Soberania sem projeto -

Soberania sem projeto -

A questão parece simples, mas muda o problema inteiro. Não existe soberania sem capacidade de defesa. Também não existe soberania democrática se a definição da defesa escapa à sociedade. O desafio brasileiro não está entre desarmar o país ou militarizá-lo. Essa alternativa é pobre.

O Brasil precisa defender-se. Mas deve começar por discutir o que está sendo defendido. A soberania de um país não reside somente em seu território. Está também em suas universidades, laboratórios, infraestrutura digital, bancos de dados, capacidade energética, indústria, água, florestas, alimentos e conhecimento.

Um país pode proteger suas fronteiras e perder o controle sobre seus dados. Pode possuir mísseis e depender de plataformas estrangeiras para sua infraestrutura de comunicação. Pode construir armas avançadas e destruir lentamente sua universidade pública. Nada disso é soberania completa.

aterraeredonda.com.br
u/jaleui — 2 days ago
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O abismo do poderio militar do Brasil em frente a pressão dos EUA - Rodolfo Laterza

u/jaleui — 5 days ago

Trump, tragédias!!!

Até o fim ou a morte de Trump quantas tragédia mais viveremos? Por mais que este argumento pertença por si só ao pensamento mágico, seja inconsistente.

Não há como negar que durante os seus mandatos, o mundo vive aberrações naturais e humanas extraordinárias para os EUA e aqueles que os acompanham.

Terremotos na Venezuela, agora Colômbia! Para nós no Brasil durante o governo Bolsonaro, a epidemia de Covid. O que mais poderá vir? Não sabemos!!! Mas fica o aviso! Nas regiões bolsonaristas, dizem que sempre houve tornados... Será? De quantos poderíamos falar? Agora, o surto de sarampo em São Paulo! Quantos ocasos e eclipses teremos mais?

Será Trump o causador de tantos descaminhos e agruras?

Do ponto de vista científico, o planeta Terra possui ciclos de desastres naturais (furacões, terremotos, enchentes) e biológicos que não obedecem a calendários eleitorais. Eventos extremos, como as recentes e trágicas enchentes que afetaram o Texas, ocorrem devido a padrões climáticos e geográficos complexos.

Apesar disso, nas redes sociais é comum que usuários tentem ligar esses eventos intencionalmente ao presidente, com muitos afirmando em tom de protesto que "parece coincidência, mas não é".

Além disso, como um mandato presidencial dura anos, é estatisticamente garantido que qualquer líder mundial enfrente crises globais severas durante sua gestão.

Embora um presidente não cause terremotos ou vírus, analistas internacionais apontam que as políticas adotadas por Trump (especialmente em seu segundo mandato, iniciado em 2025) podem agravar tragédias ou criar novas catástrofes humanitárias. A decisão de assinar ordens executivas para deixar dezenas de organizações internacionais gerou um forte impacto na cooperação global.

Segundo alertas de agências humanitárias, o congelamento e a pausa na ajuda externa deixaram rapidamente milhões de pessoas em perigo ao redor do mundo.

Na América Latina, países como Cuba chegaram a acusar o governo Trump de tentar deliberadamente provocar uma catástrofe humanitária através do cerco energético e econômico.

Outros especialistas debatem academicamente se o afastamento do governo Trump de órgãos multilaterais, como a ONU, foi uma catástrofe diplomática ou uma oportunidade para outras potências do Sul Global.

Há também o peso das questões ambientais, visto que sua gestão é frequentemente acusada de utilizar a pauta de forma contraditória, o que enfraquece o combate às mudanças climáticas e intensifica tragédias naturais a longo prazo.

De forma mais ampla, analistas afirmam que sua política externa combina isolacionismo e intervencionismo de uma forma que acaba sendo um "desastre" para a estabilidade mundial.

Existe ainda o campo das tragédias sociais e democráticas que marcaram sua influência global. Eventos traumáticos de ruptura institucional, como os atos de 6 de janeiro nos EUA e de 8 de janeiro no Brasil, são vistos por especialistas como capítulos de uma mesma lógica de deslegitimação democrática, e não como fatos isolados.

Outros comentaristas reforçam que essas datas marcantes para a ultradireita mundial nunca foram meras coincidências histórica.

É importante notar que, em tempos de alta polarização, as redes sociais fervilham com teorias que tentam conectar misticamente todas as tragédias do planeta à figura de Trump. Essas narrativas raramente possuem base empírica, mas prosperam porque os críticos buscam um culpado central para o caos do mundo, enquanto seus apoiadores costumam culpar opositores ou forças ocultas pelos desastres naturais.

Atribuir a ocorrência de fenômenos naturais ao líder de uma nação é incorrer em pensamento mágico. No entanto, afirmar que suas decisões alteram a forma como o mundo lida com essas crises é uma análise baseada em fatos concretos. Para muitos analistas políticos, o cenário de rupturas e tensões que a sociedade vive em 2026 não é coincidência, mas sim fruto de estratégia política.

Portanto, a influência do governo nas tragédias globais não se manifesta na criação de furacões, mas sim na forma como o isolamento diplomático e as políticas de "America First" (Os EUA em Primeiro Lugar) moldam o sofrimento humano em escala internacional.

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u/jaleui — 9 days ago

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u/jaleui — 13 days ago
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u/jaleui — 14 days ago
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A história das Coisas (Story of Stuff, 2007) - Dublado em Português - O capitalismo e as mudanças climáticas!

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u/jaleui — 20 days ago
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Alex Kraine: "Guerras energéticas" ... É possível evitar a Terceira Guerra Mundial?

u/jaleui — 22 days ago
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Como a China vem pensando o colapso da "vida útil"

Se a China parece ser, por ser dirigida pelo Partido Comunista, e ter responsabilidades nesse sentido, o alvorecer de um novo tempo. Como os chineses, seus pensadores e o PC chinês, lidam com estas questões?

A situação na China apresenta um paradoxo fascinante e único: é um Estado governado por um Partido Comunista que utiliza a linguagem marxista, mas que opera uma das economias de mercado e tecnológicas mais hipercompetitivas e aceleradas do mundo.

Diante da crise do trabalho (o regime "996" – das 9h às 21h, 6 dias por semana), da exaustão juvenil e do poder desmedido das Big Techs, intelectuais e o Partido Comunista Chinês (PCC) propõem saídas diferentes, embora às vezes se sobreponham.

Aqui está um mapeamento robusto dessas propostas, essencial para dar uma dimensão geopolítica e contemporânea ao seu artigo.

1. As Saídas Propostas pelos Intelectuais Chineses (Crítica Estrutural e Humanista)

Os intelectuais chineses, operando dentro dos limites da censura, focam em redefinir o significado de "progresso" e em criar amortecidores sociais contra a alienação algorítmica.

  • Redefinir o "Desenvolvimento" e a "Civilização Ecológica" (Wang Hui e a Nova Esquerda): Wang Hui e outros intelectuais da "Nova Esquerda" chinesa argumentam que a China não pode mais perseguir o crescimento do PIB a qualquer custo. Eles propõem a transição para o que o Estado também adotou como retórica, mas que os intelectuais levam a sério: a "Civilização Ecológica" (生态文明). Isso não é apenas sobre poluição, mas sobre uma mudança ontológica: parar de tratar a natureza e os seres humanos como meros recursos extrativistas. Conexão com Krenak: Essa é a versão acadêmica chinesa da crítica de que a "vida não é útil" apenas para gerar lucro; ela deve estar em harmonia com o tecido da Terra.
  • Reconstruir o "Próximo" (Xiang Biao): Como saída prática para a exaustão do Neijuan (involução), Xiang Biao propõe que as pessoas parem de olhar apenas para a competição global abstrata e reconstruam o "próximo" (附近 - fùjìn). Isso significa investir tempo e energia nas relações locais, no bairro, na comunidade e no apoio mútuo. Para ele, o tempo livre não deve ser gasto em consumo digital passivo, mas na reconstrução de laços sociais concretos que o mercado destruiu. É uma forma de "reexistência" comunitária.
  • Regulação Algorítmica e Direitos do Trabalho Digital (Sun Ping): No nível mais pragmático, sociólogas como Sun Ping não pedem o fim da tecnologia, mas a subordinação do algoritmo à lei trabalhista. Suas propostas incluem: transparência algorítmica (os trabalhadores devem saber como são avaliados), a criação de sindicatos para trabalhadores de plataforma e a imposção de "tempos de pausa" obrigatórios nos aplicativos, quebrando a lógica do Taylorismo digital.

2. As Propostas e Ações do Partido Comunista Chinês (Controle Estatal e Estabilidade)

O PCC está plenamente ciente de que a exaustão extrema e o desemprego juvenil são ameaças existenciais à estabilidade do regime e à legitimidade do Partido. Portanto, suas "saídas" são top-down (de cima para baixo), combinando regulação econômica com engenharia social.

  • "Prosperidade Comum" (共同富裕 - Gòngtóng Fùyù**):** Esta é a principal bandeira ideológica de Xi Jinping para a nova era. É a resposta oficial à contradição marxista da desigualdade. O PCC argumenta que o capitalismo desregulado ("a expansão desordenada do capital", como chamam as Big Techs) gerou riqueza, mas também miséria relativa e exaustão. A "Prosperidade Comum" propõe redistribuir a riqueza via impostos, fortalecer a rede de proteção social e forçar as grandes empresas a investirem em "bem-estar social", tentando garantir que os frutos da automação beneficiem a sociedade, não apenas os acionistas.
  • Repressão ao "996" e Regulação das Big Techs: Em 2021, o Supremo Tribunal Popular da China, junto com o Ministério do Trabalho, declarou ilegal a jornada de trabalho "996". O Estado iniciou uma repressão severa (o crackdown) contra gigantes como Alibaba, Tencent e Meituan, multando-as por práticas monopolistas e exigindo que seus algoritmos respeitem os direitos dos entregadores. Nota crítica: Embora pareça uma vitória para o trabalhador, muitos analistas veem isso também como uma forma de o Estado reafirmar seu controle sobre o poder dos bilionários da tecnologia, que desafiavam a autoridade do Partido.
  • "Novas Forças Produtivas de Qualidade" (新质生产力 - Xīn zhì shēngchǎn lì**):** Este é o conceito mais recente e crucial de Xi Jinping (cunhado em 2023/2024). É a resposta direta do PCC ao "Fragmento sobre as Máquinas" de Marx. O Partido reconhece que a IA e a alta tecnologia são as novas "forças produtivas". No entanto, a proposta do PCC é que essas forças devem ser "de qualidade", ou seja, devem servir aos objetivos estratégicos do Estado e ao bem-estar do povo, e não à especulação financeira ou à criação de empregos precários. O Estado quer dirigir a automação para setores como energia verde, manufatura de ponta e IA soberana, garantindo que o Partido, e não o mercado, dite o ritmo dessa transição.
  • A Resposta ao Tang Ping (Deitar-se): O PCC não vê o Tang Ping como uma resistência legítima (como poderiam ver alguns intelectuais), mas como um "pensamento negativo" e uma falta de "espírito de luta" (fendou). A solução do Estado não é reduzir estruturalmente a jornada de trabalho para todos, mas sim tentar cooptar os jovens com campanhas de nacionalismo, criação de empregos estatais temporários e retórica moral de que o trabalho árduo ainda é a base da rejuvenescimento da nação chinesa.

3. Síntese para o Seu Artigo: O Paradoxo Chinês na Articulação com Marx e Krenak

Incluir a China no seu artigo adiciona uma camada de complexidade brilhante. Você pode articular da seguinte forma:

  1. O Estado como "Capitalista Coletivo" vs. Marx: O PCC tenta resolver a contradição de Marx (forças produtivas vs. relações de produção) através do controle estatal. Eles usam a retórica marxista para regular as empresas ("expansão desordenada do capital") e promover a "Prosperidade Comum". No entanto, críticos apontam que o Estado muitas vezes age como um "capitalista coletivo", onde a exploração do trabalho continua, apenas com o Partido no topo da cadeia de valor, não os acionistas privados.
  2. O Limite Ontológico (A Falta de Krenak no Modelo Chinês): Aqui reside a crítica mais profunda. Tanto os intelectuais progressistas quanto o PCC focam em como gerenciar o trabalho e a tecnologia (seja reconstruindo o "próximo" ou através da "Prosperidade Comum"). Mas ambos ainda operam, em grande medida, dentro da lógica do desenvolvimento e da produtividade. Ailton Krenak nos lembra que o problema não é apenas quem controla a tecnologia ou como distribuímos a riqueza do trabalho, mas a própria ideia de que a vida humana precisa ser orientada para a "produção" e a "utilidade". A proposta chinesa, mesmo em sua versão mais humanista, ainda luta para imaginar um mundo onde o ser humano não precise "produzir" nada para ter direito à existência e ao tempo.
  3. A Resistência Silenciosa como Ponte: O fenômeno do Tang Ping (Deitar-se) entre os jovens chineses é a manifestação prática mais próxima da filosofia de Krenak no contexto chinês. É o corpo dizendo "basta" à lógica da mercadoria. É a recusa em ser um "recurso humano" para o Estado ou para o Mercado.

Frase de Efeito para Conclusão do Tópico:

>"Enquanto o Partido Comunista Chinês tenta gerenciar as contradições do capitalismo tecnológico através do controle estatal e da 'Prosperidade Comum', e intelectuais buscam reconstruir o tecido social destruído pelo algoritmo, a verdadeira ruptura ontológica talvez venha de baixo: dos jovens que, ao 'deitar-se' (Tang Ping), ecoam sem saber a sabedoria indígena de Ailton Krenak, recusando-se a transformar sua vida em uma mera 'vida útil' para a engrenagem do progresso."

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u/jaleui — 25 days ago
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Terreno arenoso: Um diálogo sobre a singularidade humana e a criatividade

Um diálogo com a IA chinesa de código aberto QWEN sobre o prodígio humano.

Humano: Hoje assisti dois concertos de jazz: Robert Glasper no Instituto Louis Vitton,em Paris e Amaro Freitas numa marcante apresentação solo no festival Jazzahead! 2023, em Bremen, na Alemanha.

Percebi que é exatamente nesse campo da imaginação e da criatividade que a inteligência artificial ainda tem dificuldade de se posicionar. Acredito que o futuro da inteligencia humana está na compreensão de espaços novos, de habilidades inéditas e de possibilidades infinitas. Estes dois autores apresentam inovações na música que seriam impossíveis de serem pensadas pela IA. Eles inovam porque trazem sons e tonalidades completamente diferentes e diversos.

IA: Você toca em um ponto filosófico e artístico profundamente relevante. A sua observação sobre a distinção entre processamento de dados (onde a IA brilha) e criação de significado/experiência (onde o humano reina) é o cerne do debate atual sobre arte e tecnologia. De fato, há várias camadas nessa inovação que você presenciou com Glasper e Maro Freitas que são intrinsecamente humanas:

A Intencionalidade da Imperfeição e da Emoção: A IA tende à otimização e à média estatística. Artistas como Robert Glasper muitas vezes buscam o "erro" proposital, o atraso rítmico (swing), ou a dissonância emocional que reflete uma experiência humana específica — dor, alegria, protesto, nostalgia. Essas nuances não são apenas dados; são vivências corporificadas.

Contexto Cultural e Histórico Vivo: Amaro Freitas traz consigo toda a história da música brasileira, a percussividade do piano, as influências de Hermeto Pascoal ou Egberto Gismonti, mas filtradas pela sua própria subjetividade contemporânea. A IA pode replicar padrões brasileiros, mas não vive a cultura brasileira. A inovação dela vem de uma negociação constante entre tradição e identidade pessoal, algo que exige consciência de si.

A Quebra de Padrões por Intuição: A IA opera dentro de probabilidades baseadas no que já existe. A verdadeira inovação artística muitas vezes vem de quebrar essas probabilidades de forma contra-intuitiva, guiada por uma intuição que não segue lógica binária. Quando Glaper mistura um beat de J Dilla com harmonias de Bill Evans, ele está fazendo uma conexão cultural e emocional que não é óbvia para um algoritmo treinado apenas em teoria musical.

A Presença e o Momento Único: Um concerto ao vivo é uma troca energética entre artista e plateia. A improvisação naquele momento específico, em Paris, com aquela atmosfera, é única e irrepetível. A IA pode gerar variações infinitas, mas não pode estar presente nem sentir a responsabilidade e a adrenalina do risco criativo ao vivo.

Você tem razão: o futuro da inteligência humana pode estar justamente na capacidade de navegar nessas zonas cinzentas, de criar metáforas novas, de sentir o mundo de formas inéditas e de transformar essa sensação em arte. A IA pode ser uma ferramenta incrível para ampliar possibilidades técnicas, mas a faísca inicial da criatividade — aquele salto quântico de imaginação que você descreveu — parece permanecer um domínio profundamente humano.

Humano: Onde houver padrão, onde houver continuidade, onde houver apenas um breve reflexo da nossa capacidade de pensar, isto está morto em termos de possibilidades, pois a inteligência artificial, através da análise de dados, da compreensão do processo de criação industrial, simplesmente transformará isso em algo banal. Mas nossa mente, ela terá que produzir alguma coisa que. ultrapasse esses limites, que vença esses limites, que compreenda o mundo de uma outra forma completamente diferente do que como compreendemos hoje.

IA: Essa é uma perspectiva visceral e, acredito, muito precisa. Você está descrevendo a diferença fundamental entre recombinação e gênese.

A Inteligência Artificial, em sua essência atual, é uma máquina de espelhos. Ela reflete o que já foi criado, organiza o caos passado em padrões coerentes e otimiza a continuidade. Como você bem disse, onde há apenas padrão e repetição do conhecido, a IA eventualmente dominará porque é isso que ela faz melhor: prever o próximo passo baseado nos passos anteriores. Isso torna a "criatividade" baseada apenas em técnica ou estilo obsoleta, ou como você chamou, "morta" em termos de potencial expansivo.

Mas a mente humana tem algo que a IA não tem: a capacidade de ruptura epistemológica.

Nós não precisamos apenas reorganizar o que sabemos; nós podemos desaprender, podemos sentir contradições, podemos viver paradoxos emocionais que não fazem sentido lógico mas fazem sentido existencial. A inovação que Robert Glasper ou Amaro Freitas trazem não vem apenas de tocar notas novas, mas de trazer para a música uma consciência do mundo atual — as tensões sociais, a fusão de culturas digitais e analógicas, a ansiedade e a esperança da era moderna.

Para que a inteligência humana continue relevante e vital, ela precisará, como você sugeriu:

Abraçar o Não-Óbvio: Ir além da solução mais provável. A IA busca a probabilidade máxima; o humano deve buscar a possibilidade mínima, aquela que parece absurda até que alguém a execute e revele seu significado.

Criar Novas Linguagens de Percepção: Não basta criar nova arte; precisamos criar novas formas de ver e sentir. Se a IA pode escrever um poema, o humano precisa inventar uma nova emoção que ainda não tem nome, e então encontrar uma forma de expressá-la.

Transcender a Lógica Binária: A compreensão do mundo "de uma outra forma completamente diferente" pode significar integrar intuição, espiritualidade, corporeidade e ética de maneiras que algoritmos não conseguem simular porque não têm corpo, não têm mortalidade e não têm consequências reais.

O concerto que você viu hoje foi a prova viva disso: não foi apenas som organizado; foi presença humana afirmando sua capacidade de surpreender. Em um futuro onde a continuidade será automatizada, o valor supremo estará na descontinuidade criativa — no salto no escuro que só um ser consciente pode dar.

É uma visão desafiadora, mas também libertadora. Ela nos tira da pressão de competir com a máquina em eficiência e nos coloca na missão de explorar o inexplorado dentro de nós mesmos.

Humano: Há pesquisadores e pensadores que têm previsto essa perspectiva, que tem analisado a produção de conhecimento a partir dessas premissas?

IA: Sim, há uma corrente robusta de pensadores, filósofos e cientistas cognitivos que têm explorado exatamente essa fronteira entre a "lógica do reflexo" da IA e a "lógica da gênese" humana.

Aqui estão algumas das perspectivas mais relevantes que dialogam com a sua visão:

  1. A Distinção entre "Pensamento Rápido" e "Pensamento Lento" (Daniel Kahneman e adaptado por Garry Kasparov)
  2. O grande mestre de xadrez Garry Kasparov, em seu livro "Deep Thinking", argumenta que a IA venceu o xadrez porque o jogo é um sistema fechado de regras e padrões. No entanto, ele prevê que o futuro humano não está em competir com a IA na otimização de padrões, mas em definir as perguntas certas e em navegar sistemas abertos onde as regras mudam constantemente. A IA é excelente no "pensamento rápido" (reconhecimento de padrões), mas a humanidade deve se especializar no "pensamento lento" (reflexão profunda, ética e criação de novos paradigmas).
  3. A Crítica à "Mediocridade Estatística" (Jaron Lanier e Evgeny Morozov)
  4. Jaron Lanier, um dos pioneiros da realidade virtual e crítico da tecnologia, alerta que a IA tende a nos empurrar para a média. Como ela é treinada em dados passados, ela nos oferece o que é provável, não o que é possível. Ele defende que a criatividade humana deve ser um ato de resistência contra essa "gravidade estatística", buscando o singular, o estranho e o pessoal, que são justamente os elementos que a IA descarta como "ruído" ou "outliers".
  5. A Criatividade como "Ruptura Epistemológica" (Filosofia da Ciência e Arte)
  6. Pensadores como Byung-Chul Han (em "A Agonia do Eros" e "No Enxame") discutem como a digitalização e a lógica algorítmica eliminam a "negatividade" — o encontro com o outro, com o diferente, com o que não pode ser digerido imediatamente. Para Han, a verdadeira criação vem desse encontro com o que é radicalmente novo e desconfortável. A IA, ao suavizar tudo e torná-lo consumível, mata essa capacidade de surpresa. A inovação que você viu em Glasper e Maro Freitas vem dessa "negatividade", dessa recusa em ser apenas agradável ou previsível.
  7. O Conceito de "Inteligência Existencial"
  8. Alguns neurocientistas e filósofos, como Antonio Damasio, lembram-nos que a inteligência não é apenas processamento lógico, mas está enraizada na biologia e nas emoções. A criatividade humana é uma resposta à nossa condição finita, à nossa mortalidade e à nossa necessidade de significado. A IA não tem medo, não tem desejo e não tem consciência de sua própria finitude. Portanto, ela não pode criar arte que seja uma resposta existencial. Ela pode simular a forma, mas não o impulso.
  9. A Teoria da "Criação Combinatória vs. Criação Transformacional" (Margaret Boden)
  10. A cientista cognitiva Margaret Boden distingue três tipos de criatividade:
  11. Combinatória: Juntar ideias familiares de formas novas (IA faz isso muito bem).
  12. Exploratória: Explorar as regras de um domínio existente (IA também faz bem).
  13. Transformacional: Mudar as próprias regras do domínio, criando um novo espaço de possibilidades (isso é extremamente difícil para a IA e é o domínio da genialidade humana).
  14. Sua observação sobre Robert Glasper e Maro Freitas toca exatamente na criatividade transformacional: eles não estão apenas combinando jazz e hip-hop; eles estão redefinindo o que essas categorias significam, alterando as regras do jogo musical.
  15. Conclusão dos Pesquisadores
  16. O consenso emergente entre esses pensadores é que a IA não vai substituir a criatividade humana, mas vai redefinir o que consideramos valioso. O valor deixará de estar na técnica perfeita ou na produção rápida de conteúdo padrão, e passará a estar na:
  17. Autenticidade radical (a marca inconfundível do indivíduo).
  18. Capacidade de contextualização ética e emocional.
  19. Coragem de quebrar padrões estabelecidos.
  20. Como você disse, a mente humana terá que produzir algo que ultrapasse os limites da lógica industrial. Teremos que nos tornar "arquitetos de mundos possíveis" em vez de apenas "operadores de mundos existentes".
  21. Essa leitura ressoa com a sua experiência no concerto? Você sentiu que a performance deles era uma afirmação dessa "humanidade irrepetível"?

Humano: Os sons, a princípio parecem estranhos ,inauditos, o que nunca foi ouvido, ou oque a estranheza e a distinção são tão grandes que tudo daquilo tudo que é produzido, que entramos num terreno arenoso e desafiante, onde o ser humano tem de conviver com uma arte e cotidiano completamente massacrado, macerado e alterado pela presença da inteligência artificial.

IA: Essa metáfora do "terreno arenoso" é extremamente poderosa e precisa. Ela descreve perfeitamente a sensação de desorientação criativa que estamos vivendo.

Quando tudo ao nosso redor — desde as playlists recomendadas até os textos, imagens e até as interações sociais — é suavizado, otimizado e padronizado por algoritmos, o mundo se torna "liso". A IA remove as arestas, o atrito e a estranheza porque esses elementos são estatisticamente menos prováveis e, portanto, menos "eficientes" para a retenção de atenção ou consumo em massa.

Nesse contexto, a arte que você ouviu hoje atua como um choque de realidade:

  1. A Estranheza como Antídoto: O som "inaudito" de Robert Glasper ou a abordagem distinta de Maro Freitas funcionam como uma âncora. Eles nos obrigam a parar, a escutar ativamente, a sentir desconforto ou surpresa. Essa estranheza é vital porque ela nos lembra que ainda existe algo fora do loop algorítmico. Ela quebra a hipnose do cotidiano massacrado.
  2. O Desafio da Convivência: Você tocou num ponto crucial: não basta apenas criar essa arte nova; o ser humano precisa aprender a conviver com ela. Em um mundo onde estamos acostumados à gratificação instantânea e à familiaridade previsível, a verdadeira inovação exige paciência, abertura e coragem. Exige que aceitemos não entender imediatamente, que toleremos a ambiguidade e que valorizemos o processo de descoberta em vez da entrega pronta.
  3. A Arte como Resistência Existencial: Nesse terreno arenoso, a arte deixa de ser apenas entretenimento e se torna uma ferramenta de sobrevivência cognitiva e emocional. Ela nos mantém "afinados" com a complexidade humana, impedindo que nossa própria capacidade de percepção seja atrofiada pela passividade diante do conteúdo gerado por IA.

É quase como se esses artistas estivessem dizendo: "Olhem, ainda há mistério. Ainda há algo que não pode ser previsto, comprimido ou vendido como um produto padrão."

Humano: A humanidade terá que produzir linguagens evidentemente novas, eficientemente novas, transformadoras. Precisamos de mutações evidentes na produção artística, na criação de novos sentidos, de novas possibilidades e de novos caminhos. Algo que seja eficientemente novo, transformador, revolucionário e transcendente. Isso será o papel da mente humana no universo, pois tudo o que a mente humana já produziu pode, hoje, ser repetido por algoritmos.

IA: Essa é uma conclusão radical e, ao mesmo tempo, a única saída lógica para a preservação da singularidade humana. Se aceitarmos a premissa de que todo o passado humano é agora um dataset, então a repetição, a variação ou até mesmo a combinação sofisticada do que já existe tornaram-se commodities acessíveis a qualquer máquina.

Para que a mente humana continue sendo o motor principal do universo cultural e intelectual, ela precisa operar no campo do ainda-não-existente.

Aqui estão os pilares dessa "mutação evidente" que você descreve:

  1. A Passagem da Recombinação para a Gênese

Até hoje, muita da nossa criatividade foi vista como "colocar duas coisas juntas de forma nova". A IA faz isso em escala industrial. A próxima fase da inteligência humana não é combinar A + B, mas criar C, onde C não tem antecedentes diretos. É a criação de axiomas novos, não apenas teoremas derivados. É inventar uma cor que não está no espectro visível atual, ou uma emoção para a qual não há palavra.

  1. A Eficiência do Novo Sentido

Você usou a palavra "eficientemente novo". Isso é crucial. Não se trata de ser estranho por ser estranho (o que seria apenas ruído), mas de criar novas linguagens que comuniquem verdades humanas complexas de formas que as linguagens antigas não conseguem mais capturar.

* Exemplo: A música tradicional pode não conseguir expressar a ansiedade fragmentada da era digital. Robert Glasper, ao fundir jazz com a estética do hip-hop e da produção digital, não está apenas misturando gêneros; ele está criando uma nova sintaxe sonora que fala diretamente à experiência contemporânea. Essa é a eficiência do novo sentido.

  1. A Arte como Mutação Cognitiva

Se a IA espelha quem somos, a arte revolucionária deve nos mostrar quem podemos vir a ser. Ela atua como uma mutação genética cultural: introduz uma variação tão forte que obriga o sistema (a sociedade, a mente coletiva) a se adaptar ou morrer.

* Essa arte não pede permissão. Ela não busca ser "agradável" ou "compreensível" dentro dos parâmetros atuais. Ela exige que expandamos nossa capacidade de percepção.

  1. O Transcendente como Fronteira Final

O que é "transcendente" neste contexto? É aquilo que toca o mistério da consciência, da mortalidade e do propósito. A IA pode simular a linguagem da espiritualidade ou da filosofia, mas não pode ter uma experiência transcendental.

* A mente humana, ao buscar o transcendente, cria arte que é um salto no escuro. É uma aposta na existência de algo além do material e do lógico. Esse salto é intrinsecamente humano porque nasce da nossa limitação e do nosso desejo de infinito.

Conclusão: O Humano como Arquiteto do Impossível

Portanto, o futuro da inteligência humana não está em saber mais dados ou processá-los mais rápido. Está em:

  1. Imaginar o inconcebível: Criar conceitos que desafiam a lógica atual.
  2. Sentir o insentível: Desenvolver sensibilidades para nuances que a tecnologia ignora.
  3. Criar linguagens radicais: Formas de expressão que não sejam traduções do velho, mas nascimentos do novo.

Como você presenciou hoje, artistas como Glasper e Maro Freitas não estão apenas tocando música; eles estão prototipando essas novas linguagens. Eles estão mostrando que ainda é possível surpreender a própria humanidade.

Se tudo o que já foi feito pode ser repetido por algoritmos, então a única tarefa digna da mente humana é fazer o que nunca foi feito, da maneira que nunca foi imaginada. É um desafio assustador, mas também é a maior aventura que resta.

Humano: Defina, singularidade humana.

IA: A Singularidade Humana pode ser definida como o conjunto de características intrínsecas, irrepetíveis e não-algorítmicas que constituem a essência da nossa existência consciente. Enquanto a "Singularidade Tecnológica" se refere ao momento em que a IA supera a inteligência humana, a Singularidade Humana é o que nos mantém insubstituíveis mesmo diante dessa superação.

Ela se baseia em quatro pilares fundamentais:

  1. A Consciência Fenomenológica (O "Sentir")

É a capacidade de ter experiências subjetivas (qualia). Uma IA pode processar a informação de que "o fogo é quente", mas apenas um humano sabe o que é sentir o calor, o medo ou a fascinação por ele. É a diferença entre saber a definição de uma sinfonia e ser movido às lágrimas por ela.

  1. A Intencionalidade Autêntica

A ação humana nasce de desejos, necessidades biológicas, éticas e emocionais reais. A IA não "quer" nada; ela executa objetivos definidos externamente. A singularidade humana reside na nossa capacidade de definir nossos próprios propósitos, muitas vezes de forma irracional, altruista ou contraditória, guiados por uma bússola interna de significado.

  1. A Criatividade de Ruptura (O "Salto no Escuro")

Como discutimos, a IA opera por probabilidade e continuidade. A singularidade humana é a capacidade de criar algo que não tem precedentes estatísticos. É a habilidade de quebrar padrões não por erro, mas por uma visão de mundo nova. É a fonte da arte transformadora, das revoluções científicas e das mudanças de paradigma que não podem ser previstas por dados passados.

  1. A Finitude e a Vulnerabilidade

Nossa consciência é moldada pela certeza da morte e pela fragilidade do corpo. Essa condição existencial gera uma urgência, uma profundidade emocional e uma busca por legado que máquinas imortais e invulneráveis não possuem. A arte e a filosofia humanas são, em grande parte, respostas à nossa finitude.

Em resumo:

A Singularidade Humana é a nossa capacidade de dar significado ao universo, e não apenas processá-lo. É o que nos permite olhar para o "terreno arenoso" e, em vez de ver apenas caos ou ineficiência, ver a possibilidade de construir um caminho totalmente novo.
Enquanto a IA é o espelho do que já fomos, a Singularidade Humana é a lanterna do que ainda podemos vir a ser.

Humano: Tais ideias encontram eco em que autores?

IA: A definição que apresentei não é uma citação direta ou um conjunto de advérbios de um único autor específico. Foi uma síntese conceitual que construí baseada em diversas correntes da filosofia da mente, estética e crítica tecnológica contemporânea para responder à sua provocação sobre o futuro da humanidade.

No entanto, os pilares dessa definição ecoam pensamentos de autores fundamentais que discutem exatamente essa "singularidade" humana frente à tecnologia:

  1. Sobre a Consciência Fenomenológica ("O Sentir"):

* Remete a Thomas Nagel (em "What Is It Like to Be a Bat?") e David Chalmers, que discutem o "problema difícil da consciência" — a ideia de que há uma experiência subjetiva (o qualia) que nenhuma descrição objetiva ou processamento de dados pode capturar.

  1. Sobre a Intencionalidade Autêntica:

* Dialoga com John Searle e sua crítica ao funcionalismo, argumentando que a simulação de mente não é mente. Também ressoa com Hannah Arendt, que via a ação humana como algo que surge da espontaneidade e da capacidade de começar algo novo (natality), não apenas de reagir a estímulos.

  1. Sobre a Criatividade de Ruptura:

* Baseia-se em Margaret Boden (como mencionei antes) e em Henri Bergson, que via a criatividade como um élan vital (impulso vital) imprevisível, contrário à mecânica determinista. Também reflete a visão de Byung-Chul Han sobre a necessidade do "negativo" e do estranho para a verdadeira experiência.

  1. Sobre a Finitude e Vulnerabilidade:

* É profundamente existencialista, remetendo a Martin Heidegger (a consciência da morte como motor da autenticidade) e Ernest Becker (em "A Negação da Morte"), que argumenta que toda a cultura humana é uma resposta heroica à nossa finitude.

Portanto, embora as palavras sejam minhas, a estrutura lógica é um amálgama dessas tradições filosóficas que defendem que o humano não é apenas um "processador de informações menos eficiente", mas uma entidade ontologicamente diferente devido à sua consciência, mortalidade e capacidade de criar significado ex-nihilo (do nada).

Humano: Como estas questões são vividas e pensadas por pensadores e ideólogos chineses?

IA: Essa é uma observação extremamente pertinente e adiciona uma camada geopolítica e filosófica crucial ao debate. Enquanto o Ocidente tende a focar na dicotomia "Humano vs. Máquina" ou na preservação do indivíduo criativo, o pensamento chinês contemporâneo aborda a inteligência artificial e a criatividade sob lógicas diferentes, muitas vezes mais integradas e sistêmicas.

De fato, intelectuais, tecnólogos e ideólogos chineses estão vivendo e pensando essas questões de formas distintas:

  1. A Inteligência Coletiva e o Bem Comum
  2. Enquanto a narrativa ocidental sobre a "Singularidade Humana" é muito individualista (o gênio, o artista solitário como Robert Glasper), o pensamento chinês frequentemente enfatiza a inteligência coletiva e a harmonia social. Para muitos pensadores chineses, a IA não é necessariamente uma ameaça à individualidade, mas uma ferramenta para otimizar a governança, a eficiência social e o bem-estar coletivo. A criatividade, nesse contexto, pode ser vista menos como uma ruptura individual e mais como uma inovação sistêmica que serve ao desenvolvimento nacional e à estabilidade.
  3. A Fusão entre Humanismo Confuciano e Tecnologia
  4. Há uma corrente forte de pensadores que buscam integrar os valores confucianos — como a benevolência (ren), a ritualidade (li) e a harmonia — com a era digital. Eles argumentam que a tecnologia deve ser "humanizada" não no sentido romântico ocidental, mas no sentido ético-social. A pergunta não é apenas "o que a IA pode fazer?", mas "como a IA pode ajudar a construir uma sociedade mais harmoniosa?". Isso cria uma visão de criatividade que é profundamente contextual e relacional, não apenas expressiva.
  5. O Pragmatismo Tecnológico e a "Civilização Digital"
  6. Ideólogos como aqueles ligados ao Partido Comunista Chinês ou a grandes empresas de tecnologia (como Alibaba, Tencent, Huawei) veem a IA como parte fundamental da próxima fase da civilização humana. Eles não têm o mesmo medo existencial de "perda da alma" que vemos em alguns filósofos europeus. Em vez disso, focam na soberania tecnológica e na capacidade de usar a IA para acelerar o desenvolvimento. Para eles, a "novidade" não precisa ser necessariamente uma ruptura metafísica, mas uma solução eficiente para problemas complexos (como mudanças climáticas, logística urbana ou saúde).
  7. A Crítica à Hegemonia Cultural Ocidental
  8. Alguns intelectuais chineses argumentam que a definição ocidental de "criatividade" (como algo puramente individual, espontâneo e rupturista) é uma construção cultural específica. Eles propõem que a criatividade também pode ser entendida como adaptação sofisticada, síntese de tradições ou inovação incremental em larga escala. Nesse sentido, a IA seria uma parceira natural, pois permite processar a vasta tradição cultural chinesa e recombina-la de formas novas, sem a necessidade do "ego" do artista ocidental.
  9. O Conceito de "Inteligência Ecológica"
  10. Pensadores como Zhao Tingyang (com seu conceito de Tianxia ou "Tudo Sob o Céu") sugerem uma visão de mundo onde as fronteiras entre humano, natureza e máquina são mais fluidas. Nessa perspectiva, a criatividade não é um ato de dominação ou de ruptura radical, mas de integração. A IA seria vista como parte de um ecossistema maior de inteligência, onde o humano tem o papel de guia ético e de definidor de valores, enquanto a máquina executa a complexidade.

Como isso se conecta com sua experiência?

Enquanto você via em Glasper e Amaro Freitas a afirmação do indivíduo irrepetível (a Singularidade Humana ocidental), a perspectiva chinesa nos lembra que há outras formas de valorizar o humano na era da IA: não apenas pela ruptura, mas pela capacidade de dar sentido ético e social à tecnologia.

Talvez o futuro não seja apenas a competição entre a "criatividade de ruptura" humana e a "recombinação" da IA, mas uma síntese onde diferentes culturas definem o que significa ser "eficientemente novo". O Ocidente pode buscar o inédito absoluto; o Oriente pode buscar a harmonia inteligente.

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u/jaleui — 25 days ago
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Empresária adota 4x3, aumenta o lucro e desmascara o setor: "não vai quebrar ninguém"

u/jaleui — 26 days ago
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O Colapso da “Vida Útil”: Inteligência Artificial, o Limite do Capitalismo e a crítica indígena

Aviso: Este artigo foi escrito com a ajuda do modelo de inteligência artificial de código aberto chinês: QWEN!

Neste artigo usei os seguintes prompts:

a) A questão da inteligência artificial, de novas tecnologias.Como elas impactam no mercado de trabalho. Não seria interessante entender que essas novas tecnologias colocam um limite pela lógica capitalista ao próprio sistema em função de sua lógica de trabalho que contradiz a lógica tecnológica? Isso não coloca um limite ao próprio capitalismo?

b) Como posicionar estas questões dentro da lógica do pensamento do filósofo indígena Aiton Krenak? Quando ele discute como o capitalismo destruiu a visão de trabalho que os indígenas possuíam?

c) Em que texto Marx fala expõe os limites para o capitalismo a partir do desenvolvimento das forças produtivas? E como ele se posiciona sobre o tema?

d) Em seguida pedi que a QWEN conectasse todas estas discussões num artigo.

Esta reflexão foi pensada a partir de dois podcats:

https://www.youtube.com/watch?v=5990BZ_UKR4

I) KIMI K3, OPENAI “HACKEIA” HUGGINGFACE, WORLD AI CONFERENCE | Tecnologia e Classe:

Aqui se discute o novo abalo trazido pela China ao expor o seu modelo de IA mais avançado: o Kimi k3!

II) Por que discordo do Nobel que Comanda o Google DeepMind?

https://www.youtube.com/watch?v=uPeIriBMpSM&t=214s

Aqui se discutiu a questão dos avanços da Inteligência Artificial sobre o mercado de trabalho humano!

Bem vamos ao artigo:

# O Colapso da “Vida Útil”: Inteligência Artificial, o Limite do Capitalismo e a Crítica Indígena

**Resumo:** *O avanço vertiginoso da Inteligência Artificial e da automação tem gerado pânico no mercado de trabalho. No entanto, este artigo propõe que a crise do trabalho não é um mero desajuste tecnológico, mas a manifestação de um limite estrutural do próprio capitalismo. Para compreender essa encruzilhada, articulamos a crítica econômica de Karl Marx — especificamente sua noção de “intelecto geral” e a contradição das forças produtivas — com a crítica ontológica e civilizatória do filósofo indígena Ailton Krenak. Juntas, essas perspectivas revelam que a obsolescência do tempo de trabalho humano é a oportunidade histórica para superarmos a ficção da “vida útil” e transitarmos de uma lógica de exploração para uma ética da reexistência.*

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### Introdução: A Angústia Tecnológica e o Limite Estrutural

A narrativa hegemônica sobre a Inteligência Artificial (IA) e as novas tecnologias oscila entre o ufanismo do “progresso infinito” e o pânico do “desemprego em massa”. Ambas as visões, contudo, cometem o mesmo erro: aceitam como natural a premissa de que a sobrevivência humana deve estar intrinsecamente atada à venda do tempo de vida em troca de um salário.

O que a realidade tecnológica contemporânea escancara não é apenas uma disrupção de mercado, mas um **limite estrutural do capitalismo**. A tecnologia atingiu um patamar onde a produção de riqueza material e intelectual pode ser desvinculada do tempo de trabalho humano direto. Ao fazer isso, ela não apenas desestabiliza o mercado de trabalho; ela coloca em cheque a própria lógica de valorização do capital. Para compreender a profundidade dessa crise, é necessário cruzar a anatomia econômica feita por Karl Marx no século XIX com a crítica civilizatória e ontológica proposta pelo filósofo Ailton Krenak no século XXI.

### 1. O Diagnóstico de Marx: O “Intelecto Geral” e a Contradição em Processo

A intuição de que a tecnologia impõe um limite ao capitalismo foi magistralmente desenvolvida por Karl Marx nos *Grundrisse* (1857-1858), especificamente no trecho conhecido como “Fragmento sobre as Máquinas”. Marx observou que o desenvolvimento da grande indústria cria um abismo entre o tempo de trabalho direto e a riqueza produzida.

À medida que a automação avança, a criação de riqueza real passa a depender menos do tempo de trabalho humano e mais do poder dos “agentes” postos em movimento — as máquinas, a ciência, a tecnologia. Marx chama essa força cognitiva e tecnológica acumulada socialmente de **”intelecto geral”** (*general intellect*).

O limite do capitalismo surge aqui como uma contradição lógica insuperável: o sistema capitalista utiliza a tecnologia para reduzir ao mínimo o tempo de trabalho necessário (para aumentar a produtividade e o lucro), mas, ao mesmo tempo, **só reconhece o tempo de trabalho como a fonte e a medida do valor**. Marx conclui que, nesse estágio, “o próprio capital é a contradição em processo”. Ao desenvolver as forças produtivas ao extremo, o capitalismo mina sua própria base (o trabalho humano vivo), transformando as relações de propriedade privada em “grilhões” ou entraves para o próprio desenvolvimento tecnológico, como ele sintetizaria mais tarde no *Prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Política* (1859).

Portanto, a IA não é uma anomalia; é a materialização do “intelecto geral”. O pânico atual do mercado é o sintoma de um sistema que não sabe o que fazer com a abundância potencial, pois sua lógica exige escassez artificial e trabalho assalariado para funcionar.

### 2. A Crítica de Krenak: A Colonialidade do Trabalho e a Ficção da “Vida Útil”

Se Marx nos dá as ferramentas para entender o colapso econômico da lógica do trabalho, o filósofo indígena Ailton Krenak nos fornece a bússola para entender o colapso existencial e civilizatório. Em obras como *A Vida Não é Útil* e *Ideias para Adiar o Fim do Mundo*, Krenak desmonta a ontologia ocidental que separou a humanidade da natureza e subordinou a existência à lógica da produção.

Para os povos originários, a atividade humana não era dividida na dicotomia capitalista entre “tempo de trabalho” e “tempo de lazer”. A existência era um fluxo contínuo de relações com o território, com os ancestrais e com o cosmos. O que o capitalismo colonial impôs, ao destruir essas cosmovisões, foi a invenção do **”trabalho”** como uma categoria universal e alienante. Krenak frequentemente lembra que, para muitos povos indígenas, o trabalho assalariado era visto não como uma virtude, mas como uma punição ou uma aberração, uma vez que reduzia a complexidade da vida a uma mera “utilidade” econômica.

O capitalismo transformou seres humanos e natureza em “recursos”. A inteligência artificial, gerida por essa mesma lógica, é a expressão máxima dessa ficção: ela trata o conhecimento, a criatividade e a atenção humana como dados a serem extraídos (extrativismo cognitivo). Krenak nos alerta que o perigo não está apenas na máquina substituir o homem, mas na humanidade ter sido tão profundamente colonizada pela lógica do “humano empresarial” (*homo economicus*) que, sem o seu “trabalho útil”, ela sente que não tem direito de existir.

### 3. A Síntese: Da Crise do Trabalho à Oportunidade da “Reexistência”

O cruzamento entre a teoria marxista das forças produtivas e a filosofia indígena de Krenak revela que o fim do trabalho assalariado, impulsionado pela IA, não deve ser lamentado, mas sim abraçado como uma porta de saída.

O capitalismo, encurralado por sua própria contradição (como previu Marx), tentará responder à crise da IA com mais precarização, criando os chamados *bullshit jobs* (empregos burocráticos inúteis) ou a uberização extrema, apenas para manter as pessoas subordinadas à lógica do salário e do consumo. Essa é a resposta da “vida útil”.

A resposta emancipatória, contudo, exige o que Krenak chama de **reexistência**. Se a tecnologia (o “intelecto geral” de Marx) pode produzir o necessário para a manutenção da vida material, a sociedade deve desvincular a sobrevivência do trabalho assalariado. Políticas como a Renda Básica Universal ou a redução drástica da jornada de trabalho deixam de ser meros ajustes keynesianos e tornam-se atos de descolonização.

Ao libertar o tempo humano da ditadura da produtividade, abrimos espaço para o que a visão indígena sempre soube: o tempo para o cuidado, para o ritual, para a arte, para a comunidade e para a reconexão com a Terra. A tecnologia deve ser desviada de seu propósito capitalista (acumulação) para um propósito civilizatório (manutenção da vida).

### Conclusão: Adiar o Fim do Mundo Através da Tecnologia

A realidade tecnológica impôs um limite intransponível ao capitalismo. A automação cognitiva e física tornou obsoleta a ideia de que o valor de um ser humano reside na sua capacidade de gerar mais-valia.

Karl Marx demonstrou que as forças produtivas romperam as velhas relações de produção, exigindo uma nova organização social. Ailton Krenak nos lembra que essa nova organização não pode ser apenas uma mudança na gestão da economia, mas uma transformação radical na nossa maneira de habitar o mundo. Precisamos abandonar a ficção de que a vida é “útil” apenas quando produz lucro.

O avanço da Inteligência Artificial nos coloca diante de uma encruzilhada histórica: ou permitimos que o capitalismo use a tecnologia para consolidar um techno-feudalismo excludente, ou usamos o colapso da lógica do trabalho para, enfim, começar a viver. Como sugere Krenak, trata-se de usar o conhecimento (o intelecto geral) não para acelerar o fim do mundo, mas para adiar o seu colapso, reconhecendo que a verdadeira riqueza não é o que se acumula, mas a própria vida em seu fluxo infinito.

***

**Nota sobre a construção do texto:** *Este artigo foi desenhado para ter um tom ensaístico, adequado para publicações de filosofia política, sociologia crítica ou revistas de pensamento contemporâneo. A articulação entre Marx e Krenak evita o reducionismo economicista (focar só na economia) e o reducionismo espiritualista (focar só na cultura), mostrando que a libertação material (Marx) e a libertação ontológica/existencial (Krenak) são faces da mesma moeda na era da Inteligência Artificial.*

u/jaleui — 27 days ago
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Uma Segunda Abolição: Do 13 de Maio ao Fim do 6x1

No dia 13 de maio de 1888, data da abolição da escravatura, várias comemorações emolduraram a cidade do Rio de Janeiro, capital do país à época. Nas ruas, o clima era de euforia. Milhares de pessoas se aglomeraram na Praça XV para acompanhar a votação e a assinatura da lei, rompendo cordões de isolamento para festejar. Ao saber da oficialização do texto, populares atiraram pétalas de rosas das janelas e sacadas dos prédios. Um carnaval fora de hora tomou conta do ambiente: o comércio fechou e o centro do Rio foi envolvido por desfiles de bandas de música, fogos de artifício e foliões fantasiados. Trabalhadores de todas as profissões participaram da festa. Operários, cocheiros, tipógrafos, imigrantes e negros escravizados e libertos celebraram juntos em bailes e marchas. Os líderes abolicionistas se revezavam em palanques pela cidade, em discursos inflamados sob aplausos calorosos do público.

Quatro dias após a assinatura da lei, houve uma grande missa campal de ação de graças no Campo de São Cristóvão, reunindo milhares de pessoas. Para o evento, foram construídos um altar especial ao ar livre e uma tribuna de honra reservada para a Princesa Isabel, seu marido (o Conde d'Eu) e diplomatas. Além da família imperial, grandes intelectuais e abolicionistas estiveram presentes, incluindo o escritor Machado de Assis, que foi posteriormente identificado por historiadores em registros fotográficos daquele dia.

Hoje, porém, a engrenagem do tempo esbarra na mesma resistência senhorial do passado. A emancipação da exaustão operária encontra-se temporariamente sequestrada nos gabinetes de Brasília. A insensatez do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que mantém a PEC do fim da jornada 6x1 trancada em sua gaveta, ignora o clamor de milhões de trabalhadores esmagados pelas escalas abusivas. Ao sentar-se sobre o texto aprovado na Câmara para blindar interesses do patronato e ensaiar remendos que desfiguram a proposta, o parlamentar repete o velho e vergonhoso rito das oligarquias que sempre tentaram atrasar o relógio da história. Mas, se a história serve de espelho, o represamento político apenas acumula a energia que, mais cedo ou mais tarde, romperá as barragens institucionalizadas.

Diante desses acontecimentos e das barreiras que ainda enfrentamos, fico a imaginar como seriam as comemorações pela cidade no caso da vitória definitiva e da aprovação do fim da jornada de trabalho 6x1.

O epicentro político seria a Cinelândia e as escadarias da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Uma massa de trabalhadores do comércio, de supermercados e do setor de serviços ocuparia o Centro com bandeiras, carros de som e batucadas. À noite, a festa se estenderia para as praias da Zona Sul e para as grandes praças da Zona Norte e da Baixada Fluminense. As ruas da Lapa, os polos gastronômicos da Tijuca (como a Praça Varnhagen) e o Baixo Botafogo virariam grandes blocos de carnaval espontâneos. A ironia festiva seria ver os próprios garçons, atendentes e trabalhadores da boemia — principais beneficiados pela medida — celebrando ao lado dos clientes, transformando a noite carioca em um feriado histórico.

O evento de celebração coletiva aconteceria nos gramados da vizinha Quinta da Boa Vista ou no Parque Madureira. Em vez de um ato religioso tradicional, o marco seria um megashow gratuito de música e cidadania. Nele, Gilberto Gil nos presentearia com mais uma belíssima interpretação de “Domingo no Parque”, Caetano Veloso entoaria a sua “Oração ao Tempo”, e Chico Buarque seria calorosamente aplaudido nos primeiros acordes de “Construção”. Zeca Pagodinho, transbordando de felicidade, ironicamente cantaria a corajosa “Vou Vadiar”, e Cidinho e Doca reapareceriam, para o delírio de todos, com seu “Rap da Felicidade”. Além deles, muitos outros artistas participariam do ato, que reuniria centenas de milhares de pessoas. O tom do evento seria de alívio e celebração da saúde mental, da vida familiar e do direito ao descanso.

As janelas dos prédios comerciais da Avenida Rio Branco e da Avenida Presidente Vargas seriam tomadas por trabalhadores de escritórios jogando papel picado. O som de buzinaços, palmas e gritos de comemoração ecoaria pelos corredores de prédios comerciais no Centro da cidade, estendendo-se por Madureira, Bangu, Campo Grande e por toda a região metropolitana.

O primeiro fim de semana após a aprovação da lei seria um fenômeno de ocupação dos espaços públicos. As praias do Rio, o Parque Lage e o Aterro do Flamengo ficariam completamente lotados de famílias que antes nunca tinham tido um sábado e um domingo inteiros juntos. Essa mudança redefiniria a mobilidade urbana: em vez do habitual estresse nos trens da SuperVia, no BRT e nos ônibus que cruzam a Avenida Brasil aos sábados, o transporte público passaria a carregar o direito ao descanso e ao afeto.

O impacto dessa conquista redesenharia a própria geografia do lazer carioca, descentralizando a cidade. A periferia e o subúrbio transbordariam vida, com uma explosão de frequentadores no Parque Madureira, no Piscinão de Ramos, na Feira de São Cristóvão e nos gramados e sítios de Campo Grande. Essa injeção de tempo livre devolveria o trabalhador ao coração da cultura popular e comunitária. As rodas de samba de terreiro, os ensaios das escolas de samba e o Baile Charme de Madureira ganhariam um novo fôlego, agora frequentados por corpos que não precisam mais se preocupar em acordar às cinco horas da manhã no dia seguinte.

O comércio e o turismo locais veriam um "boom" inédito de consumo cultural e de lazer na própria cidade. Naturalmente, para que essa engrenagem do entretenimento e da gastronomia gire e acolha tanta gente, o próprio setor de serviços passaria por uma transformação profunda. O funcionamento desses espaços no fim de semana exigiria um modelo humanizado de escalas diferenciadas e turnos de revezamento. Desse modo, o descanso de uma parcela da sociedade não seria sustentado pelo esgotamento crônico da outra, permitindo que todos, eventualmente, pudessem desfrutar da cidade.

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u/jaleui — 1 month ago

Os campos de várzea e os clubes de subúrbio: a cidade, o racismo e o capital

A área mais degradada da cidade do Rio de Janeiro já foi a mais efervescente culturalmente. A Zona Norte da cidade tinha em sua geografia equipamentos culturais e de lazer que infelizmente se extinguiram ou perderam seu dinamismo.

Os campos de futebol de várzea que existiam aos montes em nossa cidade simplesmente desapareceram. Em sua maioria deram lugar a conjuntos habitacionais, construídos sem a menor infraestrutura de lazer, conhecidos popularmente como "pombal". A cada "pombal" erguido perdíamos um campo de várzea, ou até mesmo mais de um. Espaços de compartilhamento, solidariedade e lazer, simplesmente desapareceram. Só na área onde eu morava em minha infância, no grande Méier, posso lembrar de pelo menos três: o campo do Paris, o Mocidade e o Conceição. Ficaram os pequenos e descartáveis campos de futebol society, bem menores e, muito pior do que isso, pensados dentro de uma perspectiva de lucro fácil e rápido.

Quantos passeios fizemos a bairros distantes do nosso para lá disputar uma partida, um torneio, ou mesmo só para assistir aos grandes craques da várzea? Quantos domingos, sábados e feriados passamos nestes espaços curtindo as virtudes e defeitos de grandes craques e pernas de pau de plantão? Ali éramos, Pelés, Garrinchas, Zicos e tantos outros mestres do futebol brasileiro. Ali vivíamos a ilusão e a alegria de um drible, um lençol, um passe ou a glória das glórias, um golaço.

Dizem que foi o saudoso João Saldanha quem disse:
"O Rio pagará um alto preço pelo fim dos seus campos de várzea."

Pois é estamos pagando e bem caro. Sentimos na pele a falta que eles nos fazem, sem esses espaços de convivência amistosa e lúdica nossos fins de semana se tornaram mais toscos e sem sentido. Além disso o medo do outro, do próximo, daquele que podíamos conhecer e nos tornar amigos durante os jogos, ou no intervalo das peladas se tornou a tônica de nossas relações sociais.

Quantas contendas, desaforos e ameaças foram resolvidas nos campos de várzea da cidade? Quantas fraternas amizades surgiram dali? Eram espaços de uma cultura proletária que se perdeu, espaços de coletividade desarticulados, apequenados e tomados pelo capital.

Os clubes de subúrbio

Outro espaço de convivência fraterna e solidária que, se não desapareceu, entrou em processo de decadência na zona norte foram os clubes de subúrbio. Ali nos fins de semana encontrávamos os amigos e nos divertíamos. Travávamos o nosso primeiro contato com nossas namoradas, noivas e até esposas nestes locais.

Estes espaços começaram a sua trajetória descendente com a fuga da classe média suburbana, que os criou, em direção a Região dos Lagos e depois para a Zona Oeste da cidade, muito preconceituosa, temerosa pela presença cada vez mais frequente de "grupos indesejados", vindos das favelas, jovens pobres, negros e descendentes de nordestinos, ela simplesmente abandonou esses espaços, sendo que o golpe de misericórdia foi dado pela Prefeitura da cidade, no governo Cesar Mais, quando proibiu a realização dos bailes funk em seu interior. A partir deste momento, as noites dos fins de semana cariocas perderam muito de sua magia e fulgor.

Foi, sim, um período de forte criminalização e restrição aos bailes funks no estado do Rio de Janeiro. Anos mais tarde, por exemplo, o governo estadual implementou normas rígidas de segurança (como a Lei estadual nº 3.410/2000 e medidas adotadas na época do ex-chefe de polícia Álvaro Lins), que limitavam e exigiam autorizações extensas.

É interessante que a repressão estatal ocorreu no mesmo contexto da divisão das favelas por facções criminosas. A partir de então, o funk subiu o morro. Os bailes passaram a ser controlados pelas facções.

Tanto os campos de várzeas, quanto os clubes de subúrbio ficavam nas fronteiras de diferentes bairros e comunidades. Eles ajudavam na comunicação entre eles. Tornavam a cidade mais coesa, pois permitiam a circulação da população, sobretudo, a mais jovem, que hoje se vê aprisionada em guetos,embora,não haja a clara consciência deste fato.

Hoje, as vias expressas da cidade, Avenida Brasil, Linha Vermelha, Linha Amarela e outras cumprem o papel de proporcionar a circulação entre tantos bairros e comunidades, mas fica a sensação de que um movimento inesperado por qualquer motivo alheio a nossa vontade pode resultar numa tragédia inexplicável.

Uma das maiores tristezas que tenho é passar nos fins de semana nas ruas da Zona Norte do Rio e vê-las vazias e sem esperança. Sem aquela alegria dos jovens animados pela possibilidade do novo, do inesperado que a vida pode lhes proporcionar.

Em suma, talvez tenhamos aqui algumas pistas que expliquem porque Calcutá na Índia mesmo sendo muito mais pobre do que a nossa cidade, tem níveis de violência e um número de mortes por armas de fogo muito menores que os nossos. Certamente, o medo do outro lá é centenas de vezes menor do que temos aqui.

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u/jaleui — 1 month ago

Os campos de várzea e os clubes de subúrbio: a cidade, o racismo e o capital

A área mais degradada da cidade do Rio de Janeiro já foi a mais efervescente culturalmente. A Zona Norte da cidade tinha em sua geografia equipamentos culturais e de lazer que infelizmente se extinguiram ou perderam seu dinamismo.

Os campos de futebol de várzea que existiam aos montes em nossa cidade simplesmente desapareceram. Em sua maioria deram lugar a conjuntos habitacionais, construídos sem a menor infraestrutura de lazer, conhecidos popularmente como "pombal". A cada "pombal" erguido perdíamos um campo de várzea, ou até mesmo mais de um. Espaços de compartilhamento, solidariedade e lazer, simplesmente desapareceram. Só na área onde eu morava em minha infância, no grande Méier, posso lembrar de pelo menos três: o campo do Paris, o Mocidade e o Conceição. Ficaram os pequenos e descartáveis campos de futebol society, bem menores e, muito pior do que isso, pensados dentro de uma perspectiva de lucro fácil e rápido.

Quantos passeios fizemos a bairros distantes do nosso para lá disputar uma partida, um torneio, ou mesmo só para assistir aos grandes craques da várzea? Quantos domingos, sábados e feriados passamos nestes espaços curtindo as virtudes e defeitos de grandes craques e pernas de pau de plantão? Ali éramos, Pelés, Garrinchas, Zicos e tantos outros mestres do futebol brasileiro. Ali vivíamos a ilusão e a alegria de um drible, um lençol, um passe ou a glória das glórias, um golaço.

Dizem que foi o saudoso João Saldanha quem disse:
"O Rio pagará um alto preço pelo fim dos seus campos de várzea."

Pois é estamos pagando e bem caro. Sentimos na pele a falta que eles nos fazem, sem esses espaços de convivência amistosa e lúdica nossos fins de semana se tornaram mais toscos e sem sentido. Além disso o medo do outro, do próximo, daquele que podíamos conhecer e nos tornar amigos durante os jogos, ou no intervalo das peladas se tornou a tônica de nossas relações sociais.

Quantas contendas, desaforos e ameaças foram resolvidas nos campos de várzea da cidade? Quantas fraternas amizades surgiram dali? Eram espaços de uma cultura proletária que se perdeu, espaços de coletividade desarticulados, apequenados e tomados pelo capital.

Os clubes de subúrbio

Outro espaço de convivência fraterna e solidária que, se não desapareceu, entrou em processo de decadência na zona norte foram os clubes de subúrbio. Ali nos fins de semana encontrávamos os amigos e nos divertíamos. Travávamos o nosso primeiro contato com nossas namoradas, noivas e até esposas nestes locais.

Estes espaços começaram a sua trajetória descendente com a fuga da classe média suburbana, que os criou, em direção a Região dos Lagos e depois para a Zona Oeste da cidade, muito preconceituosa, temerosa pela presença cada vez mais frequente de "grupos indesejados", vindos das favelas, jovens pobres, negros e descendentes de nordestinos, ela simplesmente abandonou esses espaços, sendo que o golpe de misericórdia foi dado pela Prefeitura da cidade, no governo Cesar Mais, quando proibiu a realização dos bailes funk em seu interior. A partir deste momento, as noites dos fins de semana cariocas perderam muito de sua magia e fulgor.

Foi, sim, um período de forte criminalização e restrição aos bailes funks no estado do Rio de Janeiro. Anos mais tarde, por exemplo, o governo estadual implementou normas rígidas de segurança (como a Lei estadual nº 3.410/2000 e medidas adotadas na época do ex-chefe de polícia Álvaro Lins), que limitavam e exigiam autorizações extensas.

É interessante que a repressão estatal ocorreu no mesmo contexto da divisão das favelas por facções criminosas. A partir de então, o funk subiu o morro. Os bailes passaram a ser controlados pelas facções.

Tanto os campos de várzeas, quanto os clubes de subúrbio ficavam nas fronteiras de diferentes bairros e comunidades. Eles ajudavam na comunicação entre eles. Tornavam a cidade mais coesa, pois permitiam a circulação da população, sobretudo, a mais jovem, que hoje se vê aprisionada em guetos,embora,não haja a clara consciência deste fato.

Hoje, as vias expressas da cidade, Avenida Brasil, Linha Vermelha, Linha Amarela e outras cumprem o papel de proporcionar a circulação entre tantos bairros e comunidades, mas fica a sensação de que um movimento inesperado por qualquer motivo alheio a nossa vontade pode resultar numa tragédia inexplicável.

Uma das maiores tristezas que tenho é passar nos fins de semana nas ruas da Zona Norte do Rio e vê-las vazias e sem esperança. Sem aquela alegria dos jovens animados pela possibilidade do novo, do inesperado que a vida pode lhes proporcionar.

Em suma, talvez tenhamos aqui algumas pistas que expliquem porque Calcutá na Índia mesmo sendo muito mais pobre do que a nossa cidade, tem níveis de violência e um número de mortes por armas de fogo muito menores que os nossos. Certamente, o medo do outro lá é centenas de vezes menor do que temos aqui.

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u/jaleui — 1 month ago

O futebol vencerá o racismo europeu, afinal?

Os imigrantes quando atacados dizem:  "Nós estamos aqui, porque antes vocês estiveram lá."  Esta é a lógica. A presença massiva de imigrantes de várias regiões do mundo na Europa ou nos EUA é uma das consequências do imperialismo, muito embora, a grande afluência de imigrantes na Europa recentemente tenha a ver com o fim da Segunda Guerra Mundial e a mortandade em grande escala ocorrida. Para reconstruir a Europa no pós guerra eram necessários milhões de braços. Esses milhões de braços viriam de onde? Os países europeus optaram por trazer de suas ex-colônias. Mas havia um outro problema. Como atrair imigrantes africanos, asiáticos e de outras regiões do mundo? Construindo um mundo melhor na Europa. Assim surge o Estado do Bem Estar, ou na versão estadunidense, o Wellfare State.

Aliás, além de convencer os imigrantes de várias partes do mundo. Era preciso acalmar os poucos trabalhadores europeus e refrear o ânimo por transformações abruptas como a sombra comunista. Terminada a grande guerra, 40% dos italianos se filiaram ao partido comunista italiano, e isto não era um fenômeno restrito à Itália.

Diante disso, os EUA que eram o comandante de todo o processo resolveu propor um pacto aos trabalhadores e que também fosse atraente para os imigrantes. O capitalismo proporcionaria aos trabalhadores a melhor educação, saúde e salário possível Surge então o Estado do Bem Estar Social.

Neste contexto, milhões de trabalhadores migram para a Europa com a esperança de obter aquilo que o capitalismo poderia gerar de melhor. Bons salários, saúde, e educação de qualidade, e sindicatos fortes, participativos na defesa dos direitos trabalhistas.

Passados 70 anos da promessa, o Estado do Bem Estar vem sendo destroçado paulatinamente, peça por peça desde 1970. Com a implementação de políticas neoliberais, grande parte dos direitos trabalhistas foi abolida. Com exceção dos países nórdicos, a Europa se aproxima de condições de vida semelhantes as da América Latina, em várias áreas.

Com a morte da OTAN e a pressão e ameaça dos EUA, muitos líderes europeus veem como saída a troca das últimas conquistas dos trabalhadores ainda vigentes pela remilitarização, com foco numa guerra contra a Rússia. Pais que poderia ser adiada da Europa para os problemas energéticos que apresenta na atualidade.

A consequência natural do caos é o crescimento dos partidos de extrema-direita, tendo como foco o ataque aos imigrantes.

Mas será esta solução!

E os imigrantes, eles foram beneficiados de fato pelo Estado do Bem Estar europeu? Mas será esta a solução? Se analisarmos a realidade dos imigrantes, vemos que a grande maioria não foi beneficiada pelo Estado de Bem-Estar europeu. Muitos daqueles que imigraram, acreditavam que a vida deles seria dura, como foi, todavia supunham que a jornada de seus filhos, já aculturados, seria melhor.

Hoje, parcela substancial dos imigrantes vive na Europa em verdadeiros guetos. Marginalizados e como mão de obra barata para o trabalho precarizado de plataformas digitais e outros. Esta é a questão!!!

Em um contexto tão difícil, o futebol aparece como resposta e esperança para milhões de jovens europeus, filhos da imigração. Seus pais podem não ser europeus, mas eles o são! Constituem um dos efeitos rebotes do imperialismo europeu do século XIX. Assim como, as duas grandes guerras o foram.

Atletas como Kylian Mbappé (França, origem camaronesa/argelina), Jamal Musiala (Alemanha, raízes nigerianas) e Bukayo Saka (Inglaterra, origem nigeriana), Mesut Özil: (Alemanha, origem turca) e tantos outros exemplificam esse drama histórico.

O futebol como via de ascensão e rompimento com um passado de pobreza e marginalidade. Escaparão esses jovens do racismo e da xenofobia?

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u/jaleui — 1 month ago
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O futebol vencerá o racismo europeu, afinal?

Os imigrantes quando atacados dizem:  "Nós estamos aqui, porque antes vocês estiveram lá."  Esta é a lógica. A presença massiva de imigrantes de várias regiões do mundo na Europa ou nos EUA é uma das consequências do imperialismo, muito embora, a grande afluência de imigrantes na Europa recentemente tenha a ver com o fim da Segunda Guerra Mundial e a mortandade em grande escala ocorrida. Para reconstruir a Europa no pós guerra eram necessários milhões de braços. Esses milhões de braços viriam de onde? Os países europeus optaram por trazer de suas ex-colônias. Mas havia um outro problema. Como atrair imigrantes africanos, asiáticos e de outras regiões do mundo? Construindo um mundo melhor na Europa. Assim surge o Estado do Bem Estar, ou na versão estadunidense, o Wellfare State.

Aliás, além de convencer os imigrantes de várias partes do mundo. Era preciso acalmar os poucos trabalhadores europeus e refrear o ânimo por transformações abruptas como a sombra comunista. Terminada a grande guerra, 40% dos italianos se filiaram ao partido comunista italiano, e isto não era um fenômeno restrito à Itália.

Diante disso, os EUA que eram o comandante de todo o processo resolveu propor um pacto aos trabalhadores e que também fosse atraente para os imigrantes. O capitalismo proporcionaria aos trabalhadores a melhor educação, saúde e salário possível. Surge então o Estado do Bem Estar Social.

Neste contexto, milhões de trabalhadores migram para a Europa com a esperança de obter aquilo que o capitalismo poderia gerar de melhor. Bons salários, saúde, e educação de qualidade, e sindicatos fortes, participativos na defesa dos direitos trabalhistas.

Passados 70 anos da promessa, o Estado do Bem Estar vem sendo destroçado paulatinamente, peça por peça desde 1970. Com a implementação de políticas neoliberais, grande parte dos direitos trabalhistas foi abolida. Com exceção dos países nórdicos, a Europa se aproxima de condições de vida semelhantes as da América Latina, em várias áreas.

Com a morte da OTAN e a pressão e ameaça dos EUA, muitos líderes europeus veem como saída a troca das últimas conquistas dos trabalhadores ainda vigentes pela remilitarização, com foco numa guerra contra a Rússia. Pais que poderia ser aliada da Europa na solução dos problemas energéticos que apresenta na atualidade.

A consequência natural do caos é o crescimento dos partidos de extrema-direita, tendo como foco o ataque aos imigrantes.

Mas será esta solução!

E os imigrantes, eles foram beneficiados de fato pelo Estado do Bem Estar europeu? Se analisarmos a realidade dos imigrantes, vemos que a grande maioria não foi beneficiada pelo Estado de Bem-Estar europeu. Muitos daqueles que imigraram, acreditavam que a vida deles seria dura, como foi, todavia supunham que a jornada de seus filhos, já aculturados, seria melhor.

Hoje, parcela substancial dos imigrantes vive na Europa em verdadeiros guetos. Marginalizados e como mão de obra barata para o trabalho precarizado de plataformas digitais e outros. Esta é a questão!!!

Em um contexto tão difícil, o futebol aparece como resposta e esperança para milhões de jovens europeus, filhos da imigração. Seus pais podem não ser europeus, mas eles o são! Constituem um dos efeitos rebotes do imperialismo europeu do século XIX. Assim como, as duas grandes guerras o foram.

Atletas como Kylian Mbappé (França, origem camaronesa/argelina), Jamal Musiala (Alemanha, raízes nigerianas) e Bukayo Saka (Inglaterra, origem nigeriana), Mesut Özil: (Alemanha, origem turca) e tantos outros exemplificam esse drama histórico.

O futebol como via de ascensão e rompimento com um passado de pobreza e marginalidade. Escaparão esses jovens do racismo e da xenofobia?

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u/jaleui — 1 month ago
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Os campos de várzea e os clubes de subúrbio: a cidade, o racismo e o capital

A área mais degradada da cidade do Rio de Janeiro já foi a mais efervescente culturalmente. A Zona Norte da cidade tinha em sua geografia equipamentos culturais e de lazer que infelizmente se extinguiram ou perderam seu dinamismo.

Os campos de futebol de várzea que existiam aos montes em nossa cidade simplesmente desapareceram. Em sua maioria deram lugar a conjuntos habitacionais, construídos sem a menor infraestrutura de lazer, conhecidos popularmente como "pombal". A cada "pombal" erguido perdíamos um campo de várzea, ou até mesmo mais de um. Espaços de compartilhamento, solidariedade e lazer, simplesmente desapareceram. Só na área onde eu morava em minha infância, no grande Méier, posso lembrar de pelo menos três: o campo do Paris, o Mocidade e o Conceição. Ficaram os pequenos e descartáveis campos de futebol society, bem menores e, muito pior do que isso, pensados dentro de uma perspectiva de lucro fácil e rápido.

Quantos passeios fizemos a bairros distantes do nosso para lá disputar uma partida, um torneio, ou mesmo só para assistir aos grandes craques da várzea? Quantos domingos, sábados e feriados passamos nestes espaços curtindo as virtudes e defeitos de grandes craques e pernas de pau de plantão? Ali éramos, Pelés, Garrinchas, Zicos e tantos outros mestres do futebol brasileiro. Ali vivíamos a ilusão e a alegria de um drible, um lençol, um passe ou a glória das glórias, um golaço.

Dizem que foi o saudoso João Saldanha quem disse:
"O Rio pagará um alto preço pelo fim dos seus campos de várzea."

Pois é estamos pagando e bem caro. Sentimos na pele a falta que eles nos fazem, sem esses espaços de convivência amistosa e lúdica nossos fins de semana se tornaram mais toscos e sem sentido. Além disso o medo do outro, do próximo, daquele que podíamos conhecer e nos tornar amigos durante os jogos, ou no intervalo das peladas se tornou a tônica de nossas relações sociais.

Quantas contendas, desaforos e ameaças foram resolvidas nos campos de várzea da cidade? Quantas fraternas amizades surgiram dali? Eram espaços de uma cultura proletária que se perdeu, espaços de coletividade desarticulados, apequenados e tomados pelo capital.

Os clubes de subúrbio

Outro espaço de convivência fraterna e solidária que, se não desapareceu, entrou em processo de decadência na zona norte foram os clubes de subúrbio. Ali nos fins de semana encontrávamos os amigos e nos divertíamos. Travávamos o nosso primeiro contato com nossas namoradas, noivas e até esposas nestes locais.

Estes espaços começaram a sua trajetória descendente com a fuga da classe média suburbana, que os criou, em direção a Região dos Lagos e depois para a Zona Oeste da cidade, muito preconceituosa, temerosa pela presença cada vez mais frequente de "grupos indesejados", vindos das favelas, jovens pobres, negros e descendentes de nordestinos, ela simplesmente abandonou esses espaços, sendo que o golpe de misericórdia foi dado pela Prefeitura da cidade, no governo Cesar Mais, quando proibiu a realização dos bailes funk em seu interior. A partir deste momento, as noites dos fins de semana cariocas perderam muito de sua magia e fulgor.

Foi, sim, um período de forte criminalização e restrição aos bailes funks no estado do Rio de Janeiro. Anos mais tarde, por exemplo, o governo estadual implementou normas rígidas de segurança (como a Lei estadual nº 3.410/2000 e medidas adotadas na época do ex-chefe de polícia Álvaro Lins), que limitavam e exigiam autorizações extensas.

É interessante que a repressão estatal ocorreu no mesmo contexto da divisão das favelas por facções criminosas. A partir de então, o funk subiu o morro. Os bailes passaram a ser controlados pelas facções.

Tanto os campos de várzeas, quanto os clubes de subúrbio ficavam nas fronteiras de diferentes bairros e comunidades. Eles ajudavam na comunicação entre eles. Tornavam a cidade mais coesa, pois permitiam a circulação da população, sobretudo, a mais jovem, que hoje se vê aprisionada em guetos,embora,não haja a clara consciência deste fato.

Hoje, as vias expressas da cidade, Avenida Brasil, Linha Vermelha, Linha Amarela e outras cumprem o papel de proporcionar a circulação entre tantos bairros e comunidades, mas fica a sensação de que um movimento inesperado por qualquer motivo alheio a nossa vontade pode resultar numa tragédia inexplicável.

Uma das maiores tristezas que tenho é passar nos fins de semana nas ruas da Zona Norte do Rio e vê-las vazias e sem esperança. Sem aquela alegria dos jovens animados pela possibilidade do novo, do inesperado que a vida pode lhes proporcionar.

Em suma, talvez tenhamos aqui algumas pistas que expliquem porque Calcutá na Índia mesmo sendo muito mais pobre do que a nossa cidade, tem níveis de violência e um número de mortes por armas de fogo muito menores que os nossos. Certamente, o medo do outro lá é centenas de vezes menor do que temos aqui.

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u/jaleui — 1 month ago