
Mais emprego, menos desempregados e 1,15 milhões em teletrabalho: o retrato do mercado laboral português
O mercado de trabalho português atingiu novos máximos no segundo trimestre de 2026, com a população ativa a ultrapassar pela primeira vez os 5,7 milhões de pessoas e o emprego a aproximar-se dos 5,4 milhões. Ao mesmo tempo, os dados mostram uma forte permanência no emprego: 1,39 milhões de profissionais, ou 25,7% do total, estão há mais de 20 anos no mesmo emprego, o equivalente a um em cada quatro trabalhadores.
Os dados constam dos 50 principais destaques do mercado de trabalho português relativos ao segundo trimestre de 2026, divulgados esta quarta-feira, 19 de agosto, pela Randstad Research, com base nos resultados do Inquérito ao Emprego do Instituto Nacional de Estatística (INE). O retrato traçado aponta para um mercado de trabalho resiliente, com mais emprego, menos desemprego e recuperação do teletrabalho, embora persistam desafios relacionados com as qualificações, o desemprego jovem e a formação dos trabalhadores.
Um em cada quatro trabalhadores tem mais de 20 anos de antiguidade
Um dos principais destaques do trimestre está relacionado com a antiguidade no emprego. 1,39 milhões de profissionais têm mais de 20 anos de permanência no emprego atual, o que representa 25,7% da população empregada.
A evolução deste indicador mostra, contudo, uma mudança de tendência. A proporção de trabalhadores com uma antiguidade tão elevada vinha a aumentar até ao período anterior à pandemia de covid-19. A partir de 2020, iniciou uma trajetória descendente, que agora parece ter estabilizado.
Para Isabel Roseiro, diretora de Marketing da Randstad, este dado constitui um dos sinais mais relevantes da evolução recente do mercado laboral. “Os dados do segundo trimestre de 2026 revelam um mercado de trabalho muito resiliente, que alcançou recordes históricos na população ativa. É particularmente interessante o nosso novo destaque: o facto de 1 em cada 4 profissionais estar há mais de 20 anos na mesma empresa”, afirma.
A responsável considera que esta permanência prolongada reflete “sinais de estabilidade”, associados tanto à experiência acumulada como à capacidade de adaptação dos profissionais. O desafio, acrescenta, passa agora por assegurar que essa experiência acompanha a transformação das empresas, através de uma aposta contínua na formação.
População ativa ultrapassa pela primeira vez os 5,7 milhões
O número de pessoas disponíveis para trabalhar também atingiu um máximo histórico. Durante o segundo trimestre de 2026, a população ativa aumentou 53,5 mil pessoas, permitindo a Portugal ultrapassar, pela primeira vez, a barreira dos 5,7 milhões de ativos.
Em comparação com o mesmo período do ano anterior, o crescimento foi de 2,2%. O aumento da população ativa acompanha a evolução positiva do emprego e contribui para explicar a dimensão dos valores registados no mercado de trabalho.
O número de pessoas empregadas aumentou, por sua vez, em 99 mil no segundo trimestre, aproximando-se dos 5,4 milhões de profissionais. A taxa de emprego fixou-se nos 58,3%.
A estabilidade contratual continua a representar a situação predominante entre os trabalhadores por conta de outrem. Dos 4,57 milhões de profissionais nesta situação, 85,5% têm contratos sem termo, enquanto os trabalhadores com contratos a termo representam 14,5%.
Quase três em cada dez trabalhadores têm baixas qualificações
Apesar do crescimento do emprego, a análise da estrutura das qualificações evidencia um problema que permanece no mercado laboral português.
29% das pessoas empregadas em Portugal têm um baixo nível de qualificação, definido neste estudo como, no máximo, o ensino secundário obrigatório. Segundo os dados apresentados pela Randstad Research, esta proporção corresponde ao dobro da média registada na União Europeia.
No extremo oposto, 36,1% dos profissionais empregados concluíram o ensino superior. Este grupo apresenta também uma taxa de emprego significativamente elevada, de 81,3%.
Os números colocam em evidência a importância da formação e da atualização das competências dos trabalhadores, sobretudo num contexto de transformação das necessidades das empresas.
Desemprego diminui 8,7% num ano
O número de desempregados também recuou durante o segundo trimestre. Face aos primeiros três meses do ano, houve uma redução de 45,5 mil pessoas, para um total de 300,8 mil desempregados.
Em termos homólogos, a descida foi de 8,7%, enquanto a taxa de desemprego ficou nos 5,3%.
Apesar da evolução favorável, alguns grupos continuam a apresentar indicadores bastante acima da média nacional. É o caso dos jovens entre os 16 e os 24 anos, cuja taxa de desemprego caiu para 18,3%, ainda cerca de três vezes acima da taxa nacional.
Também o desemprego de longa duração continua a representar uma parcela significativa do total. 40,2% dos desempregados procuram trabalho há mais de um ano, sinal de que a redução global do desemprego não elimina as dificuldades de reintegração enfrentadas por uma parte considerável dos candidatos.
Teletrabalho volta a crescer e já abrange 1,15 milhões de profissionais
Depois da redução registada no início do ano, o teletrabalho voltou a ganhar terreno durante o segundo trimestre de 2026.
O número de profissionais abrangidos por este regime aumentou em 33,1 mil pessoas, alcançando cerca de 1,15 milhões de trabalhadores. Este universo corresponde a 21,3% da população empregada.
O modelo híbrido, que combina trabalho presencial com trabalho a partir de casa, continua a ser a modalidade dominante. 40,8% dos trabalhadores em teletrabalho optam por este regime misto, reforçando a sua posição como principal forma de organização do trabalho à distância.
A distribuição geográfica, contudo, não é uniforme. Apenas a Península de Setúbal e a Grande Lisboa apresentam valores de teletrabalho superiores à média nacional.
Empresas continuam a ser criadas a um ritmo superior às dissoluções
A dinâmica empresarial também manteve a trajetória positiva iniciada no ano anterior. Durante junho de 2026, foram constituídas 3.639 empresas, enquanto 793 entidades foram dissolvidas.
A diferença entre os dois valores demonstra que a criação de novas empresas continua a superar de forma significativa o número de dissoluções, contribuindo para a manutenção de uma evolução positiva do tecido empresarial português.
Emprego nas administrações públicas supera os 768 mil
O emprego público também registou um crescimento no período em análise. No segundo trimestre de 2026, as administrações públicas empregavam mais de 768 mil profissionais, um aumento de 7.650 pessoas, ou 1%, face ao mesmo período de 2025.
A administração central concentra 75,3% do emprego público. No que diz respeito às categorias profissionais, o maior grupo é constituído por assistentes operacionais, operários e auxiliares.
As áreas da saúde e da educação assumem igualmente um peso particularmente elevado. 37,2% de todo o emprego público está concentrado nestes dois setores, considerados áreas essenciais da prestação de serviços públicos.
Um mercado de trabalho com mais emprego, mas desafios estruturais
O retrato apresentado pela Randstad Research combina, assim, vários sinais positivos. Portugal ultrapassou os 5,7 milhões de ativos, aproximou-se dos 5,4 milhões de pessoas empregadas, reduziu o desemprego e voltou a registar crescimento do teletrabalho. Paralelamente, o número de empresas constituídas continua a superar largamente o das dissoluções e o emprego nas administrações públicas aumentou.
A par destes indicadores, permanecem desafios estruturais. A elevada proporção de trabalhadores com baixas qualificações, o desemprego jovem, o peso do desemprego de longa duração e a necessidade de atualização permanente das competências continuam a exigir atenção.
É precisamente neste último ponto que Isabel Roseiro coloca uma das principais prioridades para os próximos anos. “O grande desafio passa agora por continuar a apostar na formação continuada para acompanhar a evolução das empresas”, afirma a diretora de Marketing da Randstad.
Os dados do segundo trimestre deixam ainda um retrato particularmente marcado pela estabilidade: um em cada quatro profissionais está há mais de duas décadas no mesmo emprego, num mercado que, apesar das transformações registadas desde a pandemia, voltou a atingir máximos históricos na dimensão da população ativa.