


Minha visita à Wallace Collection em Londres, relógios Boulle e uma inesperada conexão com o Brasil
Recentemente estive no Reino Unido para realizar um grande sonho: assistir a uma partida em Wimbledon (Grand Slam de tênis). Claro que, sendo minha primeira viagem internacional, não poderia deixar de conhecer alguns lugares na região, e assim acabei reservando uma semana para turistar em Londres.
O interesse em relógios já estava comigo e por isto um dos lugares na minha lista era o Observatório de Greenwich, que serviu de local de trabalho e moradia para os astrônomos reais desde John Flamsteed, e que hoje abriga os famosos relógios de John Harrison, relojoeiro autodidata que encontrou uma solução prática para a questão da longitude no século XVIII.
O que eu não poderia prever é que, além da visita a Greenwich, o acaso me reservaria outro encontro bastante curioso com a história da horologia. Afinal, não chega a ser surpreendente que haja por lá tanta coisa relacionada à medição do tempo. A Inglaterra exerceu um papel relevante no desenvolvimento dos instrumentos de medição do tempo, em parte por ter sido uma grande potência marítima nos séculos XVII e XVIII e, portanto, depender dos avanços mencionados no último parágrafo. No entanto, confesso que não havia pesquisado muito a respeito, e foi justamente o caráter inusitado da situação que me motivou a contá-la aqui.
Em um dia sem atividades programadas até o período da tarde, que seria quando eu me dirigiria à fila em Wimbledon, resolvi dar uma volta pela região de Marylebone High Street, onde a IA me sugeriu alguns cafés e uma visita à Daunt Books. Nesta livraria, encontrei um livro chamado “33 Walks in London That You Shouldn’t Miss” (ou “33 caminhadas por Londres que você não pode perder”, em uma tradução minha), de Nicola H. Perry.
Imediatamente, procurei saber se algum dos trinta e três passeios sugeridos pelo livro incluía a região onde eu estava. Para minha surpresa, não apenas havia um roteiro por ali, como a própria livraria em que eu estava fazia parte dele. A partir daí, decidi seguir as sugestões do livro, que acabaram me levando à Wallace Collection.
A Wallace Collection é um museu nacional britânico, focado em artes decorativas, mobiliário e pintura. Sua coleção permanente (com entrada gratuita) abriga uma das maiores coleções de mobiliário de André-Charles Boulle, mestre da marchetaria na corte francesa de Luís XIV, incluindo cinco relógios.
Vista de uma das salas do museu, com um relógio Boulle ao fundo (centro)
Usando uma técnica que sobrepunha lâminas de madeira, latão e carapaça de tartaruga, a oficina de Boulle revestia a caixa enquanto outros especialistas (como relojoeiros e escultores) cuidavam dos demais elementos dos relógios, produzindo peças belíssimas.
Havia ainda uma curiosa conexão com o Brasil: eu já tinha ouvido falar do marceneiro parisiense ao ler sobre a restauração do relógio destruído em Brasília durante a invasão aos prédios públicos da capital, em 8 de janeiro de 2023.
O relógio de Brasília, além da marchetaria atribuída a Boulle, tem seu movimento fabricado por Balthazar Martinot, importante relojoeiro francês ligado à corte de Luís XIV no fim do século XVII. Não se sabe exatamente como esta relíquia chegou até aqui, mas é provável que, após ser oferecida à família real portuguesa, tenha vindo ao Brasil com a corte de Dom João VI em 1808.
O conhecimento prévio sobre o artista tornou a descoberta destes relógios atribuídos a Boulle na Wallace Collection ainda mais especial.
Entre as peças da coleção londrina, estão:
- um relógio embutido em um armário, de c. 1715;
- dois relógios de pedestal, de c. 1712–1725;
- dois relógios de lareira, de c. 1715 e c. 1726.
Os movimentos destes relógios foram produzidos por Pierre Gaudron, Jacques III Thuret, Louis Mynuël, Jean Jolly e Claude III Martinot, todos relojoeiros franceses estabelecidos em Paris. Claude III Martinot, inclusive, pertencia à mesma família de Balthazar Martinot, responsável pelo movimento do relógio de Brasília.
Cartões-postais adquiridos no museu mostram os relógios em exposição, e o livro que me guiou até lá
Uma grande coleção de mobiliário de Boulle e trabalhos dos relojoeiros da corte de Luís XIV pode ser apreciada em Versalhes, um dos próximos destinos que gostaria de visitar.
Mesmo em Londres, há outros museus e atrações dedicados à horologia, como o Clockmakers’ Museum, que infelizmente não tive a oportunidade de visitar. Para mim, é fascinante perceber como a história da relojoaria se entrelaça com grandes personagens, reis célebres e até episódios insólitos, como o ocorrido no Brasil. Foi justamente essa combinação entre relojoaria, história e acontecimentos inesperados que me motivou a compartilhar esta experiência.
Alguém aqui já visitou a Wallace Collection ou conhece outros museus particularmente interessantes para quem gosta da história da relojoaria?