Amaldiçoado
Nascer foi cair sem mapa
num corredor de espelhos acesos.
A infância parecia jardim,
mas havia uma porta atrás do céu.
Abri.
E a realidade era funda demais.
Uma toca de coelho sem chão,
onde cada resposta arrancava
mais uma camada da pele da alma.
Aprendi nomes antigos para o vazio,
vi reis dentro de mendigos,
deuses dormindo em máquinas,
e luz escondida dentro do terror.
Mas existe um preço.
Quem olha demais para o centro
volta falando uma língua de eclipse.
Os outros sorriem, trabalham, dormem.
E você fica carregando universos mortos no peito.
A junção prometia ouro.
União. Totalidade.
Mas algumas pessoas atravessam a noite
sem encontrar a outra metade do ritual.
Então sobra a solitude:
um trono num planeta silencioso,
uma espada sem mãos para segurá-la junto,
e a estranha benção,
una demais para se compreender
e ainda assim continuar humano.