
u/MagoMaravilha

Se você parar para ver, é meio bizarro os países terem hinos.
Em algum momento da história, a humanidade simplesmente decidiu que cada pedaço de terra delimitado por fronteiras precisava de uma música-tema.
Alguém disse:
"A partir de agora, toda nação vai ter uma música-tema. Quando ela tocar, todo mundo fica de pé, tira o chapéu, alguns colocam a mão no peito, e, se possível, canta olhando para uma bandeira."
Por algum motivo, ninguém pediu esclarecimentos. Responderam:
"Justo."
Do nada, fizemos um acordo global. Quase duzentas nações diferentes olharam para essa ideia e concluíram: "Sim. Cada território soberano realmente precisa de uma música-tema."
Se um alienígena chegasse hoje à Terra e descobrisse que existem quase duzentas músicas oficiais, cada uma representando um país, ele não conseguiria entender bem a razão disso. Porque, se você for ver, não existe. É só um negócio que combinamos e que não faz o menor sentido.
O lado bom de termos saído da Copa:
- Casemiro nunca mais;
- Alisson nunca mais;
- Neymar nunca mais;
- Marquinhos nunca mais;
- Esperamos que Paquetá nunca mais;
- Amanhã, o episódio do FALHA DE COBERTURA será muito engraçado.
GG, meus irmãos. 2030 é logo ali.
Criticar a Copa do Mundo como "pão e circo" não te torna intelectualmente superior às massas.
Esta é, provavelmente, a crítica mais comum à Copa do Mundo: "é pão e circo". Em seguida, vem a emenda obrigatória: "imagina se o brasileiro tivesse essa mesma paixão para cobrar os políticos".
Primeiro, que uma coisa não exclui a outra. Você pode acompanhar uma Copa do Mundo e, ao mesmo tempo, se importar com assuntos relevantes, como política e economia.
Além disso, reduzir a Copa do Mundo a "pão e circo" é ter uma visão limitada. A Copa não se resume a jogos de futebol. Ela é um dos maiores acontecimentos culturais do planeta. Durante um mês, dezenas de países, com histórias, idiomas e culturas completamente diferentes, compartilham um mesmo evento. Bilhões de pessoas assistem às mesmas partidas, comentam os mesmos lances e acompanham as mesmas histórias.
Há também o aspecto esportivo. Ela é o campeonato mais difícil e mais desejado do futebol, esporte mais popular do mundo. Grandes jogadores conquistaram tudo o que era possível em clubes e jamais conseguiram levantar uma Copa. Outros passaram a vida inteira perseguindo esse objetivo e terminaram a carreira sem alcançá-lo. É o auge da carreira dos maiores jogadores, e não dá para reduzir isso a um mero "pão e circo".
A Copa também nos aproxima de países dos quais sequer nos lembramos no cotidiao, como Cabo Verde. Descobrimos jogadores, histórias e seleções improváveis que desafiam favoritos e fazem "das tripas coração". É um raro momento em que o mundo inteiro olha para os mesmos lugares ao mesmo tempo.
Além disso, uma Copa do Mundo acontece apenas a cada quatro anos. Parece pouco, mas não é. Entre uma edição e outra, milhões de pessoas morrem e milhões de outras nascem. Nenhum de nós sabe quantas Copas ainda verá. Cada uma delas é, literalmente, um acontecimento único da nossa vida. Não faz sentido desperdiçar esse momento porque alguém resolveu decretar que gostar de futebol é sinal de alienação.
No fundo, esse tipo de crítica revela uma compreensão bastante pobre do que significa ser intelectual. Há quem imagine que inteligência consiste em desprezar tudo aquilo que mobiliza muitas pessoas. Como se demonstrar desinteresse por eventos populares fosse um certificado de superioridade intelectual. Isso é apenas uma forma de substituir profundidade por pose.
Ainda, denuncia na verdade uma intelectualidade pobre, porque demonstra que a pessoa tem dificuldade em compreender a magnitude cultural de um evento deste tamanho. Ela é um fenômeno esportivo, cultural, histórico, econômico e até antropológico. Reduzi-la a "pão e circo" não demonstra profundidade, apenas a incapacidade de enxergar um fenômeno complexo para além de um clichê.
A seleção de 2006 explica o declínio do futebol brasileiro no cenário internacional.
Eu vi esta seleção jogar. Muitas vezes, apresentou um futebol lindo, mas não tinha o que era preciso para ser campeã.
É claro que sempre existiram críticos dela, porém, me lembro bem que a maioria das pessoas não ousava criticar duramente este time. Ele era tão bom, tão grandioso, que todo mundo achava quase impossível não vencermos aquela Copa. Em termos de nome, esta seleção só perdia para o elenco de 1970, e bem por isso os jornalistas tinham medo de morder a língua com as críticas.
Ironicamente, isso expôs a nossa falha de mentalidade. Não só dos técnicos e jogadores, mas também dos torcedores e jornalistas: a ilusão de que o futebol ainda era ganho majoritariamente pelo talento.
Na época, o Parreira veio com uma história de "quadrado mágico". A imprensa falava sobre isso, todo mundo dizia o quanto aquilo poderia ser poderoso. O problema é que o tal "quadrado mágico" não era uma estratégia técnica. Basicamente, era o Parreira percebendo que tinha um número quase ilimitado de craques, inclusive no banco, e pensando: "Vou colocar quatro craques para jogarem na frente, e é impossível tanta qualidade não dominar os jogos".
Quase nenhum comunicador ou jornalista de futebol chamou isso pelo nome que realmente tinha: amadorismo. Todo mundo discutia sobre como o quadrado mágico iria cedo ou tarde encaixar, o potencial que o time tinha, o quanto éramos superiores, isso e aquilo. Havia uma grande esperança no talento individual dos jogadores, e eles realmente brilhavam muitas vezes. Mas ninguém percebia que isso não funcionava a longo prazo, em jogos difíceis, porque aquilo não era um time. Era um catadão de craques jogando uma pelada, com um técnico que basicamente colocava os caras em campo acreditando que, apenas porque ele tinha os melhores nomes, ganharia.
Às vezes este time apresentava um futebol lindo, é verdade. Mas só quando o adversário não tinha um técnico inteligente do outro lado. Em outras situações, parecia apenas um time perdido, sem muita noção do que queria alcançar. A estratégia era basicamente dar a bola nos pés dos craques e ver a mágica acontecer. Aos trancos e barrancos, chegamos às quartas, e perdemos para a França, um time que tinha um único craque (Zidane) e um atacante altamente eficiente (Henry), mas ainda assim, muito menos eficiente do que Adriano e Ronaldo. O time da França era bom, mas não chegava perto do nosso. Porém, era um time com um jogo bem definido, e cuja maior referência (Zidane) jogava em prol de um esquema tático.
O que a França tinha é a mentalidade que tem tornado difícil o Brasil vencer europeus: passaram a enxergar seus times como máquinas táticas, passaram a ver técnicos como verdadeiros estrategistas. Em outras palavras, aprenderam a tirar leite de pedra.
Parte disso se deve ao tanto de dinheiro que os europeus injetaram no futebol. Quando eles tinham todos os talentos do mundo, isso deixou de bastar para os grandes times. Começaram a se perguntar: como ganhar campeonatos quando os maiores times, todos, possuem grandes jogadores? Um confronto entre Milan e Manchester United não podia mais ser decidido apenas com base em elenco. É ai que o futebol deles começa a ser decidido também por técnicos e não apenas por jogadores.
Ficamos perdidos durante todos estes anos, meio que sem entender o que estava acontecendo. O fato é que o futebol estava mudado e nós ficamos para trás. Deixamos de ser "o time ser batido" e nos tornamos "o time que precisa se atualizar".
Felizmente, parece que este ciclo está se encerrando agora, com a chegada do Ancelotti.
Achar que travessão é coisa de IA só prova que você não lê bons livros.
Você não precisa ler 100 livros por ano para saber disso. Se, no ensino médio, leu os livros cobrados no vestibular, sabe que travessão é um recurso extremamente utilizado para imprimir ritmo ao texto. Escritores de alto nível, como Machado de Assis, o utilizaram e utilizam frequentemente.
O travessão não foi inventado ontem. O fato de o sujeito imaginar que isto é uma coisa típica da IA só prova que ela nunca leu um bom escritor. E, se leu, não prestou atenção. Qualquer ideia que deva ser decentemente explanada — com diversos períodos (como este exemplo) — pede o uso de travessões. É um recurso extremamente útil para que o texto não fique repleto de vírgulas. Se, para alguém, isto soa estranho, não há outra alternativa: o sujeito simplesmente não gasta 1% da vida dele lendo algo que mereça o tempo.
Aliás, vale dizer, a IA — como modelo de linguagem — só utiliza esse recurso porque os seres humanos o utilizaram primeiro. O ChatGPT "aprendeu" a escrever com seres humanos. Ele não utilizaria travessões se, antes, pessoas não o fizessem.
"Ain mas você se acha o Machado de Assis?"
Não. Mas você quer aprender a escrever um bom texto com quem, senão com os melhores? Também, se vai dedicar algum tempo à leitura (como todo mundo deveria), por que não direcionar isso a um escritor que realmente mereça este tempo?
É impressionante como o analfabeto funcional do Reddit vê um "—" e já vem te acusar de ter utilizado IA. O sujeito é tão imbecil que descobriu a existência do travessão ano passado, e seu QI 80 sequer concebe a possibilidade de alguém ser capaz de escrever um texto minimamente decente.
Hoje em dia, as coisas são niveladas por baixo. Não é saudosismo: somos uma geração burra, cheia de analfabetos funcionais. Quando vê um texto que tiraria 8 na redação do ENEM, este povo — cujo exercício intelectual mais elaborado é ver meme e discutir futebol — já sente orgulho da própria mediocridade e tenta diminuir os outros.
OBS: nada contra ver meme e discutir futebol. Eu mesmo gosto muito. O problema começa quando este tipo de banalidade — e não apenas as duas citadas — resume o uso que a pessoa faz do próprio cérebro.
Às vezes eu fico pensando em como deve ter ficado a cabeça desse cara.
O cara entrou como titular numa Copa do Mundo, perdeu todos os gols possíveis, e logo em seguida foi promovido a terceiro reserva.
É como se o técnico tivesse dito: "Eu acreditei em você e isso foi um erro, um que eu pretendo não cometer novamente".
Vai passar o resto da Copa sabendo que desperdiçou talvez a maior chance da carreira dele, que uma oportunidade destas provavelmente nunca mais se repetirá, e que a única chance dele entrar num jogo é Matheus Cunha, Endrick, Rafinha, Neymar e Martinelli não puderem jogar. O Ancelotti põe qualquer um de 9, menos ele.
Além do mais, é provável que o Ancelotti continue até 2030, e a chance dele ser considerado para uma convocação novamente beira 0.
Sei lá, eu — no lugar dele — estaria com a auto-estima lá embaixo.
A narração deste cara é insuportável.
Só isso que eu queria falar mesmo.
I made a video essay on why I think Durance is one of the greatest CRPG characters ever written
I recently finished Pillars of Eternity for the first time, and Durance ended up being one of the most fascinating characters I've ever encountered in an RPG.
Over the past few weeks, I found myself reading and thinking about Camus, Kierkegaard, Nietzsche, Dostoevsky's The Grand Inquisitor, and how some of those ideas seemed to echo throughout Durance's story. Not because I think the writers were necessarily trying to "adapt" those philosophers, but because the questions Durance raises felt surprisingly close to them.
That eventually led me to make this video.
THE VIDEO IS IN PORTUGUESE, MY NATIVE LANGUAGE, SO PLEASE TURN ON THE SUBTITLES.
It isn't meant to be a definitive analysis of Durance, nor a philosophy lecture. I'm not a philosopher or an academic—just someone who loves CRPGs and became genuinely captivated by this character. The video is simply my attempt to organize those thoughts and explore why Durance stayed with me long after the credits rolled.
I'm sure there are interpretations I've missed, and I'd genuinely like to hear where you agree, disagree, or think I've overlooked something. If nothing else, I hope it starts an interesting discussion about one of the greatest CRPG companions ever written.
Não é porque o Casemiro fez o gol que ele tem que ser titular.
Convenhamos... O "risco Casemiro" supera qualquer benefício que ele eventualmente pode trazer.
Não dá para ter um jogador que perde 99% das disputas em velocidade, especialmente se ele é o principal marcador do meio-campo.
O Ancelotti manja muito de futebol, mas sinceramente hoje o gol do Casemiro foi sorte. Agora, algo que não precisa de sorte, que acontece naturalmente, é ele ser deixado para trás por qualquer meio-campista com velocidade média. Se pegar um Messi ou um Olise (que atualmente jogam justamente na região em que ele protege), tenho até medo do que pode acontecer.
I'm making a video about Durance (and almost no one will watch it)
Hi, everyone.
I'm Brazilian, and my YouTube channel is in Portuguese, so most of you will never see my video. Truth be told, even most Brazilians won't see it, since Pillars of Eternity was never particularly popular here. Still, my experience with Durance deserves to be put into a video.
Durance is such a vast—and profoundly human—character that he can't be easily summarized. I know many people find him unpleasant, but that's precisely the point. He wasn't written to be charismatic. He was written to embody a crisis, and he does so brilliantly.
On one hand, he reflects the crisis Kierkegaard describes in The Sickness Unto Death. What remains of a man who can no longer truly be himself before God?
On the other hand, he also embodies one of Nietzsche's central concerns. In fact, some of Durance's lines feel almost like direct echoes of Nietzsche. In The Gay Science, Nietzsche writes: "God is dead. God remains dead. And we have killed him. How shall we comfort ourselves, the murderers of all murderers?" Durance, who quite literally helped kill a god, says: "There was but one god of mercy... and we killed her."
Later, Durance says: "I sought her fire, her voice... and there was only silence." That line inevitably brings Camus and the absurd to mind.
To me, Durance is one of the greatest existentialist characters ever written in a video game. I honestly don't know if I'm capable of making a video that does justice to the depth of his character. That's why I'm here asking for your help.
I'd love to hear your thoughts on Durance. Which of his lines stayed with you? What questions did he leave you wrestling with? What aspects of his character do you think are most important?
Thank you.
Estou cansado de as pessoas dizerem que meus textos são ChatGPT.
Eu escrevo bem. Não sou o Guimarães Rosa, mas estou bastante longe do brasileiro médio neste quesito.
Sempre escrevi bem. Na infância, ganhava concursos de redação no município. Na universidade, mantive um blogspot (entreguei minha idade) que fez com que muita gente quisesse me conhecer. Em todos os concursos públicos que prestei, gabaritei português.
Eu tenho o português perfeito? Não, claro que não. E também não escrevo como um escritor profissional. Entretanto, por que negar? Sim, eu escrevo bastante bem para uma pessoa comum. Se decido escrever um texto e, se o reviso algumas vezes, chego a um resultado que provavelmente me renderia nota entre 8 e 10 em qualquer vestibular.
Não é arrogância. É reconhecimento de um talento meu. Eu provavelmente poderia transformar isso em algo maior, se investisse tempo em melhorar. Por outro lado, sou péssimo em matemática e em muitas outras coisas.
O Reddit me atraiu justamente por ser majoritariamente focado em textos e permitir boa interação entre os usuário (esta última qualidade é o ponto fraco do Substack). Então, quando tenho uma ideia, a escrevo e publico aqui.
É impressionante que, em 100% das vezes que publico uma opinião, alguém me acusará de ter usado o ChatGPT. Isso me irrita porque é basicamente um ad hominem, ou seja, evita que a pessoa precise debater a opinião. Além do mais, me acusa de algo que eu considero ridículo, que é a incapacidade de ouvir e registrar os próprios pensamentos.
Ultimamente, eu tenho tentado — inclusive — não utilizar mais travessões como este que acabei de usar, errar propositalmente, inserir palavrões... Tudo, para ver se param de me acusar disso.
Paulo de Tarso foi o verdadeiro fundador do cristianismo (e isso é um gande problema).
Se você retirar Paulo do Novo Testamento, sobra Jesus. Se você retirar Jesus, não sobra Paulo. E, ainda assim, basta entrar em uma igreja para perceber quem realmente venceu essa disputa.
Jesus falava sobre amar os inimigos, Paulo falava sobre doutrina. Jesus perdoava adúlteras, Paulo regulava o comportamento das comunidades. Jesus confrontava os religiosos de seu tempo, Paulo criou o modelo que, séculos depois, daria origem à religião institucional. Jesus quase nunca fala sobre sexualidade, Paulo faz disso um tema recorrente, da maneira mais ressentida e repressora possível. Jesus anuncia o Reino de Deus, Paulo constrói uma teologia.
Paulo foi, em essência, um caga-regra. Cristo pregava uma revolução moral, mas Paulo escreveu um regulamento. Onde Jesus deixava espaço para a consciência, Paulo preenchia com proibições. Cristo ensinou pelo exemplo, Paulo legislou por carta.
Há um detalhe sobre Paulo que raramente recebe a atenção que merece: antes de ser cristão, ele já era um fundamentalista fanático. Não era apenas alguém que discordava dos cristãos. Paulo era um cara convencido de que uma ideia justificava perseguir quem pensava diferente. Para ele, o erro não era algo a ser debatido, e sim eliminado. Homens assim são perigosos. Não porque defendem uma verdade, mas porque acreditam ter o direito de impô-la a todos.
Sua conversão costuma ser apresentada como uma transformação radical. Mas a verdade é que Paulo não abandonou o fanatismo; apenas mudou de deus. Antes, perseguia em nome da lei. Depois, passou a doutrinar em nome de Cristo. Mudou o Deus, mas permaneceu o mesmo comportamento: a necessidade de definir o que todos devem pensar, como todos devem viver e quais comportamentos merecem condenação. O perseguidor não desapareceu; apenas encontrou uma nova causa.
Boa parte daquilo que hoje os cristãos apresentam como "moral cristã" não saiu da boca de Jesus. Saiu da cabeça de Paulo, que parecia incapaz de deixar uma comunidade existir sem impor mais uma norma, mais uma proibição, mais uma obrigação. O cristianismo da igreja não é o caminho de Cristo, é o regulamento de Paulo.
Foi Paulo quem transformou Jesus num sistema religioso complexo. O homem que pregava uma transformação interior acabou cercado por um emaranhado de normas, interpretações, categorias de pecado e mecanismos de controle. É por isso que milhões de cristãos dizem seguir Cristo, mas na verdade seguem Paulo.
Quando querem discutir homossexualidade, citam Paulo. Quando querem discutir o papel da mulher, citam Paulo. Quando querem discutir organização da igreja, citam Paulo. Quando querem discutir disciplina, citam Paulo. Jesus é só o rosto, porque a verdadeira autoridade é Paulo. E o pior é que poucos cristãos sequer se dão conta disso.
Foi Paulo quem deu ao cristianismo sua arquitetura intelectual. Mais do que isso, moral! Paulo inventa a culpa cristã. Enquanto Cristo anuncia o Reino dos Céus, Paulo centra sua discussão no pecado. Ele se apropriou de Cristo e o propagou conforme sua própria vontade.
O maior triunfo de Paulo não foi converter o mundo ao cristianismo. Foi convencer o mundo de que seguir Paulo era seguir Cristo. A história do cristianismo é, acima de tudo, a história da vitória de Paulo sobre Jesus.
Paulo de Tarso foi o verdadeiro fundador do cristianismo.
Se você retirar Paulo do Novo Testamento, sobra Jesus. Se você retirar Jesus, não sobra Paulo. E, ainda assim, basta entrar em uma igreja para perceber quem realmente venceu essa disputa.
Jesus falava sobre amar os inimigos, Paulo falava sobre doutrina. Jesus perdoava adúlteras, Paulo regulava o comportamento das comunidades. Jesus confrontava os religiosos de seu tempo, Paulo criou o modelo que, séculos depois, daria origem à religião institucional. Jesus quase nunca fala sobre sexualidade, Paulo faz disso um tema recorrente, da maneira mais ressentida e repressora possível. Jesus anuncia o Reino de Deus, Paulo constrói uma teologia.
Paulo foi, em essência, um caga-regra. Cristo pregava uma revolução moral, mas Paulo escreveu um regulamento. Onde Jesus deixava espaço para a consciência, Paulo preenchia com proibições. Cristo ensinou pelo exemplo, Paulo legislou por carta.
Há um detalhe sobre Paulo que raramente recebe a atenção que merece: antes de ser cristão, ele já era um fundamentalista fanático. Não era apenas alguém que discordava dos cristãos. Paulo era um cara convencido de que uma ideia justificava perseguir quem pensava diferente. Para ele, o erro não era algo a ser debatido, e sim eliminado. Homens assim são perigosos. Não porque defendem uma verdade, mas porque acreditam ter o direito de impô-la a todos.
Sua conversão costuma ser apresentada como uma transformação radical. Mas a verdade é que Paulo não abandonou o fanatismo; apenas mudou de deus. Antes, perseguia em nome da lei. Depois, passou a doutrinar em nome de Cristo. Mudou o Deus, mas permaneceu o mesmo comportamento: a necessidade de definir o que todos devem pensar, como todos devem viver e quais comportamentos merecem condenação. O perseguidor não desapareceu; apenas encontrou uma nova causa.
Boa parte daquilo que hoje os cristãos apresentam como "moral cristã" não saiu da boca de Jesus. Saiu da cabeça de Paulo, que parecia incapaz de deixar uma comunidade existir sem impor mais uma norma, mais uma proibição, mais uma obrigação. O cristianismo da igreja não é o caminho de Cristo, é o regulamento de Paulo.
Foi Paulo quem transformou Jesus num sistema religioso complexo. O homem que pregava uma transformação interior acabou cercado por um emaranhado de normas, interpretações, categorias de pecado e mecanismos de controle. É por isso que milhões de cristãos dizem seguir Cristo, mas na verdade seguem Paulo.
Quando querem discutir homossexualidade, citam Paulo. Quando querem discutir o papel da mulher, citam Paulo. Quando querem discutir organização da igreja, citam Paulo. Quando querem discutir disciplina, citam Paulo. Jesus é só o rosto, porque a verdadeira autoridade é Paulo. E o pior é que poucos cristãos sequer se dão conta disso.
Foi Paulo quem deu ao cristianismo sua arquitetura intelectual. Mais do que isso, moral! Paulo inventa a culpa cristã. Enquanto Cristo anuncia o Reino dos Céus, Paulo centra sua discussão no pecado. Ele se apropriou de Cristo e o propagou conforme sua própria vontade.
O maior triunfo de Paulo não foi converter o mundo ao cristianismo. Foi convencer o mundo de que seguir Paulo era seguir Cristo. A história do cristianismo é, acima de tudo, a história da vitória de Paulo sobre Jesus.
O Ancelotti tem provado o que todo mundo já sabia.
Os técnicos brasileiros precisam mudar sua mentalidade. Falo isso não de maneira absoluta, mas como regra geral.
Eu lembro quando o Ancelotti foi apresentado. Chamaram Emerson Leão e outros para discursar, e os caras praticamente disseram "você não é bem-vindo", com muito ressentimento. E agora o tempo tem mostrado que o Ancelotti tem uma visão estratégica muito mais madura do que talvez todos os técnicos brasileiros da atualidade.
Antes que me chamem de "baba ovo de gringo", só pelo cara ser italiano; ou de "emocionado", por ser muito cedo, quero explicar meu ponto.
Eu não acho que a seleção está maravilhosa, tampouco apostaria minha grana no hexa. Porém, eu vejo o seguinte: nós finalmente temos uma proposta de jogo e de time. A gente vê que, por trás da seleção brasileira, há uma decisão tática muito bem definida. O Brasil finalmente joga sabendo qual é o jogo que quer jogar. E isso, por si só, é motivo para o torcedor estar feliz, porque é algo que nos faltava há muito tempo!
Mais do que isso: o time do Brasil tem CAPITAL INTELECTUAL, que é a capacidade que o Anceloti tem de simplesmente se virar com o que ele tem na mão, e mudar a estratégia conforme muda o adversário. O time do Tite era bom, mas só sabia jogar de um jeito. A seleção do Anceloti, aparentemente, tem esta virtude.
Quem diria que Danilo e Douglas Santos fariam jogos tão bons? Mérito deles, com certeza. Mas também mérito de um técnico, que soube olhar para os jogadores, identificar suas capacidades, e dizer: "Olha, o que eu quero de você é ISSO AQUI. Sua função é tal!"
O Mateus Cunha é outro que vem apresentando uma função tática incrível. Acho que precisamos dar muito crédito a ele, pela disciplina tática em campo; e também ao Ancelotti, que bolou a forma como ele atua.
Enfim, o time começou muito mal, é verdade. Ninguém gostou do jogo contra Marrocos. Haiti e Escócia são times que não representam o mais alto nível da Copa. Porém, de uma forma ou de outra, a gente precisa reconhecer o seguinte:
- O Ancelotti chegou ontem na seleção, não dá para pedir muito;
- Ainda assim, a melhora entre o primeiro e o terceiro jogo é abissal, nem parece o mesmo time;
- Finalmente o jogo do Brasil permite que o futebol do Vini apareça (o que nos dá esperança demais);
- Não acho que o hexa chega este ano, mas acredito que pelo menos nas quartas a gente chega, o que é muito bom, considerando a trajetória que a seleção teve nos últimos anos;
- Em 2030 vamos recuperar a hegemonia internacional.
Enfim, como eu disse, o time não está perfeito, e talvez enfrente muitas dificuldades contra times estruturados há mais tempo, como a França. Não dá para achar que o hexa vem apenas porque vencemos Haiti e Escócia. Porém, dá para afirmar que o Brasil vem numa ascendente, sim.
GUIA DE ESTUDOS DE LEI SECA - Escrevente técnico judiciário TJSP
Oi, pessoas.
Não sou coach de concursos, não tenho canal no YouTube e não estou vendendo nada. Estou aqui apenas para compartilhar uma experiência que funcionou para mim com alguém que talvez precise. Se servir para você, ótimo. Se não servir, desejo sorte na sua preparação.
Fui aprovado no concurso de escrevente do TJSP com cerca de 60 dias de estudo, em 14º lugar. Depois, em 1º lugar no de oficial de justiça do TJSP (interior) de 2023, após aproximadamente 109 dias de preparação.
Vejo muita gente tratando o concurso de escrevente como se fosse um bicho de sete cabeças. Gastam dinheiro com cursos, PDFs, resumos, mapas mentais e toda sorte de material complementar. Na minha opinião, a maioria está complicando algo que é relativamente simples.
Sou contra comprar cursinhos para as matérias de direito, e ainda mais contra a compra de PDFs, resumos e materiais semelhantes. Não quero criticar quem produz esse tipo de conteúdo, mas, na minha opinião, ele ajuda muito mais quem vende do que quem compra.
Não estou dizendo que cursinhos sejam inúteis ou que ninguém deva utilizá-los. Apenas digo que, para mim, o método mais eficiente sempre foi ler a lei; mas ler dentro de um sistema organizado.
O que vou explicar aqui é justamente este “sistema organizado”, que desenvolvi para mim mesmo, e me serviu bem.
Uma ressalva: isto funcionou para a minha realidade. Não é uma verdade absoluta, nem tenho a pretensão de que funcione para todo mundo. Leia criticamente e veja se estas ideias fazem sentido para a sua situação.
Então, vamos lá.
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OBSERVAÇÃO 1: TEMPO DE PREPARAÇÃO
Parece contraditório eu falar sobre isso justamente porque fui aprovado estudando por períodos relativamente curtos.
Entretanto, durante esses períodos eu dormi mal, abandonei atividades físicas, engordei, deixei de ajudar nas tarefas domésticas, fui um peso para minha esposa e vivi sob estresse constante. Não recomendo. O que fiz foi uma solução de emergência, não um modelo a ser seguido.
Se possível, aplique este método durante pelo menos seis meses. Considero um ano um prazo ainda melhor.
OBSERVAÇÃO 2: REGRA DE OURO
O TJSP não procura juristas para o cargo de escrevente. Procura pessoas capazes de ler, compreender e aplicar. Por isso, a impressão que tenho é que a prova faz uma única pergunta repetidas vezes: VOCÊ LEU ISTO AQUI 500 VEZES?
Isso resume boa parte da prova de direito. O examinador adora trocar uma palavra, omitir outra, misturar hipóteses parecidas ou inverter exceções. Ou, então, mais simples ainda, fornecer um caso hipotético cuja solução seja a mais pura e simples letra da lei.
O segredo para ir bem nessas provas é exatamente esse: ler muitas vezes, de maneira organizada. Sim, é chato, maçante e desanimador, mas é eficiente. Se você estiver disposto a pagar esse preço, tem condições de ir bem.
Os passos que vou apresentar não passam de leitura. A diferença é que se trata de uma leitura sistematizada, pensada para tornar cada releitura mais produtiva.
OBSERVAÇÃO 3: COMO ORGANIZAR AS ETAPAS?
Primeiramente, com calma.
Eu sei que os boletos não esperam. Mas, justamente porque você tem pressa, faça bem feito da primeira vez para não precisar voltar atrás depois.
Como você verá adiante, dividi a leitura em etapas. Nem sempre será possível realizar todas no mesmo dia. Se houver tempo, ótimo. Se não houver, tente realizar pelo menos os passos 1 e 2 no mesmo dia, deixando o passo 3 para outro momento.
De toda forma, há algumas regras/orientações:
- O passo 1 deve ser realizado apenas na primeira leitura.
- Os passos 2 e 3 devem ser repetidos exaustivamente.
- Os passos 4 e 5 não devem ser realizados nos mesmos dias dos passos 1, 2 e 3.
- Reserve um dia específico para os passos 4 e 5.
- A cada duas ou três repetições dos passos 2 e 3, aplique os passos 4 e 5.
OBSERVAÇÃO 4: QUESTÕES
Durante todo o processo que vou descrever, reserve tempo para resolver questões. Não vou falar sobre elas aqui porque não é o foco do texto.
Entretanto, estou presumindo que você também está fazendo questões. Para a esmagadora maioria das pessoas, não existe preparação eficiente sem elas.
OBSERVAÇÃO 5: REVISÃO
A revisão já está implícita em tudo o que foi dito até aqui: a parte de direito da prova de escrevente é vencida pela insistência na leitura. Por isso, recomendo que sua principal forma de revisão seja simplesmente continuar aplicando os passos 2 e 3. Eles não são apenas estudo. São também revisão.
Vou começar a descrever os passos agora.
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PASSO 1: LEITURA CASUAL
O edital de escrevente do TJSP normalmente já indica os artigos que serão cobrados.
A primeira leitura não tem como objetivo aprender. Ela serve para mapear o terreno. Você não vai estudar, vai inspecionar.
Abra a lei. Veja os capítulos. Observe como os assuntos estão organizados. Perceba quais partes são maiores, quais são menores e como os temas se conectam. Folheie a lei, olhe a estrutura dela, mapeie.
Agora escolha um ponto de partida. Recomendo começar pelo começo, simplesmente porque a maioria das leis foi organizada de forma lógica. Entretanto, se você tiver bons motivos para seguir outra ordem, siga.
Feito isso, leia sem compromisso. Leia rapidamente. Se não entender algo, siga em frente. Se encontrar um termo técnico desconhecido, siga em frente. Se um artigo parecer confuso, siga em frente. Neste momento, você não está tentando dominar a matéria. Está apenas mapeando ela.
Terminou? Faça outra leitura dessas. Se possível, mais uma.
Não se preocupe se a sensação for de que você aprendeu pouco ou nada. O objetivo aqui é tão somente deixar de achar a matéria estranha.
PASSO 2: LEITURA CRÍTICA
Aqui começa o estudo propriamente dito. Você vai desacelerar. Seu objetivo não é terminar rápido, e sim compreender. Você vai chegar ao fim e pode demorar um pouco, mas calma, quando isso acontecer, você estará mais próximo da aprovação.
Leia artigo por artigo com muita atenção. Mas force-se a pensar sobre o que está lendo. Assuma que todo artigo esconde algo e você precisa decifrar (isto não é verdade muitas vezes, mas é noutras). Pare de ler como uma pessoa que devora um artigo após o outro. Cada artigo é seu próprio estudo, tem seu próprio tempo. Mastigue-os. Não precisa ficar 10 minutos num único artigo, mas evite terminá-lo e já ir para o próximo. Leia cada um com calma uma, duas, três vezes. É tranquilo? Passe para o próximo. Não é tranquilo? Leia mais três vezes, devagar.
Pergunte-se o tempo todo: o que este artigo está dizendo? Esta regra é geral ou excepcional? É obrigatória ou facultativa? Em quais situações ela se aplica? Em quais situações ela deixa de se aplicar? O que acontece se eu retirar dele esta palavra aqui? Existe nele alguma palavra que seja ultra-importante?
O examinador adora construir questões em cima de uma única palavra. Ele troca um termo, omite outro, mistura hipóteses diferentes, inverte exceções.
Preste. Atenção. Em cada. Palavra.
Não estou exagerando. É sério. E não confunda “preste atenção” com “veja as palavras”. Você precisa raciocinar sobre elas.
Faça perguntas ao texto. Interprete, questione, force seu cérebro a trabalhar. Fuja do analfabetismo funcional. A leitura não deve ser apenas um eco na sua mente.
Você deve estar constantemente se perguntando: O QUE ESTÁ ESCRITO AQUI? O QUE ISSO SIGNIFICA? DO QUE ESTE ARTIGO ESTÁ FALANDO?
Não subestime esta etapa. Muita gente lê, mas poucos realmente processam o que leram.
Talvez você esteja se perguntando se vale a pena decorar artigos neste momento. Resposta: ainda não. Se você tentar decorar nesta fase, corre o risco de gastar energia memorizando coisas que ainda não compreendeu, ou que vai descobrir não serem tão importantes assim.
Conforme avançar no método, perceberá que está realizando um processo de filtragem. Quando chegar aos passos 4 e 5, terá muito mais clareza sobre aquilo que realmente merece ser decorado.
PASSO 3: REPITA O PASSO 2 COM PAPEL E CANETA
Agora você vai reler a lei como fez no passo 2. Porém, quando chegar a um artigo que considera complexo, pegue o papel e registre o seu raciocínio.
Mas, existe uma regra: escreva à mão. Você pode ler a lei no computador, tablet, celular, etc. Mas as anotações devem ser feitas com papel e caneta.
Neste ponto, você já realizou o passo 2 e já sabe quais artigos são tranquilos e quais são complicados. Não tente fazer isso com todos os artigos, pois seria perda de tempo. Faça apenas com aqueles que realmente exigem raciocínio.
Não copie! Não resuma! Raciocine.
Vou dar um exemplo.
>Código de Processo Civil, artigo 219
Na contagem de prazo em dias, estabelecido por lei ou pelo juiz, computar-se-ão somente os dias úteis.
Parágrafo único. O disposto neste artigo aplica-se somente aos prazos processuais.
Anotação ruim: prazo processual = dias úteis.
Anotação boa:
- Trata de: contagem de prazo.
- Aplicação: apenas prazos em dias (não meses, não semanas).
- O prazo pode ser estabelecido pela lei ou pelo juiz.
- Dias úteis.
- Finais de semana e feriados: não computados.
- Incidência: apenas prazos processuais.
- Se aqui o prazo é processual, quais outros tipos de prazo existem? O que é um prazo processual e o que não é? Pesquisar depois.
Perceba a diferença.
A anotação ruim apenas repete o artigo, enquanto a boa registra alguém pensando. Ela mostra o caminho mental que você percorreu para entender a lei. Você está pegando um artigo que parecia compacto e desmontando-o peça por peça.
Isso também é especialmente útil para entender artigos longos, com muitos períodos, como o artigo 37 inciso XI da Constituição. Você usa a escrita para desmontar o artigo e organizá-lo em partes menores.
Não precisa utilizar frases longas. O importante é que o raciocínio fique claro o suficiente para você. Eu, por exemplo, utilizava muitas abreviações. "Direito" virou "dto", "prazo" virou "prz", "citação" virou "ctç" e assim por diante. Se outra pessoa lesse, teria dificuldades, mas eu entendia e isso era o suficiente.
Enfim, muitas vezes, perceberá que um único artigo contém diversas regras escondidas dentro dele. Você perceberá isso tanto no passo 2 quanto no 3. Via de regra, estes são artigos bons para enquadrar aqui. De toda forma, existem alguns artigos que quase sempre valem a pena anotar no passo 3:
- Artigos absolutos: “Sempre que...”
- Artigos que estabelecem exceções: “Será aplicado X, exceto quando...”
- Exceções das exceções (sim, elas existem): “Aplica-se X, exceto em Y, ressalvadas as hipóteses de Z”.
- Artigos com listas nos incisos. Não precisa anotar todos os itens, mas busque destrinchar boa parte deles.
- Artigos que utilizam conectivos lógicos: e, ou, se, salvo se, exceto, desde que, ainda que, somente se, etc. Essas palavras são extremamente perigosas.
- Artigos que seu cérebro rejeita imediatamente: você lê, relê, mas continua sem entender nada. Ótimo. Com certeza merece papel e caneta.
- Artigos 5º ao 7º da Constituição Federal: não subestime esses. Rendem muitas questões. Não sabê-los é quase certeza de desperdiçar pontos.
- Artigos de questões que você errou: se você errou uma questão, tirando a hipótese de ter lido mal, não entendeu a matéria. Volte a ele, raciocine sobre, registre em escrita.
Entenda: o objetivo deste passo não é produzir material de revisão, é refinar o seu raciocínio. Se você simplesmente copiar artigos, está desperdiçando tempo. Se você estiver escrevendo o seu processo mental, está aprendendo.
Quando terminar, jogue a folha fora. Sério. Ela não é um resumo, é um exercício.
Quando estudei para oficial de justiça, fiz isso dezenas de vezes. Minha esposa não entendia por que eu escrevia folhas e mais folhas para depois jogá-las no lixo. Mas eu não estava produzindo material de consulta. Estava pensando sobre os artigos.
Quando você tiver feito isso diversas vezes, estará pronto para o passo seguinte.
PASSO 4: RESUMO ANALÍTICO
Reserve um dia específico para esta etapa. Aqui também é papel e caneta.
Se você realizou os passos 2 e 3 pelo menos duas vezes, já começou a perceber algo interessante: muitos artigos que pareciam simples na primeira leitura não eram simples coisa nenhuma. Conforme você lê, relê, raciocina e destrincha os dispositivos, vai descobrindo detalhes que antes passavam despercebidos.
É justamente isso que você vai registrar agora.
O resumo analítico não é um resumo da matéria inteira. Vou repetir, porque isto é importante: não é um resumo da matéria inteira. Ele é a destilação do que você aprendeu. Entenda que, por não tratar da matéria toda, você pode dedicar um bom tempo aos artigos que selecionar.
Você vai registrar apenas aquilo que realmente merece ser registrado. As nuances, exceções, pegadinhas, comparações, etc. Enfim, detalhes que costumam escapar numa leitura superficial. Vou dar um exemplo.
Os artigos 121 e 129 do Código Penal são facilmente confundidos. Às vezes, há redações parecidas em ambos, mas em um aquilo é causa de aumento de pena, enquanto no outro é qualificadora. Às vezes é tudo idêntico, mas a fração de aumento na pena é diferente. Você vai perceber estas coisas no passo 3, e vai registrar no passo 4, porque é exatamente o tipo de detalhe que merece entrar no resumo. É o detalhe que vai confundir todo mundo que leu mal, mas não você.
Outro exemplo. Diversos crimes relacionados à falsidade documental possuem aumento de pena de 1/6 quando praticados por funcionário público. Já o crime de fraude em certames públicos, quando praticado por funcionário público, possui aumento de 1/3. Esse também é o tipo de detalhe que merece ser registrado.
Perceba uma coisa: nenhum dos exemplos acima é algo que costuma saltar aos olhos na primeira leitura. Eles normalmente só aparecem depois de várias releituras e de diversos exercícios de raciocínio. É por isso que o passo 4 vem depois do passo 3, porque neste ponto, você já filtrou uma grande quantidade de informação.
Agora vale a pena começar a pensar em decorar. Se você chegou aqui pensando "tal coisa vale a pena decorar” sobre algum ponto específico, provavelmente está certo. Porque agora você não está mais tentando decorar a lei inteira, mas aquilo que sobrou depois da filtragem.
Diferentemente do passo 3, este material deve ser guardado. Pode utilizar cores, estruturar por tópicos, tabelas, mapas mentais, criar comparações. Enfim, pode organizar da forma que achar melhor. Eu utilizei todas estas coisas, conforme se mostrassem mais adequadas ao caso. Tabela é muito boa para comparação. Mapa mental, para dissecar um artigo. E assim por diante.
O importante é que o resumo seja claro e útil para consultas futuras.
Outra observação importante: o resumo analítico nunca está realmente pronto. Conforme você continuar estudando, continuará encontrando novas relações, novas exceções e novos detalhes. Sempre que isso acontecer, atualize o resumo. Ele deve evoluir junto com a sua compreensão da matéria.
PASSO 5: VIRE PROFESSOR DE ALUNOS IMAGINÁRIOS
Depois de produzir alguns resumos analíticos, entra o passo 5, que é muito simples.
Pegue uma parte do resumo e leia. Agora, pare de olhar para o papel e tente explicar aquele conteúdo em voz alta, como se estivesse dando aula para alguém. Pode ser uma pessoa imaginária, pode ser a parede, pode ser sua esposa (eu fiz isso com a minha, coitada), não importa. O importante é explicar sem consultar.
Você vai perceber rapidamente que, ou você consegue explicar o assunto de forma clara e organizada; ou você trava em algum ponto, esquece um detalhe ou mistura conceitos. Excelente, você achou uma falha de aprendizado.
Consulte o resumo, veja o que esqueceu e tente novamente.
Muitas vezes a gente pensa que aprendeu algo mas, quando tenta explicar, as falhas aparecem. Por isso, este passo funciona tão bem. Ele é basicamente uma "varredura" em busca de falhas.
PASSO 6: REPITA O CICLO
Convém repetir: os passos 4 e 5 não são a sua rotina. Eles são o acabamento. O coração do método está nos passos 2 e 3. São eles que você vai repetir durante a maior parte da sua preparação. Inclusive, são eles que funcionam como revisão.
Muita gente imagina a revisão como uma atividade separada: "agora vou estudar" e "agora vou revisar". Eu estou propondo que essa separação desapareça. Quando você volta à lei e realiza novamente os passos 2 e 3, já está revisando.
À primeira vista, isto pode parecer lento. Você lê, relê, anota, raciocina, volta, repete. Mas, conforme as leituras se acumulam, os passos 2 e 3 ficam cada vez mais rápidos. Eu devo ter visto o edital de oficial de justiça, inteiro, umas 5 vezes no mínimo. A primeira foi lenta, a última foi realizada em questão de 3 dias antes da prova.
Você já conhece a estrutura da matéria, já sabe onde estão os artigos difíceis, já identificou as principais exceções, já construiu parte do raciocínio. O trabalho continua existindo, mas ele fica mais leve e rápido.
Portanto, a cada duas ou três repetições dos passos 2 e 3, retorne aos passos 4 e 5. Pegue seus resumos analíticos. Analise-os criticamente. Pergunte-se: descobri algo novo? Percebi uma exceção que antes não tinha percebido? Encontrei uma comparação útil? Existe alguma informação que merece ser acrescentada? Se a resposta for sim, atualize o resumo. Depois, realize novamente o passo 5. E recomece o ciclo.
Esse é o método. Não existe um momento em que você "termina" a matéria. É como alguém que caminha tanto sobre o mesmo terreno que ele começa a ficar gasto de ser pisado e repisado. Ela está vencendo um terreno difícil porque caminha ali corretamente. E isso é repetição inteligente.
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CONCLUSÃO
Se você leu tudo isso esperando encontrar uma técnica secreta, provavelmente se decepcionou. E essa é justamente a ideia.
Muita gente procura uma forma de escapar da parte difícil da preparação. Um resumo melhor, um PDF melhor, um curso melhor, enfim, algo que vai possibilitar ter menos trabalho. Mas a verdade é que existe um limite para o quanto materiais e cursos podem fazer por você. Em algum momento, será necessário sentar e ler a lei. Depois reler, reler, reler...
O que tentei apresentar aqui não foi um atalho, mas uma forma de tornar esse processo mais eficiente, e que funcionou para mim. Talvez você adapte algumas etapas e descarte outras, sem problemas. O importante não é seguir este guia como se fosse um ritual, mas compreender a ideia central por trás dele.
A parte de direito da prova de escrevente do TJSP costuma recompensar quem conhece profundamente os textos legais cobrados no edital, e esse conhecimento não surge por mágica. Ele surge por contato repetido, atenção e raciocínio.
No fim das contas, tudo o que escrevi aqui pode ser resumido em uma única frase: leia a lei, pense sobre a lei, volte para a lei.
Antes de encerrar, uma observação. Muitos candidatos procuram transformar o estudo em uma atividade mecânica. Querem encontrar um material completo, um resumo definitivo ou um PDF que já contenha tudo o que precisam saber. O problema é que essa abordagem costuma produzir uma sensação de aprendizado maior do que o aprendizado real. Compreender uma lei exige raciocínio. Exige fazer perguntas ao texto, identificar regras, exceções, relações e consequências. O método que apresentei foi construído justamente para combater essa passividade. Portanto, se decidir utilizá-lo, encare-o como um exercício intelectual, não como uma sequência de tarefas a serem cumpridas. O objetivo não é consumir material, é realizar releituras cada vez mais refinadas.
Boa sorte nos estudos!
fucklessly (adv.)
Doing something with zero fucks given.
Examples:
- He fucklessly walked into the meeting and told the CEO the plan was stupid.
- The cat knocked over a glass, maintained eye contact, and walked away fucklessly.
- The raccoon entered the police station fucklessly.
Related noun:
fucklessness (n.)
The quality of giving absolutely no fucks.
- The goose displayed historic levels of fucklessness.
- Bruce Dickinson's fucklessness requires no explanation.
As a Portuguese speaker, I think I've accidentally invented an English word that deserves to exist:
fucklessly (adv.)
Related noun: fucklessness (n.)
Definition:
Doing something with absolute, unwavering, majestic disregard for consequences, opinions, criticism or social norms. Doing something with zero fucks given. Doing something in a state of complete fucklessness.
Derived from the expression "I don't give a single fuck."
Examples:
- Bruce Dickinson fucklessly flies his own plane to concerts. Bruce Dickinson's fucklessness requires no explanation.
- The cat knocked a glass off the table and walked away fucklessly. The cat's fucklessness was deliberate.
- The raccoon entered the police station fucklessly. The raccoon's fucklessness alarmed local authorities.
As a non-native speaker, it feels perfectly logical to me. English already has words like carelessly, fearlessly, effortlessly, recklessly...
So why not fucklessly?
I am formally requesting that the English-speaking world adopt this word immediately.
Thank you for your consideration.
Quem aposta é responsável pela própria desgraça.
As bets deveriam ser proibidas. Mas, já que não são, vamos falar português correto: o principal responsável pela ruína financeira de um apostador é o próprio apostador.
É uma ideia tão absurdamente simples, que não entra na minha cabeça como alguém pode dizer o contrário.
"Ain, porque a influenciadora malvadona!"
"Ain, porque a casa de apostas!"
"Ain, porque o narrador do jogo!"
Todos eles estão errados. Mas nenhum deles pegou sua mão, abriu seu aplicativo e apostou seu salário na vitória do Botafogo.
Existe uma mania moderna de transformar qualquer adulto em vítima profissional. O sujeito tem título de eleitor, CNH, assina contrato, financia carro, casa, faz filho, responde criminalmente pelos próprios atos, mas, misteriosamente, quando decide torrar o aluguel numa múltipla de 17 jogos da série B, ele vira uma criança indefesa enganada pelo sistema.
Desculpem, mas isso não entra na minha cabeça.
Na minha opinião, apostar dinheiro que você não pode perder merece aproximadamente o mesmo respeito que enfiar um lápis no próprio olho porque a Virgínia disse que seria legal.
"A culpa é de quem incentivou!"
Não. A culpa é de quem fez.
Não é como se a pessoa estivesse te dando um golpe ultracomplicado, que você não pode entender. Aliás, no caso das apostas, sequer é possível chamar de golpe. Porque todo mundo que aposta entende exatamente os termos do acordo que está fazendo com a casa de apostas.
"Ain mas o cara não tem estudo!" Meu amigo! Que nível de escolaridade é necessário para saber que, se você perder todo o seu salário, não vai pagar seu aluguel? Puta que pariu!
O problema é que criamos uma cultura em que toda decisão ruim precisa de um vilão externo. Ninguém mais faz merda. Todo mundo sofre uma merda que aconteceu magicamente.
Talvez as pessoas fossem mais cuidadosas se, em vez de receberem colo e explicações sociológicas infinitas, ouvissem algo mais próximo da realidade:
"Você perdeu todo o seu dinheiro apostando? Então parabéns. Você acabou de participar voluntariamente de um concurso para descobrir consequências. Eu espero que você fique sem luz na sua casa por 30 dias, porque você escolheu isso."
Porque, no fim das contas, uma sociedade que trata adultos como crianças acaba produzindo exatamente isso: crianças com barba, CPF e limite no cartão.