Evangelismo, Conservadorismo, Tradicionalismo e a SSPX: quatro coisas que muitos católicos confundem
Nas últimas semanas, por causa das novas consagrações episcopais da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), vi muitas pessoas tratando como se todos os conservadores, todos os tradicionalistas e todos os católicos que gostam da Missa em latim fossem a mesma coisa.
Historicamente e teologicamente, isso não é verdade.
- O católico conservador
O conservador católico procura preservar a doutrina, a moral e a liturgia da Igreja, mas permanece em plena comunhão com o Papa e com o Magistério.
Pode criticar abusos litúrgicos, defender uma liturgia mais solene e até preferir o Missal de 1962, mas reconhece a legitimidade do Concílio Vaticano II e dos papas posteriores.
Nesse sentido, Bento XVI é um excelente exemplo. Ele criticou interpretações equivocadas do Vaticano II, mas jamais negou sua legitimidade. Pelo contrário, propôs a famosa hermenêutica da reforma na continuidade.
- O tradicionalista
O tradicionalista normalmente entende que boa parte das reformas posteriores ao Vaticano II representou um afastamento da tradição.
Nem todo tradicionalista rompe com Roma. Existem institutos em plena comunhão com a Santa Sé, como a FSSP e o Instituto Cristo Rei.
Entretanto, existe um setor do tradicionalismo que interpreta o Vaticano II como uma ruptura. É justamente aí que começam os problemas eclesiológicos.
- A FSSPX
A FSSPX não é protestante, nem oficialmente sedevacantista.
Ela reconhece o Papa, mas mantém uma situação canônica irregular e há décadas vive em tensão com Roma por causa da interpretação do Vaticano II, da liberdade religiosa, do ecumenismo e, mais recentemente, das consagrações episcopais sem mandato pontifício.
O problema nunca foi simplesmente celebrar a Missa em latim.
O problema é a comunhão e a obediência ao Magistério.
- O sedevacantismo
O sedevacantismo vai além.
Para os sedevacantistas, os papas posteriores ao Vaticano II não seriam papas legítimos.
Essa posição é incompatível com a doutrina católica.
Embora a SSPX oficialmente rejeite o sedevacantismo, é um fato histórico que diversos padres e grupos que passaram pela Fraternidade acabaram aderindo posteriormente ao sedevacantismo.
- E os evangélicos?
Também é importante não colocar todos os protestantes no mesmo grupo.
Existe uma diferença enorme entre:
luteranos;
reformados (calvinistas);
anglicanos;
metodistas;
presbiterianos;
pentecostais;
neopentecostais.
Da mesma forma que não faz sentido dizer que todo tradicionalista é sedevacantista, também não faz sentido tratar toda igreja protestante como se fosse neopentecostal.
Aliás, muitos dos métodos de pregação emocional, leitura extremamente literal da Bíblia e linguagem de "guerra espiritual" são características muito mais presentes em setores pentecostais e neopentecostais do que nas igrejas históricas da Reforma.
- A verdadeira discussão
Na minha opinião, o verdadeiro debate não é entre "latim" e "vernáculo", nem entre "tradicional" e "moderno".
O centro da questão é outro:
Como permanecer fiel à Tradição da Igreja sem romper a comunhão com o Papa e com o Magistério?
Foi exatamente essa a preocupação de Bento XVI.
Ele rejeitou tanto a interpretação progressista de ruptura quanto a interpretação tradicionalista que via o Vaticano II como uma traição da Igreja.
Sua resposta foi a hermenêutica da reforma na continuidade.
- O caso brasileiro
No Brasil também estamos vendo esse fenômeno crescer.
Existem comunidades plenamente católicas, conservadoras e em comunhão com Roma.
Mas também surgiram canais e grupos que passaram a defender explicitamente as posições da FSSPX e, em alguns casos, discursos muito próximos do sedevacantismo, negando a legitimidade do Concílio Vaticano II ou tratando os papas pós-conciliares como responsáveis pela "destruição da Igreja".
Isso merece atenção pastoral e teológica, porque a história mostra que a perda da comunhão normalmente começa com a rejeição da autoridade do Magistério antes de se transformar em uma ruptura explícita.
Conclusão
A Igreja sempre se reformou.
Foi assim em Niceia.
Foi assim em Trento.
Foi assim no Vaticano I.
E foi assim no Vaticano II.
Como ensinava Bento XVI, a verdadeira Tradição não é uma fotografia congelada do século XVI nem uma ruptura com o passado. É uma realidade viva, guiada pelo Espírito Santo, que permanece fiel ao depósito da fé enquanto responde aos desafios de cada época.
Referências
Bento XVI – Discurso à Cúria Romana (22 de dezembro de 2005).
São João Paulo II – Ecclesia Dei (1988).
São João Henry Newman – An Essay on the Development of Christian Doctrine.
Yves Congar – True and False Reform in the Church.
John W. O'Malley – What Happened at Vatican II.
Hubert Jedin – History of the Council of Trent.