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Sacra Virginitas- Carta Encíclica do Papa Pio XII sobre a sagrada virgindade

Virgindade e castidade perfeita são o mais belo florão da Igreja

  1. A sagrada virgindade e a perfeita castidade consagrada ao serviço de Deus contam-se sem dúvida entre os mais preciosos tesouros deixados como herança à Igreja pelo seu Fundador.

  2. Por isso, os santos padres observam que a virgindade perpétua é um bem excelso nascido da religião cristã. Com razão notam que os pagãos da antigüidade não exigiram das vestais tal estado de vida senão por certo tempo; e mandando o Antigo Testamento conservar e praticar a virgindade, fazia-o só como exigência prévia do matrimônio (cf. Ex 22, 16-17; Dt 22, 23-29; Eclo 42, 9); além disso, como escreve santo Ambrósio; "Lemos de fato que havia virgens no templo de Jerusalém. Mas que diz delas o apóstolo? 'Todas estas coisas lhes aconteciam em figura' (1 Cor 10, 11), para serem indícios dos tempos futuros".

  3. De fato, desde os tempos apostólicos viceja e floresce esta virtude no jardim da Igreja. Quando nos Atos dos Apóstolos (At 21,9) se diz que as quatro filhas do diácono Filipe eram virgens, a expressão significa certamente bem mais um estado de vida do que a idade juvenil. E pouco depois, santo Inácio de Antioquia, saudando-as, nomeia as virgens que então, juntamente com as viúvas, constituíam parte importante entre os cristãos da comunidade de Esmirna. No século II, como testemunha são Justino, "muitos homens e mulheres, de sessenta e setenta anos, educados desde a infância na doutrina de Cristo, mantêm perfeita integridade".(4) Pouco a pouco, cresceu o número dos que consagravam a Deus a castidade; e ao mesmo tempo aumentou consideravelmente a importância deles na Igreja, como expusemos na nossa Constituição Apostólica Sponsa Christi.

  4. Também os santos padres – como são Cipriano, santo Atanásio, santo Ambrósio, são João Crisóstomo, são Jerônimo, santo Agostinho e muitos outros -, escrevendo sobre a virgindade, lhe dedicaram os maiores louvores. Ora, esta doutrina dos santos padres, desenvolvida no correr dos séculos pelos doutores da Igreja e pelos mestres da ascética cristã, contribui muito para suscitar ou confirmar nos cristãos de ambos os sexos o propósito firme de se consagrarem a Deus em perfeita castidade e de perseverarem nela até à morte.

A virgindade floresceu entre os féis de todas as condições

  1. Não se pode contar a multidão daqueles que, desde os começos da Igreja até aos nossos tempos, dedicaram a sua castidade a Deus, uns conservando ilibada a própria virgindade, outros consagrando-lhe para sempre a viuvez, outros finalmente escolhendo, em penitência dos seus pecados, uma vida perfeitamente casta; todos esses, porém, propuseram abster-se para sempre dos deleites da carne por amor de Deus. A doutrina dos santos padres sobre a grandeza e o mérito da virgindade seja incitamento e forte sustentáculo para todas essas almas, a fim de perseverarem no sacrifício oferecido e não retomarem para si nem a mínima parte do holocausto já colocado sobre o altar de Deus.

  2. A castidade perfeita é a matéria de um dos três votos constitutivos do estado religioso e exigida aos clérigos da Igreja latina para as ordens maiores e também aos membros dos institutos seculares. Mas é igualmente praticada por grande número de simples leigos: homens e mulheres há que, sem viverem em estado público de perfeição, fizeram o propósito ou mesmo o voto privado de se abster completamente do matrimônio e dos prazeres da carne para mais livremente servir ao próximo, e mais fácil e intimamente se unirem com Deus.

  3. Dirigimo-nos com coração paterno a todos e cada um desses muito amados filhos e filhas, que de algum modo consagraram a Deus corpo e alma, e exortamo-los vivamente a confirmarem sua santa resolução e a pô-la em prática com diligência.

  4. Não falta contudo quem, saindo do bom caminho, nos dias de hoje exalte o matrimônio a ponto de o colocar praticamente acima da virgindade, depreciando conseqüentemente a castidade consagrada a Deus e o celibato eclesiástico. Por isso nos pede agora a consciência do nosso cargo apostólico que declaremos e defendamos a doutrina da excelência da virgindade, para acautelarmos de tais erros a verdade católica.

I A DOUTRINA SOBRE A VIRGINDADE

  1. Antes de mais, é preciso notarmos que o essencial da doutrina sobre a virgindade o recebeu a Igreja dos próprios lábios do seu divino Esposo.

  2. Pareceram aos discípulos muito pesados os vínculos e encargos do matrimônio, que manifestara o divino Mestre, e disseram-lhe: "Se tal é a condição do homem a respeito de sua mulher, não convém casar" (Mt 19, 10). Respondeu-lhes Jesus Cristo que nem todos compreendem tal linguagem, mas só aqueles a quem isso é concedido, porque, se alguns são de nascença ou pela violência e malícia dos homens incapazes de se casar, outros há pelo contrário que por espontânea vontade se abstêm do matrimônio "por amor do reino dos céus"; e conclui dizendo: "Quem pode compreender, compreenda" (Mt 19, 11-12).

  3. Com essas palavras o divino Mestre não trata dos impedimentos físicos do casamento, mas da resolução livre e voluntária de quem, para sempre, renuncia às núpcias e aos prazeres da carne. Pois, ao comparar os que fazem renúncia espontânea com aqueles que se vêem impedidos ou pela natureza ou pela violência dos homens, não é verdade que o divino Redentor nos ensina que a castidade, para ser perfeita, deve ser perpétua?

O que é a virgindade cristã no ensino dos padres e doutores

  1. Daqui se segue – como os santos padres e os doutores da Igreja claramente ensinaram – que a virgindade não é virtude cristã se não é praticada "por amor do reino dos céus" (Mt 19, 12); isto é, para mais facilmente nos entregarmos às coisas divinas, para mais seguramente alcançarmos a bem-aventurança, e para mais livre e eficazmente podermos levar os outros para o reino dos céus.

  2. Não podem, portanto, reivindicar o título de virgens as pessoas que se abstêm do matrimônio por puro egoísmo, ou para evitarem seus encargos, como nota santo Agostinho, ou ainda por amor farisaico e orgulhoso da própria integridade corporal: já o concílio de Gangres condena a virgem e o continente que se afastam do matrimônio por o considerarem coisa abominável, e não por se moverem pela beleza e santidade da virgindade.

  3. Além disso, o apóstolo das gentes, inspirado pelo Espírito Santo, observa: "Quem está sem mulher, está cuidadoso das coisas que são do Senhor, como há de agradar a Deus... E a mulher solteira e virgem cuida das coisas que são do Senhor, para ser santa de corpo e de espírito" (1 Cor 7, 32.34). É essa, portanto, a finalidade primordial e a razão principal da virgindade cristã: encaminhar-se apenas para as coisas de Deus e orientar, para ele só, o espírito e o coração; querer agradar a Deus em tudo; concentrar nele o pensamento e consagrar-lhe inteiramente o corpo e a alma.

  4. Nunca deixaram os santos padres de interpretar desse modo a lição de Jesus Cristo e a doutrina do apóstolo das gentes: pois, desde os primitivos tempos da Igreja, consideravam a virgindade como consagração do corpo e da alma a Deus. São Cipriano pede às virgens que, "tendo-se consagrado a Cristo pela renúncia à concupiscência da carne e tendo-se dedicado a Deus de alma e corpo, não procurem agora adornar-se nem pretendam agradar a ninguém senão a Deus". E mais longe vai ainda santo Agostinho: "Não honramos a virgindade por si mesma, mas por estar consagrada a Deus... Nem nós louvamos nas virgens o serem virgens, mas o estarem consagradas a Deus com piedosa continência". Os príncipes da sagrada teologia, santo Tomás de Aquino e são Boaventura, apóiam-se na autoridade de santo Agostinho para ensinarem que a virgindade não possui a firmeza de virtude se não deriva do voto de a conservar ilibada perpetuamente. E, sem dúvida, os que mais plena e perfeitamente põem em prática a lição de Cristo neste particular são os que se obrigam com voto perpétuo a observar a continência; nem se pode afirmar com fundamento que é melhor e mais perfeita a condição dos que desejam conservar uma porta aberta, para voltarem atrás.

Só a caridade inspira e anima a virgindade cristã...

  1. Esse vínculo de perfeita castidade consideraram-no os santos padres como uma espécie de matrimônio espiritual da alma com Cristo; e, por isso, chegaram alguns a comparar com o adultério a violação dessa promessa de fidelidade. Santo Atanásio escreve que a Igreja católica costuma chamar esposas de Cristo às virgens. E santo Ambrósio diz expressamente da alma consagrada: "É virgem quem possui a Deus como esposo". Mais ainda, vê-se pelos escritos do mesmo doutor de Milão, que, já no quarto século, o rito da consagração das virgens era muito semelhante ao que a Igreja usa ainda hoje na bênção matrimonial.

  2. Por isso os santos padres exortam as virgens a amarem com mais ardor o seu divino Esposo do que amariam os próprios maridos, e a conformarem, a todo o momento, pensamentos e atos com a vontade dele. Recomenda santo Agostinho: "Amai com todo o coração o mais belo dos filhos dos homens: bem o podeis, porque o vosso coração está livre dos vínculos do casamento... Se tivésseis maridos, estaríeis obrigadas a ter-lhes grande amor; quanto mais não estais obrigadas a amar aquele por cujo amor não quisestes ter maridos? Esteja fixo no vosso coração inteiro aquele que por vós está fixo na cruz". Tais são aliás os sentimentos e as resoluções que a própria Igreja exige das virgens no dia da consagração, convidando-as a pronunciar estas palavras rituais: "O reino do mundo e toda a sedução do século desprezei-os por amor de nosso Senhor Jesus Cristo, que eu vi, que eu amei, em quem confiei, a quem preferi". É portanto o amor, e só o amor, que leva suavemente a virgem a consagrar completamente o corpo e a alma ao divino Redentor, segundo o pensamento que são Metódio, bispo de Olimpo, atribui tão belamente a uma delas: "Tu, Cristo, és tudo para mim. É para ti que me conservo casta, e com a lâmpada acesa vou ao teu encontro, ó meu Esposo". Sim, é o amor de Cristo que persuade a virgem a encerrar-se para sempre nos muros dum mosteiro, afim de contemplar e amar, mais fácil e livremente, o celeste Esposo; e é ele ainda que a leva a praticar, com todas as forças, até à morte, as obras de misericórdia para o bem do próximo.

  3. Acerca dos homens "que não se contaminaram com mulheres, pois são virgens" (Ap 14, 4), afirma o apóstolo são João: "Estes seguem o Cordeiro para onde quer que ele vá" (Ib.). Meditemos o conselho que lhes dá santo Agostinho: "Segui o Cordeiro, porque também a sua carne é virgem... Com razão o seguis, em virgindade de coração e de carne, para onde quer que ele vá. Afinal, que é seguir senão imitar? Na verdade Cristo sofreu por nós deixando-nos exemplo, como diz o apóstolo são Pedro, 'para seguirmos as suas pisadas'" (1 Pd 2, 21).(24) De fato, todos esses discípulos e esposas de Cristo abraçaram o estado de virgindade, como diz são Boaventura, "para se conformarem com Cristo, seu esposo, a quem o mesmo estado torna as virgens semelhantes".(25) Para o amor ardente que têm a Cristo não podiam bastar os laços do afeto; era absolutamente necessário que esse mesmo amor se mostrasse pela imitação das virtudes, que nele brilham, e de modo especial pela conformidade com a sua vida, toda dedicada à salvação do gênero humano. Se os sacerdotes, os religiosos e as religiosas, se todos os que de um modo ou do outro se consagraram ao serviço de Deus observam a castidade perfeita, é afinal porque o divino Mestre foi virgem até à morte. Assim se exprime são Fulgêncio: "É este o Filho unigênito de Deus, e também filho unigênito da Virgem, esposo único de todas as virgens consagradas, fruto, ornamento e prêmio da santa virgindade; dado à luz corporalmente pela santa virgindade, e à santa virgindade unido espiritualmente; ele torna fecunda a santa virgindade sem lhe destruir a integridade, adorna-a de permanente beleza e coroa-a de glória no reino eterno"

...para servir a Deus mais livre e facilmente

  1. Julgamos oportuno, veneráveis irmãos, mostrar agora mais exatamente por que motivo o amor de Cristo leva as almas generosas a renunciarem ao matrimônio, e quais são os laços misteriosos que existem entre a virgindade e a perfeição da caridade cristã. Já as palavras de Jesus Cristo, que mencionamos acima, davam a entender que a perfeita abstenção do matrimônio liberta os homens dos pesados encargos e deveres deste. Inspirado pelo Espírito Santo, o apóstolo das gentes dá o motivo desta libertação: "Quero que vivais sem inquietação... O que está casado está cuidadoso das coisas que são do mundo, como há de agradar a sua mulher, e está dividido" (l Cor 7, 32-33). Note-se porém que o Apóstolo não repreende os maridos por estarem cuidadosos das esposas, nem as esposas por procurarem agradar aos maridos; mas nota que estão divididos os corações entre o amor do cônjuge e o amor de Deus, e que estão demasiado absorvidos pelos cuidados e obrigações da vida conjugal para poderem entregar-se facilmente à meditação das coisas divinas. Porque o dever do casamento prescreve claramente: "Serão dois numa só carne" (Gn 2, 24; cf. Mt 19, 5). Os esposos estão ligados um ao outro tanto na infelicidade como na felicidade (cf. l Cor 7, 39). Compreende-se portanto por que é que as pessoas, que desejam dedicar-se ao divino serviço, abraçam o estado de virgindade como libertação, quer dizer, para poderem mais inteiramente servir a Deus e contribuir com todas as forças para o bem do próximo. Por exemplo, o admirável missionário são Francisco Xavier, o misericordioso pai dos pobres são Vicente de Paulo, o zelosíssimo educador da juventude são João Bosco, e a incansável "mãe dos emigrantes" santa Francisca Xavier Cabrim, como poderiam eles suportar tantos incômodos e trabalhos, se tivessem de prover às necessidades corporais e espirituais dos filhos, e da mulher ou do marido?

Facilita a elevação da vida espiritual e fecunda o apostolado

  1. Mas há ainda outra razão para abraçarem o estado de virgindade todos os que se querem dedicar completamente a Deus e à salvação do próximo. Os santos padres enumeram todas as vantagens, para o progresso na vida espiritual, de uma completa renúncia aos prazeres da carne. Sem dúvida – como eles claramente fizeram notar – tal prazer, legítimo no casamento, não é repreensível em si mesmo; pelo contrário, o uso casto do casamento está nobilitado e santificado por um sacramento. Todavia, tem de se reconhecer igualmente que as faculdades inferiores da natureza humana, em conseqüência da queda do nosso primeiro pai, resistem à reta razão e algumas vezes até levam o homem a cometer atos desonestos. Como escreve o Doutor Angélico, o uso do matrimônio "impede a alma de se entregar completamente ao divino serviço".

  2. Para os ministros sagrados conseguirem essa liberdade espiritual de corpo e alma, e para não se embaraçarem com negócios terrenos, a Igreja latina exige-lhes que se obriguem voluntariamente à castidade perfeita. "Se tal lei – afirma nosso predecessor de imortal memória Pio XI – não obriga de todo os ministros da Igreja oriental, também entre eles o celibato eclesiástico é honrado e em certos casos – sobretudo quando se trata dos mais altos graus da hierarquia – é condição necessária e obrigatória".

  3. Deve notar-se, além disso, que não é apenas por causa do ministério apostólico que os sacerdotes renunciam completamente ao matrimônio. É também porque são ministros do altar. Pois, se já os sacerdotes doAntigo Testamento se abstinham do uso do matrimônio enquanto serviam no templo, com receio de serem declarados impuros pela Lei, como o resto dos homens (cf. Lv 15, 16-17; 22, 4;1 Sm 21,5-7), com quanto mais razão não convém que os ministros de Jesus Cristo, que todos os dias oferecem o sacrifício eucarístico, se distingam pela castidade perpétua? São Pedro Damião exorta os sacerdotes à castidade perfeita com esta pergunta: "Se o nosso Redentor amou tanto a flor duma pureza intacta, que não só quis nascer dum ventre virginal, mas quis também ser entregue aos cuidados dum guarda virgem, e isso, quando ainda criança vagia no berço, dizei-me: A quem quererá ele confiar o seu corpo, agora que reina na imensidão dos céus"?

Sua excelência sobre o matrimônio

  1. É sobretudo por esse motivo que se deve afirmar como ensina a Igreja – que a santa virgindade é mais excelente que o matrimônio. Já o divino Redentor a aconselhara aos discípulos como vida mais perfeita (cf. Mt 19, 10-11); e são Paulo, depois de dizer que o pai que dá em casamento a filha "faz bem", acrescenta logo a seguir: "E quem não a casa, faz melhor ainda" (1 Cor 7,38). Ao comparar as núpcias com a virgindade, manifesta o Apóstolo mais de uma vez o seu pensamento, sobretudo ao dizer: "Eu queria que todos vós fôsseis como eu... Digo aos não casados e às viúvas que lhes é bom permanecerem assim, como também eu" (1 Cor 7, 7-8; cf. l e 26). Se portanto a virgindade, como dissemos, é mais excelente que o matrimônio, isso vem em primeiro lugar de ela ter um fim mais alto: contribui com a maior eficácia para nos dedicarmos completamente ao divino serviço, enquanto o coração das pessoas casadas sempre estará mais ou menos "dividido" (cf.1 Cor 7,33).

  2. Considerando, porém, a abundância dos frutos que dela nascem, mais clara aparecerá ainda a excelência da virgindade "pois pelo fruto se conhece a árvore" (Mt 12, 33).

Multidões de virgens foram sempre a honra e a glória da Igreja

  1. Não podemos deixar de sentir profunda alegria ao pensarmos na inúmera falange das virgens e dos apóstolos que, desde os primeiros séculos da Igreja até aos nossos tempos, renunciaram ao casamento para mais fácil e inteiramente se dedicarem à salvação do próximo por amor de Cristo, e assim realizaram admiráveis obras de religião e caridade. De modo nenhum queremos diminuir os méritos dos militantes da Ação católica nem os frutos do seu apostolado: podem muitas vezes atingir almas de que não se poderiam aproximar os sacerdotes, os religiosos ou as religiosas. Todavia, é às pessoas consagradas que se deve sem, dúvida, atribuir a maioria das obras de caridade. Com ânimo generoso, acompanham e endereçam a vida dos homens de todas as idades e condições; e quando esses religiosos ou religiosas desfalecem com a idade ou as doenças, como herança passam a outros o múnus sagrado. Não raro é o recém-nascido agasalhado por mãos virginais, sem nada lhe faltar dos cuidados que nem a mãe lhe poderia prestar com maior amor; e se já chegou ao uso da razão, é confiado a educadores que o formam cristãmente e, ao mesmo tempo, o instruem e lhe modelam o caráter; se está doente, encontrará sempre enfermeiros ou enfermeiras que, por amor de Cristo, o tratem com dedicação incansável; se fica órfão, se vem a cair na miséria material ou moral, ou se é lançado numa prisão, não ficará abandonado: esses sacerdotes, esses religiosos ou religiosas reconhecerão nele um membro padecente de Cristo e lembrar-se-ão das palavras do divino Redentor: "Tive fome, e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino, e me recolhestes; nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; estava no cárcere e fostes visitar-me... Na verdade vos digo que todas as vezes que vós fizestes isso a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes" (Mt 25, 35-36.40). Quem poderá nunca louvar devidamente os missionários que se dedicam, no meio das maiores fadigas e longe da pátria, à conversão de multidões de infiéis? Que dizer finalmente das esposas de Cristo, que lhes prestam tão preciosos serviços? A todos e cada um desses aplicamos de coração o que escrevemos na exortação apostólica Menti Nostrae: "...Por esta lei do celibato, muito longe de perder inteiramente a paternidade, o sacerdote aumenta-a imensamente, porque não gera família para a vida terrena e caduca, mas para a vida celeste que há de permanecer perpetuamente".

  2. Todavia a virgindade não é só fecunda pelas obras exteriores, às quais permite uma dedicação mais pronta e mais completa, mas também por formas de caridade perfeita com o próximo, como a oração por intenção dele e os graves sacrifícios por ele suportados da melhor vontade. A essa missão consagraram toda a sua vida, de modo especial, aqueles servos e esposas de Cristo que vivem nos claustros.

  3. Enfim, a virgindade consagrada a Cristo constitui, por si mesma, tal testemunho de fé no reino dos Céus e tal prova de amor ao divino Redentor, que não é de admirar dê frutos tão abundantes de santidade. Inumeráveis são as virgens e os apóstolos que professam a castidade perfeita; constituem a honra da Igreja pela excelsa santidade da sua vida. De fato, a virgindade dá às almas força espiritual capaz de as levar até ao martírio: é a lição manifesta da história, que propõe à admiração de todos grande multidão de virgens, desde santa Inês até santa Maria Goretti.

A "virtude angélica" atesta o amor ardente da Igreja por seu divino Esposo

  1. A virgindade merece bem o nome de virtude angélica. São Cipriano lembra-o com razão às virgens: "O que nós havemos de ser todos, já vós o começastes a ser. Possuis já neste mundo a glória da ressurreição; vós passais através do mundo sem as manchas do mundo. Enquanto perseverais castas e virgens, sois iguais aos anjos de Deus". A alma sequiosa de vida pura e abrasada pelo desejo de possuir o reino dos Céus, oferece a virgindade "como uma pérola preciosa", por amor da qual a alma "vende tudo o que tem e a compra" (Mt 13, 46). Às pessoas casadas e mesmo aos que se revolvem no lodo do vício, a presença das virgens revela muitas vezes o esplendor da pureza e inspira o desejo de vencer os prazeres dos sentidos. Se santo Tomás pôde afirmar "que se atribui à virgindade a mais alta beleza", foi porque sem dúvida o exemplo da virgindade é atraente. Pela castidade perfeita, não dão todos esses homens e mulheres a prova mais brilhante de que o domínio do espírito sobre o corpo é efeito da ajuda divina e sinal de sólida virtude?

  2. Apraz-nos considerar especialmente que o fruto mais suave da virgindade está em as virgens manifestarem, só pela sua existência, a virgindade perfeita da mãe delas, a Igreja, e a santidade da união íntima que têm com Cristo. No rito da consagração das virgens, o bispo pede a Deus "que haja almas mais elevadas a quem não seduza o atrativo das relações carnais, mas aspirem ao mistério que elas representam, não imitando o que se pratica no matrimônio, mas amando o que ele significa".

  3. A maior glória das virgens está em serem elas imagens vivas da perfeita integridade que une a Igreja com o seu Esposo divino; e esta sociedade fundada por Cristo alegra-se o mais possível ao ver que as virgens são o sinal maravilhoso da sua santidade e da sua fecundidade espiritual, como escreve tão bem são Cipriano: "São flor nascida da Igreja, beleza e esplendor da graça espiritual, alegria da natureza, obra perfeita e merecedora de toda a honra e louvor, imagem em que se reflete a santidade do Senhor, a mais ilustre porção do rebanho de Cristo. Compraz-se nelas a Igreja e nelas floresce exuberante a sua gloriosa fecundidade; de modo que, quanto mais aumenta o número de virgens, tanto mais cresce a alegria da mãe".

II REFUTAÇÃO DOS ERROS OPOSTOS À VIRGINDADE E AO CELIBATO

  1. Esta doutrina da excelência da virgindade e do celibato, e da superioridade de ambos em relação ao matrimônio, tinha sido declarada, como dissemos, pelo divino Redentor e pelo apóstolo das gentes; do mesmo modo foi também definida solenemente no concílio Tridentino como dogma de fé, e comentada sempre unanimemente pelos santos padres e doutores da Igreja. Além disso, os nossos predecessores e nós próprio a explicamos muitas vezes e recomendamos insistentemente. Mas, perante recentes ataques a esta doutrina tradicional da Igreja, e por causa do perigo que eles constituem e do mal que produzem entre os fiéis, somos levado pelo dever do nosso cargo a desmascarar nesta encíclica e a reprovar de novo esses erros, tantas vezes propostos sob aparências de verdade.

A castidade não é nociva ao organismo humano

  1. Primeiramente, apartam-se do senso comum, a que a Igreja sempre atendeu, aqueles que vêem no instinto sexual a mais importante e mais profunda das tendências humanas, e concluem daí que o homem não o pode coibir durante toda a sua vida sem perigo para o organismo e sem prejuízo do equilíbrio da sua personalidade.

  2. Ora, segundo a acertada observação de santo Tomás, a mais profunda das inclinações naturais é o instinto da conservação: o instinto sexual não vem senão em segundo lugar. Além disso, compete à razão, privilégio singular da nossa natureza, regular essas tendências e instintos profundos e, por meio da direção que lhes dá, enobrecê-los.

  3. Infelizmente, depois do pecado de Adão, as faculdades e as paixões do corpo, estando alteradas, não só procuram dominar os sentidos mas até o espírito, obscurecendo a razão e enfraquecendo a vontade. Mas é-nos dada a graça de Cristo, especialmente nos sacramentos, para nos ajudar a manter o nosso corpo em servidão e a viver do espírito (cf. Gl 5, 25;1 Cor 9, 27). A virtude da castidade não exige de nós que nos tornemos insensíveis ao estímulo da concupiscência, mas que o subordinemos à razão e à lei da graça, esforçando-nos, segundo as próprias forças, por seguir o que é mais perfeito na vida humana e cristã.

  4. Para conseguir, porém, o domínio perfeito do espírito sobre a vida dos sentidos, não basta abstermo-nos apenas dos atos diretamente contrários à castidade, mas é absolutamente necessário renunciar com generosidade a tudo o que ofende de perto ou de longe esta virtude: poderá então o espírito reinar plenamente no corpo e ver a sua vida espiritual em paz e liberdade. Quem não verá, à luz dos princípios católicos, que a castidade perfeita e a virgindade, bem longe de prejudicarem o desenvolvimento normal do homem e da mulher, os elevam pelo contrário à mais alta nobreza moral?

A santificação não é mais fácil no matrimônio que na virgindade

  1. Reprovamos recentemente com tristeza a opinião que apresenta o casamento como meio único de garantir à personalidade humana o seu desenvolvimento e a sua perfeição natural. Alguns afirmam, de fato, que a graça, comunicada ex opere operato pelo sacramento do matrimônio, santifica o uso do casamento a ponto de o tornar instrumento mais eficaz que a mesma virgindade para unir as almas a Deus, porque o casamento cristão é um sacramento, mas não o é a virgindade. Nós declaramos porém essa doutrina falsa e nociva. Sem dúvida, o sacramento concede aos esposos a graça de cumprirem santamente o dever conjugal e reforça os laços do afeto recíproco que os une; mas não foi instituído para fazer do uso do matrimônio o meio mais apto, em si, para unir com o próprio Deus a alma dos esposos pelos laços da caridade. Quando o apóstolo são Paulo reconhece aos esposos o direito de se absterem algum tempo do uso do casamento para se entregarem a oração (cf. 1 Cor 7, 5), não é exatamente porque tal renúncia torna a alma mais livre para se dar às coisas divinas e orar?

O apostolado não é mais eficaz no matrimônio do que na virgindade

  1. Parece-nos útil dizer também alguma coisa dos que apartam a juventude dos seminários e institutos religiosos, esforçando-se por incutir a idéia de que hoje a Igreja tem maior necessidade do auxílio e da profissão da vida cristã dos casados, vivendo no século como os demais, do que dos sacerdotes e das religiosas, que por assim dizer se separaram do mundo pelo voto de castidade. Semelhante idéia, veneráveis irmãos, é completamente falsa e muito perniciosa.

  2. Não é certamente intenção nossa negar a fecundidade do testemunho que os esposos católicos podem dar, com o exemplo da vida e a eficácia da virtude, em todos os lugares e circunstâncias. Mas invocar esse motivo para aconselhar que se prega o matrimônio à consagração total a Deus é inverter e transtornar a reta ordem das coisas. Muito desejamos, veneráveis irmãos, que não só se ensinem a tempo aos já casados ou aos noivos os deveres de pais e mães, mas que se esclareçam também sobre o testemunho que devem dar aos outros da sua fé e do exemplo das suas virtudes. Mas, como o exige a consciência do nosso dever, não podemos deixar de reprovar em absoluto os maus conselheiros, que apartam jovens de entrarem nos seminários ou na vida religiosa, sob o pretexto que farão maior bem como pais ou mães de família, professando a vida cristã publicamente à vista de todos. Melhor fariam tais conselheiros exortando as inúmeras pessoas casadas a cooperarem nas obras de apostolado, do que teimando em apartar da virgindade os poucos jovens que desejam consagrar-se ao divino serviço. A esse propósito lembra santo Ambrósio: "Sempre foi próprio da graça sacerdotal lançar a semente da integridade e excitar o amor da virgindade".

  3. Também julgamos dever notar que é completamente falso dizer que as pessoas que professam castidade perfeita, deixam, em certo modo, de pertencer à comunidade humana. As religiosas que dedicam a vida toda a servir os pobres e os doentes, sem distinção de raça, de categoria social ou religião, acaso não se associam intimamente a essas desgraças e dores, e porventura não se compadecem delas como se fossem verdadeiras mães? E o sacerdote não é o bom pastor, que, a exemplo do divino mestre, conhece as suas ovelhas e as chama pelos seus nomes? (cf. Jo 10, 14; 10, 3). Ora foi exatamente a castidade perfeita que permitiu que esses sacerdotes e religiosos, e essas religiosas, pudessem se dedicar a todos e amar a todos por amor de Cristo. E também os contemplativos e contemplativas, oferecendo a Deus as suas orações e a sua própria imolação pela salvação do próximo, contribuem muito para o bem da Igreja; mais ainda: como nas circunstâncias presentes se dão ao apostolado e às obras de caridade, segundo as normas estabelecidas pela nossa carta apostólica Sponsa Christi, merecem todo o louvor por este novo motivo; nem podem ser considerados como estranhos à sociedade humana, pois trabalham desses dois modos para o bem espiritual dela.

III CONSEQÜÊNCIA PRÁTICA DA DOUTRINA SOBRE A EXCELÊNCIA DA VIRGINDADE

  1. Passemos, veneráveis irmãos, às conseqüências práticas desta doutrina da Igreja sabre a excelência da virgindade.

  2. Primeiramente, deve-se conceder sem rodeios que, por ser a virgindade mais perfeita que o matrimônio, não se segue que seja necessária para alcançar a perfeição cristã. Pode-se chegar a ser santo mesmo sem fazer voto de castidade, como o provam numerosos santos e santas, que a Igreja honra com culto público, os quais foram fiéis esposos e deram exemplo de excelentes pais ou mães de família; além disso, não raro se encontram pessoas casadas que buscam com todo o empenho a perfeição cristã. A castidade é conseqüência duma escolha livre e prudente

  3. Também se há de notar que Deus não impõe a todos os cristãos a virgindade, como ensina o apóstolo são Paulo: "Quanto às virgens, não tenho mandamento do Senhor, mas dou conselho" (l Cor 7, 25). Portanto, é só conselho a castidade perfeita: conduz com maior certeza e facilidade à perfeição evangélica e ao reino dos céus "àqueles a quem isto foi concedido" (Mt 19, 11); por isso, como bem adverte santo Ambrósio, a castidade "não se impõe, mas propõe-se".

  4. Por essa razão, a castidade perfeita exige, da parte dos cristãos, que a escolham livremente, antes de se oferecerem totalmente a Deus; e, da parte de Deus, que ele comunique o seu dom e a sua graça (cf.1 Cor 7, 7). Já o próprio divino Redentor prevenira: "Nem todos compreendem esta palavra, mas aqueles a quem isto foi concedido... Quem pode compreender, compreenda" (Mt 19, 11.12). São Jerônimo, considerando atentamente essa sentença de Jesus Cristo, exorta "a que examine cada um as suas forças, para ver se poderá cumprir os preceitos da virgindade e da pureza. Em si, a castidade é agradável e atrai a todos. Mas há que se medir as forças, de modo que compreenda quem puder compreender. É a voz do Senhor a exortar, por assim dizer, e a animar os seus soldados para conquistarem o prêmio da pureza. Quem pode compreender, compreenda; quem pode lutar, lute, vença e triunfe".

...mas possível com a graça de Deus...

  1. Mas, se a castidade consagrada a Deus é virtude difícil, a sua prática fiel e perfeita é possível às almas que, depois de tudo bem ponderado, correspondem generosamente ao convite de Jesus Cristo e fazem quanto podem para a observar. Com efeito, se abraçarem este estado de virgindade ou de celibato, receberão de Deus o dom da graça para cumprirem o propósito feito. Por isso, se encontrarem pessoas "que não sentem ter o dom da castidade (mesmo depois de terem feito o voto)",não julguem por isso que não podem satisfazer às suas obrigações nesta matéria: Porque "Deus não manda coisas impossíveis; mas, ao mandar, recomenda que se faça o que se pode, que se peça o que não se pode – e ajuda a poder". Essa verdade muito consoladora lembramo-la também aos doentes, cuja vontade se enfraqueceu com perturbações nervosas, e por isso ouvem com excessiva facilidade de certos médicos, às vezes até católicos, o conselho de pedirem dispensa da obrigação contraída, sob o pretexto de que não podem observar a castidade sem prejuízo do equilíbrio psíquico. Quanto mais útil não seria ajudar esses doentes a reforçarem a própria vontade e a convencerem-se de que não lhes é impossível a castidade, segundo a sentença do Apóstolo: "Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além do que podem as vossas forças, antes fará que tireis ainda vantagem da mesma tentação, para a poderdes suportar"! (1 Cor 10, 13).

  2. Os meios recomendados pelo próprio divino Redentor, para defesa eficaz da nossa virtude, são: vigilância assídua, para fazermos o melhor que pudermos tudo o que estiver na nossa mão; e oração constante, para pedirmos a Deus o que pela nossa fraqueza não podemos conseguir: "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação. O espírito na verdade está pronto, mas a carne é fraca" (Mt 26, 41).

...a vigilância e a mortificação...

  1. Tal vigilância de todos os instantes e em todas as circunstâncias é absolutamente necessária, "porque a carne tem desejos contrários ao espírito, e o espírito desejos contrários à carne" (Gl 5, 17). Se cedemos, pouco que seja, às seduções do corpo depressa seremos levados até essas "obras da carne" enumeradas pelo Apóstolo (cf. Gl 5, 19-21), que são os vícios mais vergonhosos da humanidade.

  2. Por este motivo, é preciso vigiar primeiramente os movimentos das paixões e dos sentidos, e dominá-los com uma vida voluntariamente austera e com a mortificação corporal, para os submeter à reta razão e à lei divina: "Os que são de Cristo crucificaram a sua própria carne com os vícios e concupiscências" (Gl 5, 24). O apóstolo das gentes confessa de si mesmo: "Castigo o meu corpo e reduzo-o à escravidão, para que não suceda que, tendo pregado aos outros, eu mesmo venha a ser réprobo" (1 Cor 9, 27). Todos os santos e santas assim vigiaram os seus sentidos e reprimiram-lhes os movimentos, às vezes muito violentamente, segundo as palavras do divino Mestre: "Digo-vos que todo o que olhar para uma mulher, cobiçando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração. E se o teu olho direito te serve de escândalo, arranca-o e lança-o para longe de ti, porque é melhor para ti que se perca um dos teus membros, do que ser o teu corpo lançado no inferno" (Mt 5, 28-29). Essa recomendação mostra bem que nosso Redentor exige antes de tudo que não consintamos nunca no pecado, nem por pensamento, e que com a maior energia cortemos em nós tudo o que poderia, mesmo levemente, manchar esta virtude belíssima. Nesta matéria, nenhuma vigilância nem severidade é excessiva. E se má saúde ou outras razões não nos permitem pesadas austeridades corporais, nunca elas nos dispensam da vigilância e da mortificação interior.

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u/Forsaken_Will_5529 — 6 hours ago
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A Guarda do Papa

Por volta de 1505, o Papa Júlio II solicitou ao governante da Suíça o envio de um destacamento para sua guarda pessoal. Em 22 de janeiro de 1506, 150 suíços, sob o comando do capitão Kaspar von Silenen e escolhidos entre os mais fortes, corpulentos e nobres representantes dos cantões de Uri, Zurique e Lucerna, entraram no Vaticano e atravessaram a Praça do Povo, onde receberam a bênção daquele Pontífice.

Designados para proteger o Papa, enfrentaram em 6 de maio de 1527 a mais sangrenta das lutas, quando Roma foi invadida por cerca de dezoito mil soldados do exército de Carlos V, que guerreava contra Francisco I. Naquele dia, um pelotão de mil atacantes confrontou a Guarda Pontifícia em frente à Basílica de São Pedro. Os suíços combateram com bravura e 108 deles caíram, enquanto, para atestar sua coragem e dedicação, 800 dos mil invasores pereceram. Além disso, formaram um cordão protetor ao redor do Papa Clemente VII e o conduziram em segurança até o Castelo de Santo Ângelo.

Essa é a missão da Guarda Suíça Pontifícia:, se preciso for, entregar a própria vida para resguardar o Sumo Pontífice. Assim, é claro que a admissão exige um rigoroso processo seletivo. Os principais requisitos são:

  1. Ser católico: dado que a pessoa a ser protegida é ninguém menos que a autoridade máxima temporal da Igreja Católica Apostólica. Além disso, é dever do Guarda Suíço velar pelos peregrinos católicos, pela Cúria Romana e pelo próprio Túmulo do Príncipe dos Apóstolos. Por fim, ele deve participar cotidianamente das diversas celebrações litúrgicas no Vaticano. Nada mais justo, portanto, que professe a fé católica.
  2. Ter cidadania suíça: em honra aos 108 suíços que tombaram gloriosamente na batalha ocorrida em 1527, somente são admitidos homens dessa nacionalidade no corpo de segurança pontifício.
  3. Ter boa saúde: os candidatos passam por uma rigorosa bateria de exames físicos e psicológicos.
  4. Ser solteiro: exceção feita somente aos oficiais, sargentos e cabos. É proibido que durmam fora do Vaticano.
  5. Ter concluído o curso básico de preparação: ministrado pelo exército suíço. Além disso, devem obter um certificado de aptidão.
  6. Ter boa conduta: como a pessoa irá servir diretamente ao Papa, deve ter uma conduta irreprovável.
  7. Ter formação profissional: é desejável que o candidato tenha uma boa formação, além da vontade e eficiência. É esperado que ele demonstre capacidade de aprendizagem e um certo nível de maturidade.
  8. Para ser admitido, o candidato deve ter entre 19 e 30 anos de idade.

A Guarda Suíça desempenha diversas funções, entre elas: oferecer segurança às autoridades estrangeiras que visitam oficialmente o Vaticano, acompanhar o Papa em suas viagens apostólicas e protegê‑lo em aparições públicas na Praça de São Pedro. Por esse motivo, nem sempre usam o uniforme tradicional: frequentemente atuam à paisana como guarda‑costas, misturando‑se à multidão e empregando equipamentos de segurança de última geração, tudo para garantir a proteção do Pontífice. Atualmente é composta por 109 membros: cinco oficiais, 26 sargentos e cabos, e 78 soldados.

O uniforme é outro traço marcante da Guarda Suíça. Atribui‑se o desenho original a Michelangelo, embora o modelo atual tenha sido redesenhado por Jules Répond, então capitão da guarda. Confeccionado em malha de cetim nas cores azul‑real, amarelo‑ouro e vermelho‑sangue, é composto por meias que se ajustam às pernas e são presas na altura do joelho por uma liga dourada; a parte superior também apresenta um corte inusitado. O capacete traz uma pluma vermelha e as luvas são brancas.

Trata‑se de um uniforme bastante elegante, que simboliza a nobreza e o orgulho de servir ao Sumo Pontífice. Embora curioso para os tempos atuais, chama a atenção dos peregrinos que visitam o Vaticano.

No dia 06 de maio de 2006, o Papa Emérito Bento XVI, presidiu uma Missa Solene celebrando os 500 anos da Guarda Suíça Pontíficia. Em sua homilia afirmou:

>Entre as numerosas expressões da presença dos leigos na Igreja católica, encontra-se também a da Guarda Suíça Pontíficia, que é muito singular porque se trata de jovens que, motivados pelo amor a Cristo e à Igreja, se põem ao serviço do Sucessor de Pedro.
Para alguns deles a pertença a este Corpo de Guarda limita-se a um período de tempo, para outros prolonga-se até se tornar opção para toda a vida. Para alguns, e digo-o com profundo prazer, o serviço no Vaticano contribuiu para maturar a resposta à vocação sacerdotal ou religiosa. Mas para todos, ser Guardas Suíços significa aderir sem limites a Cristo e à Igreja, prontos por isso a dar a vida. O serviço efetivo pode terminar, mas dentro permanece-se sempre Guardas Suíços.

u/flowey_the_flower18 — 3 days ago

Em que sentido Maria é sempre Virgem?

“Na fulgidíssima coroa da maternidade divina”, escreve um insígne mariólogo, “posta por Deus sobre a cabeça de Maria, refulgem muitas e delicadas pedras preciosas; mas a principal delas, que resplandece mais do que todas as outras, é a pérola da virgindade”.

Mas o que, afinal, deseja ensinar a Igreja Católica ao chamar Maria Santíssima de “a sempre Virgem”?

1. Virgindade corporal. — O primeiro ensinamento contido nesse dogma, um dos mais sublimes privilégios marianos, refere-se à virgindade física, também denominada virginitas corporis, de Nossa Senhora. Trata-se de um milagre operado por Deus no corpo de Maria, pelo qual ela permaneceu perfeita e perpetuamente virgem antes, durante e depois do nascimento de Cristo, sem jamais perder a integridade corporal. Essa preservação milagrosa da pureza física da Mãe de Deus é também sinal de um mistério ainda mais elevado: a Encarnação do Verbo divino.

a) Antes do parto. — Dizer que Maria permaneceu virgem antes do parto significa afirmar que Cristo foi concebido sem participação de homem algum, isto é, sem relação conjugal, mas unicamente pela ação do Espírito Santo, pelo poder de Deus, “para quem nenhuma coisa é impossível” (cf. Lc 1, 37). A concepção virginal manifesta de forma claríssima a divindade de Cristo. Pois, se Maria, enquanto Mãe, demonstra que Jesus é verdadeiramente homem como nós, o fato de ser simultaneamente Mãe e Virgem comprova que Ele é também verdadeiro Deus.

b) Durante o parto. — A Igreja Católica ensina ainda que Maria permaneceu virgem no próprio ato do parto, enquanto dava à luz o Salvador em Belém. Essa verdade é confirmada pelo Magistério, testemunhada pelos Padres da Igreja e celebrada pela Liturgia, além de harmonizar-se plenamente com a razão iluminada pela fé. De fato, seria incompatível com a bondade divina imaginar que Aquele que veio libertar o homem da corrupção do pecado tivesse causado corrupção à integridade virginal de sua própria Mãe. Além disso, a preservação da virgindade de Maria perderia seu valor como sinal visível da divindade de Cristo se ela deixasse de ser virgem após o nascimento do Senhor.

c) Depois do parto. — A Igreja ensina também que Maria permaneceu virgem após o parto, isto é, que nunca teve relações conjugais nem outros filhos além de Jesus. Negar essa verdade seria não apenas contrariar as Escrituras, que em nenhum momento favorecem interpretação oposta ao dogma católico, mas também ofender profundamente: a Cristo, que sendo o Filho unigênito do Pai convinha ser igualmente o único Filho da Mãe; ao Espírito Santo, que santificou o ventre virginal de Maria como um santuário reservado exclusivamente a Deus; à própria Nossa Senhora, como se ela não tivesse se contentado com um Filho tão perfeito quanto Cristo e tivesse destruído a virgindade milagrosamente conservada; e também a São José, que jamais teria ousado tocar naquela em cujo seio, conforme a revelação do Anjo, encarnara o Filho do Altíssimo (cf. S. Tomás de Aquino, STh III 28, 3 c.).

2. Virgindade dos sentidos. — Além da virgindade corporal, os cristãos creem que Nossa Senhora conservou também perfeita pureza em seus afetos e desejos, chamada pelos teólogos de virginitas sensus. Por ser Imaculada, Maria foi preservada das consequências do pecado original, entre as quais está a desordem das paixões e da vontade humana. Isso quer dizer que ela jamais experimentou qualquer pensamento, desejo ou inclinação, mesmo involuntária, que fosse indigno de sua excelsa dignidade de Mãe de Deus. Tudo nela era plenamente ordenado ao amor divino, porque nela não existia a inclinação desordenada para o mal que a tradição teológica denomina fomes peccati.

3. Virgindade da alma. — Por fim, Maria possuía também uma virgindade espiritual perpétua, chamada virginitas mentis. Essa pureza compreende, de um lado, a firme disposição de renunciar a todo prazer venéreo para consagrar-se de modo mais perfeito a Deus — aspecto em que sua virgindade espiritual se assemelha à das demais virgens consagradas que honram a Igreja com sua entrega total a Cristo —; e, de outro lado, uma pureza interior absoluta, que fazia de seu Imaculado Coração uma fonte singular e incomparável de amor a Deus, sem qualquer sombra de imperfeição. Esta é a dimensão mais profunda e essencial da virgindade de Nossa Senhora, porque, sem ela, a mera integridade física teria pouco ou nenhum valor em si mesma.

Para concluir, convém recordar dois testemunhos do Magistério eclesiástico que confirmam claramente a fé da Igreja na virgindade perpétua de Maria. O Concílio de Latrão, celebrado em 649, declara no cânon n. 3 (DH 503): “Se alguém não professa […] que depois do parto permaneceu inviolada a sua [de Maria] virgindade, seja condenado”. E o Papa Paulo IV, na bula “Cum quorumdam hominum” (DH 1880), de 1555, ao condenar a seita dos unitários, que afirmavam explicitamente que “a beatíssima Virgem Maria não permaneceu sempre na integridade virginal, a saber: antes do parto, no parto e perpetuamente depois do parto”.

u/kentowho1 — 5 days ago

Servidor Católico de Discord - Ave Maris Stella

Link para o servidor aqui

Carta Identitária do Servidor Ave Maris Stella

O Ave Maris Stella nasce como um refúgio católico tradicional na internet: um espaço ordenado, limpo e fiel, destinado a acolher católicos e pessoas sinceramente interessadas na conversão, na formação doutrinal e na vida cristã.

Em meio a ambientes digitais frequentemente marcados por permissividade, vulgaridade, irreverência, blasfêmia, confusão moral e relativismo religioso, este servidor busca ser um lugar de recolhimento, instrução, convivência e edificação. Não pretendemos substituir a vida paroquial, os sacramentos, a direção espiritual ou a autoridade da Igreja. Somos um apostolado digital, não uma igreja paralela. Nosso fim é auxiliar, dentro de nossos limites, aqueles que desejam conhecer melhor a fé católica, crescer na vida espiritual e aproximar-se da Tradição da Igreja.

Nossa identidade é católica, apostólica, romana e mariana. Professamos a fé da Igreja una, santa, católica e apostólica, expressa de modo solene no Credo Niceno-Constantinopolitano. Reconhecemos a autoridade legítima da hierarquia da Igreja e não aderimos ao sedevacantismo, ao cisma ou a qualquer ruptura formal com a Sé de Pedro. Ao mesmo tempo, entendemos que a fidelidade católica não se confunde com aceitação acrítica de tudo aquilo que, em matéria prudencial, pastoral, disciplinar ou opinativa, pareça obscurecer, enfraquecer ou contradizer a fé recebida.

Para nós, a Tradição não é uma moda, uma estética ou uma preferência de grupo. A Tradição é a fé recebida de Nosso Senhor Jesus Cristo, transmitida aos Apóstolos e guardada pela Igreja ao longo dos milênios. Ela é patrimônio vivo da Igreja e critério seguro contra as novidades que deformam a doutrina, a moral, a liturgia e a vida cristã. Por isso, buscamos amar e estudar aquilo que a Igreja sempre ensinou, sempre guardou e sempre venerou.

Distinguimos, contudo, a Sagrada Tradição das legítimas tradições eclesiais. A Tradição Apostólica pertence ao Depósito da Fé e não pode ser alterada. Já as tradições eclesiais, costumes, práticas devocionais, disciplinas e expressões históricas da vida católica possuem graus diversos de autoridade e permanência. Todas devem ser respeitadas segundo sua natureza, mas sempre discernidas à luz da fé recebida.

O espírito do Ave Maris Stella é promover a santificação própria e auxiliar, tanto quanto possível, a santificação do próximo. Queremos favorecer a leitura, a formação, o estudo da doutrina, a prática das virtudes, a devoção mariana, o amor à liturgia, o zelo pela moral católica e o combate aos erros que ameaçam as almas. Não somos um ambiente meramente social, nem uma comunidade construída sobre conversas vazias, vaidades pessoais ou panelinhas fechadas. A fraternidade cristã é importante, mas deve estar ordenada à verdade, à caridade e à edificação.

Este apostolado não é liberal, permissivo ou indiferente. Não é lugar para normalizar o pecado, relativizar a doutrina, zombar das coisas santas ou transformar a fé em opinião pessoal. Também não é uma ditadura de caprichos humanos. A existência de regras, correções e limites não nasce de desejo de controle, mas da necessidade de preservar um ambiente católico totalmente saudável. A verdadeira caridade não consiste em permitir tudo, mas em ordenar tudo ao bem das almas, a fim de servirmos todos a Cristo, na Pessoa do Pai e no Espírito Santo.

Sabemos que o Ave Maris Stella pode ser mal compreendido e alguns nos acusam de rigorismo; outros, de cisma; outros, de autoritarismo. Tais acusações frequentemente nascem de desconhecimento, ressentimento ou incompreensão sobre a natureza de um ambiente católico que deseja preservar ordem, reverência e fidelidade. Nosso compromisso, contudo, não é agradar a todos, mas servir à verdade com caridade, prudência e firmeza.

Sob o patrocínio da Santíssima Virgem Maria, Estrela do Mar, pedimos que este apostolado seja instrumento de formação, conversão, perseverança e santificação. Que aqui ninguém busque glória própria, domínio sobre os outros ou triunfo de vaidades pessoais, mas sim a honra de Deus, a defesa da fé católica e o bem das almas.

Ave Maris Stella.

Credo in unam, sanctam, catholicam et apostolicam Ecclesiam.

u/SaintPaulApostle — 6 days ago

O caminho da santidade ensinado por Dom Bosco

Ainda muito jovem, com apenas nove anos, Dom Bosco teve um sonho marcante no qual Nossa Senhora lhe apareceu. Nesse sonho, alguns meninos ofendiam a Deus e faziam coisas muito erradas. Dom Bosco, que tinha um temperamento forte, tentou fazê-los parar usando tapas, chutes e socos. Então a Virgem Maria apareceu e lhe ensinou que aquele não era o caminho. Ela disse: “Você deve conquistá-los mostrando a beleza da virtude e a tristeza do pecado.” Esse conselho acompanhou Dom Bosco por toda a vida.

Quando um pai ensina uma criança pequena sobre o certo e o errado, ele normalmente não usa palavras difíceis como “isso é correto” ou “isso é verdadeiro”. Em vez disso, fala de maneira simples: “Que bonito! Assim o papai fica feliz!” ou “Que feio! Assim o papai fica triste!”. Foi dessa forma que Dom Bosco educou os jovens que estavam sob seus cuidados. Com o grande amor que aprendeu de Nossa Senhora, ele conseguiu controlar seu jeito impulsivo e passou a guiá-los com carinho e ternura, ajudando-os a enxergar a beleza da virtude.

Dom Bosco também ensinava os jovens a respeitar o sacerdote, porque entendia que, por meio dele, eles poderiam se aproximar de Deus e abandonar o pecado. Quando necessário, falava sobre o Inferno, mas o maior medo que queria despertar neles não era o castigo, e sim a tristeza de ofender o coração de Deus. Assim, os jovens aprendiam cada vez mais a obedecer aos Mandamentos e a amar verdadeiramente a Deus.

Seguidor de São Francisco de Sales, Dom Bosco mostrou desde cedo que todos somos chamados à santidade. Ele ensinava que não basta apenas ser “uma pessoa boa”, mas que devemos buscar ser santos de verdade. Isso começa pela obediência aos Mandamentos, pelo amor à virtude, pela rejeição ao pecado e pela entrega generosa da própria vida a Deus, como fez o santo.

u/kentowho1 — 7 days ago

Ninguém pode servir a dois senhores

Meu filho, quão trágico é a vida daqueles que querem seguir os caminhos do mundo sem, no entanto deixarem de ser filhos de Deus! Vamos um pouquinho mais adiante e vocês serão capazes de compreender mais claramente e ver com os seus próprios olhos o quão estúpido esse estilo de vida pode ser. Num determinado momento você chegará a ouvir tais pessoas rezando ou fazendo um ato de contrição. Pouco depois se alguma coisa acontece, do modo contrário ao que eles esperavam, você poderá ouvi-los fazendo imprecações e até mesmo usando o Santo Nome de Deus em vão. Pela manhã você talvez os encontre na Missa cantando ou louvando a Deus. E no mesmíssimo dia você poderá ouvi-los espalhando aos quatro ventos as conversas mais escandalosas.

Ao entrar na Igreja, eles molham as suas mãos na água benta pedindo a Deus que os purifique dos seus pecados. Um pouco mais adiante estará usando essas mesmas mãos em atos impuros contra eles próprios ou contra o seu próximo. Os mesmos olhos que pela manhã derramavam lágrimas de emoção ao contemplar Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento, durante o resto do dia se concentrarão em observar as cenas mais imodestas. Ontem você viu um determinado homem fazendo um ato de caridade ou prestando um serviço ao seu próximo, hoje esse mesmo homem dá o melhor de si para trair seu vizinho, buscando seu próprio lucro. Há poucos momentos atrás, aquela mãe desejava todo o tipo de bênçãos para seus filhos, e agora, só porque eles a aborrecem com suas travessuras, ela roga uma verdadeira chuva de pragas sobre eles: diz que desejaria nunca mais vê-los em sua presença e acaba até os mandando para o Diabo! Num dado momento, ela os envia para a Missa ou para a Confissão, já em outro momento, ela os envia para os bailes, ou pelo menos faz de contas que não sabe que eles se encontram lá, ou até mesmo se chegar a proibir, sempre o fará com um sorriso nos lábios, deixando perceber que mais aprova do que condena. Numa determinada ocasião, essa mesma mãe dirá à sua filha para ser recatada e não se misturar com as más companhias e dali a pouco, estará permitindo que sua filha passe horas a sós com um rapaz sem dizer uma só palavra. Não preciso dizer mais nada, minha pobre mãe! Vê-se claramente que você está do lado do mundo! Você até acha que está servindo a Deus por causa das práticas exteriores de religiosidade que você pratica. Mas você está enganada; você pertence àquela classe de gente da qual o próprio Jesus Cristo disse: "Ai do mundo!...”.

Observe bem essas pessoas que pensam estar servindo a Deus, mas que estão vivendo verdadeiramente segundo as máximas do mundo. Elas não têm o menor escrúpulo em tomar as coisas do seu vizinho, quer seja alguns pedaços de lenha ou frutas, ou mesmo milhares de outras coisas. Sempre que forem lisonjeadas ou elogiadas pelo que fazem em termos de religião, sentirão um grande orgulho por suas ações. Tais pessoas são sempre muito entusiasmadas em dar bons conselhos aos outros. Mas deixe que elas sejam submetidas a algum contratempo ou calúnia e vocês verão como elas se comportam por terem sido tratadas de tal modo! Ontem estavam dispostas a fazer todo o bem desse mundo àquele que as ofendeu, hoje mal conseguem tolerar tal pessoa e freqüentemente não conseguem sequer vê-la ou falar com ela.

(...)

Continuem assim, filhos deste mundo! Continuem nessa rotina; vocês vão ver um dia aquilo que jamais desejariam ver! Eu sei que vocês gostariam de repartir seus corações em dois! Mas não tem jeito, meus amigos: ou é tudo pra Deus ou é tudo para o mundo.

Dos Sermões de São João Maria Vianney.

u/kentowho1 — 7 days ago

A necessidade da devoção aos anjos da guarda

>Naquela hora, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram: “Quem é o maior no Reino dos Céus?” Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles e disse: “Em verdade vos digo, se não vos converterdes, e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus. Quem se faz pequeno como esta criança, esse é o maior no Reino dos Céus. E quem recebe em meu nome uma criança como esta, é a mim que recebe. Não desprezeis nenhum desses pequeninos, pois eu vos digo que os seus anjos nos céus veem sem cessar a face do meu Pai que está nos céus”.
(Mt 18, 1-5.10)

O Evangelho nos recorda uma verdade muito importante: os anjos contemplam Deus face a face no Céu.

Esse detalhe nos ajuda a compreender algo profundo. Existem ao nosso redor anjos bons e anjos maus, mas apenas os anjos fiéis contemplam a Deus diretamente. A tradição teológica ensina que, quando Deus criou os anjos, não Se manifestou imediatamente em toda a Sua glória. Antes disso, quis que eles O amassem livremente, pela fé.

Podemos compreender isso porque, quando Deus Se revela plenamente a uma criatura, Sua beleza e perfeição são tão infinitas que já não há espaço para rejeitá-Lo. Diante da visão direta de Deus, a vontade encontra seu descanso definitivo.

Assim, houve um momento em que os anjos viveram pela fé. Não sabemos quanto tempo isso durou, pois o modo de existir dos anjos é diferente do nosso. O que sabemos é que, sustentados pela graça, muitos deles escolheram amar a Deus e permanecer fiéis. Outros, porém, liderados por Satanás, recusaram Seu amor e se afastaram para sempre d’Ele. Por isso, nunca contemplaram a face divina.

Os demônios, que procuram nos afastar de Deus, permanecem limitados justamente por não terem visto a plenitude da sabedoria divina. Embora sejam mais inteligentes do que os homens, não possuem a verdadeira sabedoria dos santos anjos, que conhecem, segundo a vontade de Deus, o melhor caminho para cada um de nós.

Há também uma diferença importante entre o demônio e o anjo da guarda. O demônio age como um invasor: tenta entrar em nossa vida sem ser chamado. Já o anjo da guarda, por respeito à liberdade que Deus nos deu, age como um servidor fiel, esperando nossa abertura e confiança.

Por isso, a devoção aos anjos da guarda é tão necessária. Eles estão constantemente ao nosso lado para nos proteger, inspirar e conduzir para Deus. E, justamente por serem mais sábios e fortes do que nós, é prudente recorrer a eles com humildade e confiança: “Meu Santo anjo da guarda, eu reverencio a tua presença e agradeço o teu auxílio. Abro-me aos teus cuidados e aos teus conselhos”

Alguns teólogos modernos irão afirmar que toda a ação atribuída aos anjos seria realizada diretamente por Deus através do Espírito Santo e, por isso, os anjos seriam apenas símbolos ou figuras piedosas. Entretanto, a Revelação confirma claramente a existência dos anjos da guarda. O próprio Evangelho fala deles, assim como diversas passagens das Escrituras, especialmente nos Atos dos Apóstolos. Além disso, muitos santos testemunharam sua presença e auxílio. Padre Pio, por exemplo, aconselhava frequentemente seus filhos espirituais: “Não deixem seus anjos da guarda ociosos; deem tarefas a eles.”

Quanto mais cultivamos devoção e reverência pelos nossos anjos da guarda, mais nos aproximamos da vontade de Deus. Eles existem para nos conduzir ao Céu e jamais perdem de vista essa missão. O demônio deseja nos afastar de Deus; o anjo da guarda, ao contrário, trabalha incessantemente para nos unir ao Senhor.

Muitas vezes somos nós que esquecemos que esta vida é passageira e que nosso destino final é o Céu. Por isso, peçamos constantemente o auxílio dos nossos santos anjos e agradeçamos a Deus por ter colocado ao nosso lado esses fiéis guardiões de Sua glória.

u/kentowho1 — 8 days ago

O testamento de um Rei santo para seu filho

Confira a carta que São Luís IX da França deixou a seu filho e descubra a maior glória que um Rei pode possuir neste mundo: ser servo de Nosso Senhor Jesus Cristo.

"Filho dileto, começo por querer ensinar-te a amar o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com todas as tuas forças; pois sem isto não há salvação.

Filho, deves evitar tudo quanto sabes desagradar a Deus, quer dizer, todo pecado mortal, de tal forma que prefiras ser atormentado por toda sorte de martírios a cometer um pecado mortal.

Ademais, se o Senhor permitir que te advenha alguma tribulação, deves suportá-la com serenidade e ação de graças. Considera suceder tal coisa em teu proveito e que talvez a tenhas merecido. Além disto, se o Senhor te conceder a prosperidade, tens de agradecer-lhe humildemente, tomando cuidado para que nesta circunstância não te tornes pior, por vanglória ou outro modo qualquer, porque não deves ir contra Deus ou ofendê-lo valendo-te dos seus dons.

Ouve com boa disposição e piedade o ofício da Igreja e enquanto estiveres no templo, cuides de não vagueares os olhos ao redor, de não falar sem necessidade; mas roga ao Senhor devotamente, quer pelos lábios, quer pela meditação do coração.

Guarda o coração compassivo para com os pobres, infelizes e aflitos, e quando puderes, auxilia-os e consola-os. Por todos os benefícios que te foram dados por Deus, rende-lhe graças para te tornares digno de receber maiores. Em relação a teus súditos, sê justo até o extremo da justiça, sem te desviares nem para a direita nem para a esquerda; põe-te sempre de preferência da parte do pobre mais do que do rico, até estares bem certo da verdade. Procura com empenho que todos os teus súditos sejam protegidos pela justiça e pela paz, principalmente as pessoas eclesiásticas e religiosas.

Sê dedicado e obediente à nossa mãe, a Igreja Romana, e ao Sumo Pontífice como pai espiritual. Esforça-te por remover de teu país todo pecado, sobretudo o de blasfêmia e a heresia.

Ó filho muito amado, dou-te enfim toda a benção que um pai pode dar ao filho; e toda a Trindade e todos os santos te guardem do mal. Que o Senhor te conceda a graça de fazer sua vontade de forma a ser servido e honrado por ti. E assim, depois desta vida, iremos juntos vê-lo, amá-lo e louvá-lo sem fim. Amém."

u/kentowho1 — 8 days ago

O que a vida de São Francisco nos ensina?

Numa época em que a Igreja Católica moldava toda a cultura, São Francisco de Assis percebeu claramente o principal problema da Igreja: muitos católicos haviam se tornado cristãos apenas “de carteirinha”, contentando-se em fazer o mínimo necessário.

Esse espírito de acomodação acabou levando a Igreja ao declínio, especialmente entre os membros do clero, que não procuravam a santidade de forma nenhuma. Ou seja, quando a locomotiva que puxa o trem não acelera, o trem inteiro começa a parar.

Foi nesse contexto que São Francisco apareceu diante do Papa pedindo a aprovação de sua Regra. Ele desejava viver o Evangelho “sine glosa”, isto é, sem suavizações ou interpretações que diminuíssem suas exigências. Queria seguir radicalmente o exemplo de Cristo, inclusive na pobreza.

Os membros da Cúria romana logo reagiram, dizendo, em essência, que o Evangelho não deveria ser vivido dessa forma tão literal. Ainda assim, Francisco pediu humildemente ao Papa autorização para abraçar plenamente essa radicalidade.

Aqui aparece a diferença entre quem deseja apenas “cumprir tabela” para se salvar e quem realmente busca a santidade. O santo não se limita ao mínimo exigido pelos Mandamentos; ele procura oferecer generosamente a Deus até aquilo que não lhe é obrigatório.

Francisco sabia que não era obrigado a viver na pobreza absoluta, permanecer casto ou praticar uma obediência heroica. Mesmo assim, escolheu livremente oferecer tudo isso a Deus. Para ele, a santidade consistia justamente nisso: com a ajuda da graça divina, entregar toda a vida em sacrifício de amor ao Criador.

Essa era também a vocação original do homem no paraíso. Adão vivia em harmonia com a criação, dominando-a e oferecendo tudo a Deus. Porém, com sua rebeldia, essa ordem foi rompida.

Por isso, São Francisco continua sendo um exemplo luminoso. Sua verdadeira “ecologia” não era apenas amor à natureza, mas a restauração da ordem correta: toda a criação submetida ao homem, e o homem submetido a Deus, oferecendo tudo ao Senhor em amor, entrega e sacrifício.

u/kentowho1 — 8 days ago

A raiz de todos os vícios

São Gregório Magno chama à soberba a rainha, mãe e raiz de todos os vícios. Por isso não a conta entre os sete pecados capitais, que, segundo ele, são: ambição, cobiça, gula, luxúria, preguiça, inveja e ira. Chamam-se estes vícios capitais por serem como que as raízes donde brotam todos os demais.

Por que não enumera São Gregório a soberba entre os pecados capitais? É Santo Tomás quem nos explica a razão de tal procedimento: “A soberba poderia considerar-se como um vício à parte, e ser assim contada entre os pecados capitais; mas neste caso não se chegaria a ver bem a influência universal que exerce em todos os outros vícios, sendo, como é, a fonte inesgotável e um caminho seguro para eles”. Por isso não se lhes pode comparar, mas deve ocupar um lugar distinto para melhor se diferenciar deles. […]

Com razão, pois, dizia o velho Tobias a seu filho: ”Nunca consintas que o orgulho domine o teu coração, ou tuas palavras, porque toda a ruína teve nele a sua origem.” (Tb 4,14)

>Victor Cathrein, S. J. (1845-1931). A humildade cristã. Governador Valadares: Edições Virtus, 2020. p. 38-39, grifo nosso.

u/SaintPaulApostle — 9 days ago