O privilégio de estar fodido
Há mais de um ano que não paro de pensar em cometer suicídio por um dia sequer.
Sou jovem, tenho 23 anos, sempre fui impecável na escola, depois passei em todas as universidades que queria, me mudei de cidade aos 17 para estudar onde escolhi, depois aos 21 entrei no mestrado que queria. Nunca precisei trabalhar para me sustentar, mas trabalhei para caralho naquilo que fazia mais sentido para a carreira que eu achava estar construindo: tenho um histórico irretocável da graduação até o mestrado, apresentei não sei quantas comunicações em eventos, tenho certificados máximos de fluência em outros dois idiomas, dei aula por um ano aos 22 numa universidade federal, publiquei artigos em ótimas revistas.
E para quê? Para nada. Nunca consegui uma bolsa de pesquisa sequer. Enviei um milhão de currículos para que um único lugar me chamasse e quisesse me contratar da maneira mais arrombada possível. Talvez seja mesmo um privilégio cometer suicídio por não ter encontrado um emprego que estivesse à minha altura.
Decidi que ia tentar de tudo para sair do Brasil para estudar na França e na Alemanha, só por comodidade em relação aos idiomas, que já falo muito bem há anos, e porque não tenho como bancar um certificado de inglês neste momento. Fui rejeitado em quase tudo, exceto por uma vaga muito específica na França, à qual me agarrei com minha última vontade de continuar vivo. Acontece que absolutamente todas as políticas remanescentes para estudantes internacionais foram sendo destruídas uma a uma desde que aceitei a vaga e me planejei para ir para lá. Não tenho bolsa, não tenho onde morar, não conheço ninguém, o que significa que estou fodido até o talo do meu rabo.
Agora que estou com os dias contados onde moro, vou precisar morar com meus pais antes de ir. Eles dizem que não veem problema em me bancar com mil euros por mês, o que por si só já é inafiançável para 99% da população brasileira. Mas eles continuam me lembrando que eu estou escolhendo o caminho mais difícil, que eu podia ter continuado na área de tecnologia e tudo magicamente teria dado certo, dizem eles que trabalharam por décadas numa empresa brasileira que de repente foi vendida para uma mega corporação estrangeira que demitiu quase todos os outros funcionários e vive ameaçando de os demitir também.
Isso não está fazendo o menor sentido para quem não está tendo uma crise de pânico contínua há 1 semana. Vou parando por aqui.
Edit importante: Faço terapia com uma ótima profissional há quase 10 anos, mas terapia não faz milagre. Fora que daqui a um mês vou ter que escolher entre estudar na França e deixar a profissional que me salvou por mais de uma vez ou continuar fazendo terapia, porque os dois não dá.