(Sério) O modelo atual dos bombeiros não funciona: Precisamos de falar sobre a profissionalização
Para que fique claro desde o início, em momento algum pretendo culpar os bombeiros voluntários por seja o que for. O meu respeito por quem dá a vida pelos outros é total. A meu ver o problema é e sempre foi estrutural, não humano.
Para quem esteve perto das operações recentemente, sobretudo junto das chefias, é visível uma diferença gigantesca entre a eficácia de equipas totalmente profissionais, como os canarinhos (Unidade de Elite da Força Especial de Proteção Civil), e as corporações de voluntários. A formação contínua e a dedicação exclusiva fazem toda a diferença na gestão do teatro de operações.
Existem imensas corporações locais pelas quais tenho imenso respeito e para as quais faço doações anualmente que têm cada vez menos elementos. A título de exemplo, a corporação de bombeiros de Vouzela tem sofrido uma redução gritante. Eram mais de 150 elementos em 2017 e atualmente serão, segundo sei, entre 50 a 60. O voluntariado puro já não consegue fixar pessoas.
Sei que financiar uma corporação profissional de bombeiros anualmente equivalerá, previsivelmente, a cerca de 0.5% do PIB. É um investimento pesado e haverá certamente 9 a 10 meses do ano em que estas corporações terão atividades menores. Ainda assim, considero que é um custo totalmente necessário porque o modelo atual simplesmente não funciona. Mais do que isso, o valor que o país perde anualmente com a destruição das nossas florestas é significativamente maior do que esse investimento. Estamos a falar de prejuízos económicos, ecológicos e patrimoniais astronómicos que ultrapassam largamente o custo de termos profissionais a tempo inteiro. Neste novo modelo, deve ser dada a total possibilidade aos atuais voluntários de, caso assim entendam, se converterem em profissionais integrados na carreira.
É óbvio que existe mão humana na grande maioria dos incêndios. Sendo os operacionais profissionais ou voluntários, a realidade é que se torna necessário perceber se faz sequer sentido o modelo atual de recompensar financeiramente ou subsidiar bombeiros em função do número de incêndios a que deslocam. Isso pode criar incentivos perversos que importa analisar. Isto pouco tem que ver com serem voluntários ou profissionais, mas reformando é necessário ter isto em conta.