O Pássaro que Alimentava o Mundo (Texto)

Vi dois pássaros hoje.

Enquanto a fêmea ficava no ninho, o macho debicava minhocas do chão e outros pequenos insetos que ia encontrando e lá voltava para alimentar a família. Repetia o processo, vezes e vezes sem conta, num esforço incansável, tentando cuidar daquele seu mundo sozinho.

Ali fiquei a observar tudo a acontecer, sentado num banco de jardim, caderno na mão, como que a tirar inspiração do momento.

Voltei àquele lugar no dia seguinte para presenciar o mesmo ritmo. Voava como que a cortar o relvado à procura de sustento para a sua família. De novo, sentei-me, como se estivesse a tomar notas de uma história que a vida já tinha escrito.

Retornei lá uns dias depois para encontrar o macho no chão, sem vida.

Ouvi o chilrear dos pássaros no ninho lá em cima e ao mudar a minha visão para ele encontrei a fêmea, de boca aberta, à espera de sustento. Talvez alheia, não sabendo que aquele que tanto fez para a alimentar estava agora no chão.

E nesse momento sentei-me, deixando intocável a prova do crime.

Talvez estejamos a tentar segurar tudo sozinhos e a aceitar muito pouco em troca.

Talvez nos esqueçamos que, também nós, tal como a fêmea e os seus pequenos, precisamos de alimento - aquilo que nos mantém vivos e funcionais.

Talvez eu seja esse macho...

Agora estendido no chão, diante de um mundo que sempre foi indiferente ao que fazia por ele...

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u/_Perspetivivendo — 7 hours ago

555

Adormeci e acordei, num outro mundo, onde só eu existia.

Procurei alguém com quem conversar. Alguém com quem sorrir. Alguém, apenas.

Não encontrei.

E foi então que olhei o relógio no meu pulso. Estava parado.

5 Horas. 5 minutos. 5 segundos. 555.

Que significado teria? Àquela hora estaria certamente a dormir.

Belisquei-me para tentar acordar, mas doeu. Continuei então. Vagueando sem rumo ou direção. E vi. Uma senhora, sentada num banco de jardim, sozinha. Não lhe vi o rosto, mas reconheci a silhueta. Havia qualquer coisa naquele cabelo, naquela postura... uma memória insistia em regressar. Aproximei-me, passo a passo e quanto mais perto chegava mais percebia que não havia um rosto desenhado. Tentei falar, mas não me respondeu. Sentei-me então ao lado dela, em silêncio.

E do nada vi uma menina, mais longe, brincando na zona infantil, descendo no escorrega que ali existia. Não parecia ter um rosto também, mas havia um sorriso que se fazia notar. Brincava sozinha. Seria filha desta senhora mistério? Talvez.

Voltei a olhar o pulso e nada mudara. Foi então que olhei, um pouco tímido para o lado e vi uma lágrima escorrer-lhe pelo rosto. Outra se formou logo a seguir. Os olhos apareceram naquele momento e reconheci a cor castanho de café. Como se chama ela? - perguntei-me. Antes que me pudesse lembrar, senti uma mudança acontecer. Olhei o relógio, marcava agora 5 horas 5 minutos e 6 segundos. O corpo da mulher que ali estava ao meu lado começou a desfazer-se em neblina. Tentei abraçá-la. Segurar-lhe a mão. Mas era tarde demais. E as lágrimas que choravam no rosto dela estavam agora no meu.

Senti um puxão na camisola. Era a criança. Também ela sem rosto, mas com um sorriso que reconheci. A pequena segurou-me a mão e ficou ali, a olhar-me. Levou então uma mão ao bolso e tirou de lá um pequeno bilhete. Entregou-me para ler e sentou-se agora ao meu lado, no lugar que pertencia à senhora que ali estivera antes.

Ao abrir o bilhete reconheci a caligrafia. Sorri.

“Não fiques preso no 555. Avança. Tens uma vida inteira pela frente.”

Fechei. As lágrimas anteriores deram agora lugar a um choro de sofrimento interno. A pequena pousou a mão sobre o meu ombro, numa tentativa, penso eu, de conforto. Ao olhá-la reparei que o que aconteceu antes estava agora a acontecer com ela também. Lentamente. O corpo a transformar-se em neblina. Fiquei ali com ela até que o último fragmento de presença desaparecesse.

O tempo retomou o seu ritmo. E eu fiquei ali. Sozinho. Mais uma vez.

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u/_Perspetivivendo — 1 day ago

Sentei-me a olhar os pombos... e saiu-me isto.

"Sentado olhava, 

Pombos. 

 

Debicando a calçada em paralelo, 

Procurando algo para se alimentar.   

E nesses pombos, 

Vi o meu próprio reflexo."

Que acham?
A ideia por trás destas linhas nasceu de um momento de solidão. Ao parar num banco de jardim e olhar para os pombos, bateu-me uma espécie de epifania urbana. E percebi como somos semelhantes: andamos na azáfama da cidade, de cabeça baixa, a 'debicar' e a procurar pequenas migalhas - sejam elas de tempo, de afeto ou de trabalho - só para alimentar e aguentar o nosso dia a dia.

No fundo... despindo o ego, somos muito mais parecidos com eles do que pensamos.

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u/_Perspetivivendo — 18 days ago