Crônica: O Estudo das Fezes
O doutor Henrique sempre levou a sério demais aquilo que os seus colegas sempre evitavam. Enquanto os demais corriam atrás de especializações nobilíssimas dentro da medicina — tal como seu melhor amigo, que abrira um renomado consultório de oftalmologia —, ele mergulhava com dedicação científica no estudo das fezes humanas e nas medicinas proctológicas. Quando viu anunciado na internet um curso intensivo de escatologia, não hesitou: "Enfim, um aprofundamento acadêmico sério", pensou.
Chegou cedo à aula inaugural, de jaleco passado e seu caderno em mãos. Estranhou apenas o silêncio solene do auditório. Nenhum microscópio, gráfico intestinal ou amostras à vista... apenas um púlpito e um sujeito de voz grave falando sobre o livro de Apocalipse.
Henrique então aguardou pacientemente a parte prática.
— Professor, uma dúvida — levantou Henrique, ajustando os óculos com seriedade experiente, seriedade que já examinou coisas piores. — Em que momento entramos na análise laboratorial?
O homem no púlpito fez uma pausa. Olhou com compaixão e respondeu com a traiçoeira confiança de que havia entendido a indagação.
— Meu irmão, após o fim desta parte, falaremos um pouco sobre os sinais dos tempos.
Henrique anotou. "Sinais dos tempos = possível correlação com hábitos intestinais coletivos (?)"
A palestra avançava. Era dito sobre bestas, selos, trombetas, cavaleiros. Henrique já estava inquieto. Sem lâmina por perto, nenhuma amostra, ou odor sequer; o que, para ele, já cheirava mal. Embora não da forma esperada.
"Trombetas? Curioso. Possível correlação com flatulência anal por fermentação bacteriana no intestino grosso." — pensou, enquanto anotava.
— E quanto... à consistência? — insistiu, agora um pouco mais aflito. — Há uma padronização? Escala? Classificação?
Um silêncio constrangedor tomou conta do auditório.
— Consistência… da fé — respondeu o palestrante, com certa hesitação.
Henrique sorriu, aliviado. Finalmente estavam entrando em critérios objetivos. Com o passar das horas, a confusão virou método. Ele começou a reinterpretar todas as coisas inicialmente estranhas:
Os "impios" eram, evidentemente, os pacientes com dieta desregulada. O "fogo eterno" soava como um quadro inflamatório severo. E o "juízo final", bom, esse ele ainda estava tentando correlacionar com algum exame conclusivo.
Ao chegar o intervalo, aproximou-se de um grupo.
— Vocês já tiveram acesso às amostras? — indagou, em tom conspiratório.
— Amostras… de quê? — respondeu um dos participantes, desconfiado.
Henrique hesitou. Pela primeira vez, uma dúvida real atravessou sua mente. Olhou ao redor: sem jalecos, ninguém com luvas, nem com aquela expressão resignada de quem já viu o fundo da condição humana em sua forma mais… concreta. Literalmente.
A ficha começou a cair.
— Isso aqui… — ele engoliu seco. — não é sobre fezes, né?
Um dos homens levou a mão ao peito, visivelmente ofendido.
— Isso é algum tipo de deboche?
— Não, não! — Henrique se apressou, já suando. — Eu sou médico, proctologista, na verdade, e me inscrevi no curso de escatologia justamente pelo aprofundamento técnico…
— Técnico?! — interrompeu a senhora, indignada. — O senhor está reduzindo o estudo das últimas coisas a… a… merda?!
— Últimas coisas, sim! Exatamente! — Henrique se animou, achando que finalmente havia encontrado um ponto em comum. — O produto final, o estágio terminal do processo digestivo, completamente de acordo.
— Chega! — disse o homem, agora vermelho. — Isso é um desrespeito!
— Mas eu tenho artigos publicados! — insistiu Henrique, quase implorando. — Posso citar alguns estudos, classificações, escalas de consistência e cor…
— Segurança! — gritou alguém ao fundo, sem nem entender direito o que estava ocorrendo, porém sentindo que era o momento.
Henrique levantou as mãos, acuado.
— Eu só achei que estávamos falando da mesma coisa!
— Estamos falando do fim da humanidade! — respondeu a senhora, escandalizada.
Henrique parou.
— …ah. — Ele tentou sorrir forçadamente. — Há quem diga que são sinônimos.
CANUTO, Wallison.