Não olhe para trás
Eu nunca deveria ter ido beber sozinho na Moon Hill.
O lugar é uma colina alta, nas redondezas da cidade. Nas noites de sábado e domingo, se transforma em um ponto para maconha, cerveja quente e pessoas que só querem se encontrar em segredo. Durante a semana, no entanto, está abandonada e sem vida. Apenas o vento seco arrastando poeira e as folhas das árvores farfalhando.
Eu estava lá numa terça-feira porque estava deprimido. Comprei uma garrafa de vinho barata e subi em um crepúsculo frio e sem sentido. Fiquei olhando para a cidade; minha casa era um pequeno ponto de luz entre tantas outras, e eu continuava pensando em como não queria mais voltar lá.
Quando a garrafa ficou vazia, minha visão já estava um pouco embaçada. Foi quando ouvi passos. Olhei para cima e vi uma silhueta feminina se aproximando na luz laranja do crepúsculo. Era ela, meu grande amor: Mary.
Ela estava usando aquelas calças jeans justas e rasgadas que eu adorava, o cabelo preso como sempre, o cheiro de cigarro chegou até mim antes dela. Na mão direita, uma garrafa de Jack Daniel's, nossa bebida favorita. A mesma que costumávamos compartilhar nos bons tempos, antes de tudo desmoronar.
"Você estava me esperando?"
Ela disse isso ao se sentar ao meu lado como se a dolorosa separação nunca tivesse acontecido. A voz dela era suave, mas carregava uma nota estranha, algo inumano, que eu não conseguia explicar.
Eu sempre fui louco por ela, então apenas sorri e respondi, surpreso:
"Mary... que diabos você está fazendo aqui?"
Ela não respondeu. Apenas abriu a garrafa, deu um longo gole e me passou a garrafa. Nós bebemos.
Os primeiros minutos foram um doce sonho. O toque do ombro dela contra o meu, a presença dela, o vento nos refrescando. Então a conversa começou a distorcer.
"Você sempre foi um lixo de pessoa, não foi?" ela disse, rindo baixinho. "Olha para você. Destruído, bebendo veneno, totalmente sozinho."
Confuso, eu respondi: "Vai se danar..."
Ela me deu um leve tapa no rosto. "Você sabe que eu nunca te amei, certo? Ninguém nunca vai te amar... você é um erro. Como uma doença contagiosa. Você nunca serviu para nada e arruinou a vida de todos ao seu redor."
Não havia raiva no tom dela; era quase doce, e a frase piorou: "Sua mãe morreu de tristeza por sua causa."
Essas palavras doeram porque ecoaram as coisas que eu pensava todos os dias. Eu mergulhei em silêncio. Ela passou a mão pelo meu cabelo, aquela afeição falsa, e continuou:
"Sabe o que resolveria tudo? Bem ali na beira. Pule e o mundo fica melhor. Todo esse peso desaparece. Eu até iria com você... de mãos dadas... é só um passo."
Meu coração desacelerou; meus pés ficaram dormentes. Ela falou e eu concordei, porque lá no fundo eu também acreditava que não havia mais saída. Olhei para a borda da colina. A altura era um convite na minha visão embaçada. "Só um passo", ela repetiu, e sua mão segurou a minha.
Foi quando meu celular vibrou no meu bolso. Uma mensagem.
Peguei o telefone, a tela estava um pouco embaçada. Mary: "Idiota, tive um sonho muito estranho sobre você. Você morreu. Estou tremendo até agora. Você está bem?"
Eu li três vezes. A mão segurando o telefone começou a suar frio e tremer.
A Coisa ao meu lado se inclinou e pressionou o rosto contra meu pescoço, com um sussurro quase inaudível: "Ignora isso. Deve ser meu irmão te enchendo o saco."
Mas a mensagem era dela, como ela sempre me chamava de idiota.
Eu respondi com dedos trêmulos: "Liga a câmera. Eu preciso te ver."
A videochamada entrou. Na tela, Mary apareceu com os olhos inchados de sono, o cabelo de qualquer jeito, aquela velha camiseta do Nirvana que eu conhecia tão bem. A luz do abajur em forma de gato atrás dela deixava o quarto acolhedor, seguro.
"Graças a Deus você atendeu," ela murmurou, aliviada. "Eu tive esse sonho horrível. Você estava em um lugar alto e alguém te empurrou. Você caiu e eu acordei gritando... Por que você está nesse lugar escuro? O que é aquela sombra?!"
Não consegui responder. Porque ao lado de Mary, no reflexo da tela, eu vi uma figura. Uma forma feminina, imóvel, vestindo um vestido preto atrás de mim.
Meu corpo todo congelou de medo. Eu não conseguia virar o pescoço. Não conseguia olhar para trás. Apenas meus olhos se moviam, e a imagem no reflexo já havia desaparecido, mas a sensação de perigo permanecia.
"Se algo acontecer... eu não pulei, alguém me empurrou! Eu amo você e sempre vou te amar... me perdoa por tudo..." eu disse para Mary na videochamada, minha voz saindo fraca. Eu desliguei.
As risadas começaram a ecoar pela Moon Hill. A garrafa de Jack Daniel's estava no chão, vazia. Ao meu lado, a presença ainda ocupava o espaço, mesmo que eu não conseguisse mais ver nada.
Quem estava bebendo comigo?
Eu não esperei e não procurei uma resposta. Meu corpo, movido por algum instinto primal de sobrevivência, agiu antes do pensamento. Eu me levantei e corri. Eu corri sem olhar para trás. Meus pés tropeçaram em pedras; eu bati forte em um tronco de árvore, cortando minha testa, mas não parei. Eu apenas corri, colina abaixo, até atingir o asfalto e continuar por muito tempo. Até que, exausto, me joguei no chão, suado e mudo de pânico.
Nunca mais pisei naquela colina. Não consigo ficar perto de pessoas — tenho medo de que elas possam nem ser pessoas.