Ditongo centralizante - sempre abre?
tl;dr sou falante inovativo? vocês já ouviram outro carioca que fala como eu? se você é de Porto Alegre, de outros lugares do RS com ditongação ou das partes de Portugal onde se fala assim, como são esses ditongos onde você vive?
EDIT: trocando em miúdos, eu estou na minoria extrema por falar áâ, éâ e óâ ao invés de éá e óá?
Uma coisa que me irrita na pesquisa fonética e fonológica do português é que existem inúmeras nuances da nossa pronúncia que não geram interesse em serem catalogadas como fenômeno por não possuírem valor fonêmico.
O português cobre uma vasta extensão territorial e possui inúmeros dialetos. Então é sempre muito chato que existam páginas na Wikipédia descrevendo alofones raros no inglês, no sueco, no francês ou no espanhol, mas a gente tenha que se limitar ao arroz com feijão de só ajudar as pessoas com [tʃi] e [dʒi].
Um exemplo, o éle /l/ do Rio de Janeiro e vários outros estados em /li/ começa com a dita pronúncia velar corcunda (bunched velar) ou molar, que no inglês é um dos alofones identificados pro /r/, ocorrendo ao menos nos EUA e na Inglaterra.
https://en.wikipedia.org/wiki/Voiced\_velar\_approximant
E ao contrário do [ɹ̈ˁʷ ~ ɰ˞ˁʷ] do inglês, que soa praticamente idêntico ao /r/ coronal [ɹ̠ˠʷ] (pronunciado logo atrás dos dentes superiores), a falta de aquisição do /li/ [l̝̈͢ˁʎ̪̝i ~ ʟ̝˞͢ˁʎ̪̝i] sudestino imediatamente denuncia o sotaque de uma pessoa como não sendo originária daqui. Isso se torna ainda mais bizarro quando nos damos conta de que há fonoaudiólogos atendendo a pessoas vindas de outras partes do Brasil buscando uma redução de sotaque (não vou entrar no mérito ou na problemática disso). Outro que também potencialmente denunciaria alguém como não-carioca é usar-se o [ʃ ʒ] pra fazer o som do chiado, que na verdade é sempre [ɕ ʑ], mas nunca é descrito como tal nos artigos.
Felizmente, não é o caso dos ditongos centralizantes do sotaque carioca:
Um estudo acústico dos ditongos centralizantes na fala carioca
O que esse estudo explica é que a gente realiza muitos ditongos na direção de um [ə] — ou [ɐ], como eles escolheram para representar, seguindo a tradição da linguística luso-brasileira — em inúmeros contextos, geralmente (mas não sempre) em sílaba tônica.
Isso é muito bom, já que é uma alofonia, nós não fazemos conscientemente, mas a sua adoção correta por pessoas que não falam nosso sotaque de forma nativa lhes ajudaria no processo de redução de sotaque, caso queiram fazê-lo. OU, de maneira muito mais provável, talvez precisemos adquirir uma língua estrangeira onde esse tipo de off-glide seria interpretado como segmento com valor fonêmico, como no alemão /ʁ/ ou nas variedades não-róticas do inglês, em que ele possui valor equivalente ao /r/ coda nos róticos. Ou caso nós por nossa vez busquemos uma redução de sotaque num contexto lusófono, por exemplo sendo diaspóricos em Maringá, Curitiba, Florianópolis, Gramado ou Portugal.
Mas o que me deixa encucado é que aparentemente ele só mostra essas pronúncias:
[iɘ̯ ~ iə̯] [ɪë̯] [e̝ə̯] [uȗ̞] [oə̯] [ɛ̝æ̯] [ə̃ɜ̯̃] [ɔ̝ɒ̯̽] com o off-glide das vogais anteriores na verdade sendo bem anterior, e das posteriores sendo bem posterior.
Em todos os casos, parece que os ditongos sempre mostram vogais se abrindo?
Mas no meu idioleto, que vocalicamente se assemelha ao do Cabo Daciolo, as vogais fechadas se abrem e as abertas se fecham.
/a/ [äɐ̯] karma, quadrado, cabra, candelabro, Pablo, lago, taco
/ɐ̃/ [ɜ̃ə̯̃(ɰ̃)] tantã, canto, pan (de pansexual ou panromântico), clã
/ɛ/ [ɛɛ̯̽] erva, pressa, quero, tetra, quebro, Lego, Leleco
/ɔ/ [(ɔ̝̑/ʕ̞ʷ)ɑ̽ꟹʌ̯̈] horta, obra, toga, toca
/ɔ/ [(ʷ)ɔə̯] poda, pode, agora, copra, cobre
/ẽ/ [ẽ̞ə̯̃(ɰ̃/ɉ̃)] entra, Enzo, penso, fenda, penca, lengalenga, membro
/õ/ [õ̞ə̯̃(ɰ̃)] onça, onze, onda, ombro, compro
/e/ [ee̯̽] terça, madeira, letra, recebo, chamego
/o/ [oɤ̯̽ꟹ] porto, poço, coro, goto, outro, roupa
/i/ [iɪ̯] pira, Irma, Quito, víbora
/i/ [iɘ̯] lira, consigo, tico, tribo
/i/ [(j/ʔ)ɪ(j)] ida, ilha, isso, isca, pista
/i/ [ɪɘ̯] Rita, periquito, contigo, lilás
/u/ [uʊ̯] curto, upa, jura ([ʉ̠ʊ̯]), poodle
/u/ [uɵ̯]? surto, Guto, ubre
/u/ [(w)ʊ(ö̯)] turma, turno, urso, cura
O /ĩ/ e o /ũ/ vou ficar devendo, eu não consigo pensar em contextos onde eles puxem muito um off-glide centralizante.