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Essa é uma das maiores contradições do debate racial no Brasil: muitos discursos colocam todos os pardos automaticamente dentro da categoria “negro”, mas, quando um pardo tenta acessar uma cota racial, ele pode ser indeferido por não ser considerado negro o suficiente.
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Então fica a pergunta: pardo é negro sempre ou só quando serve para aumentar número em estatística?
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Minha crítica não é contra cotas nem contra pessoas negras. A crítica é contra essa lógica torta de tratar “pardo” como uma massa única. O Brasil é muito mais complexo do que isso. Existem pardos que têm vivência social muito próxima da população negra, mas também existem muitos pardos, principalmente no Norte, cuja origem, cultura e aparência estão muito mais ligadas à ancestralidade indígena, cabocla e ribeirinha.
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No Amazonas, por exemplo, muita gente parda vem de famílias ribeirinhas, com forte herança indígena, mesmo sem viver em aldeia ou sem ter contato formal com uma etnia específica. Isso não apaga a origem indígena dessas pessoas. Cultura não é só aldeia reconhecida oficialmente. Está na família, na região, na comida, nas festas, no boi-bumbá, nos traços amazônicos, na vida ribeirinha e na história local.
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O problema é que, no papel, querem empurrar todos os pardos para dentro da categoria negra. Mas, na prática, quando chega uma banca de heteroidentificação, um software, uma comissão ou qualquer critério subjetivo, muitos desses mesmos pardos são descartados como se fossem impostores.
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Isso mostra que “pardo” não deveria ser tratado automaticamente como sinônimo de negro. Pardo é uma categoria mestiça, ampla e regionalmente diferente. Um pardo amazônico com forte ancestralidade indígena não tem necessariamente a mesma história, a mesma aparência nem a mesma vivência cultural de um pardo de outra região com maior influência africana.
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No fim, parece que o pardo só é negro quando é conveniente para o discurso. Quando ele tenta reivindicar algo concreto, aí de repente ele deixa de ser.
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Ou reconhecem a complexidade dos pardos brasileiros, incluindo os pardos indígenas e caboclos do Norte, ou parem de usar todos eles como “negros no papel”. Porque apagar a ancestralidade indígena dessas pessoas também é uma forma de apagamento histórico.
Existe uma insistência muito grande em dizer que pardo no Brasil é negro. Em muitos discursos, parece que o pardo só é lembrado quando serve para aumentar a categoria “negra”, mas a ancestralidade indígena de muitos pardos, principalmente da região Norte e da Amazônia, simplesmente é deixada de lado.
Eu sou pardo amazônico. Nas fotos estão minha mãe, eu e meu pai — eu sou o do meio. No final também coloquei meu teste genético. No meu caso, minha maior ancestralidade é indígena, seguida da europeia. Então, se eu tivesse que me definir como algo mais específico além de pardo, faria muito mais sentido eu me considerar indígena-descendente do que negro.
A questão é: por que a ancestralidade africana de um pardo é usada para classificá-lo como negro, mas quando a maior ancestralidade dele é indígena, isso parece não importar?