Não consigo me relacionar com outras pessoas
Agradeço de coração se você puder ler até o fim. Essa não é apenas a minha história, é quase um pedido de socorro.
Sou um homem gay do interior da Bahia que foi criado na "organização", em um lar estável e amoroso, mas com pais e um avô (já falecido) extremamente PIMI. Me tornei publicador aos 12 anos, mas nunca me batizei. Apesar disso, sempre segui o movimento (nada de namorada, nada de amizades com pessoas "do mundo", etc.).
Sempre fui bem nos estudos, então, aos 18 anos, passei em Engenharia Química na UFBA, em Salvador. “Desrespeitei” o Corpo Governante e fui para a a capital estudar, sendo bem criticado por isso, naturalmente. Como meus pais ainda me sustentavam financeiramente, continuei frequentando as reuniões na capital para obedecê-los, especialmente porque, de certa forma, eu ainda era um PIMI — não por escolha, mas porque nunca me tinha sido apresentada outra forma de viver.
Então veio a pandemia. Voltei para o interior e fiquei sem atividades. Isso me deu tempo para refletir. Com as reuniões sendo feitas de forma online, muitas coisas começaram a se encaixar. Percebi que não sentia falta delas. Ao mesmo tempo, comecei a pesquisar e descobri a verdade através do Mark Jones, no Quora.
Perceber que a minha vida tinha sido uma mentira foi um choque enorme para mim. Comecei a beber e a tomar sedativos, um vício com o qual ainda lido até hoje.
A pandemia desacelerou e eu voltei para a capital para terminar a faculdade. Desde então, até hoje, nunca mais pisei em um Salão do Reino. Em outras palavras, não tive exatamente uma fase PIMO, Fui direto de PIMI para POMO (ou talvez POMI). Como eu era apenas um publicador, não passei pelo processo traumático da desassociação. Na verdade, eles só conversaram comigo uma única vez, eu expliquei meu ponto de vista e desde então nunca mais me cobraram nada. Ou seja, tecnicamente falando, ainda sou um publicador, já que, mesmo sem frequentar, meu nome ainda consta na lista. Além disso, meu pai é um ancião.
Depois de voltar para a capital pós-pandemia, comecei um estágio. Tendo meu próprio dinheirinho, comecei a me permitir sair com homens, ir a shows, festas, etc., mas nunca tive autoconfiança suficiente para me divertir sem beber. Então, meu problema com o álcool piorou.
Eventualmente, terminei a faculdade e, para minha surpresa, não havia conseguido criar nenhuma conexão genuína com ninguém, seja de amizade ou de relacionamento amoroso. Sinto que, na melhor das hipóteses, as pessoas apenas me toleram. Não tenho um único amigo que tenha continuado na minha vida, seja da faculdade ou das congregações que frequentei. As únicas pessoas que se lembram de mim são membros mais velhos e idosos, alguns dos quais, verdade seja dita, já estão com um pé na cova.
Também trabalhei na capital por mais 10 meses após me formar, mas meu contrato acabou e não consegui encontrar outro emprego, talvez por me faltar habilidade de networking e/ou as habilidades sociais necessárias para construir amizades e conexões profissionais. Atribuo isso ao fato de ter sido criado em uma seita, mas quem sabe? Nenhuma quantidade de terapia parece ser suficiente.
Não consigo deixar ninguém entrar totalmente na minha vida. Tenho um medo extremo de rejeição e um simples "não" é suficiente para me desmoronar. Não tenho autoestima e não consigo desenvolver sentimentos de verdade por ninguém. Continuo sozinho.
E agora estou de volta ao interior.
Tenho suspeitado de que eu possa ter algum tipo de transtorno que me acompanhou ao longo da vida, mas sem a ajuda dos meus pais (que juram de pés juntos que não há nada de errado comigo), não tenho como pagar por testes e diagnósticos. Não sei o que fazer. Estou com quase 28 anos, me sinto velho demais para mudar e nem mesmo sei COMO mudar.
Tudo o que sei é que preciso colocar minha vida profissional nos trilhos novamente. Preciso construir uma vida própria. Mas me sinto tão exausto, tão sem esperança... Enfim, estou com depressão. Talvez esse seja o ponto mais baixo da minha vida.
A essa altura, meus pais já sabem que sou gay e de tudo — tudo mesmo — que penso sobre as Testemunhas de Jeová. Mas é óbvio que eles não aceitam a realidade da seita e nem aceitam a realidade de quem eu sou. Às vezes, eles ainda me convidam para ir às reuniões ou para assistir aos broadcastings, e me dói dizer não (mas eu digo!!!), porque odeio magoá-los.
Morar com eles novamente também dificulta sair e conhecer pessoas, então meus relacionamentos têm sido estritamente virtuais e muito superficiais.
Mas, ainda assim, nem considero a ideia de voltar a assistir às reuniões. Nunca. Nem no meu leito de morte.
De qualquer forma, estou postando isso como um desabafo. Obrigado por ter chegado até aqui. Você passou ou está passando por algo parecido? Gostaria muito de trocar experiências.
Às vezes, bem às vezes, só queria poder morrer dormindo. Talvez eu renascesse hétero e seria tudo mais simples...