
Sincretismos de Arton #66: Hynnin+Kallyadranoch
Hynnin+Kallyadranoch
Os Dragunos do Shizarad
“O malabarista tem a mente em quatro objetos: os bastões no ar, o sorriso no rosto, o coração do público e o rancor do regente” – Callidix, bobo-da-corte sckharjagar
Ghallistrix é a capital de Sckharshantallas, o território do dragão-rei Sckhar, mas a cidade de Durtras é o seu palco político. É para lá que vão os nobres negociar acordos e favores. Entre concílios, reuniões e festas nababescas, tornam-se quase prisioneiros do majestoso palácio Shizarad, onde espera-se que façam morada e participem sem pausas da vida cortesã. O mestre de toda a intriga palaciana é Khaltass, governador da província e filho de Sckhar. Seu pai é o deus e monarca absoluto do país, e deixa que seus filhos governem os assuntos menores – talvez por desinteresse ou por divertir-se vendo-os disputar sua atenção. Nesse ilusório vácuo de poder, Khaltass tomou a política da nobreza para si, e observa de perto todos os possíveis rivais.
O Shizarad é sempre ocupado por centenas de nobres sckharjagar e seus respectivos séquitos. Uns moram lá por algumas semanas, enquanto negociam questões específicas, mas boa parte decide ficar permanentemente, com medo de perder espaço no jogo político. Trazem com eles seus médicos de confiança, escribas, guarda-costas e seus bobos-da-corte. E são tantos bobos, entre os contratados pelo palácio, os dos nobres que permanecem e os que chegam e saem, e mesmo os que buscam um patrono nas grandes festas, que não há quem possa conhecê-los todos. Esses saltimbancos, muitos deles deficientes, muito velhos ou muito feios, dotados de excentricidades pessoais ridículas, recebem todo tipo de atribuição servil quando não estão atuando, de ajudar na cozinha a limpar penicos. Como qualquer bobo é praticamente um servo do palácio, nas condições certas qualquer servo já é quase um bobo. O limite entre os pobres feios e os pobres engraçados não é claro.
É uma situação favorável para uma infiltração. Pois entram os Dragunos do Shizarad.
Organização. Nenhum dragão, e quase nenhum deus, é permitido em Schkarshantallas, com exceção do próprio rei Sckhar. O culto a Kallyadranoch é o mais perseguido de todos. Um grupo de dragões zombeteiros decidiu que sabotar o experimento arrogante de Sckhar valia mais que suas próprias vidas. São dragões dos ventos, vindos de todas as partes, em peregrinação para ensinar ao dragão-rei um pouco de respeito a Kallyadranoch; dragões feéricos vindos da Pondsmânia; dragões de Trebuck e das Montanhas Sanguinárias, expulsos de seus territórios por monstros maiores ou humanos, buscando em Sckharshantallas uma oportunidade de poder. Não se sabe se alguma vez se reuniram para traçar seus planos, mas têm um método e um objetivo em comum: com sua habilidade mágica de tomarem forma humana, assumem o papel de bobos-da-corte, infiltram-se na nobreza do reino do dragão e buscam desestabilizar o regime por dentro.
Atividades. Dragões vivem muito, e os Dragunos não têm pressa. Alguns vivem anos como o idiota da vila, até que chamem a atenção de um nobre bêbado que lhe vista de guizos e passe a carregá-lo por aí. Outros se juntam a trupes de artistas itinerantes, e maravilham a todos com sua agilidade e truques, logo conseguindo um patrono na nobreza. Seu objetivo é passar a conviver com os nobres mais importantes do reino, especialmente filhos de Sckhar ou, melhor ainda, acabarem no palácio Shizarad, onde as oportunidades de infiltração são maiores. O habitual orgulho dos dragões não é ferido por esses procedimentos. Os Dragunos entendem que fazer rir é uma forma de poder. O cômico vence a razão e possui a alma do público por alguns instantes. O público, afinal, não sabe do que ri, mas o cômico sabe que piada conta.
Uma vez infiltrado nas altas cortes, um Draguno buscará enfraquecer o regime através da subversão. O poder palaciano é um complicado jogo de xadrez, e aqueles que o entendem podem posicionar outros jogadores como peças a serem devoradas. Ridicularizar nobres é um expediente óbvio demais. Os Dragunos são bons cortesãos, agradando a todos e especialmente a seus patronos, e usam sua onipresença nos palácios para passar mensagens, descobrir segredos, e espalhar fofocas – sendo as verdadeiras as mais letais. Caos e desarmonia tampouco lhes servem. Eles não têm interesse em destruir o próprio tabuleiro. Eles buscam beneficiar ou destruir alvos claros. E não há alvos melhores que os próprios filhos de Sckhar. Causar celeuma e desconfiança entre eles é a melhor forma de enfraquecer o regime.
Sua atividade é perigosa. O centro de suas operações, Durtras, é também a sede dos Lanças de Sckharsanthallas, caçadores de dragões oficiais do reino. Até hoje, nenhum Draguno foi descoberto – os bobos têm uma disciplina que os leigos não imaginam – mas há Lanças que desconfiam de atividades de espionagem dentro do reino. Um Draguno descoberto provavelmente seria derrotado em batalha, capturado e morto de forma humilhante. Alguns já discutiram a possibilidade de, se a conspiração for descoberta, assumirem todos sua forma natural e causar imensa destruição em Durtras antes de caírem – mas qual seria a graça disso?
Os Dragunos não têm um projeto claro de como Sckharsantallas deveria ser sem a tirania de Sckhar. Suas maiores motivações são a rivalidade dracônica, o orgulho e o senso de humor. Alguns, porém, se interessam nas atividades de grupos humanos que também tentam derrubar Sckhar. Os rebeldes por vezes são protegidos; em outras ocasiões, são usados de peões. As ideias de liberdade interessam aos dragões infiltrados. Muitos sonham com uma Sckharshanallas transformada numa federação de feudos dracônicos, onde cada dragão faz o que quer em seu território.
Crenças e objetivos. Ridicularizar os nobres e os meio-dragões arrogantes de Sckharshantallas. Derrubar Sckhar para a glória de Kallyadranoch. Provocar riso como a maior manifestação do poder.
Ritos e celebrações. Os Dragunos fazem suas doações a Kallyadranoch na forma de homenagens a Schkar. Dizem que os bens preciosos que doam são contaminados – e que, ao integrarem o tesouro do grande dragão, emitem um brilho azulado. Os Dragunos gostam de acreditar que isso seja verdade, e que correm cada vez mais risco. Não há nada melhor que enganar quem desconfia que algo não está certo.
Lendas. Um Draguno, como forma de fazer oferenda a Hynnin, convenceu o governador Khaltass a construir uma masmorra cheia de monstros e armadilhas sobre Durtras. Os nobres se reúnem em torno de bolas de cristal para ver prisioneiros condenados tentando sobreviver. Os vencedores, supostamente, receberiam a liberdade, mas até hoje não houve nenhum caso assim. É possível que os Dragunos resgatem os prisioneiros que vão longe o suficiente e os recrutem como agentes.
Alguns Dragunos já conseguiram assassinar e substituir filhos de Schkar. Enquanto esses Dragunos protegem aliados e agentes nas cortes, alguns de seus inimigos buscam derrubá-los sem provocar uma guerra civil.
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Sincretismo é quando um grupo ou religião cultua dois dos 20 deuses maiores ao mesmo tempo. Eu vou imaginar como seriam todas as combinações possíveis - são 190 no total. Link da lista até agora (incluindo separando os textos exclusivos de cada volume).
"Os Dragunos do Shizarad" aparece em Sincretismos de Arton Volume 2 (à venda na Huggin e Munnin, RPGpédia e Combeirinhos Store), com texto extra e um póder. Foi a nossa comunidade do discord que votou que ele fosse publicado! Não é preciso ler o Volume 1 para entender o Volume 2, mas comprá-lo também é uma forma de apoiar o projeto. (Pois é: o Volume 1 é vendido na Iniciativa T20, e o Volume 2 fora dela)