
O instagram e suas falsas faces
Antigamente existia uma distância maior entre quem era famoso e quem estava assistindo. A pessoa aparecia em uma revista, na televisão, em algum programa, e aquilo terminava ali. Hoje ela está no nosso celular todos os dias. Você vê o que ela está fazendo, onde está, o que comprou, com quem saiu e até o que pensa. Depois de um tempo, começa a parecer que existe uma intimidade ali, mesmo que nunca tenha existido. E acho que é justamente isso que torna tudo tão peculiar. O Instagram não criou a necessidade de falar sobre a vida dos outros, isso é muito mais antigo, mas colocou uma quantidade absurda de pessoas dentro da nossa rotina. Você pode acordar, abrir o celular e descobrir que alguém que mora do outro lado do país terminou um relacionamento, brigou com outra pessoa ou está viajando, e aquilo começa a ocupar espaço na sua cabeça mesmo sem existir qualquer motivo real para aquilo importar para você. Chama atenção para essa transformação dos seguidores em números e dos influenciadores em pessoas que parecem ter uma importância muito maior simplesmente porque conseguiram acumular atenção. E nós participamos disso. Seguimos, curtimos, comentamos, compartilhamos e, em alguns casos, até brigamos por pessoas que nem sabem que existimos
A publicidade percebeu isso muito rápido. Uma pessoa com milhares de seguidores pode vender alguma coisa porque existe uma sensação de proximidade que uma propaganda tradicional não consegue produzir da mesma forma. Você não sente necessariamente que uma empresa está tentando vender algo, parece que alguém que você acompanha está apenas recomendando aquilo. O problema é que essa proximidade também facilita a comparação. Você olha para alguém bonito, com dinheiro, viajando, em um relacionamento ou simplesmente parecendo feliz e começa a comparar aquilo com a própria vida. Só que a comparação já começa errada, você está vivendo a sua vida inteira, enquanto aquela pessoa está mostrando alguns momentos escolhidos dela. Mesmo sabendo disso, ainda somos afetados. Desse ciclo em que alguém vê uma pessoa aparentemente feliz e atraente no Instagram, sente-se mal consigo mesmo e tenta reproduzir aquela mesma imagem, acabando por provocar em outra pessoa a sensação que acabou de sentir. É quase como se todo mundo estivesse tentando parecer aquilo que procura nos outros
E existe uma coisa ruim nisso, começamos a montar a nossa própria vida pensando em como ela vai parecer para quem estiver olhando. Não basta viajar, é preciso mostrar que viajamos. Não basta estar feliz, parece existir uma vontade de provar que estamos felizes. Não basta gostar de alguma coisa, aquilo também pode virar parte da imagem que queremos construir. Aos poucos, o olhar dos outros começa a participar das nossas escolhas sem que percebamos. E isso ajuda a entender também a cultura do cancelamento. Primeiro colocamos alguém em um pedestal, acompanhamos tudo que essa pessoa faz e damos a ela uma importância enorme, depois quando aparece alguma coisa que nos desagrada, a mesma multidão pode passar a querer vê-la cair. Justamente essa transformação de pessoas comuns em figuras grandes demais com a cultura do cancelamento e com o prazer de assistir alguém famoso perder aquilo que conquistou. Eu não acho que o problema seja simplesmente o Instagram existir. As redes sociais também podem aproximar pessoas, guardar momentos e dar espaço para artistas e criadores que dificilmente encontrariam o mesmo público de outra forma. O problema começa quando aquilo que vemos ali passa a determinar o valor da nossa própria vida. Porque sempre vai existir alguém mais bonito, mais rico, mais famoso ou vivendo alguma coisa que parece melhor
A comparação nunca termina. E enquanto ficamos olhando para a vida dos outros, a nossa continua acontecendo fora da tela, sem filtro, sem edição e sem precisar da aprovação de milhares de pessoas. O vazio não esteja em não termos o suficiente, mas em nunca conseguirmos enxergar o que temos sem pensar naquilo que os outros parecem ter