O instagram e suas falsas faces

O instagram e suas falsas faces

Antigamente existia uma distância maior entre quem era famoso e quem estava assistindo. A pessoa aparecia em uma revista, na televisão, em algum programa, e aquilo terminava ali. Hoje ela está no nosso celular todos os dias. Você vê o que ela está fazendo, onde está, o que comprou, com quem saiu e até o que pensa. Depois de um tempo, começa a parecer que existe uma intimidade ali, mesmo que nunca tenha existido. E acho que é justamente isso que torna tudo tão peculiar. O Instagram não criou a necessidade de falar sobre a vida dos outros, isso é muito mais antigo, mas colocou uma quantidade absurda de pessoas dentro da nossa rotina. Você pode acordar, abrir o celular e descobrir que alguém que mora do outro lado do país terminou um relacionamento, brigou com outra pessoa ou está viajando, e aquilo começa a ocupar espaço na sua cabeça mesmo sem existir qualquer motivo real para aquilo importar para você. Chama atenção para essa transformação dos seguidores em números e dos influenciadores em pessoas que parecem ter uma importância muito maior simplesmente porque conseguiram acumular atenção. E nós participamos disso. Seguimos, curtimos, comentamos, compartilhamos e, em alguns casos, até brigamos por pessoas que nem sabem que existimos

A publicidade percebeu isso muito rápido. Uma pessoa com milhares de seguidores pode vender alguma coisa porque existe uma sensação de proximidade que uma propaganda tradicional não consegue produzir da mesma forma. Você não sente necessariamente que uma empresa está tentando vender algo, parece que alguém que você acompanha está apenas recomendando aquilo. O problema é que essa proximidade também facilita a comparação. Você olha para alguém bonito, com dinheiro, viajando, em um relacionamento ou simplesmente parecendo feliz e começa a comparar aquilo com a própria vida. Só que a comparação já começa errada, você está vivendo a sua vida inteira, enquanto aquela pessoa está mostrando alguns momentos escolhidos dela. Mesmo sabendo disso, ainda somos afetados. Desse ciclo em que alguém vê uma pessoa aparentemente feliz e atraente no Instagram, sente-se mal consigo mesmo e tenta reproduzir aquela mesma imagem, acabando por provocar em outra pessoa a sensação que acabou de sentir. É quase como se todo mundo estivesse tentando parecer aquilo que procura nos outros

E existe uma coisa ruim nisso, começamos a montar a nossa própria vida pensando em como ela vai parecer para quem estiver olhando. Não basta viajar, é preciso mostrar que viajamos. Não basta estar feliz, parece existir uma vontade de provar que estamos felizes. Não basta gostar de alguma coisa, aquilo também pode virar parte da imagem que queremos construir. Aos poucos, o olhar dos outros começa a participar das nossas escolhas sem que percebamos. E isso ajuda a entender também a cultura do cancelamento. Primeiro colocamos alguém em um pedestal, acompanhamos tudo que essa pessoa faz e damos a ela uma importância enorme, depois quando aparece alguma coisa que nos desagrada, a mesma multidão pode passar a querer vê-la cair. Justamente essa transformação de pessoas comuns em figuras grandes demais com a cultura do cancelamento e com o prazer de assistir alguém famoso perder aquilo que conquistou. Eu não acho que o problema seja simplesmente o Instagram existir. As redes sociais também podem aproximar pessoas, guardar momentos e dar espaço para artistas e criadores que dificilmente encontrariam o mesmo público de outra forma. O problema começa quando aquilo que vemos ali passa a determinar o valor da nossa própria vida. Porque sempre vai existir alguém mais bonito, mais rico, mais famoso ou vivendo alguma coisa que parece melhor

A comparação nunca termina. E enquanto ficamos olhando para a vida dos outros, a nossa continua acontecendo fora da tela, sem filtro, sem edição e sem precisar da aprovação de milhares de pessoas. O vazio não esteja em não termos o suficiente, mas em nunca conseguirmos enxergar o que temos sem pensar naquilo que os outros parecem ter

u/No_Address_1321 — 10 days ago

Descanse em paz, democracia brasileira

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Não porque a democracia tenha acabado, mas porque existe uma parte dela que parece morrer toda vez que somos obrigados a escolher entre pessoas como se estivéssemos escolhendo qual incêndio queremos apagar primeiro.

De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. Do outro, Flávio Bolsonaro, do PL. Dois nomes que representam projetos políticos diferentes e que chegaram ao segundo turno de 2026. No primeiro turno, Flávio terminou à frente, com cerca de 47% dos votos válidos, enquanto Lula ficou próximo de 45%.

E novamente o Brasil se encontra diante daquela velha pergunta

“Em quem eu voto?”

Mas existe outra pergunta que parece ainda mais importante “Por que chegamos ao ponto em que tanta gente sente que está escolhendo apenas entre o pior e o menos pior?”

Lula carrega uma história política impossível de separar das controvérsias envolvendo o PT e seus governos. As condenações de Lula nos casos do triplex, do sítio de Atibaia e do Instituto Lula foram anuladas pelo STF em 2021 porque a Corte considerou incompetente a 13ª Vara Federal de Curitiba para julgar aqueles processos. Isso não equivale a uma declaração judicial de que os fatos investigados nunca existiram, significa que aquelas condenações deixaram de produzir efeitos jurídicos

Do outro lado, Flávio Bolsonaro também chega à disputa carregando suas próprias controvérsias. O caso das chamadas “rachadinhas” foi arquivado depois que provas foram anuladas pelo STF e pelo STJ. Flávio sempre negou as acusações. Mais recentemente, em 2026, seu nome apareceu também nas investigações relacionadas ao Banco Master e ao inquérito chamado “Dark Horse”, que apura possíveis irregularidades relacionadas ao financiamento de um filme sobre seu pai. Isso são investigações, não condenações, e o próprio Flávio nega irregularidades

E aqui aparece uma coisa interessante, quando é o político do nosso lado, costumamos pedir contexto

Quando é o político do outro lado, costumamos pedir condenação

Quando uma investigação envolve nosso grupo, queremos lembrar que investigação não é condenação

Quando envolve o adversário, a simples existência da investigação já parece suficiente para provar tudo

Isso aconteceu inúmeras vezes na política brasileira

Lula, durante a campanha, afirmou que a eleição colocava o país diante de uma escolha entre o fortalecimento da democracia e a “barbárie”. Também associou o adversário a questões como crime organizado e ao caso Banco Master

Flávio, por sua vez, construiu sua campanha em forte oposição ao PT. Depois do primeiro turno, declarou que estava decretado o “fim da era do PT”. Seu programa propõe, entre outras medidas, redução de ministérios, um novo teto de gastos, mudanças na relação entre Executivo e STF e uma política de segurança pública muito mais dura. E então acontece algo curioso, cada lado olha para o outro e enxerga uma ameaça, para alguns, votar em Lula significa impedir o retorno do bolsonarismo, para outros, votar em Flávio significa impedir a continuidade do PT.

E assim a política deixa de ser apenas uma discussão sobre propostas, ela passa a ser uma guerra pela sobrevivência do próprio grupo.

É aqui que lembro de uma fábula de votar. Apareceu uma proposta para colocar inseticida no jardim, e a formiga por ódio a cigarra

A formiga votou a favor

A cigarra também morreu

E a própria formiga morreu

A barata, que havia escolhido não participar, também morreu

A moral dessa história não é “não vote”, é justamente o contrário é lembrar que votar não deveria significar escolher quem destruirá o outro lado, porque, quando transformamos o adversário político em inimigo absoluto, começamos a aceitar qualquer coisa do nosso próprio lado.

E é aí que a democracia começa a morrer

Não necessariamente quando alguém fecha o Congresso

Não necessariamente quando alguém rasga uma Constituição

Ela também pode morrer lentamente dentro de nós, quando deixamos de questionar aquilo que o nosso próprio grupo faz

Quando uma pessoa diz:

“Meu político errou, mas o outro é pior”

E repete isso durante anos

“Meu partido roubou, mas o outro roubou mais”

“Meu candidato falou uma coisa absurda, mas o adversário falou algo pior”

“Meu lado pode fazer isso porque o outro lado faria algo muito pior”

Até que chega um momento em que ninguém mais está perguntando se algo é certo, a única pergunta passa a ser

“De que lado você está?”

Esse seja um dos maiores problemas da polarização, porque Lula e Flávio podem discordar profundamente sobre economia, segurança, educação, relação entre os Poderes e papel do Estado. Os programas dos dois candidatos apresentam propostas concretamente diferentes.

Isso é democracia

Discordar é democracia

Criticar é democracia

Investigar um político é democracia

Questionar uma investigação também pode ser democracia

Mudar de opinião é democracia

O que destrói a democracia é quando deixamos de acreditar que o nosso próprio lado também precisa ser questionado, porque nenhum político deveria receber um cheque em branco simplesmente porque o adversário é pior, e nenhum cidadão deveria precisar amar um candidato para votar nele

A democracia brasileira não precise que escolhamos entre santos e demônios. Precise apenas que paremos de transformar políticos em santos e adversários em demônios

A formiga não precisava amar a cigarra

A cigarra não precisava amar a formiga

Mas ambas deveriam perceber que existia algo maior do que a própria rivalidade

E a barata também não estava fora das consequências simplesmente porque decidiu não participar

No fim, todos vivem no mesmo jardim, e se o maior perigo da polarização não for fazer o brasileiro escolher um lado, mas fazer cada lado acreditar que a sobrevivência do Brasil depende da derrota absoluta do outro? O que vai sobrar do país daqui a 50 anos? Esse é o país que queremos que nossos filhos vivam?

u/No_Address_1321 — 10 days ago

Existe uma coisa estranha na forma como o ser humano tenta resolver os próprios problemas

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Quando vemos um peixe doente dentro de um aquário, dificilmente olhamos para ele e pensamos imediatamente, “o problema está no peixe”. Primeiro pensamos na água, no espaço, na temperatura, na alimentação, nas condições em que ele está vivendo. Porque conseguimos enxergar o aquário de fora. Mas e quando o aquário somos nós?

Justamente essa ideia, um animal preso em um ambiente artificial pode começar a apresentar comportamentos que, vistos de fora, parecem completamente absurdos. Só que, para ele, aquele ambiente é toda a realidade que conhece. Ele não sabe que existe outro lugar possível. E isso me faz pensar em quantas vezes fazemos a mesma coisa conosco.

Sentimos ansiedade, vazio, cansaço, insatisfação ou uma necessidade constante de alguma coisa, e imediatamente pensamos que existe algo errado dentro de nós, “eu preciso melhorar”, “Eu preciso me controlar” ou“Eu preciso de alguma coisa para conseguir continuar”

Mas e se, em determinados casos, o problema não estiver somente dentro da pessoa?

E se parte daquilo que sentimos for uma resposta ao ambiente em que estamos vivendo? Existe uma contradição muito grande nisso. Criamos uma sociedade cada vez mais confortável, tecnológica e eficiente, mas, ao mesmo tempo, podemos acabar criando condições que tornam a própria vida mais difícil de suportar

Temos mais informação, mas não necessariamente mais compreensão, temos mais formas de comunicação, mas isso não significa que nos sentimos mais próximos, temos mais entretenimento, mais produtos, mais possibilidades, mais maneiras de preencher o tempo, e ainda assim podemos sentir um vazio que não sabemos explicar

E quando esse vazio aparece, nossa primeira reação costuma ser procurar alguma coisa para silenciá-lo. O problema é que silenciar um sintoma não significa necessariamente compreender sua causa

Essa tendência de recorrer a soluções superficiais para problemas que podem ser muito mais profundos, calar a angústia em vez de perguntar de onde ela veio, preencher o vazio em vez de compreender por que ele existe. Mas existe um perigo ainda maior nessa ideia. Podemos comçar a acreditar que tudo está errado conosco

E então passamos anos tentando consertar a nós mesmos sem nunca perguntar se o ambiente em que estamos tentando sobreviver também participa do problema. Isso não significa colocar toda a culpa na sociedade, na tecnologia ou no mundo, seria apenas trocar uma simplificação por outra

O avanço técnico faz parte da humanidade e que dividir a realidade em diferentes áreas é necessário para compreender determinadas coisas. O problema aparece quando começamos a enxergar apenas as partes e esquecemos que elas fazem parte de um todo.

Esse seja o ponto mais importante, nós somos muito bons em separar as coisas, corpo de mente, homem de natureza, trabalho de vida, Indivíduo de sociedade e tecnologia de consequência

Mas será que essas separações existem realmente ou são apenas maneiras que encontramos para tornar uma realidade extremamente complexa mais fácil de compreender?

Quando destruímos o ambiente em que vivemos, não estamos destruindo alguma coisa completamente externa a nós. Quando degradamos aquilo de que dependemos, a consequência inevitavelmente retorna. E talvez isso também aconteça em uma escala muito mais íntima.

Passamos anos construindo uma rotina que nos esgota e depois perguntamos por que estamos cansados. Construímos relações que nos fazem mal e depois perguntamos por que estamos emocionalmente desgastados. Criamos uma vida baseada apenas em produtividade e depois não entendemos por que descansar parece culpa

Enchemos cada silêncio com alguma coisa e depois não sabemos mais o que fazer quando ficamos sozinhos com nossos próprios pensamentos. É como construir o próprio aquário e depois passar a vida inteira tentando descobrir por que a água está ficando turva

u/No_Address_1321 — 11 days ago

Berserk e a luta que nunca termina

Existe uma ideia de masculinidade que parece estar presente em muitas histórias, o homem precisa ser forte, suportar a dor, vencer, lutar e nunca demonstrar fraqueza. Desde cedo, somos apresentados à figura do guerreiro como alguém admirável justamente porque consegue dominar os outros e permanecer de pé diante da violência. Mas o que acontece quando a força deixa de ser uma ferramenta e passa a ser a única forma que alguém conhece para existir?

É isso que torna Guts tão interessante para mim. Ele cresce em um mundo onde a guerra não é apenas o cenário da sua vida, ela praticamente se torna a sua identidade. Desde criança, ele aprende a lutar e passa a enxergar a violência como uma das poucas formas possíveis de sobreviver. Só que existe uma contradição nisso tudo. Guts é extremamente forte, mas boa parte de sua história é justamente sobre o quanto ele é ferido. Ele consegue enfrentar inimigos enormes, mas não consegue simplesmente apagar aquilo que aconteceu dentro dele. A espada pode destruir um inimigo, mas não consegue resolver todos os conflitos que existem na mente de quem a segura. E isso me faz pensar em quantas vezes confundimos força com ausência de vulnerabilidade

Ser forte não deveria significar nunca precisar de ninguém. Não deveria significar esconder o medo, transformar sofrimento em raiva ou acreditar que demonstrar sentimentos diminui alguém. Quando uma pessoa é ensinada que precisa ser invulnerável, ela pode acabar sem saber o que fazer com aquilo que sente

Griffith representa outro caminho. Ele também deseja ser poderoso, mas sua ambição está ligada à necessidade de conquistar um lugar no mundo e provar que merece aquilo que deseja. Quando Guts aparece, essa certeza começa a ser abalada. Guts deixa de ser apenas alguém dentro do exército e passa a representar algo que Griffith não consegue controlar completamente. É interessante perceber como uma relação pode revelar aquilo que uma pessoa tenta esconder de si mesma

Griffith quer controlar tudo, mas existe algo em Guts que escapa ao seu controle. Guts, por outro lado, precisa aprender que seguir alguém não é necessariamente encontrar o próprio caminho. Em determinado momento, ele percebe que precisa se afastar para descobrir quem é por conta própria. E ai seja justamente aí que a história critique uma ideia muito comum de masculinidade, a necessidade de transformar tudo em disputa.

Quem é mais forte?

Quem vence?

Quem domina?

Quem consegue suportar mais?

Quando toda relação passa a ser interpretada como uma disputa de poder, até mesmo amizade, admiração e afeto podem se transformar em competição. A guerra em Berserk acaba funcionando como uma versão ampliada disso. O guerreiro pode ser apresentado como símbolo de coragem, mas a história também mostra aquilo que existe depois da glória, corpos, perdas e pessoas destruídas. A própria narrativa questiona o encanto que construímos em torno da violência

O que mais me chama atenção não é descobrir qual personagem é mais forte, mas perceber quanto de humanidade uma pessoa pode perder tentando provar que é forte. Porque, se para ser considerado um homem eu preciso esconder tudo aquilo que sinto, transformar fragilidade em agressividade e enxergar o mundo como um lugar onde sempre preciso vencer alguém, então o que exatamente estou tentando proteger? E se a verdadeira força não estiver em conseguir destruir tudo aquilo que me ameaça, mas em não precisar me transformar naquilo que um dia me feriu?

(Estava lendo de novo Berserk e quis fazer esse questionamento da primeira parte da obra)

u/No_Address_1321 — 15 days ago

Eu fico pensando em quantas vezes coloquei a felicidade sempre um pouco mais à frente de mim

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Quando eu conseguir aquilo, vou ficar bem. Quando comprar aquilo, vou ficar satisfeito. Quando alcançar determinado objetivo, finalmente vou poder descansar

Só que, quando consigo, alguma coisa estranha acontece, depois de um tempo, aquilo que parecia tão importante começa a perder o brilho. E então surge outro desejo. É como se eu estivesse sempre caminhando em direção a alguma coisa que nunca permanece suficiente

Essa é uma das ideias que mais me chama atenção em Schopenhauer, a vida pode acabar presa entre a ansiedade de possuir aquilo que ainda não temos e o tédio causado por aquilo que finalmente conseguimos. A felicidade aparece como um intervalo pequeno entre o desejo e a conquista. E isso me faz pensar que talvez o problema não esteja apenas naquilo que desejamos, mas na importância que damos à ideia de que possuir alguma coisa vai finalmente nos completar

Quantas vezes eu transformei um objeto, uma experiência, uma pessoa ou uma conquista em uma espécie de promessa de felicidade?

O mais estranho é que, quando alcançamos aquilo que queríamos, descobrimos que ainda somos nós mesmos. A conquista muda alguma coisa ao nosso redor, mas não necessariamente resolve aquilo que existia dentro de nós

Por isso, a frase “a ânsia de ter e o tédio de possuir” me parece muito mais profunda do que uma simples crítica ao materialismo. Ela fala sobre a maneira como nossa mente pode transformar a vida em uma sequência infinita de “quando”

Quando eu tiver isso

Quando eu conseguir aquilo

Quando eu chegar lá

Quando esse momento finalmente acontecer

E, enquanto esperamos, deixamos de perceber que a vida está acontecendo justamente no intervalo entre esses desejos. Buda apresenta uma saída diferente, não precisamos necessariamente abandonar tudo aquilo que temos, mas compreender o apego que criamos em relação às coisas. A questão não é possuir algo, mas permitir que aquilo possua uma parte tão grande de nós que nossa felicidade passe a depender da sua existência. Camus acrescenta outra possibilidade, a vida não vier com um sentido pronto, isso não significa que ela seja vazia. Podemos construir nossos próprios motivos para continuar vivendo, através do conhecimento, das experiências e dos objetivos que escolhemos.

Fico com uma pergunta que é muito mais difícil do que “o que eu quero?”.

Se eu finalmente conseguisse tudo aquilo que hoje acredito que preciso para ser feliz, eu saberia viver com o que conquistei ou imediatamente começaria a desejar outra coisa?

u/No_Address_1321 — 15 days ago

A velha infância

Eu sempre achei curioso como uma palavra pode desaparecer da memória de quem a disse, mas permanecer durante anos na cabeça de quem ouviu. Principalmente quando essa palavra vem de alguém que deveria representar segurança. Durante a infância, ainda estamos descobrindo quem somos. Por isso, a forma como somos tratados acaba influenciando a maneira como aprendemos a enxergar a nós mesmos. Uma crítica repetida pode deixar de parecer apenas uma opinião e começar a ser entendida como uma verdade sobre quem somos. Uma comparação pode fazer uma pessoa passar anos tentando alcançar um padrão que nem sequer escolheu. Uma promessa quebrada pode ensinar que confiar nos outros é perigoso

O mais estranho é que muitas dessas frases podem parecer pequenas para quem fala. Um comentário sobre aparência, uma comparação com um irmão, uma pergunta feita em tom de deboche ou uma cobrança constante. Para quem diz, pode ter sido apenas uma frase dita no momento de raiva. Para quem escuta, pode se transformar em uma espécie de voz interna.

E talvez seja justamente aí que está uma das partes mais difíceis: quando a pessoa cresce, nem sempre percebe que algumas inseguranças começaram muito antes de ela conseguir compreender o que estava acontecendo

Também existe uma diferença enorme entre corrigir alguém e fazer essa pessoa acreditar que existe algo errado com ela. Uma atitude pode ser questionada sem que a identidade inteira seja colocada em julgamento. Eu posso ter feito algo errado sem ser uma pessoa errada. Posso fracassar sem ser um fracasso. Posso decepcionar alguém sem precisar carregar a ideia de que sou uma decepção.

Comparações também me fazem pensar sobre como cada pessoa precisa de espaço para construir a própria identidade. Quando uma criança ouve constantemente que outra pessoa é melhor, mais inteligente ou mais comportada, ela deixa de olhar para o próprio caminho e começa a medir o próprio valor pela existência do outro

Acredito que crescer não significa simplesmente deixar a infância para trás. Algumas experiências continuam presentes na maneira como pensamos, confiamos, nos relacionamos e interpretamos aquilo que os outros dizem sobre nós. Por isso, fico pensando, quantas coisas que eu considero parte da minha personalidade são realmente minhas, e quantas foram construídas a partir daquilo que aprendi a acreditar sobre mim quando ainda nem sabia quem eu era?

u/No_Address_1321 — 16 days ago

E se as pessoas amarem mais aquilo que fazemos do que aquilo que somos?

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Às vezes eu penso que é muito fácil confundir amor com utilidade. Enquanto conseguimos ajudar, trabalhar, agradar, resolver problemas e cumprir aquilo que esperam de nós, somos vistos de uma determinada maneira. Mas o que acontece quando deixamos de conseguir fazer tudo isso? É nesse momento que algumas relações começam a revelar coisas que antes estavam escondidas. Eu posso ser uma pessoa querida porque escuto os outros, porque estou sempre disponível, porque ajudo quando precisam. Mas será que continuariam gostando de mim se eu não pudesse mais oferecer nada disso? Será que continuariam enxergando quem eu sou ou passariam a enxergar apenas aquilo que deixei de fazer?

Isso me faz pensar em como muitas vezes construímos nossa própria identidade em cima de funções. Sou o filho que ajuda em casa. Sou o amigo que sempre escuta. Sou o funcionário responsável. Sou a pessoa que resolve os problemas. Aos poucos, essas funções deixam de ser apenas coisas que fazemos e passam a definir quem acreditamos ser

E quando uma delas desaparece, parece que uma parte de nós desaparece junto. Existe uma diferença enorme entre pensar “eu fiz algo ruim” e pensar “eu sou uma pessoa ruim”. A primeira frase fala sobre uma atitude. A segunda transforma uma atitude em identidade. E quando começamos a acreditar que somos aquilo que fizemos de errado, carregamos uma culpa que vai muito além do que realmente aconteceu. Também existe a vergonha. Não apenas aquela vergonha momentânea de ter feito algo constrangedor, mas aquela sensação de estar sendo observado e julgado o tempo inteiro. Como se existisse uma versão de nós mesmos que precisasse ser apresentada ao mundo para continuar sendo aceita. Eu me pergunto quantas coisas fazemos não porque realmente queremos, mas porque temos medo do que acontecerá quando deixarmos de fazê-las

Ser necessário pode ser confortável. Saber que alguém precisa de nós dá uma sensação de importância. O problema começa quando passamos a acreditar que só temos valor enquanto somos necessários. Porque, no fundo, eu não deveria precisar provar minha importância o tempo inteiro. Quero ser reconhecido não apenas pelo que consigo oferecer, mas também por aquilo que existe em mim quando não estou produzindo, ajudando ou correspondendo às expectativas de alguém

E a pergunta mais difícil seja justamente essa, se todas as funções que exerço desaparecessem amanhã, quem eu seria quando finalmente deixasse de tentar provar que sou necessário?

u/No_Address_1321 — 16 days ago

E se conhecer a si mesmo fosse uma tarefa que nunca conseguimos terminar?

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A gente passa boa parte da vida tentando descobrir quem é. Dizemos que conhecemos nossa personalidade, nossos gostos, nossos medos, nossos objetivos. Criamos uma ideia de nós mesmos e começamos a agir de acordo com ela. Mas quanto mais pensamos sobre quem somos, mais percebemos que existe alguma coisa dentro de nós que não conseguimos explicar completamente. Eu posso dizer quem eu sou, mas até que ponto essa descrição realmente representa tudo o que existe dentro de mim?

Fernando Pessoa parece levar essa questão ao extremo. Ele não escreveu apenas como Fernando Pessoa. Criou diferentes personagens, com personalidades, histórias e formas de pensar próprias. Eram mais do que pseudônimos, eram outras maneiras de existir através da escrita. E isso me faz pensar em uma coisa estranha, quantas versões de nós mesmos existem?

Existe a pessoa que somos quando estamos sozinhos. Existe aquela que aparece com a família, outra com os amigos e outra quando estamos em um ambiente completamente diferente. Em alguns lugares somos mais quietos. Em outros, falamos muito. Com determinadas pessoas mostramos coisas que esconderíamos de qualquer outra. Qual dessas versões é a verdadeira?

A resposta mais confortável seria dizer que todas. Só que isso torna a pergunta ainda mais complicada. Se eu mudo dependendo do ambiente, das pessoas e das experiências, onde termina aquilo que realmente sou e começa aquilo que aprendi a ser?

O problema da autoconsciência é justamente esse. Pensar sobre nós mesmos não significa necessariamente nos compreender. Às vezes, significa apenas perceber o quanto somos difíceis de compreender. Nós conseguimos observar nossos próprios pensamentos, questionar nossas decisões e lembrar de coisas que fizemos anos atrás. Mas ainda existe uma distância entre sentir alguma coisa e conseguir explicar exatamente por que sentimos

E existe uma distância ainda maior entre aquilo que sentimos e aquilo que conseguimos comunicar para outra pessoa. Eu posso explicar uma tristeza, uma lembrança ou um medo durante horas, mas a outra pessoa nunca terá acesso exatamente à experiência que existe dentro de mim. Ela recebe minhas palavras, minhas expressões e minhas tentativas de explicar. O resto continua preso dentro de mim. Isso torna a experiência humana estranhamente solitária

Não porque não existam outras pessoas, mas porque existe uma parte de cada pessoa que permanece inacessível. E talvez seja justamente por isso que escrevemos, conversamos, criamos arte e tentamos colocar sentimentos em palavras. Não porque consigamos transmitir perfeitamente aquilo que existe dentro de nós, mas porque precisamos tentar

Pessoa parece enxergar essa contradição de maneira ainda mais profunda. Ele questionava a utilidade de fazer, escrever e alcançar coisas, mas continuava escrevendo. O próprio ato de escrever contradizia a ideia de que escrever não tinha importância. Isso me faz pensar em quantas coisas fazemos mesmo sabendo que são passageiras

A gente estuda sabendo que um dia esquecerá grande parte do que aprendeu. Trabalha sabendo que outro ocupará nosso lugar. Cria relacionamentos sabendo que pessoas podem ir embora. Tira fotografias sabendo que aquele momento nunca vai voltar. Mesmo assim, fazemos tudo

Talvez o sentido de alguma coisa não esteja necessariamente em sua permanência. Uma conversa não precisa durar para sempre para ter importância. Uma amizade não precisa existir durante toda a vida para ter sido verdadeira. Uma experiência não precisa ser eterna para ter mudado quem somos. E isso muda completamente a maneira de enxergar a própria existência

Eu posso nunca conseguir compreender completamente quem sou. Posso passar a vida inteira mudando, contradizendo aquilo que pensei que seria e descobrindo versões de mim que eu nem sabia que existiam. Mas isso não significa que eu não seja ninguém

Significa que ser uma pessoa é muito mais complexo do que conseguir resumir uma existência em algumas palavras.

No fim, a pergunta mais difícil talvez não seja “quem eu sou?” e sim quanto de mim mesmo eu realmente consigo conhecer?

u/No_Address_1321 — 17 days ago

Por que, às vezes, até as coisas mais simples parecem difíceis demais?

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Acho curioso como a gente costuma imaginar o cansaço como consequência de alguma coisa específica. Trabalhei demais, dormi pouco, estudei muito, tive um dia ruim. Existe sempre uma causa que parece justificar aquilo que estamos sentindo. Mas e quando não existe uma causa tão clara? Quando você simplesmente acorda e parece que tudo já está pesado antes mesmo de o dia começar? Seja isso que torna o desânimo tão estranho. Não é necessariamente uma grande tragédia acontecendo. Às vezes são várias coisas pequenas acumuladas até chegarem a um ponto em que nenhuma delas parece mais pequena. Uma mensagem para responder, uma tarefa para fazer, uma preocupação com o futuro, uma notícia ruim, alguma coisa que ficou pendente ontem... e, de repente, até levantar da cama parece exigir uma quantidade absurda de energia. E existe uma ironia nisso

Quanto mais sobrecarregado você está, menos consegue fazer. E quanto menos consegue fazer, mais coisas vão se acumulando. Então você olha para tudo aquilo que não conseguiu resolver e começa a se sentir culpado por estar parado.É como se o próprio cansaço produzisse mais cansaço

Por isso reconhecer que estamos mal seja tão importante. Porque existe uma tendência muito grande de transformar até o próprio sofrimento em uma cobrança, “Eu deveria conseguir lidar com isso.” “Outras pessoas conseguem.” “Isso é uma coisa simples.” “Por que eu não consigo simplesmente fazer?”

Mas a pergunta não devesse ser “por que eu não consigo fazer tudo?”, e sim “o que eu consigo fazer agora?”

Existe uma diferença enorme entre essas duas perguntas. A primeira olha para tudo aquilo que está fora do nosso alcance e transforma isso em culpa. A segunda reduz o mundo ao tamanho do próximo passo

Porque eu posso me preocupar com o futuro, com problemas sociais, com dinheiro, com trabalho, com estudos, com coisas que não consigo controlar. Mas continuar pensando nelas durante horas não significa que estou fazendo alguma coisa a respeito. Às vezes, pensar demais dá a sensação de estar agindo quando, na verdade, estamos apenas permanecendo parados

E por isso que colocar as coisas no papel seja tão interessante. Não porque uma lista vai resolver a vida, mas porque ela separa aquilo que está acontecendo dentro da nossa cabeça. Algumas coisas eu posso resolver. Outras eu posso tentar mudar. E algumas simplesmente não estão sob meu controle. E aceitar essa última parte talvez seja uma das coisas mais difíceis

A gente quer controlar o resultado, controlar o futuro, controlar o que as outras pessoas pensam, controlar aquilo que vai acontecer amanhã. Mas existe uma quantidade enorme da nossa vida que simplesmente não obedece à nossa vontade. Então a maturidade não seja aprender a controlar tudo

Talvez seja aprender a distinguir aquilo que depende de mim daquilo que não depende. E isso também muda a maneira como eu enxergo produtividade. Talvez descansar não seja necessariamente perder tempo. Talvez fazer pouco em um dia difícil não signifique fracassar. E exista uma diferença entre desistir e reconhecer que, naquele momento, você simplesmente não tinha mais energia para continuar

A vida não acontece apenas nos grandes momentos em que conseguimos realizar alguma coisa extraordinária. Ela também acontece nesses dia pequenos, confusos e cansativos em que tudo o que conseguimos fazer é continuar. E continuar, nesses momentos, já seja alguma coisa.

No fim, talvez a gente não precise resolver a própria vida inteira hoje. Mas que seja suficiente perguntar

“O que eu consigo fazer agora?”

E depois fazer apenas isso. Amanhã ainda vai existir. E seja justamente essa possibilidade de tentar novamente que torna um dia ruim apenas um dia ruim, e não uma definição de quem somos

u/No_Address_1321 — 18 days ago

Por que queremos explicações para ações que estão fora do nosso controle?

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Existe algo curioso no comportamento humano, temos uma dificuldade enorme em aceitar acontecimentos que não conseguimos explicar ou controlar. Quando convidamos alguém para sair e recebemos um “não”, muitas vezes a primeira coisa que perguntamos é “Por quê?”. Não necessariamente porque a explicação vá mudar alguma coisa, mas porque queremos compreender o motivo daquela resposta. A pessoa poderia simplesmente dizer “não quero”, e, racionalmente, isso deveria ser suficiente. Afinal, a decisão pertence a ela Porém, a ausência de uma explicação deixa um espaço vazio em nossa cabeça e nós temos uma tendência enorme a preenchê-lo.

“Será que fiz alguma coisa?”

“Será que ela não gosta de mim?”

“Será que aconteceu alguma coisa?”

“Será que eu poderia ter feito diferente?”

O problema é que, quando não recebemos uma resposta, frequentemente criamos uma.

Talvez seja uma tentativa de recuperar algum controle. Se sabemos por que algo aconteceu, podemos imaginar que existe alguma coisa que poderíamos fazer para evitar que aconteça novamente. A explicação transforma o desconhecido em algo aparentemente compreensível. Mas existe uma realidade difícil de aceitar, algumas coisas acontecem sem que possamos fazer nada a respeito

Alguém pode não querer sair conosco simplesmente porque não quer. Uma amizade pode terminar sem que exista um grande motivo. Alguém pode mudar de opinião. Uma oportunidade pode desaparecer. Uma pessoa pode tomar uma decisão que nos afeta profundamente sem sequer considerar nossa vontade. E nenhuma quantidade de explicações necessariamente devolverá o controle sobre aquilo

Talvez seja por isso que o “por quê?” seja uma pergunta tão poderosa. Às vezes, não estamos realmente procurando uma explicação, estamos procurando uma forma de aceitar aquilo que aconteceu.

Queremos acreditar que, se entendermos suficientemente bem o motivo, conseguiremos evitar que aquilo aconteça novamente.

Só que compreender não significa controlar.

Talvez uma das formas mais difíceis de maturidade seja aprender a conviver com perguntas que possuem respostas que não dependem de nós e, principalmente, com aquelas que talvez nunca tenham uma resposta que nos satisfaça

E fica uma questão ainda mais profunda, será que buscamos explicações porque realmente queremos compreender o mundo, ou porque temos dificuldade em aceitar que algumas coisas simplesmente não estão sob nosso controle?

u/No_Address_1321 — 22 days ago

A mídia estragou a adolescência

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Como tudo que chega à mídia, ela estragou uma geração com suas representações da adolescência, fazendo os jovens terem como parâmetro filmes idealistas, mas que, para os jovens, eram um meio a seguir. Só que os filmes não contaram que, para funcionar, era necessário ser alguém perfeito para que a idealização fosse verdadeira

Meninas que buscavam seus príncipes encantados e que poderiam mudar seu par, porque só elas poderiam fazê-lo... Homens que queriam ser protagonistas, sendo bons em tudo, e que só sendo confiantes seria o suficiente

Mas, no final, tudo não passava de idealizações da mente de adultos, a idealização da adolescência perfeita, das pessoas bonitas e sem problemas da puberdade, sem a primeira menstruação, sem o primeiro descobrimento sexual, mas sim aquilo que queriam que fosse.

Sendo realistas, não é e nunca será.

Durante muito tempo, a mídia apresentou a adolescência como uma espécie de período mágico, o momento em que surgem os primeiros grandes amores, as amizades que supostamente durariam para sempre, as festas inesquecíveis e as descobertas que transformariam a vida. O problema é que, quando uma representação é repetida inúmeras vezes, ela pode deixar de parecer apenas uma história e começar a funcionar como um modelo de realidade. O adolescente então não olha apenas para o personagem e pensa “que história interessante”. Ele pode começar a pensar, “por que minha vida não é assim?”

E existe uma contradição nisso. A adolescência real é justamente uma fase marcada pela descoberta e pela incerteza. É quando uma pessoa começa a perceber que seu corpo mudou, que seus sentimentos são mais complexos do que imaginava e que ainda não sabe exatamente quem será. Entretanto, muitas representações transformam essa confusão em uma narrativa organizada, o garoto encontra a garota, a garota encontra o garoto, o protagonista supera suas inseguranças e, no final, tudo parece fazer sentido. Na vida real, quase nada acontece com essa organização

O primeiro amor pode não ser correspondido. A primeira experiência pode ser acompanhada de insegurança. Uma amizade pode acabar. Podemos passar por uma fase em que não sabemos quem somos, o que queremos ou sequer se estamos vivendo aquilo que deveríamos viver

E talvez o problema mais profundo seja que essas representações frequentemente transformam características específicas em requisitos universais. O protagonista é bonito, carismático, popular e confiante, mas sua aparência raramente é apresentada como uma das razões pelas quais sua história funciona. O jovem vê a confiança, o romance e a popularidade, mas pode não perceber que está comparando sua vida inteira com uma narrativa construída para funcionar diante de uma câmera

Assim, a ficção pode criar uma expectativa impossível, não basta viver a adolescência, é preciso viver uma adolescência interessante.

E quando isso não acontece, pode surgir a sensação de que alguma coisa está errada.

A adolescência não precisa ser bonita para ser verdadeira. Ela pode ser confusa, comum, solitária, engraçada, constrangedora ou completamente diferente daquilo que imaginávamos. Não existe necessariamente uma experiência adolescente que todos deveriam alcançar

Quando uma geração aprende a imaginar sua própria vida através das histórias que assiste, onde termina a ficção e começa a expectativa de como deveríamos viver?

u/No_Address_1321 — 23 days ago

Escolha ou não escolha, você irá sofrer no final

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Existe uma espécie de paradoxo na liberdade, queremos acreditar que escolher nos livra do sofrimento, mas muitas vezes a própria possibilidade de escolha é aquilo que o produz

Se você escolher, poderá sofrer pelas consequências daquilo que decidiu. Poderá olhar para trás e pensar: “E se eu tivesse escolhido diferente?” A escolha abre caminhos, mas também fecha outros. Toda decisão carrega consigo a perda das possibilidades que foram abandonadas

Mas e se você não escolher?

Ainda assim haverá sofrimento. O tempo escolherá por você. As circunstâncias escolherão. Outras pessoas escolherão. E talvez o arrependimento venha justamente por perceber que você teve a oportunidade de agir, mas preferiu permanecer parado

É como se não existisse uma saída completamente livre do sofrimento. Escolher pode gerar arrependimento, não escolher também. Agir pode trazer consequências, permanecer imóvel também traz. Até mesmo tentar evitar a dor é, de certa forma, uma escolha que possui consequências

Talvez o problema esteja em imaginar que uma boa escolha é aquela que nos garante um resultado sem sofrimento. Talvez uma escolha seja apenas a decisão de qual tipo de consequência estamos dispostos a enfrenta.

No fim, a vida parece colocar uma pergunta diante de nós que não pode ser evitada, se sofrer é inevitável, a verdadeira liberdade está em escolher o que fazer com aquilo que inevitavelmente iremos sofrer? Se no derradeiro de tudo haverá sofrimento, não é melhor que escolhemos esperando o melhor mesmo que nós faça sofrer?

u/No_Address_1321 — 24 days ago

Nossa vida sempre acaba, inevitavelmente, caindo na dependência do dinheiro

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Desde jovem, eu só sabia de uma coisa, o que a falta dele fazia. Não havia como não saber, quando até coisas simples precisavam dele. Ainda assim, dava para se virar. Porém, de alguma forma, sempre voltávamos para ele: um pedaço de papel que possui valor

Ele foi cortado de uma árvore e, depois de passar por tratamentos químicos e físicos, chegou às nossas mãos. Já parou para pensar em quantas pessoas tocaram na nota de 50 reais que você tem? Já pensou por que ela foi usada? Por onde passou? Ou em que momento, algum dia, ela perderá seu valor?

Muitas coisas em nossas vidas nos são negadas pela falta dele, pelo sistema em que vivemos ou pela necessidade de atribuir a ele um significado, como se, sem dinheiro, tudo necessariamente fosse pior

O dinheiro é curioso porque, em si mesmo, possui pouco valor material. Uma cédula é apenas papel produzido e tratado para cumprir uma função. Ainda assim, somos capazes de trocar horas de trabalho, alimentos, moradia, experiências e até oportunidades por aquele pedaço de papel. Isso acontece porque o valor do dinheiro não está propriamente em sua matéria, mas no significado que coletivamente atribuímos a ele.

É quase uma espécie de acordo social. Uma nota de cinquenta reais não alimenta alguém simplesmente por ser uma nota de cinquenta reais, ela permite adquirir aquilo que pode alimentar alguém. Seu poder nasce da confiança de que outras pessoas também reconhecerão aquele valor

Quanto mais precisamos de algo, mais percebemos o poder que ele possui sobre nós

Pagamos uma conta, compramos alguma coisa e seguimos a vida. Quando falta, porém, ele deixa de ser apenas um meio de troca e passa a determinar quais possibilidades estão abertas e quais permanecem inacessíveis

É nesse ponto que a reflexão deixa de ser apenas sobre dinheiro e passa a ser sobre liberdade

Se uma pessoa possui liberdade para escolher, mas não possui os recursos necessários para realizar suas escolhas, quão ampla é essa liberdade? Podemos dizer que alguém é completamente livre para viajar se nunca terá condições de pagar uma passagem? Que alguém é livre para escolher onde morar quando suas condições econômicas restringem drasticamente suas opções?

Isso não significa que todo aspecto da vida possa ser reduzido ao dinheiro. Amor, amizade, conhecimento, memória e significado não podem ser simplesmente comprados. Mas o dinheiro pode influenciar as condições nas quais essas coisas são vividas

u/No_Address_1321 — 25 days ago

Considerando que, entre todas as religiões existentes e perdidas, realmente houvesse uma que fosse verdadeira, como saberíamos qual é a certa?

Qual parâmetro alguém usaria para dizer qual é certa e qual errada?

u/No_Address_1321 — 1 month ago

Estamos mentalmente doentes, mas não sabemos disso, e recorremos a tudo para nos anestesiar, mas não para tratar o problema

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Na medicina, existem três etapas, a anatomia estrutural, que estuda as estruturas a anatomia sistêmica, que estuda como os sistemas funcionam; e, por último, a patologia, na qual aprendemos sobre as doenças que podem ser causadas nessas estruturas e sistemas.

Seguindo essa lógica, antes de conhecer uma patologia, precisamos conhecer como as estruturas e os sistemas funcionam normalmente. É aí que entro na questão da psique humana atual

A maioria esmagadora das pessoas não conhece como seria uma psique não adoecida, pois só conhece a psique adoentada e tenta conviver com ela como se aquilo fosse normal. Quantas vezes você já não viu pessoas normalizarem pais espancando os filhos ou gritando com eles quando cometem um erro, mesmo sendo crianças? Não estou falando de educar ou estabelecer limites, mas de simplesmente descarregar a própria raiva sobre elas.

Isso afeta principalmente as meninas, que, desde cedo, têm sido obrigadas a amadurecer cada vez mais rápido por questões sociais e de gênero.

Mas é justamente aí que quero chegar: como tratar uma sociedade que não conhece a própria estrutura e, consequentemente, não consegue reconhecer a própria doença?

u/No_Address_1321 — 1 month ago