Esquecida

​

Provavelmente, em algum momento da sua vida você já passou por uma casa abandonada. Sabe aquela casa que parece estar no lugar errado, época errada, que simplesmente não se encaixa no ambiente. Eu vi uma casa assim.

Quando passei pela frente, algo me chamou a atenção e reparei cada detalhe da construção. Não era uma casa grande, pelo contrário, era pequena, com o telhado sucumbindo ao tempo, grandes janelas de madeira apodrecidas pela umidade, paredes que descascavam seu reboco deixando tijolos à mostra, como alguém com a pele rasgada deixando seus músculos visíveis. Uma varanda cuja decadência acompanhava a casa, com o piso coberto de uma grossa camada de poeira acumulada como a terra que cobre o túmulo. Uma cadeira posicionada ao lado da porta, que agora serve apenas de alimento para os cupins, mas que um dia serviu de descanso para alguém.

O que um dia devia ter sido um belo jardim, hoje abriga galhos secos, espinhos que um dia pertenceram a uma roseira, rosas que foram presenteadas a um amor. Porém agora tudo mostrava um abandono. As cores que um dia vibravam sob o céu azul agora dão lugar a um tom amarelo ocre, sob um céu cinza.

Tudo ali me trazia tristeza. As pessoas atravessavam a rua para não passar na frente da casa. Até mesmo os pássaros recusavam-se a cantar ali, as flores recusavam-se a brotar ali, enquanto o tempo dava toda sua atenção ao local, tanto que a casa perdeu-se no tempo.

Casa vazia de vida, vazia de cor, vazia de atenção, vazia de amor.

E hoje me pego pensando: quantas casas assim existem por aí? Será que alguém as vê?

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u/Oynak3vo6 — 1 day ago

A casa

Isso aconteceu em 2000. Eu tinha quinze anos. Estávamos morando em Florianópolis e, em meio ao “bug do milênio”, mudamos para Guarapuava, no Paraná, minha terra natal. As coisas ficaram difíceis em Santa Catarina, por isso voltamos. Meu pai ainda tinha que ficar mais trinta dias em Floripa até vencer o contrato de trabalho, então, com a mudança feita, ele voltou para Santa Catarina.

A casa para onde nos mudamos era do meu tio, irmão do meu pai. Ela estava desocupada fazia um tempo. Era uma casa grande, mista de madeira e alvenaria, com três quartos enormes, uma sala de estar, uma cozinha imensa e, em toda a casa, um assoalho brilhante na cor vermelha. Havia grandes janelas de madeira. No fundo da casa, saindo da cozinha, havia uma área com lavanderia e um banheiro. O grande pátio atrás da casa tinha um lindo gramado verde, uma laranjeira e um limoeiro. Depois da cerca ao fundo, havia um grande galpão de madeira abandonado, onde as pombas ficavam empoleiradas.

Na frente da casa havia uma sala comercial construída anexada a ela; a porta da sala de estar saía direto nessa sala comercial.

Nos primeiros dias, minha mãe, meu irmão e eu concentramos forças em organizar os móveis, roupas e tudo mais. As duas primeiras noites foram tranquilas, porém nas noites seguintes as coisas começaram a ficar estranhas.

À noite eu assistia Os Simpsons, que passava no SBT depois das 22h. Meu irmão, que tinha nove anos, dormia cedo, e minha mãe também. Enquanto assistia TV, eu tinha a impressão de ser observado pela fechadura da porta que dava para a sala comercial. Lembro que corria um arrepio, me sentia incomodado, inquieto e mal prestava atenção no desenho que rolava na TV. Isso aconteceu nas noites seguintes também.

Enquanto isso, no quarto, meu irmão acordava assustado e chorando, dizendo que “os braços debaixo do assoalho queriam pegar ele”. Isso também acontecia com frequência, chegando a repetir até três vezes durante a noite.

Minha mãe, que geralmente tinha um sono leve, desde que mudamos para aquela casa dormia feito uma pedra, mas sempre reclamava de cansaço e estava sempre com sono. Ela nunca viu ou ouviu os berros do meu irmão e, quando contávamos sobre as noites agitadas, achava que era mentira. Algumas vezes ela dizia ouvir alguém rondando a casa e chegou ao ponto de ligar para a polícia, mas nas duas vezes nada fora do comum foi encontrado.

Seguiram-se os dias e as longas noites turbulentas. Depois de aproximadamente duas ou três semanas, as marcas do cansaço, estresse e das noites mal dormidas eram visíveis. Eu parei de ficar na sala, meu irmão dormia comigo na mesma cama e os passos em volta da casa nunca pararam.

No meio de uma madrugada acordei ouvindo um sussurro que parecia tão longe. Meu irmão dormia, mas se revirava na cama sem parar. Levantei devagar, pé por pé. Nosso quarto saía na sala da TV. Aquele arrepio correu por cada milímetro do meu corpo. O sussurro continuava. Mesmo com medo, segui pelo corredor, abri devagar a porta do quarto do meio — o sussurro continuava, mas não vinha dali. Continuei pelo corredor e agora podia-se ouvir um “me ajuda” muito baixo.

Colei o ouvido na porta do quarto da minha mãe e ouvi mais uma vez. Parecia distante ainda, mas com certeza vinha do quarto dela. Abri a porta devagar e falei baixinho:

— Mãe, a senhora tá bem?

Então ouvi novamente, com uma voz fraca:

— Me ajuda, filho... me ajuda.

Com um salto acendi a luz, que revelou minha mãe deitada em uma poça de sangue na cama. Ela estava branca como papel. Chorei e perguntei o que havia acontecido. Ela só repetia:

— Ajuda... ajuda, filho.

Corri para fora da casa, pulei o muro para dentro do pátio do vizinho, bati na porta desesperado pedindo socorro. Expliquei o que estava acontecendo e o vizinho e sua esposa correram para socorrer minha mãe. Em poucos minutos os bombeiros chegaram e a levaram. Os vizinhos ficaram comigo e com meu irmão até minha tia vir nos buscar.

No outro dia descobrimos que minha mãe tinha câncer no colo do útero e houve uma hemorragia severa. Uma cirurgia de emergência foi feita. Meu pai largou tudo em Florianópolis e voltou. Meu irmão e eu ficamos na casa da minha tia enquanto meu pai procurava outra casa. Ele fez a mudança e, alguns dias depois, minha mãe foi para Curitiba fazer radioterapia no Hospital Erasto Gaertner.

Meu pai disse que a culpa era dele. Eu não entendi como ele poderia ser culpado. Então ele explicou:

— Quando vocês me contaram tudo o que aconteceu, eu entendi. A culpa foi minha. Eu não sabia que isso podia acontecer.

Eu disse que não estava entendendo nada, e ele continuou:

— Há alguns anos atrás, nessa casa tinha um casal que cuidava de um bar, aquela sala comercial junto com a casa. Um dia o marido precisou viajar, mas na rodoviária percebeu que havia esquecido a carteira em casa. Então voltou às pressas, só para flagrar sua esposa aos beijos com um amigo dele, ali no balcão. O marido partiu pra cima do amigo e da mulher. Tentaram acalmá-lo, mas ele pegou uma arma escondida no balcão.

O amigo e a mulher correram pra dentro da casa. O marido atirou, atingindo o homem que caiu no corredor. Então mais um tiro para acabar com o amigo traidor. A esposa, desesperada, pedia perdão. Um tiro no peito tirou a vida da traidora na cozinha. O marido traído saiu da casa e, no pátio, virou-se para a casa e atirou em si mesmo, acabando com a própria vida.

Não culpo meu pai por não ter contado. Ele achou que, se nós não soubéssemos, não teria problema. Porém, tem coisas que a gente não tem como explicar. Tem coisas que ficam marcadas, entranhadas. A dor, a traição, a violência... tudo isso deixa um rastro que alguém um dia vai encontrar.

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u/Oynak3vo6 — 3 days ago
▲ 2 r/Poemas

O nada

Uma noite e mais nada

Escuridão e uma janela fechada

Lá fora o tempo parou

Aqui dentro tudo deixou de existir

Sem medo, sem dor, sem nada

Apenas uma alma quebrada

Quero ouvir um grito

Quero ouvir um gemido

Quero qualquer coisa que me faça sentir vivo

Quero sentir o cheiro do sangue

Quero sentir o sal da lágrima

Quero sentir a dor no meu corpo

Quero sentir a vida de novo

reddit.com
u/Oynak3vo6 — 3 days ago

O nada

Uma noite e mais nada

Escuridão e uma janela fechada

Lá fora o tempo parou

Aqui dentro tudo deixou de existir

Sem medo, sem dor, sem nada

Apenas uma alma quebrada

Quero ouvir um grito

Quero ouvir um gemido

Quero qualquer coisa que me faça sentir vivo

Quero sentir o cheiro do sangue

Quero sentir o sal da lágrima

Quero sentir a dor no meu corpo

Quero sentir a vida de novo

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u/Oynak3vo6 — 3 days ago

Todo dia

Em cada passo

me desfaço

no vento que sopra

meu pó

Na chuva que cai

e me lava

Todo dia morro um pouco

me sinto só, me sinto oco

sigo caminhando

e em cada passo

me desfaço

No amor que se foi

um passo

No arrependimento

do que não fiz

outro passo

me desfaço

O dia está acabando

estou morrendo

a noite me vela

Da vida que passa

não me esqueço

E quando o dia chega...

meu recomeço.

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u/Oynak3vo6 — 6 days ago

Ela não vem

Pardais ciscam minha horta

urubus comeram minha torta

que deixei esfriando na janela

feita especialmente para ela

Que não vai vir, que não vai vir

Que não vai vir, que não vem

Mesmo sabendo que entre nós

ela não anda mais

ainda espero aqui sentado

na varanda, olhando a rua

que nunca passa ninguém

esperando por você

mesmo sabendo que não vem

Que não vai vir, que não vai vir

Que não vai vir, que não vem

No meu jardim de flores mortas

uma rosa insiste em viver

era a preferida por você

essa rosa jamais irá morrer

jamais irá morrer

E eu estarei aqui

esperando por você

mesmo sabendo que não vem

que não vem

u/Oynak3vo6 — 6 days ago
▲ 2 r/Poemas

Ela não vem

Pardais ciscam minha horta

urubus comeram minha torta

que deixei esfriando na janela

feita especialmente para ela

Que não vai vir, que não vai vir

Que não vai vir, que não vem

Mesmo sabendo que entre nós

ela não anda mais

ainda espero aqui sentado

na varanda, olhando a rua

que nunca passa ninguém

esperando por você

mesmo sabendo que não vem

Que não vai vir, que não vai vir

Que não vai vir, que não vem

No meu jardim de flores mortas

uma rosa insiste em viver

era a preferida por você

essa rosa jamais irá morrer

jamais irá morrer

E eu estarei aqui

esperando por você

mesmo sabendo que não vem

que não vem

reddit.com
u/Oynak3vo6 — 6 days ago

Ela não vem.

Pardais ciscam minha horta

urubus comeram minha torta

que deixei esfriando na janela

feita especialmente para ela

Que não vai vir, que não vai vir

Que não vai vir, que não vem

Mesmo sabendo que entre nós

ela não anda mais

ainda espero aqui sentado

na varanda, olhando a rua

que nunca passa ninguém

esperando por você

mesmo sabendo que não vem

Que não vai vir, que não vai vir

Que não vai vir, que não vem

No meu jardim de flores mortas

uma rosa insiste em viver

era a preferida por você

essa rosa jamais irá morrer

jamais irá morrer

E eu estarei aqui

esperando por você

mesmo sabendo que não vem

que não vem

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u/Oynak3vo6 — 7 days ago
▲ 3 r/Poemas

Quem é ela?

É do lado de fora

que ela mora

mas quando ela me visita

ela demora, demora,

Peço que vá embora

ela não quer ouvir.

Eu não vejo a hora,

dela ir, dela ir.

Quem é ela, quem é ela

que entra pela porta

entra pela janela,

e não pede licença.

É do lado de fora

que ela mora

mas quando ela me visita,

ela demora, demora.

Quero uma cura

algo que ajude

que a leve embora

que não me torture

Ela chegou e se alojou

no peito, um aperto

Por que você voltou?

Saudade.

reddit.com
u/Oynak3vo6 — 9 days ago

Quem é ela?

É do lado de fora

que ela mora

mas quando ela me visita

ela demora, demora

Peço que vá embora

ela não quer ouvir

Eu não vejo a hora

dela ir, dela ir

Quem é ela, quem é ela

que entra pela porta

entra pela janela

e não pede licença

É do lado de fora

que ela mora

mas quando ela me visita

ela demora, demora

Quero uma cura

algo que ajude

que a leve embora

que não me torture

Ela chegou e se alojou

no peito, um aperto

Por que você voltou?

Saudade.

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u/Oynak3vo6 — 9 days ago

Como fazer uma lâmina amaldiçoada

Como fazer uma lâmina amaldiçoada

​

​Essa "receita" é de minha autoria, testei e funcionou. Embora o artefato não tenha ficado bonito, ficou eficiente.

​

​Tudo que você precisa é de:

​Uma pessoa que seja má, de preferência que cometa crimes hediondos e já tenha sido punida por isso, assim você não comete engano.

​Um local isolado, longe de testemunhas.

​Um forno de forja ou um bom maçarico, uma chapa de ferro (de preferência antiga), esmerilhadeira, uma lixadeira de cinta, cordas, capuz e balde de alumínio ou cobre.

​

​Modo de confecção da lâmina:

​Pegue a pessoa (no meu caso, um abusador). Amarre-a de cabeça para baixo com a corda. Use o capuz durante todo o processo; o ódio do amarrado deve focar na sua ação, não em você. Com isso, continue os preparos: acenda o fogo (se usar o forno) e prepare a chapa de ferro desenhando nela a forma da faca, adaga, punhal ou qualquer outro formato. Com a esmerilhadeira, corte a chapa no formato desejado.

​

​Certifique-se de que o amarrado esteja vendo tudo. Coloque o metal para esquentar. Enquanto o metal aquece, faça pequenos cortes no tronco do amarrado e deixe gotejar no balde; é de extrema importância que o amarrado proteste e grite palavras de ódio durante o processo.

​

​Agora, com a lâmina aquecida em um tom vermelho-cereja, mergulhe-a no balde contendo o sangue do amarrado. Isso vai fazer com que a têmpera fique perfeita para que o aço fique resistente.

​Certifique-se de que o amarrado não esteja inconsciente (lembre-se: ele precisa depositar seu medo, dor e ódio em suas ações). Com a lixadeira, afie até ficar do seu agrado (muito afiado). Indicado usar uma pedra de amolar de granulação média (#700 a #2000), isso garantirá uma lâmina perfeita.

​

​Seu amarrado está te implorando ou te ameaçando? Perfeito. Hora de finalizar o trabalho: teste sua nova ferramenta nele e a batize com as iniciais do amarrado. Quando tudo estiver em silêncio, o trabalho chegou ao fim.

​E agora sua lâmina amaldiçoada está pronta!

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u/Oynak3vo6 — 14 days ago

Zé ninguém

​

Sou um nada

Digo isso não como se estivesse me fazendo de vítima. Digo isso por comprovação. Na arte de perder, acredito ser o melhor. Quando nasci, perdi minha mãe. Quando criança, perdi a infância. Quando adolescente, perdi a vontade.

​

Não quero entrar em detalhes de toda a minha miserável vida. Vou tentar focar nos últimos anos, o que será fácil, pois estou tentando me matar aos poucos. Não mereço uma morte rápida. Você pode achar exagero, eu não ligo. E esse é o problema: parei de me importar com as coisas já tem um tempo. Não tenho família, nem emprego. Prolongo minha existência com alguns bicos que faço por aí.

​

Meus dias são todos iguais. Acordo perto do meio-dia, caminho até o bar mais próximo, sento em uma mesa e começo a minha dieta à base de álcool. Gosto de me sentar de frente pra rua. Ali posso ver as pessoas passando, os carros passando, a vida passando. Sinto o mundo girar e eu parado. Enquanto todos se divertem, estou aqui embriagado. Escuto o som dos tacos de sinuca, risadas descontraídas e conversas fiadas.

​

Enquanto tudo acontece à minha volta, esvazio mais uma garrafa. O movimento da rua se acalma, o sol dá lugar à lua. A noite traz o frio que não é mais frio que o vazio que sinto. Agora sim vejo o mundo girar. É hora de ir para o buraco que chamo de casa, mas não antes de pagar a conta. Confiro minha carteira: acho que bebi mais que meu bolso outra vez.

​

Chamo o dono do boteco:

— Juarez, pendura o resto pra mim?

Falo com dificuldade, tropeçando nas palavras.

​

Ele me olha com cara de quem tá de saco cheio e diz:

— Porra, de novo? Ainda tem coisa pendurada do mês passado!

​

Apesar do protesto, ele anota. Então saio cambaleando, rumo ao lar doce lar. O caminho que levaria dez minutos de caminhada se torna uma jornada de três horas, entre tropeços e quedas, pausas para cochilo, momentos em que sento no meio-fio para olhar pra lua. Simpática, talvez a única que ainda sorri pra mim.

​

Acordo no dia seguinte. Nem lembro como cheguei. Na boca, o gosto rotineiro de meia suja. Parece até que masquei um gambá. Me olho no espelho manchado do banheiro. Há muito tempo não me reconheço: meu olhar profundo, quase cadavérico; meus cabelos ralos e desgrenhados; meus dentes frouxos, amarelos e desistindo de ficar na minha boca.

​

Me pergunto: quando tudo isso vai acabar?

​

E assim segue a vida desse Zé Ninguém. Uma rotina de autodestruição. Às vezes acho que nem Deus nem o diabo lembram ou se importam comigo. Eu não os julgo, pois eu também não me importo comigo.

​

Mais um dia dessa vida de merda. Mais um dia no mesmo bar. Porém, hoje, enquanto eu abria a terceira garrafa, sentou-se ao meu lado uma moça muito bonita, com um olhar prateado. Fiquei desconfortável, pois não sabia como agir. Aquilo nunca aconteceu. Senti um arrepio que percorreu meu corpo. Então, com a voz embargada, cumprimentei a moça:

— Olá, a moça quer beber alguma coisa?

​

Me senti um idiota. Ela apenas continuou me encarando. Então se formou um discreto sorriso. Senti meu coração disparar. Reparei em sua pele branca e suave como algodão. Minha respiração ficou pesada. Seus cabelos longos e negros como a noite sem lua. Senti minha língua secar. Ela tocou minha mão. Me perdi em um vazio. Ela suspirou e minha alma congelou. Senti a vida indo embora. Entendi quem ela era só agora. Ela me beijou...

​

Adeus a todos. Eu nunca imaginei que seria tão silencioso aqui.

​

​

reddit.com
u/Oynak3vo6 — 18 days ago

Zé ninguém

Sou um nada

Digo isso não como se estivesse me fazendo de vítima. Digo isso por comprovação. Na arte de perder, acredito ser o melhor. Quando nasci, perdi minha mãe. Quando criança, perdi a infância. Quando adolescente, perdi a vontade.

​

Não quero entrar em detalhes de toda a minha miserável vida. Vou tentar focar nos últimos anos, o que será fácil, pois estou tentando me matar aos poucos. Não mereço uma morte rápida. Você pode achar exagero, eu não ligo. E esse é o problema: parei de me importar com as coisas já tem um tempo. Não tenho família, nem emprego. Prolongo minha existência com alguns bicos que faço por aí.

​

Meus dias são todos iguais. Acordo perto do meio-dia, caminho até o bar mais próximo, sento em uma mesa e começo a minha dieta à base de álcool. Gosto de me sentar de frente pra rua. Ali posso ver as pessoas passando, os carros passando, a vida passando. Sinto o mundo girar e eu parado. Enquanto todos se divertem, estou aqui embriagado. Escuto o som dos tacos de sinuca, risadas descontraídas e conversas fiadas.

​

Enquanto tudo acontece à minha volta, esvazio mais uma garrafa. O movimento da rua se acalma, o sol dá lugar à lua. A noite traz o frio que não é mais frio que o vazio que sinto. Agora sim vejo o mundo girar. É hora de ir para o buraco que chamo de casa, mas não antes de pagar a conta. Confiro minha carteira: acho que bebi mais que meu bolso outra vez.

​

Chamo o dono do boteco:

— Juarez, pendura o resto pra mim?

Falo com dificuldade, tropeçando nas palavras.

​

Ele me olha com cara de quem tá de saco cheio e diz:

— Porra, de novo? Ainda tem coisa pendurada do mês passado!

​

Apesar do protesto, ele anota. Então saio cambaleando, rumo ao lar doce lar. O caminho que levaria dez minutos de caminhada se torna uma jornada de três horas, entre tropeços e quedas, pausas para cochilo, momentos em que sento no meio-fio para olhar pra lua. Simpática, talvez a única que ainda sorri pra mim.

​

Acordo no dia seguinte. Nem lembro como cheguei. Na boca, o gosto rotineiro de meia suja. Parece até que masquei um gambá. Me olho no espelho manchado do banheiro. Há muito tempo não me reconheço: meu olhar profundo, quase cadavérico; meus cabelos ralos e desgrenhados; meus dentes frouxos, amarelos e desistindo de ficar na minha boca.

​

Me pergunto: quando tudo isso vai acabar?

​

E assim segue a vida desse Zé Ninguém. Uma rotina de autodestruição. Às vezes acho que nem Deus nem o diabo lembram ou se importam comigo. Eu não os julgo, pois eu também não me importo comigo.

​

Mais um dia dessa vida de merda. Mais um dia no mesmo bar. Porém, hoje, enquanto eu abria a terceira garrafa, sentou-se ao meu lado uma moça muito bonita, com um olhar prateado. Fiquei desconfortável, pois não sabia como agir. Aquilo nunca aconteceu. Senti um arrepio que percorreu meu corpo. Então, com a voz embargada, cumprimentei a moça:

— Olá, a moça quer beber alguma coisa?

​

Me senti um idiota. Ela apenas continuou me encarando. Então se formou um discreto sorriso. Senti meu coração disparar. Reparei em sua pele branca e suave como algodão. Minha respiração ficou pesada. Seus cabelos longos e negros como a noite sem lua. Senti minha língua secar. Ela tocou minha mão. Me perdi em um vazio. Ela suspirou e minha alma congelou. Senti a vida indo embora. Entendi quem ela era só agora. Ela me beijou...

​

Adeus a todos. Eu nunca imaginei que seria tão silencioso aqui.

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u/Oynak3vo6 — 18 days ago

Zé ninguém

​

Sou um nada

​

Digo isso não como se estivesse me fazendo de vítima. Digo isso por comprovação. Na arte de perder, acredito ser o melhor. Quando nasci, perdi minha mãe. Quando criança, perdi a infância. Quando adolescente, perdi a vontade.

​

Não quero entrar em detalhes de toda a minha miserável vida. Vou tentar focar nos últimos anos, o que será fácil, pois estou tentando me matar aos poucos. Não mereço uma morte rápida. Você pode achar exagero, eu não ligo. E esse é o problema: parei de me importar com as coisas já tem um tempo. Não tenho família, nem emprego. Prolongo minha existência com alguns bicos que faço por aí.

​

Meus dias são todos iguais. Acordo perto do meio-dia, caminho até o bar mais próximo, sento em uma mesa e começo a minha dieta à base de álcool. Gosto de me sentar de frente pra rua. Ali posso ver as pessoas passando, os carros passando, a vida passando. Sinto o mundo girar e eu parado. Enquanto todos se divertem, estou aqui embriagado. Escuto o som dos tacos de sinuca, risadas descontraídas e conversas fiadas.

​

Enquanto tudo acontece à minha volta, esvazio mais uma garrafa. O movimento da rua se acalma, o sol dá lugar à lua. A noite traz o frio que não é mais frio que o vazio que sinto. Agora sim vejo o mundo girar. É hora de ir para o buraco que chamo de casa, mas não antes de pagar a conta. Confiro minha carteira: acho que bebi mais que meu bolso outra vez.

​

Chamo o dono do boteco:

— Juarez, pendura o resto pra mim?

Falo com dificuldade, tropeçando nas palavras.

​

Ele me olha com cara de quem tá de saco cheio e diz:

— Porra, de novo? Ainda tem coisa pendurada do mês passado!

​

Apesar do protesto, ele anota. Então saio cambaleando, rumo ao lar doce lar. O caminho que levaria dez minutos de caminhada se torna uma jornada de três horas, entre tropeços e quedas, pausas para cochilo, momentos em que sento no meio-fio para olhar pra lua. Simpática, talvez a única que ainda sorri pra mim.

​

Acordo no dia seguinte. Nem lembro como cheguei. Na boca, o gosto rotineiro de meia suja. Parece até que masquei um gambá. Me olho no espelho manchado do banheiro. Há muito tempo não me reconheço: meu olhar profundo, quase cadavérico; meus cabelos ralos e desgrenhados; meus dentes frouxos, amarelos e desistindo de ficar na minha boca.

​

Me pergunto: quando tudo isso vai acabar?

​

E assim segue a vida desse Zé Ninguém. Uma rotina de autodestruição. Às vezes acho que nem Deus nem o diabo lembram ou se importam comigo. Eu não os julgo, pois eu também não me importo comigo.

​

Mais um dia dessa vida de merda. Mais um dia no mesmo bar. Porém, hoje, enquanto eu abria a terceira garrafa, sentou-se ao meu lado uma moça muito bonita, com um olhar prateado. Fiquei desconfortável, pois não sabia como agir. Aquilo nunca aconteceu. Senti um arrepio que percorreu meu corpo. Então, com a voz embargada, cumprimentei a moça:

— Olá, a moça quer beber alguma coisa?

​

Me senti um idiota. Ela apenas continuou me encarando. Então se formou um discreto sorriso. Senti meu coração disparar. Reparei em sua pele branca e suave como algodão. Minha respiração ficou pesada. Seus cabelos longos e negros como a noite sem lua. Senti minha língua secar. Ela tocou minha mão. Me perdi em um vazio. Ela suspirou e minha alma congelou. Senti a vida indo embora. Entendi quem ela era só agora. Ela me beijou...

​

Adeus a todos. Eu nunca imaginei que seria tão silencioso aqui.

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u/Oynak3vo6 — 18 days ago

Décimo andar

Décimo andar

​

Me mudei há pouco tempo pra este apartamento. É pequeno, mal localizado e tem cheiro de carpete velho e úmido. Não conheço São Paulo, vim pra trabalhar numa filial nova da empresa onde fui contratado em Curitiba. Dez horas enfurnado em uma pequena sala com a cara na frente do PC. Há sete anos atrás achei que tecno em TI era legal, mas hoje vejo que não era o que eu queria. Meu dia se resume em acordar às seis, andar quinze minutos até a estação de metrô, pegar o metrô por mais vinte minutos, depois mais trinta minutos de ônibus, depois já na boca da noite fazer o caminho inverso.

​

A monotonia e a solidão estavam me consumindo. Colocava a única cadeira que tinha em frente à janela e ficava olhando o movimento. Eu, do décimo andar, vendo tudo pequeno, distante, me sentia mais sozinho. Foi quando me senti observado. No prédio em frente ao meu uma luz brilhava pálida, uma luz fraca e amarela iluminava tímida uma mulher debruçada sobre a janela. Apesar da distância percebia-se que ela olhava em minha direção. Fiquei sem graça, disfarcei, olhei para os lados, mas sempre que olhava em sua direção ela estava lá, olhando para mim. Já estava tarde e tive que me deitar, afinal amanhã seria mais um dia, um novo e longo dia. Ao fechar os olhos me veio a imagem da mulher. Eu percebi que não tinha detalhes dela, sua imagem era apenas um borrão. Fiquei imaginando como ela deveria ser. Quando dei por mim já era mais de meia-noite. Preciso dormir. Me reviro na cama e sempre que fecho os olhos vejo a mulher da janela. Uma e quinze me levanto pra tomar um copo de leite. Dizem que ajuda a pegar no sono, acho que é besteira mas não custa tentar. A caminho da cozinha passo pela janela, e é como se me puxasse. Abri um pouco a cortina, olhei em direção à janela do prédio vizinho. Claro que estava tudo apagado, afinal quem fica de madrugada na janela a essa hora, além de mim? Quando eu fechava a cortina vi a fraca luz se acender na janela do prédio em frente. Ela se debruçou e ficou olhando em direção à minha janela. Fechei rápido a cortina, me perguntei qual seria a chance disso acontecer. Voltei pra cama sem beber o leite, deitei e dormi.

​

O celular desperta. Dou um salto com o coração saindo pela boca, cansado, com sono, e a primeira coisa que me vem na cabeça era a mulher da janela. O dia segue normal, chato e rotineiro, porém agora eu tinha uma companhia que me seguia onde eu fosse. O dia acabou e voltei pra casa ansioso para ver se ela estava lá, e estava novamente debruçada sobre a janela olhando em minha direção. Parecia que estava me esperando. Estava prestes a sair quando ela levantou o braço lentamente para um aceno. Fiquei tão feliz, e essa felicidade parecia errada. Acenei pra ela. Quando percebi já passava das duas da manhã! Não entendi como isso aconteceu, como fiquei tanto tempo ali. Levantei às pressas pra tomar um banho e ir dormir. Novamente demorei muito a pegar no sono, e quando consegui, sonhei com ela batendo em minha porta, e quando eu abri ganhei um abraço, mas era um abraço gelado que fez doer a alma. Então o celular desperta. Levanto sem vontade, visto a roupa e saio para o trabalho. Já no metrô percebo que não tomei meu café da manhã. Na verdade nem havia jantado na noite que passou. Escapa um bocejo e o cheiro que sobe às minhas narinas denuncia minha falta de higiene dessa manhã. Eu não havia sequer escovado os dentes. No trabalho o dia não rende. Só penso em voltar pra casa e me sentar em frente à janela. Fico fantasiando com ela, me perco em pensamentos com os cotovelos apoiados sobre a mesa. Tento adivinhar o nome dela. Na volta pra casa passo em frente a uma lojinha, dessas de tudo por dez reais, e compro um binóculo fuleiro. Hoje quero ver seu rosto.

​

Quando chego ao elevador descubro que está estragado, e é o único elevador desse moquifo. Provavelmente vai demorar pra consertá-lo. Subo as escadas, décimo andar. Eu não acredito que estou passando por isso agora. Tô cansado, estressado, de péssimo humor, e como se não bastasse a luz da escadaria se apaga. Um breu total. Acho que nesse lance de escadas o sensor de movimento estava estragado. Vou tateando as paredes por alguns minutos, tropeçando nos degraus. Passando as mãos pela parede encontro uma maçaneta, abro a porta. Enfim luz, mas ainda faltavam três andares até o meu. Volto à escadaria e continuo minha subida cega. Até que enfim em casa. Estava ansioso para ver se a mulher estava na janela. Larguei minhas coisas pelo caminho, abri as cortinas e vi. Ela estava lá, parecia me esperar. Senti minha ansiedade ir embora, meu mundo cinza se coloriu. Eu só queria ficar ali na janela olhando pra ela. Peguei o binóculo pra ver os detalhes de seu rosto, mas estava distorcido como uma foto fora de foco. Também, quem manda economizar? Mas podia se ver outros detalhes, como a sala vazia em que ela se encontrava, sua pele branca como a lua, seu cabelo longo e negro como a noite, e uma camisola fina e branca quase transparente mostrando a silhueta esguia. Fico ali admirando. Eu queria estar junto dela, imagino uma vida juntos. Quando de repente o alarme do celular toca. Não acredito! Já tá na hora de sair para o trabalho. Me levanto da cadeira e saio pela porta, afinal nem tirei a roupa que usei ontem. Mais um dia. Discuto com alguém no trabalho, já não me importo com essas pessoas falsas. Eu sei que me odeiam. O meu chefe vem falar comigo se fazendo de amigo. Que piada, eles só querem me usar. A única pessoa que realmente se importa comigo é a mulher da janela. Na hora do almoço pego minhas coisas e vou pra casa. No caminho passo em frente a uma loja onde vejo meu reflexo na vitrine. Estou deteriorando. Quando foi que perdi tanto peso assim? Em casa abro a porta com ansiedade, corro até a janela. Ela está lá. Sempre está lá, me esperando cheia de amor. Amor só meu, eu sei. Minha visão tá embaçada, tá ficando difícil de digitar. Minha boca tá seca, parece que não tenho mais saliva. Já faz três dias que estou em casa. Eu não voltarei para aquele lugar que só quer me afastar dela. Ontem vieram bater na minha porta, era do trabalho. Me chamaram, falaram que só queriam saber se estava tudo bem comigo. Não respondi, fiquei em silêncio. Logo foram embora. Agora posso ficar a sós com ela. Meu peito dói, a respiração está difícil. A mulher parou de aparecer na janela, mas eu vou esperar ela pra sempre, pra sempre aqui na minha janela.

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Encontrei essa espécie de diário no smartphone do meu irmão. Vim retirar as coisas dele do apartamento. Não queria estar aqui, onde ele tirou a própria vida. Ele era tudo pra mim. Me culpo por não estar com ele quando mais precisava. Me pergunto quem era a mulher. Paro em frente à janela onde meu querido irmão se enforcou. No prédio vizinho vejo uma mulher. Será que é ela? Agora eu entendo. Ela está olhando pra mim.

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u/Oynak3vo6 — 18 days ago

Meu único amigo de infância nunca existiu?

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O ano era 1990, eu tinha seis anos, e naquela época ainda não frequentava a escola. Morava com meus pais em um bairro retirado na cidade de Guarapuava, no Paraná. A rua onde morávamos era sem saída e tinha poucas casas, e as únicas crianças ali era eu e meu vizinho, que devia ter a mesma idade que eu pois ele também não ia à escola.

Do nosso lado da rua haviam três casas, ao lado direito da minha uma casa velha de madeira com o telhado que parecia que ia desabar a qualquer momento. Nessa casa morava sozinha uma senhora muito velha, nunca esqueço de seu rosto, rugas profundas, olhos nebulosos, dois ou três dentes na boca, e um coração enorme.

Às vezes eu ia até a casa dela quando a via sentada na escada fumando palheiro, ela se animava, corria pra dentro e trazia bolachas pra mim. As três casas do nosso lado da rua faziam divisa com uma plantação de milho, minha casa ficava a quatro metros de distância do meu vizinho esquerdo com uma cerca que dividia o terreno. Ali morava um casal e um menino que ficou meu amigo, o único amigo.

Ele tinha a minha altura, cabelo liso e preto, isso é o que lembro de sua fisionomia. Apesar da mãe dele sempre vir em casa pra conversar e tomar chimarrão com a minha mãe, ele nunca veio brincar comigo no pátio, e eu nunca fui lá também.

Brincávamos por debaixo da cerca com os carrinhos, cada um do seu lado do quintal. Não me lembro de ouvir sua voz, talvez fosse mudo, não me importava, criança não liga pra essas diferenças. Quando chovia eu ficava na janela do meu quarto e ele na janela dele, as casas eram iguais por isso os quartos ficavam um de frente para o outro.

Durante o ano em que moramos ali, as companhias que tinha era a senhorinha e o piazinho como eu o chamava pois nunca me disse o nome. Então mudamos para outro bairro do outro lado da cidade, e nunca mais vi o piazinho.

Trinta anos depois, em 2020, conversando com minha esposa sobre os amigos que nunca mais vi, ela deu a ideia de procurar nas redes sociais. Alguns encontrei, então lembrei do piazinho, mas nunca soube o nome dele.

Liguei pra minha mãe pra ver se ela lembrava, e o que ela me disse foi: a Lizete e o Carlos nunca tiveram filhos, ela teve um acidente quando estava grávida, o bebê morreu e tiveram que retirar o útero dela.

Então com quem eu brincava? Quem era o piazinho calado, meu único amigo?

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u/Oynak3vo6 — 1 month ago

Décimo andar

O décimo andar

Me mudei há pouco tempo pra este apartamento. É pequeno, mal localizado e tem cheiro de carpete velho e úmido. Não conheço São Paulo, vim pra trabalhar numa filial nova da empresa onde fui contratado em Curitiba. Dez horas enfurnado em uma pequena sala com a cara na frente do PC. Há sete anos atrás achei que tecno em TI era legal, mas hoje vejo que não era o que eu queria. Meu dia se resume em acordar às seis, andar quinze minutos até a estação de metrô, pegar o metrô por mais vinte minutos, depois mais trinta minutos de ônibus, depois já na boca da noite fazer o caminho inverso.

A monotonia e a solidão estavam me consumindo. Colocava a única cadeira que tinha em frente à janela e ficava olhando o movimento. Eu, do décimo andar, vendo tudo pequeno, distante, me sentia mais sozinho. Foi quando me senti observado. No prédio em frente ao meu uma luz brilhava pálida, uma luz fraca e amarela iluminava tímida uma mulher debruçada sobre a janela. Apesar da distância percebia-se que ela olhava em minha direção. Fiquei sem graça, disfarcei, olhei para os lados, mas sempre que olhava em sua direção ela estava lá, olhando para mim. Já estava tarde e tive que me deitar, afinal amanhã seria mais um dia, um novo e longo dia. Ao fechar os olhos me veio a imagem da mulher. Eu percebi que não tinha detalhes dela, sua imagem era apenas um borrão. Fiquei imaginando como ela deveria ser. Quando dei por mim já era mais de meia-noite. Preciso dormir. Me reviro na cama e sempre que fecho os olhos vejo a mulher da janela. Uma e quinze me levanto pra tomar um copo de leite. Dizem que ajuda a pegar no sono, acho que é besteira mas não custa tentar. A caminho da cozinha passo pela janela, e é como se me puxasse. Abri um pouco a cortina, olhei em direção à janela do prédio vizinho. Claro que estava tudo apagado, afinal quem fica de madrugada na janela a essa hora, além de mim? Quando eu fechava a cortina vi a fraca luz se acender na janela do prédio em frente. Ela se debruçou e ficou olhando em direção à minha janela. Fechei rápido a cortina, me perguntei qual seria a chance disso acontecer. Voltei pra cama sem beber o leite, deitei e dormi.

O celular desperta. Dou um salto com o coração saindo pela boca, cansado, com sono, e a primeira coisa que me vem na cabeça era a mulher da janela. O dia segue normal, chato e rotineiro, porém agora eu tinha uma companhia que me seguia onde eu fosse. O dia acabou e voltei pra casa ansioso para ver se ela estava lá, e estava novamente debruçada sobre a janela olhando em minha direção. Parecia que estava me esperando. Estava prestes a sair quando ela levantou o braço lentamente para um aceno. Fiquei tão feliz, e essa felicidade parecia errada. Acenei pra ela. Quando percebi já passava das duas da manhã! Não entendi como isso aconteceu, como fiquei tanto tempo ali. Levantei às pressas pra tomar um banho e ir dormir. Novamente demorei muito a pegar no sono, e quando consegui, sonhei com ela batendo em minha porta, e quando eu abri ganhei um abraço, mas era um abraço gelado que fez doer a alma. Então o celular desperta. Levanto sem vontade, visto a roupa e saio para o trabalho. Já no metrô percebo que não tomei meu café da manhã. Na verdade nem havia jantado na noite que passou. Escapa um bocejo e o cheiro que sobe às minhas narinas denuncia minha falta de higiene dessa manhã. Eu não havia sequer escovado os dentes. No trabalho o dia não rende. Só penso em voltar pra casa e me sentar em frente à janela. Fico fantasiando com ela, me perco em pensamentos com os cotovelos apoiados sobre a mesa. Tento adivinhar o nome dela. Na volta pra casa passo em frente a uma lojinha, dessas de tudo por dez reais, e compro um binóculo fuleiro. Hoje quero ver seu rosto.

Quando chego ao elevador descubro que está estragado, e é o único elevador desse moquifo. Provavelmente vai demorar pra consertá-lo. Subo as escadas, décimo andar. Eu não acredito que estou passando por isso agora. Tô cansado, estressado, de péssimo humor, e como se não bastasse a luz da escadaria se apaga. Um breu total. Acho que nesse lance de escadas o sensor de movimento estava estragado. Vou tateando as paredes por alguns minutos, tropeçando nos degraus. Passando as mãos pela parede encontro uma maçaneta, abro a porta. Enfim luz, mas ainda faltavam três andares até o meu. Volto à escadaria e continuo minha subida cega. Até que enfim em casa. Estava ansioso para ver se a mulher estava na janela. Larguei minhas coisas pelo caminho, abri as cortinas e vi. Ela estava lá, parecia me esperar. Senti minha ansiedade ir embora, meu mundo cinza se coloriu. Eu só queria ficar ali na janela olhando pra ela. Peguei o binóculo pra ver os detalhes de seu rosto, mas estava distorcido como uma foto fora de foco. Também, quem manda economizar? Mas podia se ver outros detalhes, como a sala vazia em que ela se encontrava, sua pele branca como a lua, seu cabelo longo e negro como a noite, e uma camisola fina e branca quase transparente mostrando a silhueta esguia. Fico ali admirando. Eu queria estar junto dela, imagino uma vida juntos. Quando de repente o alarme do celular toca. Não acredito! Já tá na hora de sair para o trabalho. Me levanto da cadeira e saio pela porta, afinal nem tirei a roupa que usei ontem. Mais um dia. Discuto com alguém no trabalho, já não me importo com essas pessoas falsas. Eu sei que me odeiam. O meu chefe vem falar comigo se fazendo de amigo. Que piada, eles só querem me usar. A única pessoa que realmente se importa comigo é a mulher da janela. Na hora do almoço pego minhas coisas e vou pra casa. No caminho passo em frente a uma loja onde vejo meu reflexo na vitrine. Estou deteriorando. Quando foi que perdi tanto peso assim? Em casa abro a porta com ansiedade, corro até a janela. Ela está lá. Sempre está lá, me esperando cheia de amor. Amor só meu, eu sei. Minha visão tá embaçada, tá ficando difícil de digitar. Minha boca tá seca, parece que não tenho mais saliva. Já faz três dias que estou em casa. Eu não voltarei para aquele lugar que só quer me afastar dela. Ontem vieram bater na minha porta, era do trabalho. Me chamaram, falaram que só queriam saber se estava tudo bem comigo. Não respondi, fiquei em silêncio. Logo foram embora. Agora posso ficar a sós com ela. Meu peito dói, a respiração está difícil. A mulher parou de aparecer na janela, mas eu vou esperar ela pra sempre, pra sempre aqui na minha janela.

Encontrei essa espécie de diário no smartphone do meu irmão. Vim retirar as coisas dele do apartamento. Não queria estar aqui, onde ele tirou a própria vida. Ele era tudo pra mim. Me culpo por não estar com ele quando mais precisava. Me pergunto quem era a mulher. Paro em frente à janela onde meu querido irmão se enforcou. No prédio vizinho vejo uma mulher. Será que é ela? Agora eu entendo. Ela está olhando pra mim.

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u/Oynak3vo6 — 1 month ago