u/ohmannotagaintwice

A minha mulher pediu-me novidades na cama

Eu e a minha mulher estamos casados há quase 4 anos. Recentemente, a nossa vida sexual tem vindo a estagnar um bocadinho. Disse-me que precisava de algumas novidades. Meti-me a pesquisar.

Basicamente, inscrevi-me na universidade metafórica do sexo. Andei aí a fazer pilates e kegels como se tivesse acabado de ter trigémeos, procurei lubrificantes novos, brinquedos e técnicas todas xpto. Neste momento era capaz de escrever uma tese de doutoramento sobre o que um dedo no cu faz a uma pessoa.

Ora, após semanas de pesquisa, descobri uma coisa maravilhosa: o Lelo Enigma Double Sonic. Apesar do nome que soa a cigano misterioso, vou explorar o site e meu deus.

Antes de começar a história, quero fazer aqui um apelo à população masculina: nós temos que ser melhores. Eu ouço outros homens a falar sobre preliminares, sexo oral de uma forma muito amadora e digo-vos que, comparado com isto, nós não temos hipótese. A competição apertou e o nosso game não é nada para elas. "Ah e tal mas eu sou bom na cama" - não és. A tua gaita não manda ondas ultrassónicas. Não tens 2 horas de durabilidade em modo peak. Tu não sabes o que é o A-spot, e por trás de um vibrador destes há anos e anos de estudo científico - tu nunca leste uma tese de doutoramento sobre orgasmos.

Um gajo aprende isto e dá uma nova visão da vida. Se são homens e estão de micropénis então comprem uma cena destas e finjam que são lésbicas. A vossa mulher vai agradecer.

Não vou mentir: a minha auto-estima ficou abalada. Nós lá começamos a usar brinquedos novos e às vezes era como se eu não existisse. Mas ela estava contente e para mim era-me igual, já estava satisfeito e já. Uns meses de experimentar coisas novas e estamos o melhor que já estivemos em todos os níveis da relação. Eu já ultrapassei o facto da minha gaita ser um Dacia e ela ter um Lamborghini, o que é interessa é o piloto.

Aniversário de casamento. Estamos num hotel spa, tudo arranjado e preparado para nós.

Antes de começar a contar esta parte da história, quero falar sobre o amor - porque um homem a sério faz de tudo para que a sua mulher esteja feliz. De TUDO. Não compras aquele jipe que queres. Começas a ir ao domingo àqueles baloiços panorâmicos para ela tirar uma foto para o Insta. E quando a tua mulher te dá uma prenda, tu aceitas com o maior gosto apesar de ela não ser tão boa ouvinte e comprar coisas meias estranhas.

E ela tem uma prenda para mim. Abro aquilo. Vejo uma cena em silicone com um formato todo marado que diz "tamanho pequeno".

Fico branco.

"Vais gostar" diz-me ela, enquanto explica que é para meter em orifícios nunca antes explorados.

"Que engraçado babe! Adoro!"

Estou a sentir níveis de ansiedade capazes de disparar alarmes de guerra. Estou a olhar freneticamente de um lado para o outro à procura de possíveis escapatórias do quarto de hotel.

Vamos com calma. Procuramos na net uns vídeos de como usar aquilo. Eu tenho a certeza que não vai caber e ela só me diz "vai vai". Oh caralho, eu não sei se consigo pegar de empurrão. O pessoal nos fóruns está a dizer que foi espectacular. Eu começo a pensar em cenas estranhas. E se me faz danos permanentes? E se isto me faz um condicionamento pavloviano e eu nunca mais chego lá a menos que tenha algo no cu?

Decido seguir em frente. Já saltei de penhascos e exigiu menos coragem.

Acabamos a nossa aventura.

Eu vou para os fóruns dizer que foi espectacular. Se preciso de explorar novas cavernas para chegar lá, que seja. Eu aceito. Sou um homem novo.

Passam-se meses de ótimas relações sexuais. Definimos um orçamento para brincadeiras e aquilo torna-se quase um hobby nosso. Estamos a ficar um bocadinho mais kinky a cada dia que passa. Exploramos coisas novas, cenários, brinquedos, sítios, tudo.

Num dos dias mais atrevidos que já tivemos reservamos um quarto num hotel de swingers. Nós ainda estamos numa de experimentar coisas. Pensamos porque não? Temos mente aberta e não somos ciumentos, vamos lá. Não deve ser assim tão mau.

Chegamos ao hotel e aquilo claramente não é nenhuma pousada da juventude - só existem casais de homens gays. Depois de uma secção "segura", uma parte do hotel, para a qual a vista do nosso quarto está direcionada, é a piscina para nudistas. Durante o dia, existem secções onde acontece o expectável num hotel para swingers. De resto, era um espaço normal, confortável e com boa comida - quem gosta de pinar na liga profissional também merece tratar-se bem.

Fomos para o quarto, que ficava ao lado da secção da piscina. No entanto, quando estamos a ir para o quarto, vemos que a piscina está encerrada para um "evento privado".

Passamos a noite inteira a ouvir um grupo de 15-20 homens a bater palmas uns aos outros. Ouvimos grunhidos que nunca ouvimos antes. A certo ponto, por curiosidade, estamos à janela a ver a situação toda a desenvolver-se. Era impossível parar de olhar e eu sabia que, no momento, algo estava a mudar em mim.

Após muitas horas a tentar dormir, lá adormecemos. No dia seguinte vamos tomar o pequeno-almoço. Não estamos a falar muito porque ainda estamos a processar o que vimos.

Um casal que estava sentado ao nosso lado começa a conversar connosco. Depois de uma pequena pausa a meio da conversa um deles diz, com um tom maroto: "o grupo é muito aberto, se se quiserem juntar".

Eu não sei como reagir. Que o grupo é muito aberto sei eu amigo. Eu nunca tinha visto tanto pêlo branco e suor de homens velhos num único sítio. Participar naquilo não seria muito diferente de tentar fazer uma massagem com óleo a um urso polar. Consigo entrar na vibe de grupo quando estou na festa da aldeia e temos que fazer o passinho da danza kuduro, mas isto não dá.

“Quando quiserem juntar-se… o pai está cá.” diz-me ele.

Fiquei mais pálido do que um vampiro gay no armário.Digo muito obrigado pela oferta mas temos coisas a fazer. Ficamos o dia inteiro no hotel a olhar para o teto. Fizemos check-out mais cedo e voltamos para casa.

Quando chegamos... nada. Eu não consigo parar de pensar naquilo. Estou traumatizado e ela também. Ela diz que foi mesmo estranho e que não o devíamos ter feito. Eu concordo. Temos andado só a dormir em conchinha e a dar uns abraços. O que interessa é o amor a partir de agora.

Há uns dias, recebemos uns brinquedos que tínhamos encomendado uns dias antes - uma cena para meter no cu.Nós ficamos a olhar para aquilo como uma influencer analfabeta a ler um livro: sem reação, sem perceber o porquê e a pensar que deveríamos ter feito algo quanto a isto mais cedo. Considerei enterrar aquilo no jardim, mas tenho medo que volte tipo a Annabelle ou uma coisa do género.

Fui demasiado longe. E agora paguei as consequências.

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u/ohmannotagaintwice — 2 days ago

Os putos da minha freguesia lambiam sapos

Tinha eu 6 anos. Estamos numa escola numa freguesia do norte ainda com telhas de amianto. A vida é boa. Só tenho dois grandes problemas: um medo incompreensível de sapos e um bully chamado Mota. 

O Mota não era um génio do mal a fazer planos maquiavélicos. Não me vou meter aqui com rodeios: era burro como uma porta. Apercebeu cedo que era mais alto do que a média e decidiu girar a sua personalidade inteira à volta disso. Dava-me porrada todos os intervalos. Odiava aquele gajo. 

Se já foram vítimas de bullying, sabem que há uma coisa que normalmente não é considerada: a qualidade dos insultos. Porque nem todos os insultos são iguais. Há uma diferença enorme entre chamarem-te "gordo" e "buraco negro de chocapics". Portanto, o sofrimento de uma jovem vítima pode ser redobrado quando o bully é pouco original. Não há uma nuancezinha, ou um vislumbre de inteligência do gajo que te está a dar cabo da cabeça. Com muita tristeza minha, o Mota não era um bully com qualidade.

Um dia estávamos a jogar à bola no recreio (aquele futebol caótico onde a bola é só um íman que atrai 20 crianças ao mesmo tempo). Eu estou a atacante e o Mota está a defesa, a partir-me a boca toda. Um puto chuta a bola para além da cerca e vai parar a um charco ao lado do campo, onde passava um pequeno riacho que vinha do campo de cima.  

Vamos lá buscar a bola e alguém repara: sentado e quieto, está lá um sapo, a viver a sua vida de sapo.

Oh caralho, penso eu. Eu, como vos disse, estou aterrorizado de sapos. Eu não estou nada a gostar da brincadeira mas os putos decidem-se todos aproximar do sapo enquanto eu fico cá atrás. Ficam todos muito curiosos. Não sei se foi um desafio ou se foi o próprio Mota a oferecer-se mas um minuto depois ele está agachado ao lado do charco, pega no sapo e lambe-o.

Nós ficámos ali, um grupo de crianças de 6 anos, em silêncio absoluto, a processar o que tínhamos acabado de testemunhar. Eu decido finalmente que este é o meu pior pesadelo. O Mota devolve o sapo ao charco, limpa a boca na manga, e volta a jogar à bola. Como se nada tivesse acontecido.  Eu respiro de alívio porque aquilo podia ter corrido muito mal para mim mas ok, já passou.

A cena é: ele voltou a jogar bem. Estava a jogar de defesa e nessa manhã meteu seis golos, a fazer dribles que nenhum de nós conseguia acompanhar, a marcar de calcanhar. Passava por mim e nem me empurrava, só fintava. O gajo celebrava os golos com aquela arrogância de quem sabe que é o melhor em campo. 

Eu estou fodido. Isto é o meu primeiro contacto com doping e nem sabia muito bem o que estava a acontecer. Achei uma injustiça. O meu bully descobriu uma vantagem sobre mim que todos podem ter exceto eu.

No intervalo seguinte, os putos estão todos a falar do quão bem ele jogou. Se o Mota lambeu um sapo e ficou bom a jogar à bola, a lógica é simples: os sapos dão super-poderes da bola. Os putos foram todos lá, lamberam o sapo, e ficaram ou todos energéticos ou com uma caganeira enorme. Os professores, auxiliares e pais ficaram todos confusos sobre o que teria causado, mas lá ignoraram. Coisas de putos, né?

Mas no dia seguinte o charco tinha lá os seus consumidores regulares. Começaram com teorias de que tinham que molhar o sapo na água, lamber 10x, etc. Como se fosse um culto.

Durante uns bons dias, aquele recreio transformou-se hipoteticamente no melhor campeonato de futebol da região Norte. Putos que normalmente nem acertavam na bola começaram a fazer jogadas de exibição. Um formigueiro na língua, um calor esquisito, uma vontade repentina de correr mais depressa do que o normal. Acharam todos que tinham descoberto o segredo mais bem guardado do desporto português. 

Isto durou até que o Sr. Hermínio apareceu.

O Sr. Hermínio era o dono do terreno ao lado da escola, um lavrador com a paciência tipicamente reduzida de quem passa o dia a lidar com miúdos como o Mota. Apareceu um dia à hora do intervalo, viu uma fila de crianças a lamber sapos e teve uma reação que, em retrospetiva, foi extremamente moderada dado o que estava a testemunhar.

"Ó putos, mas vocês estão a fazer o quê?"

Explicamos, com o orgulho de quem acabou de fazer uma descoberta científica: os sapos davam poderes de futebol.

O Sr. Hermínio ficou ali especado, a olhar para nós, e depois para o charco, e a fazer a ligação que nenhum de nós, evidentemente, tinha feito.

"PAREM JÁ COM ESSA MERDA! ISSO TEM PESTICIDA! "

Nós sabíamos lá o que era pesticida, mas o homem ficou tão chateado que saímos todos a correr.  No intervalo seguinte, estava lá uma funcionária da escola a impedir-nos de ir para lá.

Não sei ao certo o que estava naquele produto (não tive envolvido nas reuniões da escola, que envolveram muuuuuitos pais). Quem diria que nós não éramos atletas a descobrir um segredo ancestral dos sapos do Minho? 

Continuei fodido porque o Mota continuou a jogar bem depois disso. No entanto também continuou burro. Tem agora 37 anos e vai para o 10º emprego diferente como aplicador de pladur. 

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u/ohmannotagaintwice — 7 days ago

A festa da minha freguesia não correu bem

Este ano, após vários insucessos, a minha freguesia voltou a organizar as festas do padroeiro cá da aldeia. A festa centrou-se em angariar dinheiro para os escuteiros comprarem uns bombos novos, porque já não bastava serem escuteiros - tinham também que ir fazer uma barulheira enorme todas as sextas-feiras às 7 da tarde. Lá arranjámos algum entretenimento, comida e bebida, um cantor com uma máquina de karaoke elaborada e o elemento essencial da festa: uma vaca-de-fogo.

Para quem não sabe o que é uma vaca-de-fogo, imaginem uma estrutura semelhante a uma vaca, fabricada em metal. Na parte de fora, soldam-se suportes onde se mete a única coisa lógica que se poderia meter: foguetes. Depois daquilo estar tudo aceso, um gajo que bebeu uma quantidade recorde de minis pega na estrutura, leva uma palmada no rabo e siga lá vai ele a andar com os foguetes a disparar para todo o lado. Tudo muito, muito estúpido. Mas também é muito divertido.

O truque para uma vaca-de-fogo de sucesso é fazeres uma lista de todos os gajos que não acabaram o 4.º ano por impossibilidade intelectual e selecionar o mais rápido. Quanto mais rápido for, melhor, porque assim os foguetes não acumulam num único sítio. Claramente, fazes isto com algum avanço, para a pessoa praticar no dia e lhe dizeres o percurso a fazer, de modo a minimizares os vidros partidos e a quantidade de foguetes disparados para o cu das pessoas. O melhor percurso costuma ser à volta da igreja, dado que é tudo pedra e o pessoal tem sempre para onde fugir. Foi isto que expliquei a um gajo que se tinha voluntariado para a levar e ficou tudo organizado, com segurança e o nível adequado de risco.

Ora, problema: chegamos ao dia da festa e o gajo que ia andar com a vaca nem vê-lo. Vamos lá procurar voluntários. Passa-se a tarde, o jantar, um bocado da festa e ainda não temos ninguém. Até aparecer o nosso herói: o Barril.

O Barril tem este nome por dois motivos: para descrever o seu formato (redondo) e como o obteve, que (bebendo). E digamos que também não é o gajo mais esperto porque ele trabalha na drogaria cá da zona e, quando fui buscar uma tesoura de podar, o gajo chamou-lhe um “corta-uvas”.

Após a atuação dos escuteiros e a barulheira horrível que lá fizeram, sei lá como calhou-me a mim a sorte de ter que arrumar os bombos dos escuteiros. Procuro o Barril porque não me apetece estar a carregar aquilo. Ofereço-lhe 5 senhas para minis e ele trata do assunto. Adoro este homem.

O programa da festa estava a chegar ao ponto da vaca-de-fogo. São 00:30 e nós dizemos-lhe que é altura. Ele está radiante. O pessoal junta-se para meter aquilo em cima dele, acendemos os foguetes de lado, ele começa a dizer para as pessoas se afastarem e lá vai ele.

É importante notar que a vaca-de-fogo funciona em cadeia e de forma meio aleatória. Ou seja, desde o momento em que um gajo acende aquilo, o barraco está armado, e é impossível saber para onde vão os foguetes.

O Barril levanta-se, desequilibra-se, balança-se, desequilibra-se outra vez e vai com a cara ao chão.

Sucedem-se então dois minutos em que o Barril está só com o focinho enfiado no adro da igreja e foguetes a disparar contra o sino. É quase uma da manhã e aquela treta está a tilintar sem parar. O pessoal tenta atirar água, mas aquilo simplesmente não para de acender. O Barril está lá debaixo a dizer “ajudem, ajudem” e nós com medo de levar com um foguete nos cornos. Passam-se lá os dois minutos e aquilo para de arrebentar. Os foguetes só rebentaram até metade.

Silêncio completo. Vamos a correr e a perguntar “Ó BARRIL, TÁS BEM?” e o homem está lá deitado de quatro, sem se conseguir levantar. Tiramos-lhe aquilo de cima e sentamo-lo num banco. Está todo arrebentado, sem abrir os olhos direito, e com a camisola toda chamuscada. Tento ajudar e vou buscar água.

Volto e ele está a beber uma mini.

Ora, pelo menos não morreu.

A festa lá prossegue e continuamos a andar de um lado para o outro a resolver as consequências da maldita vaca. Algumas casas ficaram com paredes meias chamuscadas, alguns vidros partiram e um gajo queimou o braço. Nada que uns finos e umas horinhas de trabalho não resolvam.

Até que alguém me diz: Ó XXXXX, arrebentaram com a santinha!

Eu vou a correr para a entrada, sem querer acreditar na minha sorte.Os vidros da santinha estão todos partidos. Parece que esteve a fazer uma estufa com um Seat Ibiza do tuning. Fico de boca aberta a olhar para aquilo. Aquela merda tinha custado 4.000 paus.

Estou a pensar em soluções. Não encontro nenhuma. São cinco da manhã, a santinha está destruída, há casas chamuscadas, um gajo tem o braço queimado e eu já estou a fazer contas mentalmente a quantas festas vamos ter de organizar para pagar aquilo.

É então que, de um momento para o outro, a música para.

Ao longe, ouço um:

FIIIIUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU - - - PÁÁÁÁÁÁÁÁ.

Eu conheço aquele som.

É a vaca-de-fogo.

Vou a correr com uma velocidade incrível. Não sabia que conseguia correr tão rápido, mas aparentemente o corpo humano consegue atingir velocidades bastante interessantes quando percebe que alguém voltou a acender uma vaca de fogo às cinco da manhã.

Vejo ao longe que alguém acendeu a vaca outra vez. Foda-se, não me acredito - o Barril está a tentar outra vez. Eu não estava para merdas e NÃO ia assumir mais danos. Fiz um sprint enorme e, antes que os foguetes começassem a estourar, entrei a pés juntos contra a chapa de metal da vaca. Dou um malho espetacular porque fiz isto sem pensar e caio diretamente em cima do paralelo. A estrutura cai e os foguetes começam lá a disparar num cantinho. Está um gajo (que não era o Barril) no chão. Eu estou confuso porque não sei se tenho uma concussão e já não dava um malho assim desde que tinha 6 anos.

Ouço um gajo a dizer:

- FODA-SE! ÉS BURRO OU QUÊ, CARALHO?

Quando reparo, o gajo que estava no chão era o mesmo que tinha sido chamado inicialmente para andar com a vaca.

Aparentemente, ele tinha chegado atrasado e tinha-me tentado ligar. Alguém lhe tinha dito que era para aparecer às duas da manhã. Quando chegou, os outros membros da organização decidiram que mais valia a pena acabar a vaca e, enquanto eu fui ver a santinha, criaram uma zona “segura” para lançar os foguetes.

Eu sou um burro do caralho. 

O gajo está todo aleijado no chão. Está a dizer que vai chamar a polícia, que eu sou um filho da puta, etc. Eu estou todo partido porque caí de lado e o braço está-me a doer tanto que já estou a começar a considerar que talvez tenha feito merda, mas acho que não parti nada.

Lá nos metemos a pé e o pessoal decide acabar a festa. O DJ desliga a música, vai tudo para casa e começamos a fazer a contagem da noite. Eu estou derrotado.

Chegamos à conclusão de que a festa nos rendeu um total de 10 euros.

Lá se vão os bombos dos escuteiros, não é?

Terminamos a avaliação completamente desalmados. Tanta coisa para ganhar 10 euros. Eu vou para casa na carrinha dos escuteiros e levo os outros organizadores comigo.

Chego à carrinha e observo que a janela está aberta.

Paro.

Há qualquer coisa que não está bem.

Puxo pela cabeça e lembro-me: a carrinha estava estacionada ao lado do Barril quando ele estava com o focinho no chão. As memórias estão-me a vir à cabeça e começo a conectá-las. Vislumbro uma imagem do Barril a colocar os bombos na mala da carrinha dos escuteiros. Oh não. Abro a mala e entraram não um, não dois, mas três foguetes lá dentro, o que resultou em 7 bombos chamuscados e 4 rasgados. 

Para a semana é reunião da comissão de festas e vou ter que dar justificações.
Mas eu só sei que agora as sextas-feiras às 7 da tarde são muito mais tranquilas.

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u/ohmannotagaintwice — 8 days ago
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O filho do meu amigo é kamikaze

 Último sábado fiquei a tomar conta do filho de um amigo meu - o Berto. O Berto tem 8 anos. Vou com ele dar uma volta para jantar porque mais vale a pena levá-lo a comer alguma coisa decente em vez de lhe estar a dar a dieta uber eats de um gajo solteiro.

Chegamos a um tasco, desvio o olhar durante 5 segundos e o puto vai a correr contra a porta. Esbardalha-se o vidro todo. Começa a chorar baba e ranho. Sangue por todo o lado. Estou em pânico, o pessoal vem ajudar, uma enfermeira aparece e começa a ver o puto. Está tudo bem, foram só uns cortes no braço e nenhum deles profundo. Respiro de alívio e ligo para o pai. Digo que está tudo bem, explico o que se passou e eu espero uma reação de preocupação deles quase exagerada como se fosse o pior amigo de sempre . O pai pergunta-me: "a porta estava segura?"

Eu fico confuso. Como assim a porta está segura?

O pai começa-me a contar que o Berto gosta de testar o limite das coisas para ver quando é que partem. Algo que assumo que todos os putos fazem, mas o problema é a dimensão dos hábitos do Berto porque este puto é kamikaze.

Aparentemente o Berto há uns tempos atrás foi de bicicleta contra o portão de casa. Uma chapa de metal mais alta do que um gajo. O pai manda-me o vídeo da câmara de segurança. Um acidente normal? Não.

O puto reparou que o portão abanava um bocado quando fechava e então decidiu fazer a única coisa lógica: ir de bicicleta o mais rápido possível contra o portão para ver se ele caía. Isto é o oposto da seleção natural, pensei eu. Mas, contra todas as hipóteses, sabem quem ganhou?

O Berto.

O Berto percebe de estruturas. Ele sabe que a parte mais frágil fica na zona mais afastada do mecanismo do portão, e foi exatamente contra esse sítio. No vídeo, o puto invoca todos os demónios que tem e pedala com uma fúria ridícula contra o portão, cai de frente e o portão fica todo arrebentado. Os pais só ouvem um estrondo, vão a correr e o puto, intacto, a celebrar.

"Pior foi no S. João no ano passado" conta-me o pai. Aparentemente o Berto vai para os carrinhos de choque dos miúdos e o pai pensa que é seguro. Erro crasso. O Berto estava determinado a criar o Mad Max portuense. Andou durante 2 minutos no carrinho dele até que o pai olha e o Berto está fora do banco, com outro puto a conduzir, a saltar para os carrinhos de outros miúdos. Miúdos esses que claramente só estão a questionar porque é que estão a ser vítimas de uma rusga. O gajo dos carrinhos não repara, o pai começa aos berros, o Berto distrai-se e pumba, lá vai um carrinho contra ele enquanto ele está no meio da pista. Ele cai. O gajo dos carrinhos desliga a cena toda de emergência, fica tudo escuro e eles vão para o meio da pista com lanternas do telemóvel. Mal apanham o Berto só está ele a sorrir, com os dentes cheios de sangue. 3 dentes partidos e a cara toda pisada porque foi com o focinho direto ao pára-choques de outro carro. O pai pergunta-lhe porque é que ele fez aquilo e o Berto responde que estava a tentar descobrir qual era o carrinho mais rápido para partir as bermas.

Entre esta e outras histórias, o pai avisa-me: se ele começa a fazer perguntas é porque vem aí merda.

Lá estou eu no hospital com o Berto, o puto todo coberto de papel higiénico no braço porque não tínhamos arranjado mais nada no restaurante e o Berto vê uns andaimes de uma zona do hospital em construção.

"Podemos subir aquilo?"

Eu começo a suar. O meu cérebro está a calcular todas as possibilidades de respostas e qual delas a menos arriscada. O Berto é uma ameaça e que não estou seguro com ele. Tento desviar-lhe a atenção como quem está a desarmar uma bomba. Consigo que o Berto comece uma conversa com uma senhora idosa sentada ao lado dele. A senhora tem uma espécie de andarilho ao lado dela. O Berto começa-lhe a perguntar como é que funciona aquilo e a senhora explica-lhe que é um suporte para andar porque é velhinha. Eu a reparar que o puto está super curioso. Ui . Já não estou a gostar da brincadeira. Meto o puto a ver vídeos no telemóvel e finalmente compreendi porque é que os pais que deixam os miúdos a ver vídeos durante horas a fio. O puto pesquisa "battlebots" e começa a ver um torneio daqueles robôs telecomandados à porrada. Passam-se uns minutos e chamam por nós.

O médico, que aparentemente já o conhece (quem diria) diz-lhe: "Nem vale a pena fechar a tua ficha".

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u/Aypherox — 15 days ago
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Fui a um date no cemitério

Conheci a Laura no trabalho. Engraçada, bonita e atlética. Tivemos química imediatamente, mas ela é galega e não era fácil estar com ela. Quando surgiu a oportunidade, disse-lhe, em bom portunhol:

¿Quieres ir dar una vuelta?

Umas semanas depois, veio cá à empresa e disse-me, espontaneamente, que sim.

Eu não sou um gajo romântico. Não tenho uma lista de sítios de emergência para levar uma mulher que está claramente fora da minha liga. Penso no melhor sítio que conheço e lembro-me da capela da minha freguesia, que tem uma vista incrível e fica uns metros acima da igreja.

O acesso de carro estava cortado. Tivemos de subir a pé uma quantidade ridícula de escadas. Tudo bem para esta mulher, que é o fitness em pessoa. Já eu, ainda hoje sou o escolhido para guarda-redes quando vou jogar à bola.

Chegamos lá acima e estou completamente esbaforido.

A Laura diz-me que o sítio é muy guapo, enquanto eu faço guinchos respiratórios suficientes para a deixar preocupada. Componho-me e dou o meu melhor para ela não reparar que tem areia para uma praia inteira e este camião nem à inspeção passa.

Segue-se uma boa conversa. Rimo-nos muito. Estamos aos beijos. As coisas progridem.

Ela pergunta-me se yo tengo un profilactico

Fico branco.

Valete, se estás a ler isto: eu compreendo-te. Aliás, acho que nunca ninguém em Portugal te compreendeu tanto como eu.

Porque, depois daquela subida toda, os preservativos ficaram no carro.

E eu não vou deixar uma oportunidade destas passar ao lado.

Faço-me homem. Laura, volto já. E vou, obviamente, a sprintar a toda a velocidade.

A meio do caminho tropeço em qualquer coisa, deslizo pela terra e caio para a parte de trás de um descampado em obras: uma zona do cemitério que estava a ser renovada.

Tento subir pelo sítio onde caí.

Demasiado íngreme.

Procuro outra saída.

Os portões fecham automaticamente e a única passagem está bloqueada por uma giratória das obras.

Estou todo borrado de terra, de pau feito e perdido no meio do cemitério.

Começo a chamar pela Laura, que ainda estava lá em cima.

Depois de alguns berros, desisto.

Ouço um "boa noite" vindo do meio do cemitério.

É o Chaves.

O Chaves é o coveiro da freguesia. Não é propriamente bêbado, mas talvez fosse melhor se fosse, porque este homem é um perigo para ele próprio e para os outros. Foi roubar fruta e partiu os dois braços ao cair de uma escada. Costuma transportar bilhas de gás das grandes rebolando-as pela estrada nacional com 35 graus de calor.

O Chaves diz-me que não posso estar ali e que aquilo está fechado.

- Pois, chefe. Isso sei eu. Estou aqui com o navio pronto a embarcar, a mulher à minha espera e não faço ideia de como sair daqui.

Ele responde que só dá para sair tirando a máquina do caminho, mas que não tem a chave.

Ou se liga ao presidente da junta, ou passo ali a noite.

Liga-lhe.

Não atende. Diz que vai mandar uma mensagem.

Pergunto-lhe como é que ele sai em caso de emergência. Não responde e começa a cavar e a fazer merdas de coveiro.

Oh caralho.

Eu não sei que jogo mental o homem estava a fazer comigo, mas tinha a certeza absoluta de que ele não ia passar ali a noite. Alguma maneira de sair havia de existir e ele não ma queria dizer.

Estou desesperado.

Viro-me para ele.

- Dou-te vinte paus se me ajudares a sair daqui. E não conto a ninguém como é que fazemos.

O Chaves responde:

- Eu durmo cá.

- No cemitério, Chaves?

Conta-me que já não vive com a mulher porque ela encontrou umas coisas de que não gostou. Mais tarde descobri, segundo os rumores da minha avó, que eram revistas pornográficas. Desde então anda a tentar voltar para casa. Sem sucesso.

Eu fico a olhar para ele durante um sólido minuto, enquanto considero que, afinal, a minha vida podia estar muito pior.

Continuo a tentar descobrir uma maneira de fugir.

Nisto, ouço a Laura a chamar por mim.

Encontra o sítio onde caí.

- LAURAAAAAAAAAAAA!

Ela olha cá para baixo.

- ¿Qué estás haciendo ahí?

Explico-lhe a situação.

Ela fica completamente confusa.

Nesse momento percebo que as minhas hipóteses de ter sorte naquela noite já são mais fracas do que as do Chaves.

Ela tenta pegar num ramo para me puxar. Nada. Tentamos outras estratégias totós. Nada.

Mas esta não era uma mulher qualquer.

Olha para mim e diz:

- Voy ter contigo.

E desce pela colina.  Fica toda borrada de terra. Senta-se ao meu lado. Ficamos os dois, a parecer hippies que tinham rebolado na lama, enquanto víamos o show do Chaves a fazer sabe-se lá o quê.

Estranhamente, ficamos mesmo bem ali. Conversamos durante imenso tempo. Conhecemo-nos melhor.

Apercebo-me, numa divagação filosófica, que não há nada mais romântico do que estares num cemitério com uma mulher linda de morrer, enquanto observas o toino da freguesia a trabalhar.

Passa-se uma hora.

Ainda ninguém nos veio buscar.

Passam-se duas.

O Chaves pára de trabalhar.

À terceira hora recebe uma chamada.

"É o presidente da junta", pensamos nós.

O Chaves dirige-se à máquina, destranca-a com a chave que disse que não tinha,  passa pelo meio da máquina, volta a trancá-la, sai do cemitério e continua a andar.

Filho.

Da.

Puta.

Enquanto isto acontece, eu estou aos berros atrás dele e a pensar na monumental partida que este homem me acabou de pregar. Farto-me. É uma da manhã.

Ligo à minha irmã.

- Traz-me uma escada ao cemitério. E rápido, que estou num date.

Ela acha que estou bêbado e desliga-me na cara.

Ligo ao resto da família.

Ninguém atende.

Vou esgotando todos os contactos que tenho.

A única alternativa é esperar até às seis da manhã, quando o portão automático abrir.

Nessa altura já perdi qualquer esperança de que este date ainda vá correr bem.

Até que o Zé, meu vizinho, atende.

Fala arrastado porque eram 21h e ele já estava todo cego no café. Não diz nada de jeito. Mas garante que vem.

Cruzo os dedos.

Passado um bom bocado, o Chaves regressa da sua aventura.

Vou ter com ele.

- Porque é que me disseste que não tinhas chave?

Ele começa a resmungar e diz que não tem de tomar conta de nós. Respondo que podia, pelo menos, ter ajudado. Começamos a discutir. Ele empurra-me e pega na pá. Começo a stressar. Não quero andar à porrada, ainda por cima porque o homem é todo fibrado. Empurra-me outra vez e tenta prender-me os braços. Eu mal me estou a defender porque ainda não estou a processar bem que estou a andar à porrada.

Estou a tentar soltar-me quando começa a dar-me joelhadas. A Laura pega num sírio de vidro e acerta-lhe no ombro. O vidro nem parte.

O Chaves fica completamente imóvel durante uns segundos.

Depois começa: AIAIAIAIAIAI!

A Laura entra em choque. Eu empurro-o para longe. Ele cai ao chão.

"Puta que pariu, o Chaves esbardalhou-se todo", penso eu. Os dois começamos imediatamente a entrar em pânico. Ele fica estendido. Não há sangue, está consciente mas anda ali a rebolar. Estou a rezar a todos os deuses para que o homem esteja bem.

Passados uns minutos pede-me água.

Vou encher uma garrafa à torneira do cemitério. Nisto vejo o Zé, do lado de fora, tranquilamente a fumar um cigarro. Corro para a vedação. ZÉ! ANDA CÁ, CARALHO!

Ele olha para mim.

Vê um gajo todo borrado de terra a acenar de dentro do cemitério.

Aproxima-se como se fosse um mata-velhos a andar numa estrada cheia de lombas - lento como tudo.

- Estava-te a ligar e tu nada. O que é que estás a fazer no cemitério a esta hora?

- Ó primaço, liga mas é para uma ambulância. Está ali um gajo estendido. E arranja uma escada, por amor de Deus.

O Zé, apesar de claramente já ter umas dezenas de minis no bucho, liga a um primo que vive perto. Pede-lhe que apareça às duas da manhã... no cemitério... com uma escada.

O primo desliga-lhe na cara.

Entretanto, o Chaves começa a levantar-se.

O Zé olha para dentro do cemitério e pergunta:

- Isto é o Walking Dead ou o caralho?

Os zombies são para depois, Zé. Agora temos é de perceber se o Chaves não fica todo fodido. Mas felizmente, o homem está bem. Levanta-se.Tínhamos oferecido chamar o 112 mas ele recusa ambulâncias porque "essa merda é cara". Começa apenas a balbuciar o nome da mulher. Até hoje não sei como ela se chama.

Decidimos levá-lo a casa. Batemos à porta.

Uma vez.

Duas.

Cinco.

A mulher aparece à porta com uma motosserra desligada na mão. Sem corrente. Provavelmente a arma menos ameaçadora que já vi.

Enquanto grita:

- EU MATO-VOS, CARALHO! A MIM NINGUÉM ME ASSALTA!

- Ó senhora, tenha calma. É o seu marido. Ele não está muito bem e precisa de descansar.

- ESSE FILHO DA PUTA PODE MORRER QUE EU NÃO QUERO SABER!

- Ele está meio desmaiado. Pode só vir ver?

Ela acaba por perceber que estamos a dizer a verdade. Vai buscar um bocado de gelo que está meio derretido e, depois de alguma discussão, aceita ficar com ele.

O Zé regressa ao tasco.

Eu volto ao meu date com a Laura.

Estamos a chegar ao carro quando ela me diz que fomos grandes wingmen.

Concordo.

No meio daquela confusão toda, ainda reatámos o casamento do Chaves.

E agora que tudo terminou, talvez algo possa correr melhor para o meu lado.

Na brincadeira, pergunto-lhe:

- Queres voltar para o cemitério acabar o date?

Ela olha para mim e responde:

- No podría haber un lugar peor, burro de mierda. Quiero ir para casa.

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u/chover_no_molhado — 18 days ago

A minha vizinha idosa é guna

Estou a fazer umas renovações no cu de Judas.

O percurso até lá consiste em estradinhas apertadas, sete ou oito quase-atropelamentos, e a travessia de freguesias com um PIB de 25 cêntimos. Seguimos seguimos seguimos até encontrarmos uma terrinha nortenha onde sentes que és uma celebridade quando passas.

Nessa terrinha temos uma pequena casinha herdada por um amigo meu. Foi, em tempos, parte de uma micro-comunidade do século passado. As nossas análises altamente não-profissionais indicam que a casa foi construída em 1870, uns anos depois da mãe do Cavaco Silva ter dado à luz esse menino.

Com o tempo, todas as casas em redor acabaram abandonadas. Hoje, só restam silvas, um cagaço enorme de vespas asiáticas e paciência para conversar com os velhotes da freguesia.

Se és do campo, sabes que funciona assim: se tens um problema, és tu que o resolves. Nada de polícia. Aqui, há porrada na praça pública. E tu NÃO queres andar à porrada com quem trabalha na agricultura.

Decidimos fazer amigos, não inimigos.

Foi assim que nos começámos a dar bem com a Cleonice. Uma senhora baixinha, energética, com mais de 80 anos.

A D. Cleonice veio de França há uns 10 anos. Desde então, já teve quatro litígios em tribunal por difamação. A senhora é uma simpatia. Tem classe, é articulada, educada e muito, muito racista. Usa um colar de ouro que diz “Cleonice”, mas bem podia dizer “Rainha desta merda toda”. Vive sozinha num casarão que comprou com um dinheiro herdado de um ex-empregador. Ninguém sabe o que se passou entre ela e esse empregador para além de rumores.

Quando começámos a ir lá à terrinha, chamámos logo a atenção de toda a gente. Dos emigrantes da casa em frente, que só aparecem no verão e tocam pimba durante 72h seguidas.. Dos tios emprestados do meu amigo, que oferecem um garrafão de vinho cheio de borra que, no fundo, é só um pretexto para comecar conversa sobre comprar outra casa toda partida por 25.000 euros acima do que vale. Do presidente da junta, que se demitiu 2 meses depois porque tem um processo em tribunal que não está muito famoso para o lado dele.

Mas, em particular, chamámos a atenção de um pastor de ovelhas. O motivo foi simples: o homem usava a parte de baixo da nossa casa (abandonada) para guardar o rebanho.

“As coisas aqui funcionam diferente”, pensámos nós. Fomos tentar descobrir informações sobre quem é o tal pastor. Falamos com a Cleonice, que nos avisou:

“Esse gajo é o maior filho da puta daqui da zona.”

Explicou que dois dos litígios em tribunal foram por causa dele. Segundo ela, o homem andou a dizer que, em França, a Cleonice era prostituta. Não só prostituta, mas prostituta exclusiva de indivíduos de etnias diferentes. O que, para uma senhora com perspetivas étnicas de meter inveja ao Ku Klux Klan, é a maior ofensa possível.

Disse-nos que chegou a considerar matá-lo. Levou uma espingarda para a igreja e ficou à espera dele. Felizmente, lá a convenceram a acalmar (deve ter sido uma missão impossível). Eventualmente, percebeu que tinha mais dinheiro do que ele e decidiu resolver a coisa em tribunal. Ganhou um processo, o outro ficou em águas de bacalhau.

Mas deixou bem claro:

“Se fizerem favores a esse burro, nunca mais falo convosco"

E foi aí que percebi. Não quero estar no lado errado da Madrinha francesa de origens duvidosas.

Ora, um dia começámos a limpar a parte de baixo da casa. Estava cheia de palha e merda de ovelha. Decidimos encontrar o “ocupa” e avisá-lo que o espaço era nosso e que já tínhamos a máfia local do nosso lado.

A casa do homem era tipo o triângulo das bermudas do Norte. Nunca a encontrávamos. Mas um dia, por sorte, vimo-lo a passear. Perguntámos o nome e bingo: era ele.

Falámos com respeito, educação. Pedimos que retirasse as ovelhas e que nós limpávamos o resto. Muito civilizados. Demasiado até.

A resposta?

“Se se vão armar em filhos da puta e foder a vida às pessoas daqui, eu mato-vos.”

Ó ó ó chefe, tenha lá calma. Só queremos usar o que é nosso. Começámos a discutir (muito). O homem agarrou na sachola, ameaçou partir-nos as pernas, acusou-nos de roubar coisas… e nós ali, sem perceber como a coisa escalou tão rápido.

Mas fomos estratégicos.

Fizemos alianças.

Ao longe, vemos uma figura pequenina a aproximar-se lentamente. O homem ainda aos berros. Discussão acesa até ele perceber: vem aí a Cleonice. Cala-se logo. A cara muda de cor. Pousa a sachola ao ombro e vai-se embora.

Dois minutos depois, lá chega ela.

“Meteu-se logo a andar, o franganote.”

Foi neste momento que percebemos o verdadeiro poder da mulher enviada pelos anjos. Esperançosamente diferentes dos da Joana Marques.

Por sugestão dela, tirámos a porta do andar de baixo da casa. Assim, o homem não deixava lá mais ovelhas. Limpámos tudo e fomos à nossa vida.

No caminho, ligámos ao pai do meu amigo para lhe contar o que se passou e perguntámos se conhecia o homem.

“Esse gajo é o maior filho da puta daí da zona.”

Uma semana depois, voltámos. Continuámos a limpar entulho, retirar um telhado desfeito e a combater vespas asiáticas que mais pareciam ter motor de 600cc e armadura de titânio. Eu tenho medo delas. Mas sabem quem não tem?

Estava à conversa com a Cleonice quando passa uma. Sem hesitar espeta-lhe uma puta que a vespa virou logo o barco. "Tchapada com uma placa de madeira que até andas de lado oh vespazinha" diz ela. E eu, um homem alto e forte, todo borrado à beira da interminadora implacável de pastores e vespas.

Passado uns tempos, surgiu-nos um problema: muito entulho e nenhum sítio para o deixar. Ligámos aos manos do lixo. “Isso é com a câmara.” Ligámos à câmara. “Isso é com os manos do lixo.” Ligámos à Cleonice.

“Isso é comigo. Deixem cá no terreno e eu trato do assunto.”

Voltámos na semana seguinte: tudo limpo. Tinham levado o entulho, limpo o tanque, retirado pedras, arranjado os terrenos ao lado… estava tudo irreconhecível. A Cleonice só disse que falou com o presidente da junta e meteu as coisas a mexer.

Como se não fosse nada.

Ainda por cima, o andar de baixo da casa estava limpo. Nem sinal de ovelhas.

Daqui a umas semanas, vamos lá limpar o terreno da Cleonice. Não por gratidão. Mas neste ponto parece-me bem fazer alguns favores.

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u/ohmannotagaintwice — 21 days ago