A carreira acadêmica é aristocrática. Aceite a realidade
Max Weber, na conferência "A Ciência como Vocação", que ele publicou em 1919, mostrava como a carreira científica daquele tempo era explicitamente voltada para quem tinha meios de viver sem necessidade de renda.
Naquele tempo, o recém-habilitado (na Alemanha, tem um segundo doutorado, a Habilitação), quando aprovada a defesa, ingressava como privatdozent, professor universitário sem salário regular, podendo receber apenas taxas universitárias dos alunos que se matriculavam em seus cursos, que, evidentemente, era uma remuneração muito inferior ao necessário para ter uma vida de classe média naquele tempo. Não havia salário regular. Desses privatdozents, se conseguisse ser bem relacionado e ter sorte, um percentual relativamente pequeno se transformava em professor ordinário, com salário fixo.
Dizia Max Weber que lhe era dito explicitamente que a pesquisa é a busca desinteressada da ciência e que, para quem entrava nesse microcosmo, o comércio e as carreiras práticas eram consideradas inferiores. Se você não é rentista rico, não tem o que fazer aqui.
Qual a diferença entre a carreira acadêmica no Brasil em 2026 e na Alemanha de 1919?
Resposta: nenhuma.
Demora-se muito tempo para se formar, com bolsas relativamente baixas, e depois, tem uma longa espera por abrir uma vaga numa universidade e a maioria fica pelo caminho.
Sim, a carreira acadêmica é aristocrática. É feita para gente que tem meios de se sustentar sem depender de salário. A única diferença é que isso era explícito há 100 anos atrás e hoje se mente com argumento de "meritocracia".
Há chance de isso mudar? Olhe os presidenciáveis e me diga se, quando eles se sentarem na cadeira, vão ser melhores do que o que temos. Não cabe aqui falar de política, mas teremos décadas de governo abertamente conservador e anti-intelectual.
Mais ainda para grupos menorizados desfavorecidos. Se já vive na precariedade, tem menos motivo ainda para tentar uma carreira aristocrática. Nesse sentido, a cota no ingresso é um engodo: se você veio de uma origem precária, vai defender e retornar para a mesma situação de onde veio.
Pessoalmente, entrei no mestrado e desisti em 2010, quando já via, na minha área, recém-doutores que ficavam 1, 2, 4 anos esperando uma vaga. Isso no auge do REUNI.
É pessimista? Sim, é, mas consegui resistir à pressão familiar e não ir adiante e hoje estou em situação profissional melhor do que se tivesse continuado.
O que acham? Estou enganado.