Manual de Caça: Animais e Aberrações de Almis, Vol. I – A Hidra dos Pântanos
Pelo Mestre de Caça Nastur Gilliga, Universidade Real de Soiluse
Nesse conjunto de livros estudaremos as mais fascinantes e, por vezes, perigosas criaturas que o território do reino de Almis tem a oferecer. Esse primeiro volume será focado em, talvez, uma das criaturas mais letais e mal compreendidas da fauna almita, a Hidra dos Pântanos, ou Hidra Negra.
Identificação:
Nomes Comuns:
Hidra Negra, Hidra dos Pântanos, Hidra Lecta, Hidra Lectenha
Taxonomia:
Natureza - Monstrua
Tronco - Theromorpha
Ramo - Polycephalia
Ordem - Hydrathera
Casta - Ophiurozoa
Estirpe - Heptahydra
Espécie - H. obscuracarnis
Características Físicas:
Essa criatura é, na realidade, uma monstruosidade criada a partir de experimentos mágicos eras num passado esquecido, hoje integra-se naturalmente na fauna do continente e podem ser compreendidos praticamente como animais. A criatura é uma grande serpente com sete cabeças, que, em seu tamanho adulto, ao levantar completamente o corpo, alcança até quase 6m de altura. Seu corpo é recoberto por escamas negras arroxeadas e reluzentes, apresentando e manchas pretas e amarelas na parte dorsal do corpo. Seus olhos são de um púrpura profundo, apresentando uma pupila com fenda vertical. Seu corpo torna-se mais robusto na altura onde os prolongamentos dos “pescoços” unem-se e afina levemente em direção a cauda, terminada em um grande chocalho segmentado. Suas mucosas aparentes, parte interna de suas bocas, laterais dos olhos, parte interna das narinas, é de um rosa vibrante. Ela possui seis presas superiores e duas inferiores, as presas frontais são maiores, mais pontiagudas e retráteis.
Tamanho: 20 - 25 m (Comprimento total)
Peso: 3520 - 4400 Kg
Expectativa de vida: 160 anos
Habitat:
Rios, Lagos e Pântanos preferencialmente. Hidras Negras gostam de fazer seus covis em lugares escuros e úmidos, próximos a grandes massas de água, de preferência, que possam esconder todo o volume de seu corpo.
Comportamento:
São solitários e muito territoriais, tendem a atacar com voracidade outros animais que cheguem muito próximos a seus covis. Seus territórios são fixos, só deixando-os durante a época de acasalamento, e retornando para seus territórios após esse período.
São criaturas de hábitos noturnos, caçadoras de emboscada, espreitam suas presas por algum tempo, estudam até um momento de distração para seu ataque surpresa. Elas têm a tendência a tentar capturar presas vivas e fugir com estas para seus covis. Normalmente o ataque vem da água ou de algum lugar escuro, é rápido e certeiro, uma mordida para inocular o veneno e enfraquecer a vítima, seguido de um rápido movimento de constrição com a longa cauda e então a fuga do animal com a presa incapacitada. Costumam caçar animais de médio à grande porte, normalmente de sangue quente. A Hidra Negra tenta escapar de combates diretos, porém se não for possível fugir, ou se seu covil estiver em perigo ela atacará vorazmente. Nesses casos a criatura atacará com mordidas e tentará agarrar e esmagar seus inimigos com a cauda.
Devido seu tamanho acredita-se que essa espécie de Hidra passa por longos períodos de hibernação, poupando energia, seguido de uma curta temporada de caças, para acumular nutrientes, tendo também uma troca de peles por ano.
O chocalho na ponta do rabo da Hidra Negra quase não é utilizado e se mantém silencioso a maior parte do tempo, ela o utiliza em duas ocasiões específicas. Para afugentar possíveis invasores, caso não se sinta obrigada a um confronto direto ou não esteja apta a caçar. E durante o período de acasalamento. De oito em oito anos essas criaturas viajam fora de seus territórios para procurar parceiros, nesse momento o chocalho também é usado para atrair um parceiro suscetível e é o momento onde elas estão mais violentas e perigosas.
O período de gestação do ovo externamente ao corpo da mãe é de alguns dias, pois as Hidras são ovovivíparas e retém os ovos dentro de si até estarem prestes a eclodir, o que explica também o comportamento de abandonar os ovos assim que os põem. Um animal saudável botará de um a três ovos por ninhada e a gestação dura, no total, cerca de um ano. É muito comum os filhotes, ao nascerem, brigarem entre si, até ao ponto de canibalizarem um ao outro, ou mesmos comerem os ovos dos irmãos. Hidras Negras levam cerca de 6 anos para serem consideradas adultas, mas ainda cresceram por mais uns 7 a 10 anos.
Conhecimentos Populares perpetuados sobre o animal:
A lenda mais recorrente quando se trata de hidras é sobre sua capacidade regenerativa, e principalmente a ideia de que se uma cabeça for cortada duas nasceram no lugar. As lendas divergem quanto ao tempo dessa regeneração, alguns falam de segundos após o corte, outras falam de dias, algumas outras falam de anos.
Muitos creem que cada cabeça de uma Hidra age independentemente, podendo brigar entre si, como se cada cabeça fosse um indivíduo diferente. Dizem que se pode utilizar dessa confusão para combater essas criaturas, fazendo-a atacar a si própria.
Alguns acreditam que esses animais têm a capacidade de lançar jatos de veneno de suas presas para acertar alvos a grandes distâncias.
Alguns relatos dizem sobre criaturas dessa espécie que tem a capacidade de falar, existem até histórias de longas conversas mantidas com Hidras Negras. Exploradores dos pântanos ao sul, nas bordas com os reinos hortillanos dizem ter capturado um espécime após ter argumentado com a criatura por horas.
Outra crença comum é na capacidade de hipnotismo dessas criaturas, dizem que é importantíssimo evitar fitar diretamente em seus grandes olhos vermelhos. Uma variação dessa crença a de que na verdade esses animais são dotados de poderes ilusórios.
Existe uma coletânea muito antiga de poemas de um autor identificado como Lectio chamados de “Os Sons de Lectio”, um desses aparentemente trata-se dessa criatura. Segue aqui a tradução desse poema:
A Dama e a Serpente Negra
A pálida pele relumbra com sua substância
O palmo apalpa o invólucro do seio
Os lumes levantam relutantes
A boca escarra um sorriso
“Su'astúcia é mor a graça que seduz”
Sugere a serpente de umbrosa epiderme
“Despautério se faz de minh'essência,
Quando com ser tão voraz me sou assemelhado”
Olhos encarnados fitam tão alabastrina entidade
Suas cabeças, nove, circundam a figura feminina
“Ambiciono seu semblante,
mas não deixo de recear seu fascínio.”
Conhecimentos Avançados:
A lenda sobre a regeneração das hidras tem algum fundamento na realidade, é sim possível para uma hidra regenerar uma cabeça decepada, mas o corte de uma cabeça não irá criar duas no lugar, cada espécie de hidra tem uma quantidade determinada e diferente de cabeças. A regeneração completa de uma cabeça levará de 1 a 3 meses, dependendo da altura do corte. A pele da nova cabeça será de coloração um pouco diferente do resto do corpo por no mínimo mais duas trocas de pele do indivíduo.
Pode acontecer de essa nova cabeça não se regenerar perfeitamente, tendo o “pescoço” mais curto, membranas nos olhos ou mesmo olhos cegos, mandíbulas mal formadas ou outro defeito estrutural. Isso normalmente acontece quando a ferida infecciona, é cauterizada ou causada por meio ácido. Há relatos de animais dessa espécie mutilando uma cabeça defeituosa ou muito ferida para que outra saudável cresça no lugar. Provavelmente daí vieram as histórias sobre cada cabeça ter uma mente individual, e de a criatura poder ser confundida até que ataque a si própria.
Uma curiosidade sobre as várias cabeças de uma Hidra é que cada uma delas possui um “proto-cérebro”, o que permite que o animal olhe em direções diferentes ao mesmo tempo com cada cabeça, faça ações diferentes com cada uma e permite até a perda de seis de suas sete cabeças sem perder nenhuma funcionalidade fisiológica. Próximo a base das cabeças, protegdo por uma estrutura óssea e estruturas musculares poderosíssimas, essas criaturas têm uma espécie de bulbo neurológico, de forma a dividir as funções cerebrais, fazendo com que o “proto-cérebro” foque-se em controlar cada cabeça (visão, olfato, percepção infravermelho, audição) e o bulbo neurológico controle as outras funções do corpo e age como um cérebro propriamente dito. Logo essa ideia de que cada cabeça da criatura pensa individualmente demonstra-se uma grande falácia.
Apesar de não conseguirem respirar debaixo d'água, todas as espécies de hidra conhecidas têm a capacidade de permanecer aproximadamente 18 horas submersas. Às vezes permanecendo boa parte desse tempo inerte no fundo de um rio ou lago, esperando por uma presa.
Hidras Negras são a única espécie de Hidra conhecida a ser venenosa, seu veneno é um tipo de neurotoxina que paralisa a vítima ao contato com sangue ou mucosas, podendo até provocar paradas respiratórias em casos mais graves. Já a crença na capacidade de lançar jatos de veneno também tem fundamento real, essas criaturas têm sim glândulas para secreção do veneno capazes de espirrá-lo à distância. A única questão é que esse não é um comportamento de caça ou de ataque, pelo contrário, é um comportamento de defesa. O animal só utilizará esse recurso se sentir acuado a ponto de fugir. Um dos motivos para tal é que cada cabeça de uma Hidra Negra tem veneno suficiente para três mordidas, um jorro de veneno irá esvaziar completamente as bolsas de veneno de uma de suas cabeças, pois o animal não tem a musculatura necessária para parar o esguicho. Sabe-se que o tempo necessário para a produção de veneno para uma mordida é de aproximadamente 14 horas.
A ideia de que essas criaturas têm a habilidade de falar, poderes hipnóticos ou ilusórios vêm do antigo poema lectenho, "A dama e a Serpente Negra", que conta frases de admiração de uma grande serpente negra, com nove cabeças e olhos vermelhos ao depara-se com uma mulher extremamente pálida. Além do fato de a criatura falar, o que é uma irrealidade, existem dois erros anatômicos na criatura descrita no poema em relação à criatura real, e que são muito perpetuados pelo conhecimento popular, a Hidra Negra possui sete cabeças e olhos púrpura.
Outra curiosidade é que a crença na habilidade de falar vem na verdade da capacidade desses animais de imitar sons, nada como frases completas e com nexo, mas sim sons de outras criaturas e até uma palavra ou outra desconexa, de forma mal pronunciada, devido o formato da língua desses animais, normalmente gritos de terror e pedidos de ajuda. Acredita-se que esse comportamento é para atrair presas mais facilmente, quanto aos gritos e pedidos, acredita-se que elas mimetizam o que ouvem de outras criaturas, e o que, certamente, mais ouvem se seres humanoides, são gritos de socorro e desespero ao se deparar com um predador formidável.
Insumos
Olhos: Os grandes olhos púrpura arroseados das Hidras Negras são muito usados como fonte e pigmentos, se desidratados de forma correta e pulverizados, podem ser utilizados como alimento, mas são de cocção complexa e delicada, podendo causar até ferimentos graves a um cozinheiro desavisado, há relatos de serem elementos de determinados rituais mágicos e ,em alguns casos, são usados como simples elementos de decoração quando devidamente preservados, devido a sua bela cor. Podem alcançar preços razoáveis no mercado certo.
Presas: Suas presas podem ser usadas para as mais diferentes coisas, desde para fabricação de elementos decorativos, armas, na produção de instrumentos musicais, devido a presa ser oca e em formato de cone, pode ser usada na criação de certos tipos de instrumentos de sopro.
Veneno: O veneno paralisante é muito útil e valioso, é uma neurotoxina que bloqueia a comunicação entre nervos e músculos, provocando paralisia rígida, podendo, em grandes quantidades, provocar até uma parada respiratória. Ele é altamente hidrossolúvel, mas tem grande dificuldade em ser dissolvido em óleos e gordura, mas como a maioria dos venenos ofídicos, não tem efeito se ingerido, pois são dissolvidas pelo aparelho digestivo, precisando ser injetado diretamente na corrente sanguínea. Outra forma mais incomum de envenenamento, é através das vias respiratórias ou, até, da mucosa dos olhos, após transformá-lo em um pó branco amarelado, esse pó, altamente venenoso e concentrado é uma das matérias primas de uma droga muito conhecida no submundo, mas de dificílimo acesso. Cada cabeça de uma Hidra Negra tem 3 doses de veneno, contanto que a criatura não as tenha utilizado durante a batalha, o veneno de uma das cabeças pode ser extraído e utilizado.
Bolsas de Veneno: A estrutura muscular e cavernosa da bolsa pode ser aproveitada para carregar líquidos como água, vinho e etc. se bem levada e curtida, porém sua extração é complicada e é necessário delicadeza para não romper suas paredes.
Couro e Escamas: O couro escamoso das Hidras Negras é bem resistente e provem uma boa proteção contra cortes e impactos, devido sua estrutura, se trabalhado de forma correta pode ser utilizado na criação de armaduras, ou outros aparatos de proteção.
Ossos: Seus ossos são finos e leves, mas resistentes, podem ser usados de formas variadas, como os ossos da maioria dos animais.
Chocalho: Não tem muito uso real, mas pode ser usado como instrumento, ou mesmo como peça de decoração. Alguns caçadores guardam como troféu, ou os utilizam para tentar atrair outras Hidras Negras.
Carne: A carne das Hidras Negras é comestível se bem preparada, é um pouco dura e fibrosa, devido sua poderosa estrutura muscular, nada que ser cozida por muito tempo, ou ser utilizada em um ensopado não resolva.
Ovos: Os ovos destes animais são muito raros, e bem frágeis, não tendo uma casca propriamente dita, mas sim uma película maleável e semitransparente. Quando o ovo é botado o animal já está prestes a nascer, então em vez de gema e clara você encontrará uma pequena Hidra Negra de aproximadamente seis metros faminta e agressiva.
Técnicas de Combate
A estrutura do couro escamoso dessas criaturas dá a elas uma grande resistência a danos de corte e impacto, logo, armas perfurantes são o caminho mais fácil.
Apesar de grandes, são animais muito rápidos, e o número de cabeças pode causar muitos problemas para alguém que pense em desviar dos ataques dessa criatura. A melhor opção é permanecer à distância, pois além das mordidas, que combinadas com o veneno paralisante, são mortais, esses animais têm uma capacidade de constrição incrível.
Quanto a armas, arcos, bestas e javelinas são ótimas opções, lanças e piques, ou até mesmo uma maça com espinhos também podem causar algum dano, mas te colocarão na linha de ataque da criatura. Armaduras, mesmo as pesadas, podem não oferecer grande proteção, pois os dentes da criatura são muito longos e certamente atravessarão o metal facilmente. Alguns caçadores usam barreiras com grandes escudos retangulares, mas é uma estratégia arriscada com esse tipo específico de Hidra devido a quantidade de cabeças que a criatura possui. Proteções para mucosas, principalmente olhos e nariz, e qualquer ferida, provocada ou não pelo animal, são muito importantes, mesmo que seja raro, o animal é capaz de utilizar seus jatos de veneno. Distância é, claramente a melhor defesa.
Essas criaturas são extremamente mortais, não é aconselhável um combate direto, ou mesmo atacá-las desacompanhado. Pegá-las desprevenidas também é muito difícil, devido seus hábitos de caça, mas é o ideal. Uma tática interessante é a de utilizar alguma isca, como um animal grande, para atrair a criatura e fazê-la perder o elemento surpresa, para ai sim atacá-la. Também já foi discutida a utilização de seu chocalho, imitando o chamado de um possível parceiro para obter o mesmo efeito, mas a eficácia deste método requer mais pesquisa.
Manual de Caça: Animais e Aberrações de Almis, Vol. II – O Pássaro Lobo