R. Augusta n° 633
Sentei-me à mesa e olhei a multidão no desce e sobe. Por lá, o intercâmbio dos estrangeiros de fora e os estrangeiros de dentro é sem fronteiras. A metafísica desse silêncio taciturno é o sustentador do litrão! Ao encher o copo, assobiei "Blue in green". Que sede de outro mundo! Sequiosamente desvairado, calculo as vindas e idas dos transeuntes: são dez. Mentira! São...Sim! São dez! São...Diabo que se ocupe disso! Quero outro litrão, sra. chinesa. Sou marginal. Sou surrado, dona senhora. Sou um cão de porta largado. Cão sem coleira!
Obstinado, ainda sentado, observo o colega de outra mesa. Entre mesas nos entreolhamos no constrangimento do silêncio assentido. Aquele da "beiçadas" no copo descartável contrastado de coca líquida gelada, curiosamente, mantém o volume.
Frívolo nesse silêncio insignificante, ergo-me de coração sóbrio e alma embebida pelas limitações da carne; assim como dizem: "a carne é fraca". Sucumbi aos prazeres imediatos travestidos de solução ao transbordo do espírito inquieto.
Mas observo esse copo vazio e compreendo seu limite, sua dependência.
Quero dizer, aceito e compreendo tudo: o dia; a noite; o calor; o frio; a dor. Porém, indigestamente, não aceito a rítmica do "sim" elaborado "'coletivamente'". Quero dizer, transgrediram a humanidade pisoteada. Será que era um ideal de vingança? Será que é transtorno? Ou ainda: será que é teste?
À medida que conjecturo, abafo a noite com promessas desregradas. Entretanto, pisotear meu ombro é alcançar à barbárie. Chega! Gozar, para Lacan, deve ser o ápice, mas não irei sucumbir. Reter-me-ei à repressão de Sigmund.