





Almocei no posto perto de casa. O pê éfe era obsceno, mas eu gostava de ver a rodovia e os terminais pela vidraça e o céu de anúncio. Nas horas de pico, uma avenida é inundada de odisseus recursivos. Mastiguei o frango cozido vendo os pollocks retais de pombo no riso platinado do Celso Portiolli, no outdoor do outro lado da esquina.
Deixei uma sopa de supermercado pra mamãe em casa, as bananas escuras na geladeira se enchiam de fungos coloridos, meio tropicais. O meio dia caía num fuzilamento sereno, carros e veículos de carga inflamável fluindo olesos, as pessoas que supunham voltar pra casa. Na calçada de uma lotérica, vi um casal de mendigos abraçados no chão. Sentei no batente do posto e fiquei um tempo rabiscando num guardanapo uma carta pra M, que tinha morrido esmagada nas ferragens de um Volkswagen, em 92, na volta do clube dominical bancário com os pais. Éramos amigos.
“Tive uma recaída nos documentários sobre cosmologia. É o narrador do TV Escola, só de ouvi-lo sei que tudo vai ficar bem, que o sol não congelará. Não seremos engolidos pelo buraco negro no coração da Via Láctea. O plâncton vai estar na dieta das baleias. Penso às vezes se não é Deus em pessoa à deriva no vácuo, que decidiu narrar documentário pra aplacar a solidão. O vácuo é eterno e sereno, um mar infinito de idiotia. Somos idiotas e breves. Não vi mais o tigre do posto Shell, talvez volte lá esses dias. Não tive coragem de jogá-lo no Estige comunitário da Av. Ayrton Senna. Ainda me acha um covarde?”
À noite fui me engasopar de completo no Fofão Lanches, um trailer perto do rio. Uma patroa peroxidada cantava Sula Miranda entre os mosquitos. Me pareceu familiar e tinha uma voz materna e fraturada, engolida pela faixa rítmica do teclado. O mesmo preset Slow Waltz que, todo domingo, embala as velhinhas atonais da igreja presbiteriana do semáforo. Um tio absorvia tudo com a mão dentro da calça e um ricto de dor. Comi feito um refugiado e começou uma neblina fria.
Os lençóis amarrotados
Suados com nosso calor
Para sempre vão estar molhados
Molhados de gotas de amor.
O lugar foi esvaziando, fora o onanista triste. Tinha-se fundido ao copo americano tipo uma apendicite, eu unhando a tinta gordurosa da mesa, Anti-Sula gradualmente ensopada, e cantava ainda. Quando saí, um cão latia pra lua refletida numa poça, perto do urinol.
“Éramos fantasmas de subúrbio, ou o contrário, este nos possuía, feito um Poltergeist? Fomos títeres do tropicalismo falso dos hotéis, dos gringos inflamados de libido neocolonial. Os holandeses eram pedolagostas numa panela fervente. Você subiu o morro comigo, a cidade turística abria as pernas pro Atlântico no cio. Ainda odeio o Atlântico, a poça ímpia, o balneário dos feirantes.
Toda a água está faminta, desde o declínio do suicídio fin de siècle. Já não se morre por amor. Fora que perdi nas frias ondas a baladeira da feira de artesanato, a que comprei pra espocar garrafa no terminal (nunca inauguramos). Tínhamos contraído a vida tipo papeira, chorei no seu colo por inarticulação, hoje não saberia como fazê-lo. Vou revisar os passos, qual a exata proporção de sódio etc.
Quando em vez, ainda vou ao barranco com Alysson. As galinhas d’água, as aroeiras, os sacos plásticos seguem parafusados na mesma composição. Alysson ainda está lendo aquele livro há dez anos. Falei pra parar, que filosofia ia poluir a pureza do seu imbecilismo. Disse pra se vender como eunuco a uma turista sexual, uma coroa acadêmica helenista, se alimentar de sol e grelo em Hydra. Ir pra Samos ou pra Ítaca com uma balzaquiana recémviúva. Ou qualquer ilha, mas uma ilha de calor e sol escandaloso, de iridiscência terrível. Tem que deixar uma grega beletrista te carcar por trás, disse. Que a filosofia, no caso dele, só por via colorretal. Que vou ensiná-lo as escalas jônicas, pra essa Aspásia consentir à adoção dum anuro subtropical. Vejo tudo, uma revelação órfica, eles, um alpendre, uma escadinha de cal, de onde secava Sócrates os mucilons. Essa regueifa platônica despelando de ultravioleta, nosso colega do lado, colhendo as escamas do butico eleusino tipo um sagui em transe. Catarse e purificação. Faloforia e metafísica.
Ainda somos idiotas e é preciso sê-lo, só eles ganham uma esmola de luz. Onde está a minha? Falhei na minha única vocação?
Até logo”.
Tinha um correio lá perto e mandei a carta pra antiga casa dela. Fui no bazar junino e comprei estalinhos. Joguei alguns no chão da praça do relógio. Tinham perdido o encanto. De onde tinha visto a Falsa Sula?