









Ela não faz jogo de mistério, ela prende em um labirinto e, quando reaparece, sem nunca dar qualquer indício, meu pulmão parece respirar o ar mais puro. Meu corpo reluta para não se entregar, não esquecer os períodos de solidão, as noites de penumbra, as longas horas de agonia. Eu quero fugir, mas não sei se do labirinto ou do que virá assim que ela se entediar e virar as costas. O incerto, repentino e inusitado (porém sempre longo) tempo em que ela abandonava aquele lugar, deixando tudo, especialmente a mim, definhar e lidar com toda raiva, confusão, medo, saudade, tristeza, dúvida, dor, esse indefensável tempo, ainda não bastava para me fazer desistir.
Nossa desconcertante diferença entre nossos sentimentos parecia ser infinitamente melhor se dissimulada a escancarada.
Ainda assim, mesmo após ter sido expulsa do labirinto para que este fosse transformado em um jardim para alguém, eu ainda ouço seu riso. Nos ouço correndo uma atrás da outra. Eu sinto o cheiro do cabelo, eu lembro do charme, da manha, de como seu corpo se mexia. Lembro de infinitas coisas que ela nunca poderia lembrar, já que nunca esteve por completo.
Eu lembro do jeito de mexer no cabelo, em como inclinava o rosto com cara de beijo para me provocar. Lembro das caretas no banheiro e nos seus momentos de loopings de maconha. Não sei quanto tempo teria um filme das minhas memórias. Mal saberia por onde começar. Começar pelos pés seria um deboche. Iniciar pelo cabelo, inescrupuloso. Penso que só não amava mais seu cabelo de costas, porque lembro detalhadamente como era vê-la por cima de mim com aquele cabelo emoldurando tão perfeitamente o rosto que não parecia real.
Gostava das mãos dela, mas agora as vejo diferente. Mesmo com toda estranheza e pesar, não esqueci nem por um minuto da sensação de tocar, da construção das juntas e o formato dos dedos que afunilam levemente nas pontas. Eu queria e poderia falar de cada de cada detalhe, principalmente os sutis. Queria acima de tudo, se não fosse inevitável saber sobre sua existência, ao menos esquecer. Soterrar tudo que você pareceu ser e nunca mais dar tudo de mim, pra alguém que pra qualquer um deu o que tinha de si.
Ela não faz jogo de mistério, ela prende em um labirinto e, quando reaparece, sem nunca dar qualquer indício, meu pulmão parece respirar o ar mais puro. Meu corpo reluta para não se entregar, não esquecer os períodos de solidão, as noites de penumbra, as longas horas de agonia. Eu quero fugir, mas não sei se do labirinto ou do que virá assim que ela se entediar e virar as costas. O incerto, repentino e inusitado (porém sempre longo) tempo em que ela abandonava aquele lugar, deixando tudo, especialmente a mim, definhar e lidar com toda raiva, confusão, medo, saudade, tristeza, dúvida, dor, esse indefensável tempo, ainda não bastava para me fazer desistir.
Nossa desconcertante diferença entre nossos sentimentos parecia ser infinitamente melhor se dissimulada a escancarada.
Ainda assim, mesmo após ter sido expulsa do labirinto para que este fosse transformado em um jardim para alguém, eu ainda ouço seu riso. Nos ouço correndo uma atrás da outra. Eu sinto o cheiro do cabelo, eu lembro do charme, da manha, de como seu corpo se mexia. Lembro de infinitas coisas que ela nunca poderia lembrar, já que nunca esteve por completo.
Eu lembro do jeito de mexer no cabelo, em como inclinava o rosto com cara de beijo para me provocar. Lembro das caretas no banheiro e nos seus momentos de loopings de maconha. Não sei quanto tempo teria um filme das minhas memórias. Mal saberia por onde começar. Começar pelos pés seria um deboche. Iniciar pelo cabelo, inescrupuloso. Penso que só não amava mais seu cabelo de costas, porque lembro detalhadamente como era vê-la por cima de mim com aquele cabelo emoldurando tão perfeitamente o rosto que não parecia real.
Gostava das mãos dela, mas agora as vejo diferente. Mesmo com toda estranheza e pesar, não esqueci nem por um minuto da sensação de tocar, da construção das juntas e o formato dos dedos que afunilam levemente nas pontas. Eu queria e poderia falar de cada de cada detalhe, principalmente os sutis. Queria acima de tudo, se não fosse inevitável saber sobre sua existência, ao menos esquecer. Soterrar tudo que você pareceu ser e nunca mais dar tudo de mim, pra alguém que pra qualquer um deu o que tinha de si.
E foi exatamente assim.
23/05, eu vagando só, você em seu almoço descontraído, minhas lágrimas molhando a Bela Vista, e essa cabeça escancarando a esquisitice. Nessa véspera de aniversário, senti ser eu mesma a essência da tal cabeça tão deslocada, quase inconveniente, com sua expressão triste, em um lugar onde um dia deve ter sido feliz.