Sou psicólogo que utiliza e defende a psicanálise, mas tenho tido muitas ressalvas com pessoas no meio analítico
Apesar de eu optar por utilizar a psicanálise como meu referencial teórico no trabalho clínico, eu não me considero analista nem considero que minhas sessões com pacientes sejam "análise", o que penso corresponder mais com meu ponto de formação atual. Apesar de gostar muito de vários aspectos da psicanálise, em especial, da visão de saúde mental proporcionada por ela, tenho ficado mais e mais desconfortável nos últimos meses com diversas "rusgas" que me parecem bastante clássicas na interação entre pares no meio analítico. Não acho que sejam coisas específicas da região onde estou, também, pois observei essas coisas tanto com colegas da mesma faculdade quanto com outros da psicanálise naturais de outros estados, durante debates online.
- Toda vez que tento debater alguns gestos que parecem peculiares do manejo da clínica analítica, por exemplo, a necessidade do valor do pagamento ser algo comentado exclusivamente durante o espaço de sessão; ou a necessidade, na minha opinião desnecessária, do analista estar sempre com uma cara completamente inexpressiva de frente do paciente, mesmo quando o paciente tentar fazer alguma piada, para manter o 'distanciamento analítico', ou fingir que não vê o paciente quando ele te cumprimenta na rua, ou as sessões de 10/15 minutos, esses questionamentos meus não são colocados como pauta de debate, mas são descartados ou referenciados como "problemas de transferência" da minha parte, que eu apenas deveria lidar na minha análise pessoal.
- Durante alguns meses, participei de uma supervisão em grupo que tinha psicanalistas de diferentes vertentes analíticas - lacanianos, kleinianos, etc. Eu me considero winnicottiano, por dar bastante ênfase no acolhimento e presença do analista em sessão, e fui ficando mais e mais p da vida ouvindo críticas por eu não trabalhar fundamentando minhas intervenções em diagnosticar os pacientes através das estruturas lacanianas e, o pior pra mim, o constante comentário de que esses gestos de acolhimento bem básicos "não são coisa para se fazer em uma análise" ou que "um analista na verdade deveria fazer X coisa."
- Quis fazer supervisão pessoal com um colega. Eu gostaria de supervisões mais espaçadas, pois minha agenda de pacientes é baixa, e depois de informar isso a ele, ele sutilmente pareceu me coagir a fazermos com mais frequência com uma frase do tipo "vamos fazer a primeira, depois veremos se continuamos com uma regularidade." Após umas 5 supervisões, eu gostaria de parar porque simplesmente não havia mais paciente para supervisionar. Desmarquei a última supervisão com 24h de antecedência devido a intercorrências de agenda que me deixaram exausto no dia anterior e, também, eu já estava de desgosto com aquele arranjo. Ele me respondeu, por áudio, com um tom de voz aparentemente bem acolhedor que insistia que remarcássemos essa última supervisão, dando a entender que não toparia mais me supervisionar se não fosse possível ele 'demarcar limite' insistindo que ainda façamos e que eu pague essa última. Fiquei p da vida e fiquei uns 3 meses sem falar com esse cara, afirmando que 24h é um período perfeitamente possível para ele encaixar outras demandas nesse mesmo horário. Eu quero apenas firmar uma relação comercial normal e direta, não um que me faça uma porra de 'imposição do nome-do-pai' como se eu fosse um paciente jovem em início de análise.
Enfim. Queria reafirmar que optei e me identifico com a concepção de ser humano da psicanálise, mas parece que é algo completamente institucionalizado essa forma de atuação quase sacralizada dos escritos psicanalíticos. Preciso aprender a mapear melhor a como navegar por isso. Confesso sentir vontade de ficar um tempo sem participar de grupos de estudo e coisas do tipo, até achar que consigo voltar.