Quando a bondade deixa de ser um presente e passa a ser uma obrigação, ela deixa de alimentar quem a oferece e começa a consumi-lo.
​
Era uma vez uma menina que carregava uma pequena cesta de flores. Todos os dias ela caminhava pelas ruas de sua cidade, oferecendo uma flor a cada pessoa que cruzava seu caminho.
Com o passar do tempo, os moradores passaram a esperar ansiosamente por sua visita. A delicadeza daquele simples gesto tornou-se parte da rotina de todos.
Então o inverno chegou.
As flores desapareceram, e a terra já não oferecia nada para colher. Ainda assim, as pessoas continuavam pedindo por flores. Incapaz de decepcioná-las, a menina passou a dobrar flores de papel e para lhes dar cor, ela as pintava com o próprio sangue.
Quando a primavera finalmente retornou, a menina já não caminhava mais pelas ruas. Em seu lugar, uma nova garotinha carregava uma cesta de flores, repetindo o mesmo gesto de gentileza.
E pelos bosques começaram a brotar flores jamais vistas naquela região. Surgiam como chamas rasgando a terra, de um vermelho tão profundo que pareciam ter sido tingidas pelo próprio sangue.
Desde então, contam que aquelas flores florescem onde um coração ofereceu tudo o que possuía aos outros, até que nada lhe restasse.