Esquecida
​
Provavelmente, em algum momento da sua vida você já passou por uma casa abandonada. Sabe aquela casa que parece estar no lugar errado, época errada, que simplesmente não se encaixa no ambiente. Eu vi uma casa assim.
Quando passei pela frente, algo me chamou a atenção e reparei cada detalhe da construção. Não era uma casa grande, pelo contrário, era pequena, com o telhado sucumbindo ao tempo, grandes janelas de madeira apodrecidas pela umidade, paredes que descascavam seu reboco deixando tijolos à mostra, como alguém com a pele rasgada deixando seus músculos visíveis. Uma varanda cuja decadência acompanhava a casa, com o piso coberto de uma grossa camada de poeira acumulada como a terra que cobre o túmulo. Uma cadeira posicionada ao lado da porta, que agora serve apenas de alimento para os cupins, mas que um dia serviu de descanso para alguém.
O que um dia devia ter sido um belo jardim, hoje abriga galhos secos, espinhos que um dia pertenceram a uma roseira, rosas que foram presenteadas a um amor. Porém agora tudo mostrava um abandono. As cores que um dia vibravam sob o céu azul agora dão lugar a um tom amarelo ocre, sob um céu cinza.
Tudo ali me trazia tristeza. As pessoas atravessavam a rua para não passar na frente da casa. Até mesmo os pássaros recusavam-se a cantar ali, as flores recusavam-se a brotar ali, enquanto o tempo dava toda sua atenção ao local, tanto que a casa perdeu-se no tempo.
Casa vazia de vida, vazia de cor, vazia de atenção, vazia de amor.
E hoje me pego pensando: quantas casas assim existem por aí? Será que alguém as vê?