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Um dia em branco — PARTE I

Após meia hora de luta interna para ganhar coragem, consegui finalmente levantar-me da cama.

A noite fora mal dormida, inquieta, pesada. O corpo parecia colado ao colchão, espalmado pelo cansaço.

A luz que se infiltrava pelas frinchas da persiana denunciava um dia cinzento, baço, mas nada fazia prever o que me aguardava quando puxei o estore.

— Que nevoeirada…

Lá fora, o mundo desaparecera.

Não se via nada.

Absolutamente nada.

Fui tomar o pequeno-almoço, tentando afastar a estranheza daquela manhã suspensa. Quando terminei, porém, tudo permanecia igual — um vazio branco a engolir a rua.

— Hoje não vai ser fácil…

Arranjei-me para a entrevista de emprego marcada para o final da manhã.

Escolhi o meu melhor fato, de corte italiano, impecável.

A camisa branca realçava-lhe a elegância, e a gravata preta, fina, dava-lhe um ar clássico, mas seguro, contemporâneo.

Faltavam os sapatos.

Pretos, discretos, profissionais.

Os certos.

Diante do espelho, observei-me com atenção.

— Que categoria… — pensei, sentindo um sorriso insinuar-se.

— Casava contigo.

Saí confiante.

Mas, ao abrir a porta, o nevoeiro cerrado permanecia, impenetrável.

Não se via um palmo à

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u/LamentationsWall — 5 days ago
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RELÂMPAGO KANE - PARTE IV

Depois de um resto de noite de sono, acordei lentamente e fui ter com Kane ao saloon.

Lá dentro, o grupo já se reunia como fazia todos os dias.

O Relâmpago passava os olhos por todos, sério, como se estivesse sempre a antecipar o pior.

— Hoje não podemos falhar — disse ele. — Estão a cercar a cidade.

— E se vierem por este lado? — perguntou um dos homens, inquieto.

Kane ia responder quando as portas do saloon se escancararam de rompante.

Um homem entrou a cambalear, de olhos arregalados, em choque.

— O banco… estão a assaltar o banco da cidade! Estão lá dentro! — gritou, apontando para fora.

Mudou tudo num instante.

Saímos a correr.

Montámos os cavalos à pressa e, sem olhar para trás, desaparecemos na poeira.

Quando chegámos ao banco, os bandidos já estavam prontos para fugir.

— Vamos! Não os deixem escapar! — instruiu Kane.

E começou a perseguição.

Entrámos nas montanhas a disparar.

Os bandidos iam na frente, a abrir caminho.

Nós colados atrás deles.

E não éramos os únicos.

Pelas encostas, surgiam também os 'justiceiros', acompanhando-nos à distância.

A alta velocidade, um dos bandidos virou-se e disparou.

A bala acertou-me de raspão.

Travei o Thor de forma brusca.

Ele relinchou.

— Estás bem?! — gritou Kane, continuando a cavalgar.

— Vai! Não pares! — respondi em voz alta.

Kane hesitou e abrandou.

— Não te deixo para trás.

Era a segunda vez que ele dizia aquilo. Da primeira, tinha-me salvo a vida.

Desistiu da perseguição e veio na minha direção.

— Respira — disse ele, aproximando-se. — Deixa-me ver isso.

No preciso momento em que estava a desmontar o cavalo, foi atingido por um tiro certeiro nas costas.

Primeiro ajoelhou-se… depois tombou.

Saltei imediatamente do Thor — até me esqueci do braço.

— Kane… Kane... — abanava-o, enquanto lhe dava umas palmadas na cara.

Mas não houve resposta.

O olhar dele já não estava ali.

Em choque, caí sobre ele a chorar compulsivamente.

Cinco minutos depois, já mais calmo, mas ainda lavado em lagrimas, levantei-me.

Nesse instante, percebi que estava rodeado por armas apontadas.

Alguns bounty hunters tinham-nos seguido desde a cidade, à espera da sua oportunidade.

Não havia saída...

FIM

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u/LamentationsWall — 7 days ago
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RELÂMPAGO KANE - PARTE III

Voei até Abilene.

Saí logo ao amanhecer, sozinho, mas determinado.

Cavalguei dia e noite pelas planícies do Kansas, cruzei rios gelados, ultrapassei tempestades...

Dormia minutos encostado a pedras, de revólver na mão, enquanto ouviam-se os coiotes a uivar, atentos à minha presença

Quando o meu cavalo começava a ceder, a ideia de Kane cair numa emboscada empurrava-me sempre mais longe.

Fiz a viagem em oito dias — Thor chegou esgotado.

Só esperava encontrar Kane a tempo de evitar qualquer tragédia.

Quando cheguei a Abilene e o vi bem, não contive a emoção

Mas também o alertei para os perigos que poderiam estar por vir.

— Não te preocupes... — desvalorizou

Sabendo que estava ali, fiel a Kane, o xerife Wyatt ofereceu-me um sítio onde ficar e levou-me até à estalagem local — o Relâmpago também estava lá hospedado.

— Anda!

Kane veio connosco.

Cheguei ao meu novo abrigo.

O xerife abriu-me a porta.

Era um quarto pequeno, simples.

Com uma mesa de madeira, torta, e uma lamparina em cima.

A cama tinha um colchão fino, já gasto pelo tempo.

Depois daquela viagem, não me podia queixar.

Agradeci e aproveitei para descansar um pouco.

— Descansa. Amanhã, a meio da manhã vem ter ao saloon para definir o plano do dia — disse Kane

Ali tinha de ser assim, dia a dia.

Despertei às quatro da manhã.

Sem referências, liguei a lamparina para me orientar.

Primeiro, o estalo seco do fósforo.

A luz nasceu tímida e, em segundos, ganhou corpo.

Sentei-me à mesa e enrolei um cigarro.

Ainda meio perdido no meu cantinho, fui lá fora fumar para tomar o pulso ao lugar.

Amarrado ao varão da estalagem, Thor dormia de pé.

Devia estar de rastos, coitadinho.

Acendi o cigarro e, entre baforadas, havia momentos em que me sentia observado.

— Serão 'justiceiros'? — pensava.

Senti um arrepio na espinha.

Cada trago iluminava o meu rosto, antes de tudo voltar a mergulhar numa imensa escuridão.

Só o brilho da ponta do cigarro dava sinal de vida, ali.

Começaram a queimar os dedos, deixei cair e esmaguei o que ainda restava com a sola das minhas botas contra o chão.

(...)

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u/LamentationsWall — 9 days ago
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RELÂMPAGO KANE - PARTE II

Fez-se silêncio — parecia que o professor tinha entrado na sala de aula.

Eu e Kane mantivemo-nos cara a cara, olhando fixamente nos olhos um do outro.

Até que duvidei em voz alta:

— Kane?

— Red Jack? — em tempos, fora a minha alcunha...

Demos um forte e longo abraço.

— Conhecem-se? — até o xerife Wyatt se espantou.

Kane soltou uma gargalhada curta.

— Já não via este desgraçado há anos...

— Outras vidas... — rimo-nos.

Kane salvara-me a vida anos antes, num assalto falhado a um comboio carregado de ouro e prata.

Esse episódio foi suficiente para me afastar do mundo do crime.

— Estás diferente! — notei. — Cortaste o bigode... Pareces mais novo. — sorri.

— Ossos do ofício...

— O que andas por aqui a fazer?

O xerife Wyatt intrometeu-se na nossa conversa.

Sentiu-se à vontade para partilhar comigo a verdadeira razão de o procurado Kane estar ali.

Tinha feito um acordo com ele.

Apesar da elevada recompensa oferecida por várias companhias ferroviárias e bancos, Wyatt comprometera-se a não o deter em troca de ele ajudar a manter a ordem em Abilene.

Em vésperas de eleições, e com a popularidade em baixa devido à recente onda de crimes, Wyatt queria tornar a sua cidade na mais segura do Velho Oeste.

Achava que o respeito pela autoridade do lendário Kane poderia ser um trunfo.

A verdade é que a estratégia funcionou e, em dois dias, a taxa de criminalidade baixou drasticamente.

E, muitas vezes, Kane nem precisou de tirar o revólver do coldre.

Bastava, simplesmente, a sua presença.

No entanto, as notícias de que o Relâmpago estava em Abilene espalharam-se rapidamente por toda a América.

Em St. Louis, já se falava de vários grupos de bounty hunters (caçadores de recompensas) a caminhos do Texas.

Todos determinados a matá-lo.

Precisava de chegar lá o quanto antes.

A viagem era longa.

Não havia tempo a perder.

Devia-lhe a vida.

(...)

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u/LamentationsWall — 11 days ago
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RELÂMPAGO KANE - PARTE I

Cheguei à cidade a meio da tarde.

Apeei-me sem pressa e prendi o cavalo ao varão, junto dos outros.

Eram para aí dez, talvez mais...

À porta estava o xerife, recostado numa cadeira de balanço, a cortar as unhas dos pés com uma faca.

Tinha um palito na boca e o chapéu quase a tapar-lhe os olhos.

Quando passei, senti o seu olhar de lado, lento, a acompanhar-me, como quem pensava: “Quem é este tipo?”

— Bom dia. — cumprimentei-o.

Aí sim.

Lançou-me um olhar fulminante durante um segundo demasiado longo, mas não devolveu.

A sua estrela de xerife brilhava-lhe orgulhosamente ao peito.

Não me intimidei.

Entrei confiante pelas portas vai-e-vem.

Todos os olhares viraram na minha direção.

Pareciam pistolas.

Segui calmamente em direção ao balcão.

— Um whisky.

— Com certeza...

Serviram-no num copo pequeno.

Bebi-o de uma só vez.

A garganta ficou a arder.

Bati o copo no balcão.

— Outro — pedi, num tom alto e seco.

O empregado serviu-me e voltei a beber sem nada a perder.

Deixei o silêncio crescer outra vez, como se fosse parte do whisky.

— Sabe onde posso encontrar o Relâmpago Kane? — perguntei, ainda com o ardor carregado da destilaria do Tennessee.

— Dizem que ele derrubou três homens sem ninguém ver o movimento — alguém sussurrou ao balcão.

Não virei a cabeça.

Só ouvi.

Desde então, a sua fama de pistoleiro espalhara-se para lá do Texas.

O empregado hesitou em responder.

E, antes que tivesse tempo de dizer qualquer coisa, foi o próprio Relâmpago Kane a vir ter comigo.

— Está à minha procura?

Alguns clientes ficaram em choque ao saberem que a lenda existia verdadeiramente...

Virei-me.

O gigante Relâmpago Kane enchia o espaço.

Foi como se o salão tivesse ficado mais pequeno.

Quase dois metros de altura, chapéu gasto, olhar frio, roupa de couro marcada pelo sol e poeiras das longas temporadas no deserto.

Antes que alguém quebrasse o silêncio, a porta voltou a abrir.

O xerife entrou no salão.

(...)

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u/LamentationsWall — 12 days ago
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Museu dos buracos

Nunca tinha ouvido falar, mas hoje fiquei a saber que existem colecionadores de… buracos.

Sim, ouviste bem!

Buracos!!!

A história foi a seguinte:

Fui tomar café de manhã e reparei que finalmente começaram a arranjar a estrada do cruzamento lá ao lado.

Aquilo já estava sinalizado há mais de um mês… mas ninguém lhe pegava.

Era só buracos com gravilha…

Parecia um campo minado.

Estiveram à espera da chuva…

É mesmo à portuguesa.

Nisto, passa uma Mitsubishi Canter antiga e acerta em cheio num buraco ao lado daqueles que estavam a ser arranjados.

Que estouro.

A carrinha até saltou e, por um segundo, achei que a caixa aberta ia mesmo descolar.

Nem sei como não rebentaram os pneus.

O pessoal no café até se assustou…

O condutor parou uns metros mais à frente, sai devagar e rodeou a carrinha para ver se tinha estragos.

Quando ele começa a vir em direção ao encarregado da obra, o pessoal começa a sair para fora, na expectativa de ver confusão.

E diz ele:

— Boa tarde, amigo. Dá-me um segundo?

— Diga…

— Olhe, vou confessar-lhe uma coisa estranha, mas sou colecionador de buracos.

— Buracos?! — interrompeu o encarregado, tão espantado como tu agora… e como eu fiquei.

— Sim, sim. Ia agora almoçar, mas não pude deixar de reparar naquele buraco ali — disse, apontando para o mesmo em que acabara de bater.

— Aquele ali?

— Esse mesmo. Posso ficar com ele?

O encarregado olha para o buraco.

Depois para o homem.

Depois para mim, como se eu tivesse alguma responsabilidade naquilo.

— Ó amigo, mas isso está cheio de água…

— Não faz mal. Tenho ali uma bomba de água na carrinha. Tiro isso num instante. Posso levar?

— P… p… pode — respondeu o encarregado, encolhendo os ombros, num misto de estupefação e indiferença.

— Mas como é que vai tirá-lo dali?

— Não se preocupe. Vou só buscar a carrinha.

Achei que o tipo estava a gozar.

Mas não.

Foi buscá-la, tirou a água e, com umas ferramentas esquisitas que nunca tinha visto na vida, começou a “recortar” o buraco.

Com a precisão de quem tira uma peça rara de arqueologia.

Agora o homem pega num aro dourado e coloca à volta do buraco.

Com um pop sonoro completamente absurdo… o buraco sai do chão.

E meus amigos… ele levanta o buraco.

Inteiro.

Orgulhoso.

Mete-o na caixa da carrinha como se fosse um troféu.

— Já tenho o de 1998 em Alenquer, um magnífico exemplar com 12 centímetros de profundidade e ligeira inclinação à esquerda. Raríssimo. Mas este é especial.

Até eu já estava a achar aquilo tudo surreal.

— Chefe, obrigadinho. Devo alguma coisa?

— Não… não… vá à sua vida — diz o encarregado, numa espécie de estado entre o choque.

O colecionador arranca.

O buraco escorrega e cai da carrinha.

Bate no chão e por pouco não se parte.

O homem trava a fundo, mete marcha-atrás, determinado a salvar a sua peça rara.

E é aí que a carrinha… cai no buraco.

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u/LamentationsWall — 12 days ago