Um dia falho

Acordo sem fome

e alimento o meu vício

Visto pele de porco

estico-me sendo torto

O sol já divide o céu

mas para mim é o início

Alimento-me como um cão

sento-me no chão

e procuro inspiração

E assim o sol desce

e o dia veste

um véu de escuridão

Da minha mente

me faço réu

Enquanto se transforma o céu

penso no amanhã

"Amanhã será diferente"

Mas não será

Para a cama desço

e pergunto se haverá

força em mim para amanhã

um recomeço

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u/quis_sum_ego — 6 days ago

nicotina

nicotina

que me prende no tempo

passo o dia a pensar em ti

a tua presença é o meu alento

tu és pausa na minha vida

e às vezes o meu sustento

quero-te quando me levanto

até ao fim do dia

pois és sentimento

que não me traz outra garina

cada momento anseio por ti

pois para mim

és nicotina

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u/quis_sum_ego — 6 days ago

Um estrutor

Sou um *estrutor*, inimigo da vontade e comburido pelo tempo.

Levanto prédios. Arranha-céus, até. Derrubo os muros e durmo nos escombros.

Desenho máquinas, vivas de vapor, irracionais, *sisíficas*, obedientes.

Sou um sonhador de cama, e um *estrutor* de quarto.

Conforto-me com os meus brinquedos, que rapidamente se tornam lixo, comburidos comigo.

A minha vontade, escrava, bem se aproveita de mim. É aqui o tempo de suceder.

Pois se há algo que não sou, é reformador, não lapido, não retalho ou refino.

Não remoldo nem reestruturo, prefiro demolir e *remolir*.

Por isso, todos os meus brinquedos são amálgamas, amálgamas do que somos e quisemos ser.

Os meus brinquedos desconhecem o conceito de finitude, nunca lhes deixei a vontade ensinar.

Mas a vontade sabe. Sabe do fim. Mais do que isso.

Sabe de mim. Sabe tanto de mim, que sabe do meu fim.

E esse será assim: um *estrutor* incapaz de se *remolir* quando se destruir.

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u/quis_sum_ego — 6 days ago

Nesta Rua

Nesta rua por onde caminho, não há gatos nem árvores que escondam a sua desertude. Dia e noite: nesta rua, tudo o que me preenche é a saudade, a saudade dos castelos de areia que neste deserto construí.

Como muitos outros, sou parte do fenómeno de deserção de que esta rua é vítima. Mas quererá quem viver numa rua de presente e passado misturados?

É uma rua peculiar, onde pode o sol nascer e ninguém saber para onde o próximo vai ou vem. Uma rua de singulares, mas nunca de um coletivo.

Apesar do seu deserto, tenho boas memórias desta rua: de comer rins e palmieres em madrugadas tão vazias quanto as manhãs e as tardes, de jantares cheios das melhores companhias...

Uma rua que nada tem e nela tanto tive... deve ser por isso que é chamada de Rua da Saudade.

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u/quis_sum_ego — 7 days ago