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▲ 40 r/Livros

A biblioteca que entendeu nossa realidade de leitura

Na cidade onde vivo atualmente, há uma biblioteca belíssima. A partir de um casarão tombado dos anos 20, restauraram as acomodações da habitação, revitalizaram os jardins e, no espaço livre, acrescentaram construções modernas que ampliam sem deixar de conversar com o já existente. Uma aula de arquitetura.

Mas quem vai ao local para fazer a principal atividade de uma biblioteca talvez se decepcione. Ler não é uma tarefa fácil em tais acomodações. A agenda da biblioteca é abarrotada de eventos a semana toda: é palestra; debate; minicurso disso; oficina daquilo; protestos que poderiam ser feitos em qualquer lugar, mas que por algum motivo gostam de fazer lá; shows, e quando digo shows, são shows mesmo, uma banda tocando música ao vivo dentro de uma biblioteca.

“Ué, as áreas não são bem delimitadas para cada atividade?”

Mais ou menos, pois o projeto construtivo foi baseado em integração de espaços.

“Mas deve existir alguma salinha de estudo, sei lá.”

Existe, mas quando está ocorrendo algum dos eventos citados, pouco adianta. E quando não está, você precisa ter a sorte de conseguir um lugar, pois o espaço dessas salas é bem limitado. E ainda que consiga um lugar, corre o risco de tentar ler enquanto uma galera marcou de fazer algum trabalho de escola ou faculdade e conversa pra caramba enquanto o faz.

Até em dias menos agitados é difícil. As pessoas que usam a cantina falam alto, e as pessoas que usam os computadores (geralmente para jogar videogame e Youtube, não para estudos) exageram tanto na intensidade que o ruído escapa dos fones que elas usam.

“Nossa, mas ninguém reclama? Igual naquelas cenas de filmes e séries que basta alguém falar um pouquinho mais alto e alguém já manda um XIIIUUU?”

Se ainda não ficou claro, a própria biblioteca como organização faz o ambiente não ser silencioso. Experimente ter a audácia de reclamar para você ver.

“Ah, mas então o que você está descrevendo não é uma biblioteca, é um centro cultural.”

Nada disso, chama-se biblioteca e assim ela é divulgada, está escrito por toda parte e às vezes bem grandão BIBLIOTECA TANANAM TANANAM (vou omitir o nome real para manter a discrição da rede).

“E você está falando tudo isso numa boa, como se a biblioteca estivesse certa?”

Não. Não estou aqui para dizer o que é certo ou errado, estou apenas descrevendo os fatos. Quando tal biblioteca possui um livro que estou procurando, vou lá, pego emprestado e trago para ler no silêncio da minha casa. Simples assim. E falando nisso, já conversei com um funcionário que não me revelou a porcentagem exata, mas disse que a quantidade de pessoas que pegam livros emprestados em relação a quantidade total de pessoas que visitam a biblioteca é bem pequena. Quem poderia imaginar, não é mesmo? Mas o serviço de empréstimos está lá para quem quiser fazer como eu, o importante é que existe essa possiblidade.

É o que é. Uma biblioteca cuja maioria dos visitantes a frequenta para passear, tirar umas fotos bonitas ou participar de eventos que atrapalham quem tenta ler. E é justamente por isso que tal biblioteca está sempre movimentada, ela é um sucesso de público. Há uma outra biblioteca na cidade com acervo até melhor e onde o foco é, de fato, ler livros; só que essa, por sua vez, está quase sempre morta.

Entre aqueles que defendem o valor essencial das coisas e os que defendem a ressignificação das coisas, eu prefiro continuar fazendo o que gosto enquanto não sou impedido.

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u/more_what_less_who — 3 days ago

Saudades dos meus bons professores, tanto da faculdade quanto da escola, que vieram à minha mente com carinho quando li esses trechos:

u/more_what_less_who — 4 days ago

Parem de iludir os escritores sobre como conseguir mais leitores

Quando alguém faz um post ou comentário legítimo, e mais do que necessário, sobre a frustração ao tentar uma carreira de escritor, sempre aparecem comentários na linha do “Você está pegando sua frustração específica e generalizando.”. A verdade é que a frustração generalizada é justamente a regra, mas alguns insistem em minimizar a realidade concreta e exaltar uma receita de bolo baseada em exceções.

O mesmo vale para quando alguém pergunta o que fazer para conseguir mais leitores e aparecem seres cheios de si enchendo o peito para dar o passo a passo infalível, mas esses mesmos seres que juram ter a solução não conseguiram ou sequer aplicaram o que eles mesmos propõem.

Existe uma diferença entre escrever bem e vender bem. Muitos aqui escrevem bem e estão, sim, aptos a orientar nesse assunto, mas a maioria (esmagadora) dos membros desta comunidade não paga suas contas por meio da venda de livros e tem pouquíssimo ou nenhum reconhecimento como escritor. Isso não é ofensa, isso é ter humildade para assumir a realidade.

Eu escrevo e publico livros há bastante tempo, peguei o antes e o depois da explosão das redes sociais e das ferramentas de autopublicação, e afirmo: publicar um livro de forma independente ficou mais fácil, mas todo o resto ficou mais difícil.

Publicar com editoras tradicionais é praticamente impossível sendo alguém sem fama e/ou sem Q.I. (Quem Indica). Esqueça a ideia de filme em que o escritor sai batendo na porta de editoras ou mandando e-mail e, se ele tiver um bom material em mãos, os funcionários que fazem a leitura dos originais vão levar o livro adiante na hierarquia da empresa. As editoras não leem todo o material que chega para elas nem se for material que elas mesmas solicitaram via chamada de originais ou concursos. Isso não é uma acusação irresponsável, os próprios profissionais sinceros de editoras e jurados honestos intelectualmente de concursos assumem isso.

E o fato tão defendido de que a rede social dá possiblidade de alcance direto, visto que você mesmo faz o seu marketing, sem depender de profissionais e empresas específicas do ramo, não garante absolutamente nada. Isso porque existem dois tipos de interesse: o real que gera conversão em vendas e leitores; e o artificial que gera curtidas e comentários baratos.

Vamos pegar os casos de Booktubers, Bookgramers e Booktokers, que tanto são usados para justificar que o brasileiro tem interesse em livros. Há o número de seguidores, o número de visualizações, o número de curtidas, o número de comentários e... o número de vendas a mais que um livro tem com o vídeo que os influencers fazem. Eu não coloquei nessa ordem à toa, muito menos separei o número de vendas dos demais sem propósito. Geralmente (tudo que eu falo é baseado na média e não nas exceções) o número de comentários é menor que o de curtidas, que é menor que o de visualizações, que é menor que o de seguidores. Isso é bem fácil de perceber. E o número de vendas a mais que um livro tem depois da divulgação? Isso você só sabe com exatidão se já tiver pago para algum desses influencers divulgar seu livro, mas acredite, é menor que todos os outros números citados, bem menor, muitíssimo menor, sobretudo sendo um escritor independente e/ou desconhecido envolvido na parceria paga.

E o que sobra quando você mesmo faz seu marketing? Eu dou alguns exemplos pessoais: já fiz postagens sobre livros meus em redes sociais que deram mais de 400, até mais de 500 curtidas e algumas dezenas de comentários positivos. E não era postagem com minha cara fazendo gracinha e mostrando superficialmente o livro. Era postagem com trecho do livro, focada no conteúdo. Reforço, não estou falando de 400 ou 500 visualizações, estou falando de curtidas, e todo mundo aqui sabe que não é fácil para nós, como escritores desconhecidos, conseguirmos esses números, principalmente focando em conteúdo e não em imagem. Aí alguns podem pensar “Nossa, se o post era sobre o conteúdo do livro e não sobre o autor, e centenas de pessoas curtiram, imagino que uma porcentagem, ainda que pequena, foi atrás do livro para de fato o ler, afinal, foi o conteúdo do livro que despertou interesse, não qualquer outra coisa.”. Mera ilusão, entrei no meu painel de vendas algum tempo depois de alguma dessas postagens (para dar tempo de o sistema atualizar direitinho) e... zero vendas a mais.

Isso não aconteceu só uma vez. É raro quando há interesse que gera conversão e raríssimo quando a conversão é significativa. Antes e no início das redes sociais, o ser humano dividia seu entretenimento em atividades diversas; a explosão de adesão às redes sociais criou um monopólio do tempo de lazer que passou a ser dedicado predominantemente a elas. Esqueça esse papo furado de que, se as pessoas não gostassem de ler, não existiriam os influencers de livros. Isso é bolha, repito: bolha. É a mesma coisa que você frequentar feiras do livro pelo país que estão sempre lotadas e, a partir disso, concluir num salto lógico absurdo que “O Brasil se interessa por leitura.”. Pegue os dados. É só digitar “Retratos da leitura no Brasil – Instituto Pró-Livro” no Google. O instituto considera como “leitor” alguém que começa um único livro e nem o termina nos últimos três meses que antecedem as pesquisas; e, mesmo com esse critério amigável (para não dizer outra coisa), na última pesquisa divulgada, mais da metade da população ficou na categoria de não leitor. E quando o dado representa melhor o hábito de leitura como “Aquele que lê por vontade própria livros de literatura todos os dias ou quase todos os dias”, sabe qual é a porcentagem que a pesquisa obteve? 7%. Sete por cento dos brasileiros lê livros de literatura por vontade própria todos os dias ou quase todos os dias. Sabe quantos desses sete por cento leem livros de autores independentes e/ou desconhecidos? Esse dado a pesquisa não tem, mas acho que nem precisa, né?

A essa altura do post, alguns podem estar pensando em minimizar os fatos (como sempre fazem); ou pensando em perguntar “Tá, e o que a gente faz diante disso?”; ou simplesmente querendo me chamar de pessimista.

A quem tenta minimizar a realidade da carreira de escritor no Brasil, eu poderia ficar aqui falando mais e mais, só que não adianta. Aos que me acham pessimista, eu digo apenas que não sou nem otimista nem pessimista, sou realista. E aos que perguntam “Tá, e o que gente faz diante disso?”, eu digo com a maior sinceridade do mundo: eu não sei. Eu não tenho a solução para você ter muitos leitores, porque eu próprio já tentei de tudo que dizem por aí que funciona e não funcionou. Consegui poucos leitores ao longo da vida e provavelmente continuarei assim até o final dos meus dias se eu não for agraciado com a sorte (sim, sorte, ela não é demérito, ela existe e é fundamental para quem dá certo, mas falar sobre isso deixaria o post mais longo do que já está).

Não vou ser hipócrita de dizer que estou perfeitamente bem com a minha atual situação, eu queria sim vender mais, afinal, escrever livros dá trabalho, escrever livros É trabalho. Porém, sou grato por gostar do que gosto, continuo escrevendo e publicando mesmo não sendo isso que faz eu ganhar a vida.

E sabem outra coisa que faço e que, talvez, poderia ajudar se mais pessoas a fizessem? Eu leio, independentemente se o autor é famoso ou desconhecido. Parece óbvio um escritor que lê? Mas não é. Por incrível que pareça, nesses dados que referenciei sobre os poucos leitores no Brasil estão os próprios escritores. Está cheio de gente aqui que deseja ver o livro lido por muitos quando ele for publicado, mas não tem o hábito real de ler livros publicados. A nossa valorização começa por nós mesmos. Quer ajudar um escritor a ter mais vendas e leitores? Em vez de iludi-lo com uma receita de bolo do sucesso, compre o livro dele e leia, se tiver se interessado.

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u/more_what_less_who — 7 days ago

Os livros “Volume 1” que nunca terão um fim

Em muitos anos participando de comunidades de escritores, já perdi as contas de quantos livros “Volume 1” encontrei e que não deram em nada.

Uma vez observei um autor divulgar o primeiro livro como parte de uma série, depois divulgar o segundo como parte de outra série, e o terceiro ele divulgou como sendo de uma série diferente das duas anteriores e que teria cinco volumes. E ele divulgou esses três livros de “séries diferentes” em um espaço de menos de um ano... Sério, qual a chance de ele levar alguma adiante?

Começar uma história é a coisa mais fácil do mundo. Por isso a maioria dos iniciantes só sabe fazer introduções, só sabe “apresentar personagens” e “construir mundos”, não sabe desencadear uma sequência de eventos bem estruturada que culmina num clímax e assim sucessivamente até um desfecho.

Quer ver se o que você escreve está bom? Termine uma história primeiro. Respeite o tempo e a disposição do leitor. Já é difícil convencer as pessoas a lerem livros de autores desconhecidos, então você acha mesmo que vai ser fácil convencer alguém a oferecer o precioso tempo que tem para ler uma história que não possui uma conclusão?

“Ah, mas o meu primeiro volume já tem começo, meio e fim, só que haverá outras histórias depois que farão parte do mesmo universo.”. Então quando você tiver outra história do mesmo universo você avisa que é do mesmo universo, não crie essa expectativa potencialmente falha no leitor com o famigerado “Volume 1”. E mais importante ainda: não crie expectativa em você mesmo. Um passo de cada vez.

“Ah, mas eu conheço um...”. Sem tomar exceções como regra, pessoal. Vamos ser razoáveis. Este post é para ajudar, se você quer teimar e ir contra as estatísticas de quem começa coisas e nunca as termina, vá em frente, mas não recomendo. Recomendo ter foco, concentrar-se em começar e terminar uma boa história, ao menos uma.

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u/more_what_less_who — 14 days ago

Na edição passada (10ª), podiam se inscrever autores que se autopublicaram pelo KDP (Kindle Direct Publishing) entre 01/05/2025 e 31/08/2025. Na edição atual (11ª), podem se inscrever obras autopublicadas no KDP entre 05/05/2026 e 31/08/2026.

Isto é, existe um limbo de tempo, autores que publicaram entre uma edição e outra ficam impossibilitados de participar. O motivo da Amazon fazer isso eu prefiro não comentar.

Para quem não caiu nesse limbo e se interessou, aqui está o link para mais informações: https://www.amazon.com.br/Pr%C3%AAmio-Kindle-de-Literatura-5%C2%AA-Edi%C3%A7%C3%A3o/b?ie=UTF8&node=17004394011

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u/more_what_less_who — 15 days ago
▲ 28 r/Livros

Para quem não sabe, Andy Weir é autor dos livros “Perdido em Marte”, “Artemis” e “Devoradores de estrelas”. Seu primeiro livro (Perdido em Marte) foi autopublicado em 2011, publicado por editora tradicional em 2014 e virou filme em 2015.

O escritor ser reconhecido a ponto de ter uma obra adaptada para o cinema em curto espaço de tempo, por si só, não é raro em alguns mercados como o dos Estados Unidos. Mas ter esse reconhecimento com uma obra de estrutura interessante e alto valor artístico é raríssimo. Entre bons exemplos como Gillian Flynn com “Garota exemplar” (livro de 2012 e filme de 2014) ou Celeste Ng com “Pequenos incêndios por toda parte” (livro de 2017 e série de 2020), o mercado editorial e cinematográfico estadunidense é inundado por vários livros ruins que viram filmes igualmente ruins alguns anos depois.

(Falar em “estrutura interessante” e “alto valor artístico” é um ato polêmico, pois muitas pessoas confundem “é bom” com “gostei”, e “é ruim” com “não gostei”, mas vou me arriscar confiando no bom senso de quem ler este texto.)

Quando trazemos o assunto para o Brasil, já é raro encontrar filmes adaptados de livros que foram publicados há pouco tempo, e quando vamos checar quais deles se encaixam no segundo ponto, “de estrutura interessante e alto valor artístico”, sobram pouquíssimos exemplos. O caso que mais se aproxima do que abordo no post talvez seja “Tropa de Elite” (livro de 2006 e filme de 2007), mas fazendo uma forcinha também lembro de “O cheiro do ralo” (livro de 2002 e filme de 2007), “Se eu fechar os olhos agora” (livro de 2009 e série de 2018) e “Corações sujos” (livro de 2000 e filme de 2011). Os dois últimos citados já começam a ter uma distância considerável entre os lançamentos do livro e do filme. Se não levarmos em consideração um intervalo curto entre livro e filme, aí conseguimos muitos exemplos, mas fugimos da questão central do post.

E o que torna o caso de Andy Weir mais extraordinário ainda é que ele não é filho ou parente de pessoas importantes dentro do mercado artístico, seja editorial ou cinematográfico, nem tinha contatos influentes desse mercado quando publicou o primeiro trabalho. “Ah, mas ele é filho de um físico de partículas e de uma engenheira eletricista, estudou nas melhores escolas e universidades.”. Claro que as obras dele são o que são por influência de sua formação. O acesso que ele teve ao conhecimento é um privilégio, não tenha dúvidas. Meritocracia plena não existe no mundo. Mas o caso dele, considerando os que conheço, aproxima-se muito daquilo que chamamos de “começar do zero” em uma profissão e chegar ao topo dela. No mundo da arte é muito comum o artista famoso ser parente de algum artista tão famoso quanto, ou ser apadrinhado por alguém influente. É cantor que é parente de cantor, ator que é parente de ator ou de diretor, escritor que é amigo de dono de editora ou de alguém com cargo relevante dentro dela, é roteirista que é amigo de produtor de cinema, e por aí vai. Andy Weir não entra nisso.

“Ah, mas o Andy Weir começou a publicar seus escritos na internet numa época em que as pessoas ainda usavam seu tempo online lendo blogs, e não vendo vídeos curtos que derretem o cérebro ou fotos de vidas irreais em redes sociais. É verdade, ele começou numa outra época, teve mais uma vantagem. Ainda assim, era um cara desconhecido que começou disponibilizando bons textos na internet, fazendo o público comum crescer e gostar, até que ele publicou um livro sozinho sem auxílio de editoras, o público adorou, cresceu ainda mais e, a partir disso, foi identificado pelas empresas do ramo artístico. Não houve o Q.I. (Quem indica) no sentido clássico que conhecemos. Repito: não há meritocracia plena no mundo, sobretudo no meio artístico, mas o caso dele é um dos poucos que se aproximam do reconhecimento justo pela qualidade.

“Ah, mas sucessos como o dele são raros porque trabalhos de qualidade como o dele também são.”. Isso não é verdade. Há inúmeras obras de estimável valor que exalam o carinho e o trabalho árduo que o pequeno criador empregou nelas, mas faltam pessoas físicas interessadas em ler e pessoas jurídicas interessadas em investir. Isso em qualquer lugar do mundo, mas especialmente em países como o nosso, onde o mercado da arte é muito incipiente. Enquanto o reconhecimento de um Andy Weir é raríssimo em alguns mercados, no nosso é praticamente impossível. Aqui faltam mais e melhores mecanismos que identifiquem cedo obras literárias de alto valor artístico e as transformem rapidamente em produtos audiovisuais. A importância de se ter um filme bom sobre um livro publicado recentemente é que uma indústria alimenta a outra e ambas se mantêm aquecidas. Muitas pessoas que não têm o hábito de ler resolvem ler um livro porque gostaram de um filme, e isso se torna a porta de entrada para novas leituras.

Não digo que o Brasil não possui esses mecanismos de reconhecimento e conversão, mas que ele possui menos, e os poucos existentes não são efetivos na busca por qualidade fora de redes sociais e círculos de influência, o que torna estatisticamente rara a entrada anônima e independente por meio de qualidade genuína.

Por isso o título do post: infelizmente, a regra é a do reconhecimento artístico graças a uma mistura de algum esforço com muita influência, quando deveria ser a do reconhecimento graças a uma mistura de muito esforço com quase nenhuma influência. Difícil mudar esse panorama em nosso país? Sim, sobretudo porque existe um grupo de pessoas que tende a ficar do lado do mercado por meio da linha “é o que é” em vez de ficar do lado do bom artista, mas casos como o de Andy Weir fazem a gente acreditar na mudança.

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u/more_what_less_who — 22 days ago

Tenho visto, nas comunidades de games, muita gente pegando um caso específico de mídia física que requer internet para jogar e extrapolando como se a maioria das mídias físicas fosse assim.

Hoje você facilmente consegue checar quais mídias físicas contêm o jogo dentro do disco podendo ser jogado offline, é só pesquisar neste site: https://www.doesitplay.org/list

Claro que existe um movimento por parte de algumas empresas de vender mídia física que só possui uma chave dentro e não o jogo em si, mas os dados do site mostram que a grande maioria das mídias físicas ainda contém o jogo base para ser jogado sem necessidade de internet.

É desanimador ver que até nesse assunto existe briga no mundo dos games, e que um lado dessa briga critica uma ferramenta de preservação de jogos. Uma coisa é você preferir a comodidade do digital, tudo bem, é um direito seu; outra coisa é você querer diminuir a importância do que é físico e funciona off-line, aí você está apenas sendo imaturo e ficando contra todo um grupo de consumidores do qual você mesmo faz parte.

Antes de comprar uma mídia física ou de falar mal dela, pesquise se ela contém o jogo pelo site informado. A ideia de que todo jogo moderno precisa de um download adicional além da mídia física para funcionar é uma informação incorreta.

u/more_what_less_who — 22 days ago

Não subestimem a obviedade da afirmação no título. Há muitos anos eu participo de comunidades de escritores (tanto pessoalmente quanto em redes sociais) e vejo muitos (sobretudo os mais jovens) que querem escrever mas não têm o hábito de ler.

E assim eles se queixam: que falta motivação para escrever, que falta criatividade, que há dificuldade de transformar ideias numa estrutura lógica, que os resultados parecem sempre clichês, que falta domínio da língua portuguesa, que há constantes travas na hora da escrita... E tudo isso pode ser melhorado (não resolvido 100%) pelo desenvolvimento de um hábito de leitura mais atenta de obras diversas.

Que alguns termos usados fiquem em destaque: “hábito”, “atenta” e “diversas”. Hábito pressupõe repetição, continuidade, rotina... Ser atento é fazer com calma, concentração, não fazer por fazer só pra dizer que fez. E diversidade prevê ir além da zona de conforto e dos gostos pessoais. Vou dar uma atenção extra a essa diversidade.

Não é porque você escreve romances, que deve ler apenas romances. Leia poemas, roteiros de cinema, contos, crônicas, histórias em quadrinhos. O mesmo vale para eixos temáticos: não é porque você escreve fantasia, que deve ler apenas fantasia. Leia terror, comédia, drama, ficção científica. Em resumo: varie.

Tenho lido muitos trabalhos independentes, alguns ótimos, mas muitos com um problema em comum: aquilo que tinha uma premissa original se revela uma estória que eu já vi antes. E isso acontece, na maioria das vezes, porque o autor fica preso na própria escrita em vez de buscar leituras variadas. E aí vem a clássica reclamação do tipo “Ninguém neste país quer ler livros de um autor independente”. Mas e você, autor independente, tem lido apenas o que você mesmo escreve ou tem lido obras variadas de autores variados?

A reflexão que sempre faço é: já que é praticamente impossível ser um best seller, ou ter um amplo reconhecimento como autor, que pelo menos escrevamos algo que seja único, que só nós poderíamos ter feito da maneira que foi feito.

Abraços e boas leituras a todos.

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u/more_what_less_who — 1 month ago