprar itens, tomos, poções e outros objetos mágicos, exceto artefatos.

- Efeitos mágicos como proteção elemental, redução de dano, etc., aplicam-se normalmente.

- Ele terá uma missão: conquistar este mundo desconhecido. O bárbaro chegará a este mundo através de um portal (obviamente gastará o ouro antes de entrar no portal, após entrar na Terra não terá mais acesso a Faerun enquanto não completar sua missão), discretamente, em um local remoto (não há como voltar atrás).

Limitações:

- A construção do personagem deve manter o "arquétipo de bárbaro" (mas ele pode usar itens mágicos e sabe o que está fazendo como um aventureiro de nível 20; o bárbaro não é necessariamente estúpido. Por exemplo, você pode usar tomos para aumentar sua inteligência acima da maioria das pessoas); — Sem construções absurdas que claramente contrariam as regras do jogo, como o deus kobold, o aldeão com dardos ultrarrápidos, o balde de minhocas ou aquele espelho que cria réplicas do personagem.

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O mundo terá tudo o que normalmente tem (incluindo armas nucleares), mas agirá de forma racional. Ou seja, evitará o uso de armas nucleares, exceto quando determinar que é inevitável.

*Desafio opcional: o bárbaro usa apenas as opções do Livro do Jogador e do Guia do Mestre.

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u/litt35 — 8 days ago

Lvl 20 Barbarian (from D&D 3.5) vs Current World

- Upon creation, the barbarian can access any official D&D 3.5 rule.

- Basic stats of your choice (elite: 18, 16, 14, 14, 12, 10)

- He will have access to 760,000 gold pieces (according to wealth by level rules) and can buy items, tomes, potions, and other magical objects, except artifacts.

- Magical effects such as elemental protection, damage reduction, etc. apply normally.

- He will have a mission: to conquer this unknown world. The barbarian will arrive in this world through a portal, discreetly, in a remote location (theres no turning back).

Limitations:

- The build must maintain the "barbarian archetype" (but he can use magical items and he know what he is doing as an lvl 20 adventurer; the barbarian is not necessarily stupid. For example, you can use tomes to make your intelligence higher than most people's);

- No absurd builds that clearly go against the game rules, such as the kobold god, the villager with lightning-fast javelins, the bucket of worms, or that mirror that makes replicas of the character.

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The world will have everything it normally has (including nukes), but will act in a rational way. That is, it will avoid using nukes except when it determines that it is unavoidable.

*Optional challenge: the barbarian only uses the options from the player's handbook and the Dungeon Master's guide.

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u/litt35 — 9 days ago
▲ 15 r/30mais

Vivemos numa realidade em que as opções são infindáveis. Temos inúmeros cardápios diante de nós. E eles são de todas as espécies, não somente os convencionais que encontramos em restaurantes. Músicas, livros, filmes, séries, jogos - tudo isso está a cliques de distância. Dispomos de entretenimento que nem os mais poderosos imperadores poderiam sonhar e da vastidão de conhecimento que faria os filósofos da Antiguidade entrar em êxtase.

Felizmente ou não, essa fartura de disponibilidade não se limita só às coisas, mas também às pessoas. Ou seja, temos literais cardápios em que são incluídas as próprias pessoas.

Nos deparamos, então, com uma concretude em que as pessoas se tornaram uma nova espécie de meio. Se antes elas eram coisificadas como fonte de força de trabalho (comercializadas e escravizadas de várias formas), hoje o processo é ainda outro. As pessoas servem como meio de entretenimento, como mais uma fonte de recompensa imediata e que dispensa qualquer investimento emocional.

E é daí que nos tornamos descartáveis. A partir do momento em que não servimos como fonte de prazer, somos esquecidos nesse menu. Por que insistir por algo que não vale a pena se há centenas de opções melhores? Descarto e passo para a próxima. Antigamente nos limitávamos aos limites espaciais ou de convivência: escola, faculdade, trabalho, comunidade. Agora podemos ir direto ao ponto pelos aplicativos. Temos parâmetros que nos indicam qual é que é a "melhor opção".

Em resumo, a forma com que nos relacionamos com pessoas e coisas está se tornando metódica e indissociável da administração do tempo e da atenção. O sucesso de um relacionamento depende essencialmente de sua capacidade de produzir prazer ou recompensa instantânea.

O problema é: estamos nessa, submetidos à possibilidade de sermos descartados sumariamente. No momento em que a vítima do ghosting (que anteriormente possa ter sido a autora de um) começar a se indagar do sumiço, o outro já está a centenas de pessoas de distância.

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u/litt35 — 23 days ago