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Após meia hora de luta interna para ganhar coragem, consegui finalmente levantar-me da cama.
A noite fora mal dormida, inquieta, pesada. O corpo parecia colado ao colchão, espalmado pelo cansaço.
A luz que se infiltrava pelas frinchas da persiana denunciava um dia cinzento, baço, mas nada fazia prever o que me aguardava quando puxei o estore.
— Que nevoeirada…
Lá fora, o mundo desaparecera.
Não se via nada.
Absolutamente nada.
Fui tomar o pequeno-almoço, tentando afastar a estranheza daquela manhã suspensa. Quando terminei, porém, tudo permanecia igual — um vazio branco a engolir a rua.
— Hoje não vai ser fácil…
Arranjei-me para a entrevista de emprego marcada para o final da manhã.
Escolhi o meu melhor fato, de corte italiano, impecável.
A camisa branca realçava-lhe a elegância, e a gravata preta, fina, dava-lhe um ar clássico, mas seguro, contemporâneo.
Faltavam os sapatos.
Pretos, discretos, profissionais.
Os certos.
Diante do espelho, observei-me com atenção.
— Que categoria… — pensei, sentindo um sorriso insinuar-se.
— Casava contigo.
Saí confiante.
Mas, ao abrir a porta, o nevoeiro cerrado permanecia, impenetrável.
Não se via um palmo à
Depois de um resto de noite de sono, acordei lentamente e fui ter com Kane ao saloon.
Lá dentro, o grupo já se reunia como fazia todos os dias.
O Relâmpago passava os olhos por todos, sério, como se estivesse sempre a antecipar o pior.
— Hoje não podemos falhar — disse ele. — Estão a cercar a cidade.
— E se vierem por este lado? — perguntou um dos homens, inquieto.
Kane ia responder quando as portas do saloon se escancararam de rompante.
Um homem entrou a cambalear, de olhos arregalados, em choque.
— O banco… estão a assaltar o banco da cidade! Estão lá dentro! — gritou, apontando para fora.
Mudou tudo num instante.
Saímos a correr.
Montámos os cavalos à pressa e, sem olhar para trás, desaparecemos na poeira.
Quando chegámos ao banco, os bandidos já estavam prontos para fugir.
— Vamos! Não os deixem escapar! — instruiu Kane.
E começou a perseguição.
Entrámos nas montanhas a disparar.
Os bandidos iam na frente, a abrir caminho.
Nós colados atrás deles.
E não éramos os únicos.
Pelas encostas, surgiam também os 'justiceiros', acompanhando-nos à distância.
A alta velocidade, um dos bandidos virou-se e disparou.
A bala acertou-me de raspão.
Travei o Thor de forma brusca.
Ele relinchou.
— Estás bem?! — gritou Kane, continuando a cavalgar.
— Vai! Não pares! — respondi em voz alta.
Kane hesitou e abrandou.
— Não te deixo para trás.
Era a segunda vez que ele dizia aquilo. Da primeira, tinha-me salvo a vida.
Desistiu da perseguição e veio na minha direção.
— Respira — disse ele, aproximando-se. — Deixa-me ver isso.
No preciso momento em que estava a desmontar o cavalo, foi atingido por um tiro certeiro nas costas.
Primeiro ajoelhou-se… depois tombou.
Saltei imediatamente do Thor — até me esqueci do braço.
— Kane… Kane... — abanava-o, enquanto lhe dava umas palmadas na cara.
Mas não houve resposta.
O olhar dele já não estava ali.
Em choque, caí sobre ele a chorar compulsivamente.
Cinco minutos depois, já mais calmo, mas ainda lavado em lagrimas, levantei-me.
Nesse instante, percebi que estava rodeado por armas apontadas.
Alguns bounty hunters tinham-nos seguido desde a cidade, à espera da sua oportunidade.
Não havia saída...
FIM
Voei até Abilene.
Saí logo ao amanhecer, sozinho, mas determinado.
Cavalguei dia e noite pelas planícies do Kansas, cruzei rios gelados, ultrapassei tempestades...
Dormia minutos encostado a pedras, de revólver na mão, enquanto ouviam-se os coiotes a uivar, atentos à minha presença
Quando o meu cavalo começava a ceder, a ideia de Kane cair numa emboscada empurrava-me sempre mais longe.
Fiz a viagem em oito dias — Thor chegou esgotado.
Só esperava encontrar Kane a tempo de evitar qualquer tragédia.
Quando cheguei a Abilene e o vi bem, não contive a emoção
Mas também o alertei para os perigos que poderiam estar por vir.
— Não te preocupes... — desvalorizou
Sabendo que estava ali, fiel a Kane, o xerife Wyatt ofereceu-me um sítio onde ficar e levou-me até à estalagem local — o Relâmpago também estava lá hospedado.
— Anda!
Kane veio connosco.
Cheguei ao meu novo abrigo.
O xerife abriu-me a porta.
Era um quarto pequeno, simples.
Com uma mesa de madeira, torta, e uma lamparina em cima.
A cama tinha um colchão fino, já gasto pelo tempo.
Depois daquela viagem, não me podia queixar.
Agradeci e aproveitei para descansar um pouco.
— Descansa. Amanhã, a meio da manhã vem ter ao saloon para definir o plano do dia — disse Kane
Ali tinha de ser assim, dia a dia.
Despertei às quatro da manhã.
Sem referências, liguei a lamparina para me orientar.
Primeiro, o estalo seco do fósforo.
A luz nasceu tímida e, em segundos, ganhou corpo.
Sentei-me à mesa e enrolei um cigarro.
Ainda meio perdido no meu cantinho, fui lá fora fumar para tomar o pulso ao lugar.
Amarrado ao varão da estalagem, Thor dormia de pé.
Devia estar de rastos, coitadinho.
Acendi o cigarro e, entre baforadas, havia momentos em que me sentia observado.
— Serão 'justiceiros'? — pensava.
Senti um arrepio na espinha.
Cada trago iluminava o meu rosto, antes de tudo voltar a mergulhar numa imensa escuridão.
Só o brilho da ponta do cigarro dava sinal de vida, ali.
Começaram a queimar os dedos, deixei cair e esmaguei o que ainda restava com a sola das minhas botas contra o chão.
(...)
Fez-se silêncio — parecia que o professor tinha entrado na sala de aula.
Eu e Kane mantivemo-nos cara a cara, olhando fixamente nos olhos um do outro.
Até que duvidei em voz alta:
— Kane?
— Red Jack? — em tempos, fora a minha alcunha...
Demos um forte e longo abraço.
— Conhecem-se? — até o xerife Wyatt se espantou.
Kane soltou uma gargalhada curta.
— Já não via este desgraçado há anos...
— Outras vidas... — rimo-nos.
Kane salvara-me a vida anos antes, num assalto falhado a um comboio carregado de ouro e prata.
Esse episódio foi suficiente para me afastar do mundo do crime.
— Estás diferente! — notei. — Cortaste o bigode... Pareces mais novo. — sorri.
— Ossos do ofício...
— O que andas por aqui a fazer?
O xerife Wyatt intrometeu-se na nossa conversa.
Sentiu-se à vontade para partilhar comigo a verdadeira razão de o procurado Kane estar ali.
Tinha feito um acordo com ele.
Apesar da elevada recompensa oferecida por várias companhias ferroviárias e bancos, Wyatt comprometera-se a não o deter em troca de ele ajudar a manter a ordem em Abilene.
Em vésperas de eleições, e com a popularidade em baixa devido à recente onda de crimes, Wyatt queria tornar a sua cidade na mais segura do Velho Oeste.
Achava que o respeito pela autoridade do lendário Kane poderia ser um trunfo.
A verdade é que a estratégia funcionou e, em dois dias, a taxa de criminalidade baixou drasticamente.
E, muitas vezes, Kane nem precisou de tirar o revólver do coldre.
Bastava, simplesmente, a sua presença.
No entanto, as notícias de que o Relâmpago estava em Abilene espalharam-se rapidamente por toda a América.
Em St. Louis, já se falava de vários grupos de bounty hunters (caçadores de recompensas) a caminhos do Texas.
Todos determinados a matá-lo.
Precisava de chegar lá o quanto antes.
A viagem era longa.
Não havia tempo a perder.
Devia-lhe a vida.
(...)
Cheguei à cidade a meio da tarde.
Apeei-me sem pressa e prendi o cavalo ao varão, junto dos outros.
Eram para aí dez, talvez mais...
À porta estava o xerife, recostado numa cadeira de balanço, a cortar as unhas dos pés com uma faca.
Tinha um palito na boca e o chapéu quase a tapar-lhe os olhos.
Quando passei, senti o seu olhar de lado, lento, a acompanhar-me, como quem pensava: “Quem é este tipo?”
— Bom dia. — cumprimentei-o.
Aí sim.
Lançou-me um olhar fulminante durante um segundo demasiado longo, mas não devolveu.
A sua estrela de xerife brilhava-lhe orgulhosamente ao peito.
Não me intimidei.
Entrei confiante pelas portas vai-e-vem.
Todos os olhares viraram na minha direção.
Pareciam pistolas.
Segui calmamente em direção ao balcão.
— Um whisky.
— Com certeza...
Serviram-no num copo pequeno.
Bebi-o de uma só vez.
A garganta ficou a arder.
Bati o copo no balcão.
— Outro — pedi, num tom alto e seco.
O empregado serviu-me e voltei a beber sem nada a perder.
Deixei o silêncio crescer outra vez, como se fosse parte do whisky.
— Sabe onde posso encontrar o Relâmpago Kane? — perguntei, ainda com o ardor carregado da destilaria do Tennessee.
— Dizem que ele derrubou três homens sem ninguém ver o movimento — alguém sussurrou ao balcão.
Não virei a cabeça.
Só ouvi.
Desde então, a sua fama de pistoleiro espalhara-se para lá do Texas.
O empregado hesitou em responder.
E, antes que tivesse tempo de dizer qualquer coisa, foi o próprio Relâmpago Kane a vir ter comigo.
— Está à minha procura?
Alguns clientes ficaram em choque ao saberem que a lenda existia verdadeiramente...
Virei-me.
O gigante Relâmpago Kane enchia o espaço.
Foi como se o salão tivesse ficado mais pequeno.
Quase dois metros de altura, chapéu gasto, olhar frio, roupa de couro marcada pelo sol e poeiras das longas temporadas no deserto.
Antes que alguém quebrasse o silêncio, a porta voltou a abrir.
O xerife entrou no salão.
(...)
Nunca tinha ouvido falar, mas hoje fiquei a saber que existem colecionadores de… buracos.
Sim, ouviste bem!
Buracos!!!
A história foi a seguinte:
Fui tomar café de manhã e reparei que finalmente começaram a arranjar a estrada do cruzamento lá ao lado.
Aquilo já estava sinalizado há mais de um mês… mas ninguém lhe pegava.
Era só buracos com gravilha…
Parecia um campo minado.
Estiveram à espera da chuva…
É mesmo à portuguesa.
Nisto, passa uma Mitsubishi Canter antiga e acerta em cheio num buraco ao lado daqueles que estavam a ser arranjados.
Que estouro.
A carrinha até saltou e, por um segundo, achei que a caixa aberta ia mesmo descolar.
Nem sei como não rebentaram os pneus.
O pessoal no café até se assustou…
O condutor parou uns metros mais à frente, sai devagar e rodeou a carrinha para ver se tinha estragos.
Quando ele começa a vir em direção ao encarregado da obra, o pessoal começa a sair para fora, na expectativa de ver confusão.
E diz ele:
— Boa tarde, amigo. Dá-me um segundo?
— Diga…
— Olhe, vou confessar-lhe uma coisa estranha, mas sou colecionador de buracos.
— Buracos?! — interrompeu o encarregado, tão espantado como tu agora… e como eu fiquei.
— Sim, sim. Ia agora almoçar, mas não pude deixar de reparar naquele buraco ali — disse, apontando para o mesmo em que acabara de bater.
— Aquele ali?
— Esse mesmo. Posso ficar com ele?
O encarregado olha para o buraco.
Depois para o homem.
Depois para mim, como se eu tivesse alguma responsabilidade naquilo.
— Ó amigo, mas isso está cheio de água…
— Não faz mal. Tenho ali uma bomba de água na carrinha. Tiro isso num instante. Posso levar?
— P… p… pode — respondeu o encarregado, encolhendo os ombros, num misto de estupefação e indiferença.
— Mas como é que vai tirá-lo dali?
— Não se preocupe. Vou só buscar a carrinha.
Achei que o tipo estava a gozar.
Mas não.
Foi buscá-la, tirou a água e, com umas ferramentas esquisitas que nunca tinha visto na vida, começou a “recortar” o buraco.
Com a precisão de quem tira uma peça rara de arqueologia.
Agora o homem pega num aro dourado e coloca à volta do buraco.
Com um pop sonoro completamente absurdo… o buraco sai do chão.
E meus amigos… ele levanta o buraco.
Inteiro.
Orgulhoso.
Mete-o na caixa da carrinha como se fosse um troféu.
— Já tenho o de 1998 em Alenquer, um magnífico exemplar com 12 centímetros de profundidade e ligeira inclinação à esquerda. Raríssimo. Mas este é especial.
Até eu já estava a achar aquilo tudo surreal.
— Chefe, obrigadinho. Devo alguma coisa?
— Não… não… vá à sua vida — diz o encarregado, numa espécie de estado entre o choque.
O colecionador arranca.
O buraco escorrega e cai da carrinha.
Bate no chão e por pouco não se parte.
O homem trava a fundo, mete marcha-atrás, determinado a salvar a sua peça rara.
E é aí que a carrinha… cai no buraco.